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“Aqui não é permitido envelhecer”

A ideia veio do Brasil, em 1965, por Raul Solnado. Criar um lar de artistas era o objetivo, mas acabou por ser muito mais do que isso. Inaugurada há mais de 20 anos, a Casa do Artista, em Lisboa, tem como missão proteger todos aqueles que dedicaram a sua vida a fazer parte do dia a dia do grande público. Desde músicos, atores e fadistas, a quem ficava nos bastidores a costurar os detalhados figurinos e a construir de raiz os adereços que davam palco a muitos espetáculos.

Aqui também há doenças e rugas, como em outro qualquer lar, mas também há idas ao teatro, passeios matinais e música que se faz ecoar, seja por um piano, um saxofone ou uma guitarra portuguesa. No auditório ainda há quem se sente e lembre de uma vida antiga. 

A idade obrigou-os a parar, mas a vida artística nunca os deixou. Pelas paredes da casa do artista estão as memórias de quem já partiu.

São três da tarde e os raios de sol já começam a bater na esplanada exclusiva aos residentes da Casa do Artista. O frio faz-se sentir cada vez mais e as cadeiras que eram palco de conversas até tarde estão vazias. O "Jardim de Inverno", decorado à medida dos seus moradores, começou a receber mais visitantes.

"Entra, entra, filha. Está tanto frio…", ouve-se à porta do Jardim de Inverno. Era a Dona Maria e as suas duas companheiras que à hora do lanche se sentam com uma manta para meter a conversa em dia. A duas paredes de distância está o refeitório. A entrada a pessoas do exterior tornou-se extremamente limitada. As visitas exclusivas a familiares têm a duração de uma hora e as máscaras, desinfetantes e testes negativos à covid-19 tornaram-se peças essenciais para os moradores tentarem ter uma vida o mais normal possível.

“Não temos a abertura que gostaríamos de ter porque não é seguro”, revelou a Dra. Conceição Carvalho, representante da Casa do Artista e vogal da atual direção.

As portas da Residência fecham-se na esperança de que a pandemia não volte a entrar. No entanto, a arte é um hóspede presente nesta casa e a abstração destes artistas para fugirem da realidade cá fora.

 Na vida antiga estão as memórias. Mas o tempo deles é hoje, e a paixão continua.

José Manuel Fonseca

Um dos mais importantes e duradouros grupos musicais em Portugal nasceu na década de 60. Do rock ao soul, passando pelo folk, jazz e psicadelismo. A estrada fez-se por Lisboa, Porto, Arganil, chegando a Angola, Moçambique e Suazilândia. Foram cinco jovens amadores que fizeram nascer o Quinteto Académico.

Não eram uma banda filarmónica normal — tocavam peças de música clássica rosticana e nabuco e também faziam procissões nas marchas de Lisboa pela Rua de Santa Catarina. Mas era nos bailes universitários que o quinteto tinha os seus maiores fãs.

O álbum nasceu em março de 1966. A partir daí foi sempre a subir. Esteve em primeiro lugar na Itália e na Turquia.

José Manuel Fonseca, saxofonista, conta-nos a história do Quinteto Académico. A história da sua vida.

"Diziam que eu era giro..."

Com 11 anos de vida, Zé Manel foi para as oficinas de S. José, um colégio interno, e foi aí que nasceu o amor pela música: “Eu gostei logo da música. Não me perguntem porquê, porque eu nem tinha ninguém ligado à música". Ler a teoria musical e percorrer as partituras passou a ser o seu passatempo preferido. Ao fim de um ano a estudar, passou finalmente para o instrumento.

“O primeiro instrumento que o mestre me deu foi uma trompa, porque ele precisava de uma trompa na orquestra. Mas eu da trompa… hum… não gostei e disse-lhe: ‘olhe quero aquele. Era o clarinete’.”

Assim que saiu das oficinas foi trabalhar como mecânico nos telefones, mas não era aquilo que o fazia feliz. Quando menos esperava, a música que ecoava no seu apartamento fez-se ouvir pelos seus vizinhos. E foi aí que tudo começou.

Quando Mário Assis sugeriu irem tocar às festas de Monte Alto em Arganil, Zé Manel perguntou: "Estás maluco? Então nós vamos tocar?". Foi a primeira vez que atuaram ao vivo.

“Tocamos e agradamos. Agradamos de tal maneira que eu não sei porquê, não sei o que é que as pessoas viram em nós, que nos convidaram para tocar num baile académico.”

E o primeiro baile foi na Faculdade de Letras. E a partir daí não havia um baile académico que não tivesse o Quinteto. Os laços com outros grupos também iam crescendo e depois destas festas Zé Manel recorda saudoso o convívio que era feito após os espetáculos.

