A Associação Portuguesa de Serviços Técnicos para Eventos (APSTE) nasceu, neste contexto pandémico, da necessidade de fazer face ao grave impacto que o sector sofreu, devido ao cancelamento e adiamento dos espectáculos, que “acentuou a necessidade de as empresas técnicas se unirem, garantindo a representatividade do sector junto das entidades competentes.” O seu principal objectivo é “trabalhar ativamente para a regulamentação do setor” e “apoiar o desenvolvimento das empresas de serviços técnicos para eventos, através da criação de legislação especifica,” lê-se na apresentação. Teve início com 100 empresas, número que tem vindo a aumentar.

A entrevista foi realizada no dia 17 de Setembro, com o Presidente da Direcção, Pedro Magalhães, pelo que se poderão verificar algumas informações posteriores sobre as situações aqui abordadas, aquando da sua publicação.

Gerador (G.) – Como é que se iniciou este processo de formação da APSTE?

Pedro Magalhães (P. M.) – Foi ideia de uma das pessoas. António Rocha, que faz parte da Direcção, começou a ligar para todos nós e a dizer “que tal, nesta situação, fazer aqui uma associação?” Já era um sonho do sector, há mais de 30 anos, mas nunca tinha surgido esta oportunidade. Começou a juntar-se um grupo de trabalho, que ainda mantemos activo. Temos a Direcção e mantemos o grupo de trabalho com as pessoas iniciais. Nasceu da vontade e disponibilidade de todos nós para pegarmos na associação e levarmo-la para a frente. Não foi criada só com o intuito de olharmos para os problemas actuais, mas para os muito antigos, que este sector também tem.

G. – Como é que a APSTE funciona?

P. M. – Nesta fase, todos os dias temos dado um pouco do nosso tempo para a associação. Não reunimos todos os dias. Reunimos todas as semanas, aos domingos, quando tomamos as nossas decisões, deliberamos as ideias e os passos seguintes. Olhamos para trás, vimos como correram as coisas previstas e, depois, programamos a semana seguinte. A nossa sede é em Viseu, por questões de apoio. A Câmara Municipal de Viseu cedeu o espaço e, para nós, seria também agradável deslocalizar de Lisboa, porque, normalmente, as sedes são em Lisboa.

G. – Quantas empresas se encontram, neste momento, associadas?

P. M. – Practicamente, 170.

G. – Que profissões se encontram dentro da categoria de “técnicos”?

P. M . – Nós também não temos noção. Esse é o grande problema deste sector. Primeiro, começa pelas próprias empresas não terem local específico para a sua actividade. Temos sempre muita dificuldade em conseguir encontrar os dados em detalhe. Estamos a falar de 170 empresas, e é a partir dessas que fazemos as nossas estatísticas. Mas pensamos que existem cerca de 1000 empresas no nosso país.

Desde técnicos de som, de iluminação, operadores de camara, riggers, gestores de projectos, designers, arquitectos, managers, stage managers… São muitas, muitas profissões. Se disser que são mais de 50, não me estarei a enganar. Então, quando olhamos para o sector cultural, bailarinos, coreógrafos…. É um mundo sem fim…

Não nos podemos esquecer das pessoas que não estão fixas nas nossas empresas, dos freelancers, que não precisamos a tempo inteiro.

O IAC – Escala de Atribuições em relação à Carreira –, agora, está a fazer um levantamento para perceber quantas pessoas vivem à volta dos espectáculos e dos eventos. Mas ainda não temos números.

G. –  Apoiam os técnicos a partir das empresas?

P. M. – Há duas vertentes. Temos os técnicos, que são colaboradores fixos das nossas empresas. Há empresas com mais profissões dentro e outras com menos. Temos os colaboradores alocados às empresas. Depois, temos os freelancers, que, por vezes, podem ter algumas profissões que são necessárias pontualmente, ou já são pessoas que vão complementar as que estão fixas dentro das empresas, porque é preciso um reforço para um determinado trabalho.

Normalmente, as pessoas costumam dizer que são sectores muito precários. Não é verdade. Geralmente são freelancers por opção. No passado, foram, de facto, sectores de muita precariedade, mas, actualmente, não. As empresas têm muita necessidade de contratar pessoas.

