Da necessidade de criar uma revista que englobasse todos os tipos de arte e desse a conhecer novos artistas, nasceu a Artefacto – uma revista que sairá no dia 24 de julho e conta com cinquenta e quatro jovens artistas das mais diversas áreas.

Arquitetura, Animação, Escultura, Design de Moda, Graffiti, Maquilhagem e até Tatuagem, são algumas das catorze categorias que enchem as mais de 100 páginas da primeira edição da revista Artefacto. A ideia surgiu da necessidade de Isa Sequeira, licenciada em cinema, ter uma revista que, não só incluísse todos os tipos de arte, mas desse a conhecer novos talentos que ainda não tiveram a possibilidade de ver o seu trabalho exposto. Isa convidou a sua conterrânea louletana Carolina Domingues, recém-licenciada em design gráfico, e juntas começaram a criar, há quase um ano, os primeiros passos daquela que será a primeira revista física, em Portugal, que junta vários tipos de arte e promove jovens artistas ainda com pouco reconhecimento - “O nosso objetivo passa por dar a conhecer ao país uma nova geração de artistas”, conta a equipa.

O tema da primeira edição chama-se, ‘Normal’, e desafiou os artistas a criarem peças que fossem intemporais e deixassem de lado o contexto pandémico em que temos vivido nos últimos tempos. A revista estará disponível em formato físico, em várias lojas a anunciar em Lisboa e no Porto, e ainda no site da Artefacto. Estará também disponível em formato digital, com um custo reduzido, “para que possa ser acessível a todos”.

A revista, que promete ser uma obra de arte, pode ser apoiada através de um GoFundMe, criado pela dupla que acredita que este pode ser um novo portfólio para as novas gerações.

Em conversa com o Gerador, Isa e Carolina, entre sonhos e resiliência, contaram como tem sido o percurso de criação da revista, o que podemos esperar dela, e desvendaram algumas surpresas que estão marcadas para o dia 24 de julho no espaço Anjos 70.

Gerador (G.) – Como surgiu a ideia de criarem a Artefacto?

Isa Sequeira (I.S.) – Já penso neste projeto há muito tempo. Para além de ter uma paixão por revistas sobre arte, a Artefacto nasceu pela minha necessidade de ver uma revista assim, que não existia. Por exemplo, quando vamos a uma loja, só podemos escolher uma revista sobre um tema, e eu não gosto de escolher. Comprar uma revista sobre arte é também um investimento muito grande e corremos sempre o risco de não gostarmos assim tanto. Por isso, queria um sítio onde pudesse ter tudo, em que estivesse a pagar o mesmo valor, mas conseguisse ter acesso a mais artistas, jovens artistas, artistas sem reconhecimento. Queremos juntar tudo para que todas as artes fiquem ao mesmo nível e não existam elitismos. Queremos que seja um espaço para os jovens artistas que ainda estão na faculdade, que acabaram de sair ou já saíram há algum tempo, mas ainda não conseguiram reconhecimento. A Artefacto é para estas pessoas.

G. – Porquê a escolha do nome Artefacto?

I.S. – Gostava de ter uma história muito boa, mas surgiu apenas no dia em que decidi que ia avançar com o projeto. A revista em si é um artefacto.

G. – Acham que, atualmente, as revistas de arte representam o que se passa no nosso país?

I.S. – Há muito pouca representatividade. As revistas são portuguesas, mas os artistas nem sempre. Somos um país pequeno e precisamos de não nos sentir pequeninos e agarrarmo-nos aos outros países. Achamos, erradamente, que um nome alemão e italiano traz um prestígio que um nome tão português como “Maria” não traz.

Carolina Domingues (C.D.) – Quando uma revista tenta trazer um artista português, independentemente da área, são sempre nomes grandes. Eu gosto deles, mas eles vivem num patamar diferente dos outros, daqueles que podem chegar aos quarenta anos, mas continuam a viver numa sombra porque não tiveram oportunidade.

G. – Para esta primeira edição, convidaram cinquenta e quatro jovens artistas. Qual foi o critério de seleção?

I.S. – Como é a primeira vez que estamos a fazer uma revista, tem sido por fases. Em dezembro tínhamos apenas dezoito artistas convidados e seis categorias. Mas chegámos à conclusão que precisávamos de mais, caso contrário não fazia sentido ter uma entrada de capítulo, que nós queríamos muito fazer, então a partir daí fomos encontrando categorias e abrindo mais espaço. De início falámos apenas com pessoas que conhecíamos, mas depois começaram a vir falar connosco, de todos os lados do país. Na escolha, procuramos que tenha qualidade na sua arte, mas que seja diferente de outros artistas na sua categoria, para que todos tenham a oportunidade de se destacar uns dos outros. Queremos que dentro de cada categoria exista uma diferença grande entre eles para que, quem lê, encontre pelo menos algo com o qual se identifique.