“Quando o baile acabava às 2h e 3h da manhã pensávamos: ‘vamos lá brincar um bocado”. E eram dois saxofones, era tudo a dobrar. Fazíamos uma banda em conjunto.”

Quanto ao público, a reação do Zé Manel foi sempre normal, uma vez que se consideravam amadores não tinham perceção pública. Até que os fãs foram aumentando com a publicidade que faziam artesanalmente e, diante de 20 mil pessoas, na cidade do Porto, já foi tudo muito diferente.

“Naquela altura, era uma coisa impensável. A Tonicha, coitada, começou a chorar e foi-se embora porque não cantava bem e as pessoas no Porto começaram a assobiar. A malta estava ali para ouvir o quinteto, ponto final.

 As capas dos jornais começaram a ter o quinteto como manchete. E, por isso, Zé Manel relembra as partidas que foi fazendo para brincar com o público. A notícia era: "O Zé Manel adoeceu já não pode haver baile” — mas era tudo ao contrário. Eram brincadeiras que resultaram, assim como os instrumentos rudimentares que usavam.

E hoje, com um saxofone que já o acompanha desde os tempos do Quinteto, o seu público mudou, mas a alegria é a mesma.

"Eu estou aqui por causa da Fernanda."

Identificando-se como "anti-vedeta", as memórias fotográficas que tem do quinteto foram feitas por alguém muito especial que o acompanhava nos seus concertos. "Este álbum foi feito por ela. Se não, não havia nada. Ela é que cortava e costurava. Era todo engenhoca, bordava e fazia trabalhos incríveis", revela. Era a Senhora Fernanda, a mulher pela qual se apaixonou e a razão de ter vindo para a casa do artista.

“Foi em 2015 que vim para cá porque a minha mulher estava muito doente. Estava muito mal porque tinha Alzheimer e Parkinson e nós vivíamos sozinhos no Montijo. E houve uma vez que começámos a ouvir na televisão sobre a Casa do Artista.”

Fizeram-se sócios um ano antes e Zé Manel pediu ajuda ao seu antigo amigo de banda, Mario Assiz Ferreira, para irem o mais rápido possível. E assim foi.

Quando Fernanda faleceu, há dois anos, a sua rotina teve de continuar. Todos os dias dá um passeio e vai ao supermercado comprar algumas iguarias. Por vezes, aproveita para ir dar "umas voltas à Pontinha". No quarto, que é o seu sítio favorito, usa o Google para procurar músicas para tocar. É quando toca com o seu companheiro Bonny e, mais recentemente, com Carlos Guerreiro que se sente feliz.

É com a música que hoje, com 80 anos de vida, Zé Manel encontra um sentido para a vida. As boas recordações ficam como os momentos em banda, a sua vida como guia turístico e o nascimento dos seus filhos. Mas há um que é especial e não esquece.

“Uma memória que eu recordo sempre foi como eu conheci a Fernanda… lembro-me sempre de quando a conheci.”

António Évora

Até aos 17 anos trabalhou no campo, mas foi até ao mundo artístico que o universo o levou. A infância não foi fácil. Filho de pais separados, num tempo de um "Portugal cinzento e preto", foi entregue a um tio que o tratava como "um escravo".

Era na avó que se refugiava. Cúmplices, ouviam o teatro radiofónico transmitido pela emissora nacional, quando o sol já se tinha posto e o silêncio era o amigo deles.

“A minha avó também sofreu muito com esse meu tio que era o filho dela. Havia um pau de marmeleiro em cima do armário e de vez em quando pumba…”

Sem autorização do tio, foi com 15 anos que percorreu 5 km para ver, pela primeira vez ao vivo, os atores que tão bem conhecia de voz. Foi tal e qual como estava, saído do trabalho duro do campo. À chegada do teatro, ao encarar toda "aquela gente bem vestida", desistiu de entrar.

Foi a Amália Rodrigues que concretizou o sonho de um menino de 15 anos que nunca tinha ido a um espetáculo ao vivo.

O sonho de ator foi ficando mais presente em si. António aguentou até aos 17 anos os maus-tratos do tio. E foi quando deu "o grito do ipiranga". Enfrentou o tio e, a partir daí, a sua vida mudou. A Lisboa chegou com a ajuda de um maestro que lhe deu 100 escudos.

Na casa da tia, refugiou-se e rapidamente percebeu que precisava de trabalhar. A única experiência que tinha era numa tabacaria e foi no Diário de Notícias que viu o anúncio perfeito.

“Vi o anúncio de uma tabacaria na Avenida Marques de Tomar; concorro e vou falar lá com o senhor da tabacaria. E quem era o senhor da tabacaria? Era um ator, o Barreto Poeiro. Eu fui parar à casa de um ator. Repare bem no universo.”

A idade para ir para o Ultramar estava a chegar, mas na inspeção foi logo descartado por ter "ambliopia total". Da Guerra, livrou-se, no entanto, ficou desempregado. Mas foi aí que se começou a lembrar do seu encontro com a Amália.