G. – Então, de alguma forma, as pessoas apoiadas têm de estar ligadas às empresas que estão associadas?

P. M. – A Associação é de empresas de serviços. Podem ser empresas de palcos, geradores…. Há só empresas de técnicos, que cedem técnicos para outras empresas. Depois, cada uma destas empresas pode, de facto, recrutar pessoas de áreas muito distintas, como designers ou arquitectos, como falei.

Como associados em nome individual, não. Só como empresa.

G. – De acordo com um inquérito realizado por vós, durante o mês de Maio, 93% das empresas associadas não efetuaram despedimentos, 60% recorreram ao lay-off e 56% não têm liquidez para pagar os salários nos meses de Julho, Agosto e Setembro. Entretanto, aquando da acção no Porto, voltaram a lançar um inquérito aos associados com o intuito de actualizar os dados e perceberam que 20% das 170 empresas associadas já iniciaram processos de despedimento, devido à falta de liquidez provocada pelo tal corte de 80% no volume de facturação. Referiram ainda que estavam em condições de adiantar que, com o fim do lay-off simplificado, os 20% passariam a 60% num curto espaço de tempo. Com o retomar gradual das actividades culturais creem que haverá um abrandamento?

P. M. – O problema é que não perspectivamos mais trabalho nos próximos meses. Muito pelo contrário, o Verão está a terminar. Normalmente, as festas, as romarias, os concertos, passam-se mais durante a época do Verão. A área dos eventos é um bocadinho específica, um bocadinho diferente. Na área dos espectáculos, amealha-se no Verão, para sobreviver no inverno. Estamos às portas do Inverno. Os próprios empresários, neste momento, quando dizem que, nos próximos meses, vão começar a tomar medidas, é porque, de facto, coincide com o início do Inverno. As medidas agravam-se, agora, em Outubro. Os apoios às empresas serão inferiores. E, depois, vem o Inverno, onde tudo se agrava, há menos trabalho. Por isso, temos este valor de 60%.

G. – Que áreas concentram mais técnicos?

P.M. – Normalmente, as nossas empresas não estão muito ligadas à área dos teatros, que, geralmente, têm instalações muito fixas, têm técnicos próprios. No caso dos espectáculos, estamos muito direccionados para câmaras municipais, comissões de festas…. Estamos muito direccionados para a área dos eventos. Só no mês de Agosto é que é fraca, mas durante todo o ano é muito linear. Mas, neste momento, as marcas não investem porque têm a maioria das pessoas em teletrabalho. Quer dizer que não vão fazer eventos. Olhamos, por exemplo, para o Websummit. Não vai ser o Websummit a que estamos habituados. Muitas das nossas empresas trabalham no Websummit e neste ano não terão Websummit. É um evento cem por cento digital. Não vai existir essa necessidade de técnicos. É, de facto, uma calamidade que vai existir nos próximos meses. As que não conseguiram trabalhar no Verão, no Inverno nunca trabalhariam, e aquelas que trabalham na área dos eventos, e que agora até teriam algum trabalho, não o têm, porque as marcas não estão disponíveis para fazer esses eventos.

G. – A 1 de Julho, uma notícia da RTP apresentou os dados referidos pelo Pedro, relativamente ao conjunto das empresas que operam na área dos serviços técnicos para eventos, o qual contabilizava, nesse período, 1400 trabalhadores com vínculo, além de assegurar emprego sazonal a mais 4400 pessoas com diferentes estatutos ao nível laboral. Passaram mais de dois meses, desde então. Houve alguma variação nestes valores?

P.M. – Não temos os dados ainda certos, mas sim. 20% dessas empresas já dispensaram colaboradores. De mês para mês, a situação fica muito pesada para as empresas e já temos notícias de alguns associados que vão fechar portas e, portanto, vão-se perder muitos postos de trabalho. Brevemente, esperamos ter os números correctos, para os utilizarmos, mas, neste momento, não os temos.

G. – No dia 11 de Agosto realizaram um manifesto, na Praça do Comércio, ocupada pelas ‘flight cases’ e pelo silêncio dos profissionais durante duas horas, que tinha como principal destinatário o Governo e que procurava o diálogo com este, com o fim de criação de medidas necessárias ao sector. Nas vossas declarações à Visão, a 25 de Agosto, referem “não ter tido respostas efectivas da parte do Governo”. Como foram acolhidos? No dia 8 de Setembro, também realizaram uma acção semelhante, na Avenida dos Aliados…

