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Antologia do homoerotismo na poesia portuguesa: “um sonho enorme, cuja grandeza é difícil de explicar”

O escritor e filósofo, Victor Correia, e o jornalista e editor, Vladimiro Nunes, uniram-se para a elaboração da recente obra literária: O tamanho do nosso sonho é difícil de descrever: antologia do homoerotismo na poesia portuguesa. Com ilustrações do pintor Cruzeiro Seixas e 101 poemas de 101 poetas, meticulosamente escolhidos, que vão desde os cancioneiros medievais até à atualidade, esta antologia apresenta várias formas de expressão do homoerotismo na poesia portuguesa. Em entrevista conjunta ao Gerador, Vladimiro Nunes e Victor Correia relataram de que forma procuraram evidenciá-las e de que maneira este conceito evoluiu ao longo de 800 anos de história.

Ilustração de Cruzeiro Seixas. Imagem da cortesia de Vladimiro Nunes

Vladimiro Nunes descreveu esta antologia como “uma obra de referência” ou “um legado de Natália Correia”, sendo que esta poetisa e a sua Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica foram a grande influência para a criação deste novo livro. Já Victor Correia descreveu-a como “um contributo para a história da literatura e para a história da comunidade LGBTQ+”, uma vez que veio provar que o homoerotismo e a homossexualidade são conceitos tão antigos quanto a humanidade.

A antologia, lançada no dia 21 de outubro, está dividida em duas partes. A primeira agrega 50 poemas de autores clássicos, enquanto a segunda reúne 50 de autores contemporâneos. “Le Mignon”, de Fernando Pessoa, separa os dois conjuntos de poemas que integram as diversas correntes artísticas.

Tal como se pode ler no prefácio, esta antologia procura “oferecer uma panorâmica abrangente sobre as representações do homoerotismo na poesia portuguesa ao longo dos séculos”. Desta forma, Vladimiro Nunes e Victor Correia tiveram o cuidado de selecionar autores consagrados que expressaram os seus sentimentos homoafetivos de diferentes maneiras. Alguns de forma satírica, outros de forma mais ou menos explícita, e ainda alguns que apenas descreveram o tema enquanto “observadores”.

Homenageando Cruzeiro Seixas, falecido em 2020, foram também escolhidas várias pinturas e ilustrações, cuja representação do homoerotismo se conectou fortemente à vertente artística do surrealismo. “O tamanho do nosso sonho é difícil de descrever” foram as últimas palavras do pintor dirigidas a Vladimiro e Victor. Dois anos depois, publicaram esta antologia.

Gerador (G.) – Como surgiu esta parceria entre o Victor e o Vladimiro, e a ideia de criarem esta antologia?

Victor Correia (V. C.) – Esta ideia surgiu há muitos anos, mas fui sempre adiando. Não me lembro como exatamente, mas sabia que era algo que faltava na literatura portuguesa. Faltava mesmo. Isto é inédito. Tivemos obras como a da Natália Correia, mas nunca nada assim. Fui, lentamente, pesquisando, acumulando poemas, juntando uns, tirando outros. Até que, finalmente, criei uma coisa composta e decidi apresentá-la ao Vladimiro. Aliás, propus a mais editoras, mas achei que a Avesso teria o perfil mais adequado para esta publicação, sendo que já tinham publicado o livro da Natália Correia.

Vladimiro Nunes (V. N.) – Acho que isso foi um bocadinho o gancho para o Victor ter vindo ter comigo. Tínhamos acabado de publicar a Natália Correia e acho que o Victor deve ter pensado que faria sentido propor a edição da sua antologia. E a mim também me fez sentido. Aliás, tenho de admitir que, até hoje, esta foi a única proposta que nos fizeram e que eu aceitei. As pessoas que nos enviam propostas nem sempre têm a noção do nosso posicionamento. Não me faz sentido publicar livros de autoajuda ou romances históricos, por exemplo. Não tenho nada contra, mas isso não faz parte da nossa linha editorial, e esta antologia, sim, enquadrava-se. Também me tinha envolvido muito nesta reedição da obra da Natália Correia, elaborando textos introdutórios e dando algum contexto, visto que estamos a falar de um livro de 1965. Então, a publicação desta antologia fez-me realmente sentido. Lembro-me do Victor ter achado que podia ser um tema um pouco polémico [o homoerotismo], mas não concordo nada com isso! Acho que, felizmente, é um tema que está cada vez mais normalizado, até com as alterações que houve no quadro legal. Claro que continua a haver discurso de ódio e preconceito, mas, no geral, não senti que um projeto destes fosse provocar escândalo. E era algo necessário, tinha de haver um livro como este, com esta abrangência. É verdade que estão aqui [na antologia] poemas de poetas que tiveram vivências mais assumidas, que foram mais subversivos e que tiveram mais importância no estabelecimento do imaginário homoerótico. Estou a lembrar-me do Mário Cesariny, um poeta marcante desse ponto de vista. Já o Eugénio de Andrade, por exemplo, teve essas vivências, mas isso já não é tão evidente nos seus poemas.

