Existe já vasto património no quadro das experiências de formação artística em espaço público. Poderíamos falar do célebre Mur du Respect, de William Walker, da omnipresença dos graffitis e da sua tradução/expressão de certas vivências juvenis subculturais ou dos Public Art Workshops que há décadas se vêm realizando nos Estados Unidos, num amplo movimento de renovação da arte popular por e no espaço público, com incidência nos próprios campos artísticos, uma vez que está em questão, precisamente, o estatuto e a ideologia carismática do artista, pretendendo-se uma abolição da sua aura privilegiada e distante, aproximando «especialistas» e «não-especialistas», linguagens periciais e expressões profanas, bem como o favorecimento de um efeito de campo capaz de estimular a criação de dispositivos propriamente artísticos que não são indiferentes nem ao contexto (e à escala urbana), nem às populações. Incide-se preferencialmente, desta forma, nas potencialidades da «expressão», enquanto possível núcleo-duro de uma democracia cultural sem demagogia, populismo ou epifanias, em que o artista se assume, por opção (e não por submissão a um estatuto subalterno no interior do campo), a ser um catalisador de produções urbanas coletivas.

Claro que todas estas experiências vão ainda mais longe se pensarmos no campo político e nas consequências potenciais ao nível do exercício do poder. Se falamos de uma obra aberta ou de uma ininterrupta criação coletiva torna-se palpável a existência de um princípio quase implícito de urbanidade; princípio que, segundo Isaac Joseph, remete para os primórdios da conversação sociável: a possibilidade, ou melhor, “a liberdade dos participantes em interromperem o decurso daquilo que têm em comum”. Se o espaço público é eminentemente político, importa sublinhar a afirmação de Sennett, na senda de uma relação com o outro alimentada pelo discurso e pela contestação e não por meros rituais de repetição que nos conduzem ao entorpecimento, logo à inconsciência e à indiferença: “as definições políticas do público não sabem como pensar o espaço do público”.

Imagino, pois,  espaços públicos distémicos que propiciam a relação entre diferenças (sem esquecer que existem fortes desigualdades, nomeadamente na distribuição de capital cultural): um cosmopolitismo vernacular (não elitista, não snob…) alimentado pela serendipidade (o imprevisto dos usos e interações), em cidades legíveis e comunicáveis, em tudo contrárias à “cidade genérica” (Rem Koolhaas) e à lógica de neutralização  e despolitização dos espaços públicos; cidades que não são um mero mosaico de “tribos urbanas” incomunicantes (o neo-tribalismo das configurações culturais pós-modernas assentes no nomadismo, fragmentação, consumo), nem um cenário de fantasias à Disney.

A invenção da arte pública convida à pluralidade e complexidade dos espaços públicos, muito para além da nostalgia da rua, praça e jardim, fugindo ao estabelecimento de fronteiras e aos variados controles institucionais.

Não se pense, contudo, que, por ser pública, a arte facilita automaticamente o encontro com públicos alargados. Não faltam exemplos de desentendimentos percetivos e reações iconoclastas, com vandalização e destruição das obras (veja-se o recente exemplo de A Linha do Mar, de Pedro Cabrita Reis). Neste, como noutros domínios, importa salientar os processos criativos em vez dos produtos e torná-los ocasião privilegiada de mediação, comunicação e envolvimento (autor/obra/públicos/território/lugar). A surpresa da obra (e o seu potencial emancipador de desarranjo, questionamento e rompimento da fixidez espácio-temporal das rotinas e instituições) tem de ser…preparada!

-Sobre João Teixeira Lopes-

Licenciado em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1992), é Mestre em ciências sociais pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade  de  Lisboa (1995) com a Dissertação Tristes Escolas – Um Estudo sobre Práticas Culturais Estudantis no Espaço Escolar Urbano (Porto, Edições Afrontamento,1997).  É também doutorado em Sociologia da Cultura e da Educação (1999) com a Dissertação (A Cidade e a Cultura – Um Estudo sobre Práticas Culturais Urbanas (Porto,Edições Afrontamento, 2000). Foi programador de Porto Capital Europeia da Cultura 2001, enquanto responsável pela área do envolvimento da população e membro da equipa inicial que redigiu o projeto de candidatura apresentado ao Conselho da Europa. Tem 23 livros publicados (sozinho ou em co-autoria) nos domínios da sociologia da cultura, cidade, juventude e educação, bem como museologia e estudos territoriais. Foi distinguido, a  29 de maio de 2014, com o galardão “Chevalier des Palmes Académiques” pelo Governo francês. Coordena, desde maio de 2020, o Instituto de Sociologia da Universidade do Porto.

Texto de João Teixeira Lopes
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