P. M. – Vou tirar duas conclusões, que tirámos destes dois manifestos. Vamos concentrar-nos, primeiro, no de Lisboa. Após o manifesto de Lisboa, há uma coisa que é certa. Este sector deixou de ser um sector desconhecido para a maioria da opinião pública. Quando falamos nas empresas de espectáculos e eventos…. Olha-se muito para o artista, ou para o congresso, ou para o Websummit…. Mas as pessoas não sabem que máquina está por detrás de tudo isto. Hoje em dia, as pessoas já entendem que, por detrás, estão as nossas empresas e os nossos colaboradores. Este é um primeiro sinal positivo que tiramos deste manifesto de Lisboa. Logo a seguir, dois dias depois, fomos recebidos pelo Sr. Secretário de Estado do Comércio, também derivado do manifesto. Passámos, então, a ter alguma voz. Conseguimos que nos aceitassem para estas audiências, que estavam pedidas há muito tempo.

Percebemos o impacto. As pessoas agora sabem quem somos. Junto do Governo, também deixámos de ser um sector desconhecido, mas continuamos a ser um sector sem dados, e isso retira-nos algum peso. Em relação às nossas medidas, quando fomos junto do Sr. Secretario de Estado, não fomos muito bem acolhidos. Nem o Governo nem os grupos parlamentares têm acolhido muito bem aquilo que entendíamos muito necessário para proteger as nossas empresas. Falamos do lay off simplificado. Estas medidas de apoio à retoma…. Qual retoma? Não estamos em retoma nenhuma. O Estado também nos diz que não estamos proibidos de trabalhar. Nós sabemos que não estamos. Mas o Estado não foi capaz de dizer aos municípios, que tinham o dinheiro cabimentado para estes espetáculos, “vamos lá, vamos incentivar a economia, proporcionando a milhares de pessoas trabalhar durante o Verão, que é o único sustento que têm.” Quando insistimos muito nisto, há uma paralisação em absoluto de todos os organismos com medo da questão da saúde. Nós percebemos…. Há aqui um problema. Mas estas regras foram feitas em sintonia com a Direcção Geral de Saúde. Acreditamos que foram as melhores medidas. Elas já demonstraram que é possível. Já vimos uma Festa do Avante, as Noites do Palácio, no Porto…. Temos visto algumas coisas, mas muito poucas, para o número de municípios do nosso país. Segundo a PORDATA, em 2018, os municípios, na área da cultura, investiram, e a palavra não é custo, é investimento, 500 milhões de euros. O que se passou com este dinheiro? Estava todo cabimentado para este ano. Depois, dizem-nos que este dinheiro foi desviado para questões de saúde. Mas isto não é verdade. Acreditamos que algumas câmaras tiveram de tomar algumas medidas, como por exemplo a Câmara de Ovar…. O Governo, os municípios, dizem que podemos trabalhar, mas são eles que nos inibem de trabalhar, e não o assumem. Portanto, não percebem a gravidade do problema. Quando olhamos para o sector privado…. Vou dar um caso dos nossos associados. Uma entidade privada quis dar um evento, criou todas as condições que as regras indicam, foi junto do município, a Câmara Municipal de Cascais, e junto da entidade de saúde local de Cascais. Um cliente, com toda a infraestrutura já preparada, uma entidade privada, quis arriscar e vê-se travado no seu investimento por uma pessoa a quem lhe foi conferido um poder extraordinário, que é a Sr.ª. Directora Regional de Saúde e que diz: “no meu concelho, não há eventos, porque não quero.” Então porque é que o Governo comunica as regras? Depois, temos uma pessoa com um poder que lhe é conferido, não sabemos como, que proíbe a realização desses eventos. O Governo diz “sim, sim, vocês podem fazer”, mas, na verdade, ao mesmo tempo estão a proibir. Não assumem que proíbem, porque aí, de facto, não tinham alternativas senão apoiar as empresas. Sabem perfeitamente a situação em que as empresas se encontram. Têm os dados todos. Nós não queremos subsídios. Não somos subsídiodependentes da cultura. Somos empresas, que geram dinheiro, postos de trabalho, contribuem para a economia portuguesa. Contribuímos, ao longo dos anos, com muito dinheiro, e o que precisamos é de ajuda, apoios. Então, é mais barato para o Estado ter uma pessoa no fundo de desemprego ou uma pessoa no seu posto de trabalho, com custo repartido entre o Estado e a Empresa? Não há receptividade nenhuma a isto. Os partidos de esquerda dizem que na lei do lay off está lá uma palavra que é “’suspensão’ do posto de trabalho”. Para nós, essa palavra não significa absolutamente nada, mas para os partidos de esquerda é considerado um abuso, como se as empresas se estivessem a excluir. Não, nós queremos é segurar postos de trabalho. Mas o dinheiro que entra nas empresas não é suficiente. E agora que se discute um orçamento de estado, em que o partido socialista precisa do apoio do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista, estão todos muito alinhados e não estão de acordo com nada destas medidas. Então, não há dinheiro para pôr na verdadeira economia, mas há para pôr nalgumas empresas e são sempre as mesmas, como o caso da EFACEC. Não há dúvida de que a EFACEC é uma empresa muito importante para Portugal. Não há dúvida. Mas não há é igualdade. E nós não estamos a pedir ao Governo para pôr dinheiro nas nossas empresas. Estamos é a pedir um apoio para assegurar os nossos postos de trabalho. Há dinheiro para as grandes empresas, e não para a real economia. Outras das medidas de que falámos com eles foram as questões de alguns impostos que não nos faziam sentido, como o pagamento do IUC, o imposto de circulação. Os nossos carros, os nossos camiões, neste momento, não circulam, porque não há trabalho. Dizem-nos que não. Falamos no CAE, dizem-nos que sim. Mas vai levar anos a tratar. Falamos das amortizações. Temos amortizações muito grandes, porque fazemos investimentos muito grandes. Como o prejuízo deste ano vai ser muito elevado, aquilo que pedimos foi para suspender e adiar um ano, porque, se não, o prejuízo é muito grande nas nossas empresas, e não queremos esses estados de prejuízos muito grandes, uma vez que, mais tarde, quando quisermos recorrer à banca, se os nossos indicadores financeiros estiverem muito abaixo, não vamos ter o apoio sequer da banca. A recepção e a forma de ver é muito negativa. Vou transmiti-lo com muito à vontade. O Sr. Secretário de Estado teve a coragem de nos dizer na cara “façam bem contas às vossas empresas. Se não conseguem assegurar postos de trabalho, despeçam as pessoas. Deixa de ser um problema da economia e passa a ser um problema da Segurança Social.” Isto é a coisa mais ridícula que posso ouvir. Perguntei-lhe “Não estou a perceber. Temos dois governos? Dois Estados? Dividimos os nossos impostos por duas entidades distintas? Parece-me que não…. Pagamos os nossos impostos para o mesmo.” Não faz sentido. Ouvimos coisas que, de facto, retiram-nos o sono. É uma insensibilidade brutal. Percebemos perfeitamente que não é apenas o nosso sector que está em crise, há muitos outros sectores que estão em crises muito profundas.