G. – Qual é a relação entre o título escolhido e o pintor Cruzeiro Seixas?

V. N. – Quando começámos a pensar na elaboração deste livro, achámos que seria interessante assumir o parentesco com a antologia da Natália Correia. Assumimo-lo no subtítulo, ou seja, em vez de colocarmos “antologia de poesia erótica e satírica portuguesa”, optámos por “antologia do homoerotismo na poesia portuguesa”. E também assumimos uma outra parte da herança, as ilustrações do Cruzeiro Seixas que, por sua vez, se encontram na obra original da Natália. O Cruzeiro Seixas era um dos poetas que o Victor já tinha selecionado para a antologia, para além de que se aproximava o seu centenário. No prefácio original, o Victor tinha estabelecido uma relação importante entre os termos “surreal” e “queer”. Ora, sendo o Cruzeiro Seixas um mestre do surrealismo, o ilustrador da antologia da Natália Correia e havendo um centenário, acabámos por ir falar com ele. O Cruzeiro aceitou o nosso convite e ficou muito contente. Fizemos várias pesquisas e escolhemos desenhos originais, de preferência a preto e branco, pois queríamos um livro democrático. Na última carta que o Artur [Cruzeiro Seixas] nos escreveu – ou “Mestre Artur” como gostamos de lhe chamar – agradeceu-nos a homenagem. Veja bem, ele é que nos estava a agradecer, como se não fôssemos nós que tínhamos de estar agradecidos pelo seu envolvimento. Nessa carta, despediu-se com a frase “o tamanho do nosso sonho é difícil de descrever”. E, assim, surgiu o título desta obra.

V. C. – Inicialmente, eu até tinha escolhido fotografias dos autores para ilustrar a antologia. O Vladimiro é que me sugeriu, depois, que colocássemos as ilustrações do Cruzeiro Seixas, e eu achei uma boa ideia. Gostava que ele tivesse estado cá na altura da publicação.

"Criámos a masculinidade", Cruzeiro Seixas

G. – Como referiram, o subtítulo desta antologia também foi uma das vossas preocupações. O que vos levou, então, a intitulá-la de Antologia do homoerotismo na poesia portuguesa e não Poesia portuguesa homoerótica?

V. N. – Queríamos deixar claro do que se tratava. A luta que estes autores travaram para poderem viver, ao longo dos séculos, aquilo que eram – e, neste caso, não podendo fazê-lo – transmite um pouco qual é a “dimensão do sonho”. Foi preciso muito tempo até chegarmos a um nível de organização social em que as pessoas pudessem ser, efetivamente, quem são. Se a poesia serve para expressar aquilo que é “difícil de descrever”, então esta poesia é sobre um sonho enorme, cuja grandeza é difícil de explicar. Na minha opinião, a citação do Cruzeiro refere-se a quem precisava de expressar uma verdade acerca de si próprio e que, de alguma forma, foi impedido de o fazer. E é isso que é difícil de descrever. Ao longo de 800 anos, estas pessoas lutaram, ou sonharam, com a possibilidade de poderem expressar quem são.

V. C. – Sim, conseguimos identificar dois significados nessa frase do Cruzeiro Seixas. Há, claramente, um significado social, no sentido em que havia uma impossibilidade de se exprimirem socialmente, e um significado mais literário que reflete a dificuldade destes poetas em expressarem, por palavras, os seus sentimentos e quem eram verdadeiramente.

