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As artes performativas subiram a palco para agitar consciências em Portugal

Vulnerabilidade, superação, reflexão e agitação de consciências foram os ingredientes-chave da 8.ª edição da Plataforma Portuguesa de Artes Performativas que, durante cinco dias, deu a conhecer a programadores e diretores vindos de todo o mundo aquilo que de melhor se faz na criação artística no país. O Gerador acompanhou a PT.23 e assistiu as performances dos nomes emergentes e mais relevantes do panorama nacional das artes performativas.

Plataforma Portuguesa de Artes Performativas reuniu nomes sonantes do panorama artístico contemporâneo nacional e diretores internacionais durante cinco dias. | © Inês Sambas

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Os corpos revolucionam-se. Ao mesmo tempo que os limites físicos e psicológicos são impiedosamente colocados à prova, o véu da vulnerabilidade cai sem qualquer pudor num cenário que se propõe a agitar mentalidades. Pelo caminho, expõe-se o desgaste das velhas narrativas trans, revive-se uma triste história de amor contemporânea, reflete-se o papel da mulher na criação artística e desfragmenta-se a memória na essência da sua liquidez.

No meio deste fervilhar de emoções e sensações, há sempre quem se sinta sozinho numa luta constante para ser suficiente. Enquanto uns enfrentam as suas fragilidades na tentativa de as tornar em forças, outros desafiam com ousadia a linha que distancia o sagrado do profano. Mas, no final, tudo é sobre nada e todos somos eternos.

Assim foi a multiplicidade de mundos que se cruzaram na 8ª edição da Plataforma Portuguesa das Artes Performativas (PT.23), uma iniciativa da estrutura artística independente “O Espaço do Tempo”, que durante cinco dias levou a palco 18 dos mais marcantes trabalhos produzidos em Portugal de artes performativas contemporâneas nos últimos dois anos, desde a dança, teatro, música e performance.

Com arranque em Lisboa, foi na cidade alentejana de Montemor-o-Novo que a PT.23 juntou, durante quatro dias, mais de 200 participantes vindos de todos os cantos do mundo, entre os quais cerca de 60 dos mais importantes programadores, curadores e diretores artísticos nacionais e internacionais que vieram conhecer a realidade das artes performativas portuguesas e, quem sabe, abrir portas à sua internacionalização.

Na PT.23 participaram responsáveis artísticos de países como Espanha, Brasil, Irlanda, Noruega, Emirados Árabes Unidos e até Tailândia. | © Inês Sambas

“O principal objetivo da plataforma é apresentar ao resto do mundo aquilo que se faz aqui em Portugal e aproveitar a oportunidade de estas pessoas virem cá de propósito para falarem sobre o assunto, eventualmente, comprarem os espetáculos, programarem os espetáculos nos lugares de onde vêm e abrir mundo para artistas portugueses ou baseados em Portugal”, explica Pedro Barreiro, o diretor artístico estreante aos comandos da 8.ª edição da PT.23, ao Gerador.

“Se um artista conseguir fazer circular os seus trabalhos por vários países, e se forem países que consigam pagar melhor, tanto melhor, porque conseguem ter condições para apresentar os seus trabalhos, pagar às suas equipas, no fundo, para fazer arte. Porque, ao contrário do que muita gente ainda pensa, é sempre muito mais fácil trabalhar com a barriga cheia e condições profissionais dignas”, acrescenta.

Pedro Barreiro, diretor da estrutura artística “O Espaço do Tempo”, admite um “balanço positivo” da PT.23 e promete uma internacionalização ainda mais vincada em 2025. | © Inês Sambas

Realizada bienalmente há 16 anos,  Pedro Barreiro destaca da edição da Plataforma Portuguesa de Artes Performativas de 2023 a “frequência assinalável de visitantes internacionais, programadores, diretores e curadores em Montemor-o-Novo”, e uma consciencialização da “amplitude muito significativa de abordagens e estéticas nas artes performativas portuguesas”. Avalia que, apesar do “longo caminho a percorrer para que todas as pessoas envolvidas nesta atividade, do ponto de vista profissional, tenham condições de trabalho dignas”, o cenário das artes performativas portuguesas conta com uma luz ao fundo do túnel.