Não se pode falar desta forma. E quando temos empresários disponíveis para dar a volta à situação, com vontade de não despedir os seus trabalhadores, mas ter algum apoio, já estamos a partilhar. Não estamos a dizer que não temos dinheiro, receitas, e vamos pôr pessoas no desemprego. Essa não é a nossa forma de estar. Levamos dois anos, nas nossas empresas, a formar uma pessoa, para ela estar capaz de estar nos espectáculos e nos eventos. Não gostaríamos de perder essas pessoas, mas acho que vai acontecer essa tragédia.

G. – Enviaram uma carta ao Presidente da República, solicitando uma audiência urgente, a qual foi realizada no dia 11 de Setembro. A extensão do lay-off simplificado e a criação de linhas de crédito específicas são algumas das medidas que apresentaram. Como foram recebidos? Ficou algo acordado?

P. M. – O acolhimento foi bom, mas, de facto, as suas funções podem ser orientadoras e influenciadoras, mas não são decisoras. O que ele pediu foi: “ponham tudo muito detalhado numa página, para que eu pegue neste documento e entregue em mão ao Sr. Primeiro Ministro, de forma a tentar sensibilizá-lo para os problemas do vosso sector”. Também não podemos esperar muito do Presidente da República, porque não é um órgão de decisão. Acabou por ser uma conversa muito rápida.

G. – Esse documento já está junto do Primeiro Ministro?

P. M. – Ainda não, porque não o compilámos todo e ainda estamos a reduzi-lo a essa página. Esperamos, entre hoje e amanhã [17 e 18 de Setembro], entregar este documento.

G. – Está marcada para amanhã [18 de Setembro] uma reunião com o Ministério da Cultura, a qual foi pedida a 2 de Junho. O que significa este extenso período de espera?