G. – Qual a relevância de haver uma distinção entre os termos “homoerotismo” e “homossexualidade”?

V. C. – A homossexualidade relaciona-se com o comportamento das pessoas. É uma designação que apenas surge no século XX e que tem uma origem clínica. Os poemas não são homossexuais nem fazem amor. Portanto, não fica bem dizermos que um poema é “homossexual”. As pessoas é que são homossexuais. Para que falemos de poesia, é mais adequado mencionarmos “homoerotismo”. Este termo tem uma carga simbólica, imaginária e poética, principalmente na sua construção linguística e metafórica. Existem muitos filósofos que tentaram definir o que é o erotismo. Mas não é fácil. Tal como não é fácil distinguir os termos “homoerotismo” e “homossexualidade”. Este último tem uma componente mais prática e identitária das pessoas, enquanto o homoerotismo é uma expressão da homossexualidade, que vive através da arte e da literatura. Não queríamos uma antologia de homossexuais. O termo “homoerotismo” é muito mais abrangente, uma vez que também engloba aqueles que não são homossexuais, mas que se conectaram ao homoerotismo através da poesia.

V. N. – E isto cria uma coisa interessante. Nós não tínhamos de escolher necessariamente poetas homossexuais. O objetivo era demonstrar como é que o homoerotismo se expressa poeticamente. Existem poetas homossexuais que não escreveram poemas homoeróticos, como também existem poetas heterossexuais que escreveram poemas homoeróticos. Cria-se esta dicotomia. Os poetas que escreveram sobre o homoerotismo conseguiram fazê-lo, pois criaram fantasias, referiram episódios históricos ou mitológicos, como a Sophia de Mello Breyner fez em relação ao Antínoo. Ou seja, tivemos de considerar até que ponto seria legítimo “tirar poetas do armário”. Nesta antologia, é a poesia que sai do armário. É a expressão dos sentimentos entre pessoas do mesmo sexo. O objetivo é dar a conhecer as representações do tema, sobretudo se estamos a falar de uma perspetiva de 800 anos. Por exemplo, na Idade Média, a esmagadora maioria dos poemas aborda esta temática de uma forma jocosa, política e com uma intenção que ainda não é a afirmação do amor entre iguais. Mas posso admitir que foi uma grande surpresa, para mim, descobrir que na Idade Média já se escreviam poemas sobre o amor entre pessoas do mesmo sexo.

"Desenho com os olhos fechados", Cruzeiro Seixas

G. – Qual é o papel da moralidade nas artes?

V. C. – Atualmente, as teorias estéticas não consideram que a moral seja critério para que haja boa ou má arte. A arte é arte, independentemente de ser moral ou imoral. Aliás, Fernando Pessoa já discutia esta questão. No passado, havia realmente a ideia de que existia imoralidade na arte, atualmente não acho. Mas o conceito de imoralidade não existe apenas para isto. A imoralidade também existe para a corrupção económica, por exemplo. Até ao 25 de Abril, a imoralidade condicionava muito a circulação da arte. Atualmente, não acho que haja esse obstáculo.

V. N. – Depende. Não podemos pôr uma representação gráfica de um mamilo feminino no Instagram, por exemplo. É subjetivo. É como a distinção entre o que é “erotismo” e o que é “pornografia”. Acho que a resposta correta seria: “depende do quadro mental”. Tivemos um pico de libertinagem no século XVIII, foi o pináculo da literatura erótica. Exemplos disso são o Sade e o Bocage. Muitas das suas obras tiveram de circular anonimamente. Os livros do Raul Leal e da Judith Teixeira foram queimados em praça pública. Ao contrário do Victor, acho que ainda existem obstáculos para a circulação da arte, ainda que em menor escala. Quase que não se sente, é impercetível. Mas, se formos a ver, há mais mercado para as coisas que derrubam fronteiras. Aliás, a arte sempre teve esse papel. Vejamos, a guerra entre os neorrealistas e os surrealistas em Portugal procurou afrontar as regras vigentes através da denúncia social. Os surrealistas levaram a coisa muito mais longe, porque libertaram determinadas pulsões. Existem poemas com sujeitos claramente masculinos, de teor homossexual e explícito. Enquanto houver moral, também haverá o desafio à moral.

V. C. – O erotismo é a criação de subtilezas, de metáforas, de entreditos. As coisas que são demasiado explícitas já não devem ser consideradas eróticas. Mas pronto, filosoficamente falando, a arte não tem de ser moral ou imoral. A arte é bela ou não é bela. Está bem feita ou não está bem feita. Se houver complexidade, unidade, intensidade, então é uma obra de arte. Agora, o facto de representar o amor entre as pessoas e os corpos nus, não faz com que seja imoral nem diminui o valor da peça.

