Em memória de Samuel Paty, professor francês assassinado perto de Paris, após ter mostrado um cartoon de Maomé numa aula. 

Encontrei há uns tempos parte do arquivo familiar que o meu pai registou durante a minha infância, com a sua handycam. A visita à Expo 98 estava lá, a ida ao Portugal dos Pequeninos também — até o momento em que como, pela primeira vez, um Solero, que parece grande de mais para a dimensão das minhas mãos e da minha boca. Alguns Natais em família, quando ainda vivíamos os três, os rodopios a dançar a “Milla” do Netinho, e aquele aniversário em que a “Walk of Life” começou a tocar na aparelhagem do meu pai (ainda hoje, sempre que a ouço por surpresa, penso que é “a música dos meus anos”). E entre os registos mais íntimos, em que entram os que ainda cá estão e os que já vivem noutra dimensão, encontrei também um pequeno vídeo do meu primeiro dia de aulas da escola primária. 

Numa mesa no fundo da sala, que me foi destinada para cumprir a ordem alfabética, apareço sentada com uma placa que diz “Maria Carolina”, junto ao meu amigo Luís. A placa chega-nos pelas mãos do nosso professor, Raúl, que logo nos ensina a regra de ouro: pôr o dedo no ar para falar. O (nosso) professor Raúl acompanhou-nos até ao terceiro ano e sempre tivemos uma relação de grande proximidade com ele, que não só foi o responsável pelo nosso primeiro contacto com as palavras e os números, mas também nos sensibilizou para o valor das artes na nossa vida. Juntos fizemos peças de teatro, cantámos ao ritmo da sua guitarra, vimos filmes que serviram de mote para escrevermos composições e viajámos sem sair da sala de aula, ao ouvir e ver os registos das suas viagens (foi assim que conheci, com cerca de 8 ou 9 anos, a história de Pompeia, que me deixou fascinada). 

Quando nos reunimos entre amigos, ainda hoje, são muitas as vezes em que referimos o nosso professor, a sorte que tivemos em aprender com ele, e arranjamos sempre uma desculpa para recordar esses tempos idos — como se quiséssemos estimular a memória uns dos outros, para que não nos esqueçamos de onde vimos. E por muito que não tenhamos estas conversas com o nosso professor, por muito que ele já tenha tido umas quantas turmas depois de nós, e por muito que o tempo passe, sabemos que também há-de guardar algumas destas memórias consigo. Ou esperamos que guarde, porque têm tanto peso para nós e para o que somos hoje.  

Ao longo dos meus 23 anos de vida, tive vários professores e professoras que me marcaram. Se até certa altura não tive a noção do impacto que eles e elas tiveram em mim de imediato, com o tempo comecei a perceber logo depois da primeira aula — se me deixasse desconcertada e com vontade de ir para casa estudar ou procurar mais sobre as referências de que falou na aula, certamente seria um laço para a vida. A verdade é que direta ou indiretamente, trago um pouco de cada um(a) para a escrita deste texto. Da Joana, a (minha) professora de ballet que me mostrou como olhar para a vida de múltiplas formas, à Manuela, a (minha) professora de Português que me desbravou caminho na escrita através da leitura, até à (minha) professora de História da Arte, de quem me tenho tentado recordar do nome há algum tempo, e que nos despertou — a toda a turma, diria — para a urgência de olharmos para a saúde mental a partir da história de Van Gogh. 

Por volta dessa altura, quando estava a estudar na [Escola Artística] Soares dos Reis, vi o “Clube dos Poetas Mortos”, o filme do Peter Weier em que o Robin Williams interpreta John Keating, um professor que ensina Literatura Britânica num colégio só para rapazes que lhes corta a formatação a que estavam habituados e lhes mostra a poesia da vida de todos os dias e o valor do “Carpe Diem”. Fá-los quererem ser mais — “Seize the days, boys. Make your lives extraordinary”, diz-lhes a certa altura. Pouco depois, quando entrei para a universidade, surgiram mais Keatings na minha vida, que também me fizeram querer ser mais, sem ter de saber o quê em concreto. Ser mais, apenas.

Olhando para trás, vejo que sempre tive liberdade para ouvir e debater, mesmo nas alturas em que me tornei inconveniente. Vejo que ter professores que são livres connosco, que nos convidam a ser livres com eles, é um privilégio que tive a sorte de ter em vários momentos e fases da vida. Esse convite à liberdade arrasta-se no e com o tempo, e resiste à espuma dos dias.  

A todos os meus professores e professoras, devo-vos tanto daquilo que sou e do que poderei ainda vir a ser. A todos os que já passaram pelo meu caminho e aos que estão por surgir, devo-vos modos de escrever, modos de olhar, um modo de querer ser, convosco. A última aula não existe quando a generosidade da partilha ultrapassa os limites da sala e solta os do pensamento.  

-Sobre Carolina Franco-

A Carolina Franco é jornalista no Gerador. Nascida no Porto, em 1997, aprofundou o seu interesse e conhecimento na cultura e na arte enquanto estudou na Escola Artística de Soares dos Reis. Licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Lusófona do Porto, viveu quatro meses em Ljubljana, na Eslovénia, onde teve a oportunidade de ser envolvida pela cultura pós-jugoslava e estudar Ciências Sociais. Entre 2018 e 2019 frequentou a pós-graduação em Curadoria de Arte da Universidade Nova de Lisboa – FCSH. Graças a estas experiências, tornou-se mais interessada no papel da cultura na sociedade em geral e nas comunidades locais – uma relação que procura aprofundar cívica e profissionalmente.

Texto de Carolina Franco
Fotografia da cortesia de Carolina Franco
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