Luz essa que se acendeu um bocadinho mais durante a PT.23, que, com uma programação diversa e abordagens inovadoras permitiu, segundo o organizador, “mostrar a riqueza daquilo que se faz, passar por diversas linhas diferentes que se cruzam e que, todas juntas, constituem um discurso que dá a ver aquilo que vai acontecendo em Portugal”.

Mas o que se faz realmente em Portugal na esfera das artes performativas? O Gerador acompanhou as performances da PT.23 e faz agora um breve retrato de alguns dos mais relevantes trabalhos desenvolvidos no  país, que integraram a edição deste ano.

O outro lado da dança – A história de um corpo não-normativo em constante revolução

O burburinho do público é silenciado pela imagem de um corpo a ser arrastado para o centro do cenário. É ali abruptamente despejado. O silêncio rompe entre as paredes do Convento de São Domingos, em Montemor-o-Novo. Lentamente, surgem os primeiros movimentos. Voltas e mais voltas de braços e do tronco indicam as várias tentativas de conseguir algo que o próprio corpo está consciente de que não irá conseguir concretizar: levantar-se. As palavras dão lugar a olhares profundos que alcançam o público: o corpo quer ser visto, quer que olhem para ele como algo que existe e pergunta mentalmente “O que vês quando me vês? O que dizes sobre mim?”.

O corpo dói e é novamente arrastado para outro ponto do chão. Desta vez, pressentimos que vai conseguir erguer-se. Os segundos dividem-se entre a euforia e a histeria, a confusão e o delírio. As palavras saem mudas, como à procura de sentido, e ganham voz as marcas de violência no corpo. O corpo desiste. É levado para uma máquina que o ampara e lhe dá a tão desejada sensação de estar de pé. Aqui, o experienciar de novos movimentos leva-o a gravitar, a descobrir novos mundos, mas depressa eles se desmoronam no chão. A cada queda, a violência é maior.

O corpo é então sentado na máquina. Agora, sim, está em segurança. Aprende a moldar-se a esta não normativa forma de existir e ali é novamente deixado, sozinho, preso à máquina que lhe deu a réstia de esperança que buscava.

O outro lado da dança, de Diana Niepce. | © Eduardo Breda

“Existe muita discriminação das pessoas que existem num corpo fora da norma, num corpo em revolução. É um corpo incompreendido em que a sociedade é desenhada não para todos ou em função das necessidades de todos, e, como tal, é um lugar de alguma complexidade, de resistência”, expõe Diana Niepce, a responsável pela performance que acabámos de descrever, em entrevista ao Gerador.

Coreógrafa, bailarina, investigadora e escritora, é uma das mais notáveis artistas de dança contemporânea portuguesa. Desafiador, sensível, inovador e rigoroso são alguns dos adjetivos usados publicamente para caracterizar o seu trabalho, que expande de forma radical os limites do corpo, do movimento e da dança, e usa as fragilidades do mesmo corpo como elemento de superação.

“O meu trabalho é sobre os limites físicos, a peça é muito em função de várias linguagens, de circo, dança, performance - que é a minha história também, a história do meu corpo - e vai trabalhando lugares como a força e a vulnerabilidade, estados psicossomáticos de alheamento, loucura, deslumbramento, êxtase, lugares mais negros – vai viajando em torno destas paisagens ao mesmo tempo que vai trazendo um lugar de transcendência do próprio corpo, que vai trabalhando em vários planos”, revela Diana Niepce.

Vítima de um acidente que a deixou tetraplégica, com O Outro Lado da Dança a artista mostra-nos como sobreviver ao trauma patológico que a sociedade inflige constantemente, dando também visibilidade a discursos historicamente marginalizados perante corpos não-normativos, num trabalho “muito verdadeiro e honesto” que pretende “gerar tensão para o espetador”.