G. – Esta antologia apresenta poemas desde os cancioneiros da Idade Média até à atualidade. Como diriam que o conceito de “erotismo” evoluiu ao longo do tempo?

V. N. – Passou a ser mais abrangente, mais inclusivo, mais explícito. Ou a ter essa possibilidade. Claro que ainda existem pudores. A expressão assertiva do amor entre pessoas do mesmo sexo entra na literatura portuguesa por volta do último quartel do século XIX, sobretudo na prosa. Acho que a grande diferença que se pode observar, principalmente nos poemas de Pessoa, Judith Teixeira, Raul Leal, António Botto, é que a afirmação de desejo se torna explícita. Os poemas tornam-se mais confessionais e já não escondem que o objeto de desejo do autor é uma pessoa do mesmo sexo. É sempre importante irmos até ao passado para percebermos o que foi silenciado na altura e trazê-lo para o presente. A verdade é que existem muitas questões que já foram discutidas antes. Óbvio que não faz sentido cancelar a história, no sentido em que não devemos desmentir a forma como as coisas aconteceram. Devemos, sim, mostrar que existiram pessoas que deixaram o seu testemunho e que pagaram um preço elevado por isso. E esse testemunho, essa marca que elas deixaram lá atrás, pode servir para mudarmos a realidade atual.

V. C. – Sinto que as pessoas confundem muito as coisas. Para mim, erotismo não é obscenidade. Mas sim, claro que evoluiu. Houve uma evolução, ao longo da história, na forma de abordar o amor, não só o homoerótico, mas em todos os sentidos. A consciência identitária só nasce no século XIX, mas sempre houve poemas eróticos. O objetivo desta antologia é revelar que o amor entre iguais não é uma modernice. Sempre houve ao longo da história. A diferença é que, no passado, os autores tinham a tendência para satirizar a homoafetividade. Mas o poema nunca deixava de ser “picante”, apesar de ser satírico. Muitos até eram uma arma de arremesso político.

Sem título, Cruzeiro Seixas. Ilustração que acompanha o poema de Natália Correia na Antologia - "Rosa"

G. – No prefácio referem que as manifestações do homoerotismo nas artes visuais e na literatura são diferentes. De que forma?

V. C. – Essa questão foi muito discutida entre nós. Acho que a arte visual é mais explícita, principalmente a pintura e a escultura. Dois corpos nus são dois corpos nus. O Beijo, do Rodin, por exemplo, é arte explícita. Já a poesia serve-se mais de metáforas, de figurações, trocadilhos. Mas, atenção, também existem interpretações eróticas em obras que não tinham como objetivo o erotismo. Por exemplo, estou a lembrar-me de algumas esculturas sacras de São Sebastião. Ele é sempre representado com umas cuecas e é o patrono dos gays. Mas não é só ele! Também existem representações muito eróticas de Cristo, mesmo que o objetivo não fosse esse.

V. N. – A palavra é mais esquiva, sobretudo em poesia. Não tem de haver uma correspondência direta. A questão é que, durante anos, a arte era figurativa e o que lá estava era mais evidente. À partida, a arte, como comunica com o olhar, tem uma leitura mais direta por parte de quem observa. Na literatura, o cérebro tem de fazer outro trabalho. As palavras até podem estar a dizer o contrário do que está lá escrito verdadeiramente. Agora, se pensarmos em arte abstrata, os quadros já não são assim tão evidentes, certo? Na literatura tudo pode ser representado de uma forma mais escondida. Uma das cenas de sexo mais extraordinárias que já li encontra-se num capítulo de Memórias Póstumas de Brás Cubas, um romance de Machado de Assis. O autor escreveu a cena de amor toda com reticências, pontos de exclamação e pontos de interrogação. Uma página inteira disto. No entanto, percebe-se subtilmente que aquilo é uma cena de sexo.

G. – Sendo assim, se o objetivo era demonstrar de que forma o homoerotismo se expressa na literatura, porquê incluir ilustrações ao longo da antologia?