C.D. – Tentamos também diversificar no grafismo de cada um. Procuramos falar sempre com os artistas e perceber quem são, o que defendem e qual o seu trabalho. Mandam-nos o portfólio, explicam-nos algumas peças e materiais que usam, se for o caso, e depois fazemos a seleção. O que não significa que não gostemos dos outros. Ficamos sempre com o contacto para a possibilidade de aparecerem em edições futuras.

G. – Para além do online, têm também a edição física. Porque escolheram a exclusividade do papel?

I.S. – Sempre soubemos que é mais fácil ter uma revista online e não queríamos ir por esse caminho. Sou uma amante de revistas, colo recortes em todo o lado, e eu quero que as pessoas tenham essa experiência em papel. Por outro lado, queríamos que os artistas se vissem a eles próprios numa peça em papel, porque a maior parte das coisas agora é no Instagram e não sai da internet, perde-se.

C.D. – O online acaba por ser bidimensional. Por mais que partilhem, e é incrível quando acontece, continua a existir uma quebra do que é real ou não. Por exemplo, a Isa é uma destruidora de revistas, eu sou a pessoa que gosta de guardar como um catálogo, e é uma coisa que a nossa revista tem de positivo – está feito para estes dois tipos de pessoas.

G. – Tiveram alguma preocupação em tornar a revista mais sustentável?

C.D. – O que decidimos foi que, como a revista é semestral e queremos que exista por muito tempo, vamos um papel couché, que não é ecológico. No entanto, todos os nossos envios serão com materiais reutilizados, inclusive papel vegetal, que dá para os artistas reutilizarem e até para fazerem bolos. A decisão foi esta porque precisamos que a revista tenha substância. É uma revista pesada, pela quantidade de páginas e porque decidimos colocar uma página, uma espécie de Páginas Amarelas, com os nomes e contactos dos artistas que participaram. E precisamos que essa folha esteja sempre intacta, para que quem goste a possa consultar sempre que quiser.

I.S. – O nosso maior objetivo é dar trabalho aos artistas que expõem na revista. Queremos que eles comam, agradecimentos não enchem a barriga.

G. – O que podemos esperar desta primeira edição?

I.S. – Muita coisa, é um bicho ainda grande. A primeira edição tem o tema “Normal”. Todas as edições têm um tema diferente em que os artistas criam à volta do tempo. Nesta edição há pessoas que criaram coisas normais, muito normais, que falaram do que é a normalidade, ou a realidade e a justaposição entre os dois. Se há algo que existe dentro da revista é variedade.

C.D. – A variedade é também na perspetiva sobre o tema, traço, estilo, cores. A revista tem tanta cor que acabámos por decidir que a capa será branca, para sermos imparciais.

G. – O site da Artefacto será para partilharem mais conteúdo?

I.S. – Decidimos muito cedo que somos intemporais. Não queremos ter notícias, porque nenhuma é jornalista, e também não queremos falar sobre a atualidade. Por exemplo, o tema “Normal”, foi escolhido porque decidimos guiar os artistas fora da situação pandémica. Queríamos que eles criassem peças intemporais que não se relacionem com uma época específica da história do mundo, que se lerem daqui a dez anos, entendam a mesma coisa. Isso é muito importante para nós. O site é apenas para nos conhecerem e comprarem a revista física ou online.

G. – Sentem-se, de certa forma, um canal para esta nova geração de artistas?

C.D. – O que acontece no mercado de trabalho é que temos de ter um portefólio. Ninguém quer saber como o vamos ganhar e ninguém tem essa responsabilidade se não cada artista. Por isso, achamos que a Artefacto pode ser um novo portefólio para os novos artistas. Vivemos da visibilidade do nosso trabalho, e dar visibilidade aos que ainda não conseguem por falta de meios, principalmente os de comunicação, dá-nos ainda mais vontade de fazer a revista.

G. – Sendo o setor da cultura um dos mais afetados pela pandemia, não vos assusta criarem a Artefacto agora ou, pelo contrário, o projeto surge para contornar isso?

C.D. – É quase um equilíbrio entre os dois. Enquanto jovens, esse apoio da cultura nunca foi visível nas nossas vidas e eu tenho um pouco de receio de não vermos esses apoios a acontecer. Ao mesmo tempo, o que é a arte? É continuar sempre em frente não desistir. E é essa característica de resiliência que vemos também nos artistas que não pararam de produzir nesta altura, mesmo sem apoios do Estado. Muitos deles, talvez tenham vendido um ou dois prints e mesmo assim continuam a produzir material com muita qualidade e com frequência. Essa resiliência é aquela que fomos absorvendo durante a criação da revista. Por isso, aconteça o que acontecer, a Artefacto vai sair. Mesmo com medo vamos para a frente.

G. – A Artefacto irá ter uma festa de lançamento?

I.S. – Vamos estar nos Anjos 70 com todos os artistas que participaram, música e peças expostas. Será um evento aberto onde estaremos também a vender a revista e dar a conhecer o que temos feito até agora.

G. – Onde podemos comprar a revista?

I.S. – Por enquanto, estará disponível no nosso site e em algumas livrarias em Lisboa e no Porto, que ainda vamos anunciar.

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografia de Artefacto

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