“É uma historiografia dos corpos não-normativos ao longo da história da dança internacional, portanto, traz referência ao trabalho de outros artistas, em que eu me aproprio de uma linguagem específica e de uma linguagem de um corpo que, muitas vezes, foi violentado pelo sistema normativo e pelas normas disseminadas, e que é bastante violento para os corpos não normativos. Trago essa apropriação para o meu próprio corpo e, a partir daí, reconstruí esta peça, que é uma homenagem a estes artistas – muitos deles, que acabaram por se suicidar, pelo peso social que é ser um corpo fora da norma”, afirma.

BAque – Menos um tijolo na parede das velhas narrativas trans

Em BAque, o público é convidado a observar o que seria viver numa utopia, onde todos os corpos são iguais e não existe género nem fatores diferenciadores. É com o som que ecoa dos microfones e deixados levar pelos movimentos da dança que percorremos as vivências de um coletivo trans que apenas celebra a possibilidade de existir.

Nada nesta utopia é estranha ao comum das vidas: celebra-se, esboçam-se sorrisos, chora-se, canta-se e dança-se. Mas há uma característica especial bem presente a cada momento: uma profunda ideia de união que nos é transmitida a cada gesto.

Numa performance multidisciplinar que (re)narra o mundo e as relações que nos conectam com a existência, é através de um ritual de afetos e fábulas que a peça se desenrola, com o grande objetivo de trazer novas narrativas acerca dos corpos trans e das suas peculiaridades.

BAque, de Gaya de Medeiros. | © Diana Tinoco

BAque é como uma tentativa de celebração, de relembrar os motivos que nos tornam felizes, sobre ser uma pessoa com uma identidade que queres ter. Há muitos motivos para celebrar sobre ser quem se quer ser. E não só cirurgias, dores, histórias de violência, mortes. (…) Parece que é mais fácil credibilizar discursos que contêm dor, sofrimento, criamos muita empatia pelo sofrimento mas a empatia é de ‘coitadinha, leva uma vida tão sofrida’, e isso coloca as pessoas sempre abaixo. Por isso, BAque é mais uma tentativa de olhar olho no olho, na mesma linha, e tentar mostrar que pessoas, mesmo sendo tão diferentes, se podem unir e arranjar um motivo para irem para a frente juntas”, explica ao Gerador a autora deste espetáculo-concerto, Gaya de Medeiros.

Coreógrafa, bailarina e um dos nomes mais sonantes no impulsionamento da criação artística protagonizada por pessoas trans/não-binárias, a jovem artista – que criou, inclusive, a BRABA.plataforma com o intuito de viabilizar este mesmo propósito - admite que a sua performance pretende ser “menos um tijolo na parede” das antigas narrativas trans.

“São micro-histórias ou reflexões de cada pessoa, tentei trazer o universo particular de cada pessoa e não trazer nenhuma narrativa que fosse maior do que as pequenas histórias quotidianas daquelas pessoas - é mesmo uma tentativa de pegar o mais banal, casual e real da vida delas, para que elas também possam estar de forma mais honesta no palco e serem generosas e abertas para com a audiência”, elucida.

Um espetáculo que, admite Gaya de Medeiros, quer ainda afetar o público de forma “leve e sentimental”. “Queria que fosse um espetáculo em que as pessoas fossem assistir e se sentissem próximas, que pais pudessem assistir e pensar que se tivessem filhos trans poderiam ser pessoas também felizes, acolhidas, cercadas de afeto, e tentámos trazer para este espetáculo tudo o que nos conecta com a vida e, ao mesmo tempo, alguma coisa que nos desconete da vontade de estar vivas e vivos”, acrescenta.