V. N. – Porque o Cruzeiro Seixas tem essa dupla qualidade: de poeta e de artista visual. Por outro lado, se a arte pode ser, por vezes, um pouco “escorregadia”, o surrealismo ainda mais, porque não é possível estabelecer-se uma conotação direta entre as imagens e a sua interpretação. Nesta vertente, conseguimos pegar na arte e mudar-lhe o significado, e é isto que é interessante. Basta alterarmos o contexto e já criamos uma nova teia de significados. Por exemplo, para o início do poema do Mário Cesariny [“Poema”], decidimos colocar um esboço que o Cruzeiro Seixas tinha feito deste autor, para que depois pudéssemos estabelecer uma relação entre esse e a ilustração da obra acabada, que surge no fim do texto. É uma relação ténue, mas ela existe. Ou seja, se olharmos com atenção para as imagens, identificamos sempre uma relação entre elas e o respetivo poema. E as ilustrações que escolhemos têm, quase sempre, o mesmo imaginário. As figuras masculinas, os corpos meio retorcidos, a sugestão das formas da anatomia reprodutiva masculina ou até mesmo a cópula. Pode ser como pode não ser. A ideia é deixar que cada pessoa interprete as imagens de acordo com a sua própria imaginação.

Sem título, Cruzeiro Seixas. Ilustração que acompanha o poema de Mário Cesariny na Antologia - "Poema"

G. – Porquê a opção de não incluir poemas de autores emergentes ou mais jovens?

V. N. – Penso que isso seja trabalho para um outro projeto, não para esta antologia. Fomos buscar 101 poetas e dividimos o livro em duas partes, sendo que o Fernando Pessoa é quem faz essa divisão. Quisemos separar os clássicos dos modernos. Aliás, temos pena de não ter conseguido inserir poemas de certos autores que não nos deram autorização para os publicarmos. Mas tenho a certeza de que, se não formos nós, haverá alguém que o consiga fazer futuramente. Ou, então, podemos pensar em realizar uma antologia mais explícita. Explícita do ponto de vista da afirmação da sexualidade, não do ponto de vista do conteúdo erótico. Mas este livro que publicámos agora é uma panorâmica de 800 anos. Ficaria desequilibrado se fôssemos à procura de apontar tendências atuais na poesia. Ou bem que fazíamos uma coisa, ou bem que fazíamos outra. Se fôssemos à procura da tendência, penso que teríamos um final de antologia muito desequilibrado. Existem certos poetas que fariam sentido para uma antologia de emergentes, mas não havia um distanciamento suficiente para os aproximar ao Camões ou ao Pessoa. Tínhamos essa responsabilidade. Posso acrescentar ainda que, sendo um tema contemporâneo e muito atual, escolhemos uma certa abordagem literária para que fosse algo mais conservador. Isto é, tivemos sempre o cuidado de tentar fazer uma aproximação ao cânone. O que quer que isso seja, não é? Mas queríamos que os nossos poetas tivessem algum tipo de consagração e reconhecimento, que fossem “valores seguros”.

G. – Em que moldes, uma antologia como esta, que recua até à Idade Média e compila diferentes expressões de homoerotismo, pode contribuir para uma reflexão menos preconceituosa relativamente ao amor entre pessoas do mesmo sexo?

V. C. – Esta antologia dedica-se a quem gosta de poesia. Acho que quem a quiser ler, terá de esquecer que ela é homoerótica ou não é homoerótica. Existem várias formas de lutar pelo ideal e a arte e a poesia podem ser uma dessas formas. Por isso, pode ajudar a abrir mentalidades, sim, mas isto não é um livro de intervenção. Hoje em dia, as associações LGBTQ+ estão muito enquadradas nesta luta social e política que existe. Mas esta antologia não serve para isso. É apenas a expressão de sentimentos.

V. N. – E tentámos mostrar que esses sentimentos e essa expressão são tão antigas quanto a literatura portuguesa. É verdade que a literatura pode apresentar um carácter subversivo, pois existem momentos especialmente disruptivos, até para a própria poesia ao longo deste último século. Se pensarmos nos grandes poetas do século XX, já conseguimos observar uma tomada de consciência de que a homossexualidade passa a ser um tema central na construção da poesia portuguesa. Não queremos revolucionar nada, apenas queremos mostrar que a homossexualidade é normal, é abrangente e que até as pessoas que não tinham nada que ver com a expressão homoerótica também beberam dessa poesia, até do ponto de vista estético. A homossexualidade é uma das grandes propulsoras de grande parte da boa poesia feita em Portugal, no último século. Esta é a verdade.

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