P. M. – Significa várias coisas, que nos deixam, de facto, muito tristes. Primeiro, foi o primeiro pedido de audiência e foi feito pessoalmente. Foi uma abordagem directa que eu tive oportunidade de fazer à Sr.ª. Ministra, no espectáculo do Campo Pequeno. E ela disse-me, naquele momento, “sim, sim, envie já para este email um pedido que, rapidamente, vamos agendar”. Vai ser a última entidade, daquelas todas a que pedimos, a receber-nos. Esta audiência foi aceite após o manifesto do Porto. Ao início, tínhamos muitas coisas para lhe dizer e acreditávamos que ela poderia ser uma ajuda para as nossas empresas. Hoje, penso ao contrário. Ela já veio a público, claramente, dizer que não está disponível para apoiar as empresas, mas para apoiar entidades sem fins lucrativos e outras demais entidades, mas não empresariais. OK, é uma opção do Ministério da Cultura. Mas apenas o que, se calhar, lhe hei de perguntar amanhã é como mantem o seu Ministério aberto, se é com as entidades sem fins lucrativos…. E eu não estou contra elas. Atenção. Muitas delas, fazem trabalho muito importante no nosso país. São elas que, muitas das vezes, substituem o Governo. Só, apenas, não compreendo que nós, que pagamos todos os impostos, sejamos completamente excluídos, quando somos também o motor da cultura em Portugal. Até vamos um pouco baralhados para essa reunião, mas havemos de chegar a um bom porto, porque vamos pegar no assunto dos municípios. Foi lançado pelo Ministério da Cultura um apoio de 30 milhões de euros para os municípios poderem requerê-lo e exercer alguns espectáculos. E é incrível como é que cinco ou seis municípios é que recorreram a este apoio. Não sei o que isto representa, se representa um desespero dos próprios municípios perante a situação, que nem sequer têm interesse em ir buscar o próprio dinheiro, se é um desinteresse total, ou porque nem sequer se querem envolver com o Ministério da Cultura. O Ministério da Cultura tem anunciado, anunciado, anunciado, e quando falamos com alguns destes freelancers, trabalhadores por conta própria, que supostamente teriam acesso a uma ajuda destes 70 milhões de euros anunciados e que já estariam a beneficiar deste apoio, não conhecemos um que tenha recebido. Mas aquela Ministra insiste sistematicamente em vir a público fazer propaganda política e fazer comunicados de milhões de euros, de “têm dinheiro para isto, dinheiro para aquilo”. Mas não conheço um técnico que tenha recebido um euro desses apoios. Depois, quando vão a qualquer site, à procura de um documento para preencher, ninguém viu nada, ninguém sabe nada, nem se vai acontecer alguma coisa. É só propaganda. A Ministra não está a olhar para nada, nem para o lado empresarial nem cultural. Neste momento, há milhares e milhares de pessoas, a passar fome, e esse dinheiro não chega a essas pessoas. Muitas destas pessoas, para sobreviver, vão ter de mudar de profissão. Isto é uma tragédia, é mesmo uma tragédia. Ainda estou a amadurecer as ideias para saber o que lhe vou dizer amanhã.

G. – Também têm lutado para incluir os técnicos no estatuto de trabalhador intermitente?

P. M. – Até tenho dúvidas que ela saiba o que significa intermitente. Não consigo perceber o que ela considera intermitente, nem os próprios sabem. É uma palavra que se está a usar há uns meses. É uma palavra nova que deixa toda a gente um bocado baralhada. É preciso explicar isto. Não é claro. Nem os próprios…. É preciso classificar muito bem quem são essas pessoas. Fala-se nisto, diz-se que são os apoios de 70 milhões. É por isso que as pessoas não têm apoio de nada, porque nada está clarificado.

G. – Neste processo de retoma sentem-se protegidos pelas medidas de segurança sanitária? Consideram que o público está cada vez mais confortável e confiante, conforme os eventos vão regressando?

P. M. – Criou-se algum pânico. Dentro das empresas, não sentimos. A maior preocupação é a de como vamos sobreviver a isso. Queríamos agora era ter trabalho.

No público é que há um grande problema. Não sei se é por falta de informação. Nos casos que apresentei há pouco, no Porto, no Algarve, a lotação estava muito reduzida e nunca encheram.

*Artigo escrito ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico

Texto de Raquel Botelho Rodrigues

Fotografia da cortesia de APSTE