Assim como a outros tantos jovens amadores, Amália Rodrigues ganhou um carinho por António. Devido a ela, o jovem António teve acesso a uma bolsa da Gulbenkian para poder estudar no conservatório. Não terminou o curso porque o seu talento chamou a atenção. "A Doutora Amélia Rey Colaço veio ver uma audição minha e no fim convidou-me a passar pelo Teatro Avenida. E eu fui. Contratou-me para o Teatro Nacional, onde estive três anos", revela.

"Há uma coisa mágica no palco que transforma as pessoas"

"Faço eu!", foi a primeira reação de António ao saber que a peça Monólogo do Vaqueiro ia ser cancelada. Acabou por ser a sua primeira peça enquanto ator profissional, no entanto, não se lembra de nada, apenas de como conseguiu o papel.

“Acordo e o João estava afónico. Não dizia uma única palavra. Já estavam todos decididos que não ia haver Monólogo do Vaqueiro porque o João não estava em condições. Ainda hoje sei o texto todo de cor. Foi o papel que mais me marcou porque era uma das personagens que eu queria muito fazer.”

Outra das peças que o marcou foi o D. Quixote. Com 40 graus de febre e uma hemorragia, atuou e levou o espetáculo até ao fim. "Estava um médico que no intervalo me injetava para eu conseguir continuar", confessa.

Mas há uma experiência que ninguém lhe tira. Na altura em que "rebentou" o 25 de Abril, António andava a fazer uma peça pelo país inteiro e "em tudo o que era sítio". As pessoas estavam em festa após 50 anos de ditadura e era a primeira vez que iam a um teatro.

“Essa experiência ninguém me tira.”

As saudades do palco são muitas, mas António não está "agarrado ao passado". Relembra com nostalgia a sua vida passada, porém, afirma: "o meu tempo é este". Foi professor de cinema na Universidade da Beira Interior, o que o ajudou a estar mais próximo das novas gerações.

Foi no cinema, no teatro e em novelas que António Évora, durante 50 anos de carreira, mostrou o seu talento.

"Eu não devia estar aqui! Eu devia estar aqui mais velho e a trabalhar."

António já cá andava antes de a casa ter alicerces. Sempre considerou vir para cá morar, mas não pensou que fosse tão cedo. A sua condição de insuficiência renal obrigou-o a vir antes do tempo.

“Se não fosse isto, eu agora estava em minha casa e, depois, mais velho, vinha para aqui.”

No entanto, com 80 anos, António sente-se um "privilegiado" por aqui estar. Agradece todas as condições que lhe são fornecidas e lamenta o estado de alguns lares de idosos em Portugal: "É só isso. É a coisa boa da Casa do Artista".

A meditação que faz regularmente ajuda-o a ver a vida de outra forma.

“Isto tem muito que ver com a meditação, com a espiritualidade e com a forma como a gente está na vida. Para mim é muito assim: morrer, para mim, é como nascer.”

Se pudesse, a sua rotina também passaria por cozinhar, mas agora contenta-se com as ideias que vai tendo para homenagear todos aqueles que fizeram parte do espetáculo e animaram grandes públicos.

“Porque nós existimos, mas, antes de nós, já existiam eles. Eu sou muito pela memória das pessoas que estiveram nesta profissão e que às vezes são esquecidas.”

Pela Casa do Artista já passaram centenas de pessoas. Com 26 quartos duplos e 25 quartos individuais, há sempre espaço para mais um, seja qual for a reforma.

Devido à pandemia a casa do artista está com portas "meio abertas". Ana Sécio, representante do Departamento de Comunicação, afirma que "a casa não está e não pode estar fechada ao público, porque é o público que faz sentido à atividade do artista".

O estigma de que os lares de idosos são decadentes e deprimentes não se aplica a esta casa e muito menos a estes moradores. A presença de um animador sociocultural diverte aqueles que estão autónomos e estimula essa autonomia para ser mantida. Há também a liberdade de ir almoçar fora, de irem ao teatro, ao cinema, ao jardim, "como todas as outras pessoas", como quiserem e quando quiserem. Além de todos os projetos culturais que esta casa acarreta, há um que se destaca e é o "projeto que cruza o saber de gerações".

“É um lugar de afetos e de partilha de histórias, de memórias e de continuar a aprender. É, sobretudo, partilhar conhecimento.”

São pessoas como Zé Manel e António Évora que fazem a Casa do Artista. E é por eles e sempre por eles que a Casa do Artista continua aberta. Aqui ninguém é estranho: "Somos família".

*Esta entrevista foi escrita por alunas licenciadas em Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social (ESCS) no âmbito da parceria com a ESCS Magazine.

Texto de Ana Cristina Barros e Carolina Sobral

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