I’M STILL EXCITED – Uma “triste e nojenta” história de amor contemporânea que terminou mas nunca tem fim

Uma jovem visivelmente nervosa e expectante aguarda pela chegada de um rapaz, enquanto pede a ajuda do público para o surpreender. “Surpresa”, gritamos todos perante um desconhecimento do que se vai seguir. Ninguém nos avisou previamente, mas acabamos por perceber que estamos a assistir, na realidade, a um ensaio de teatro, com todos os seus erros, falhas e discussões.

É-nos dado um pequeno detalhe que faz toda a diferença na história que se segue: os dois jovens são ex-namorados, que viveram em tempos uma “triste e nojenta” história de amor, característica dos tempos contemporâneos, e sentem a necessidade, anualmente, se juntarem para a reviver – ali, desavergonhadamente, à nossa frente.

Nestes encontros, e perante um final de relação que nunca teve um fim assertivo, é indispensável a presença da senhora dona discussão, onde são pormenorizadamente esmiuçadas as inúmeras questões que ficaram em aberto: de quem foi a culpa, de quem são os amigos, de quem foram as ideias ou até o porquê de ‘Ele’ ter criado um perfil no Tinder com a ousada descrição de “gato quer brincar”.

Apesar de tudo, ainda há uma pequena borboleta a habitar no estômago de cada um. A nostalgia leva-os a reviver aquela passagem de ano novo que nunca esqueceram e a hipótese de reatar a relação surge no ar. Mas a ideia depressa se esvanece quando entram na cena os dois atores que vão fazer dele e dela na criação artística que ‘Ele’ andou a planear. ‘Ela’ descobre, o cenário adensa-se e ‘ele’ acaba por implorar pela ajuda dela - a verdade é que, sem ela, ele nunca conseguiria meter de pé o projeto.

Mas as fricções são cada vez mais presentes e violentas. Os gritos, o cansaço e a revolta de ambas as partes culminam numa grande discussão que termina com o espetáculo. No ar, fica a dúvida no público: Numa história que, apesar do término de há alguns anos, nunca o teve na realidade, será que é agora que o terá?

É neste ambiente emoções à flor da pele e retrato cru da realidade de uma ex-relação que acontece a luta pela autoria e controlo da história de amor entre Mário e Rita (e entre um terceiro elemento, Gigi, o sistema de inteligência artificial de legendas que se emancipa durante o espetáculo).

I’m Still Excited, de Mário Coelho. | © Inês Sambas

“Fala muito sobre esta ideia de autoria. De repente, o próprio espetáculo está sempre a jogar com a questão de ‘quem é que encenou isto, de quem é este texto’, que é a mesma coisa que acontece nas relações de ‘quem é a pessoa mais forte, quem é isto e aquilo’. Isto é um casal que se encontra todos os anos para fazer um evento – eles já terminaram a relação mas estão sempre a fazer uma espécie de performance sobre a relação que tiveram. E é também aquela brincadeira das sequelas e das sagas de cinema em que já toda a gente quer que acabe mas continuam a insistir, que é um pouco como esta relação - algo meio perverso e demente, mas que estão a tentar, constantemente, que continue”, explica Mário Coelho ao Gerador.

Atualmente um dos talentos com mais destaque no panorama das artes performativas em Portugal, o ator, encenador, dramaturgo e produtor explica que esta peça – que nasceu em 2020 “sem orçamento e sem apoios, feita apenas à bilheteira” - mistura um tom marcadamente pop e um “revestimento contemporâneo”, que se vai adensando e tornando “mais duro e cru”. “É fruto dos tempos que vivemos. É um produto dos anos 2020 para cima e pretende ser um reflexo sobre as relações contemporâneos e muito sobre a própria ideia de autoria, não só em teatro, mas associada a uma ideia de uma relação amorosa”, refere.

Numa sequela da peça I’m So Excited, apresentada em 2018, a ideia de I’m Still Excited foi também a dar destaque ao papel da mulher na criação artística.

“O que senti foi que a visão da figura masculina imperava muito no espetáculo, então quis fazer uma sequela que fosse uma outra versão da história contada a partir dos olhos da Rita Rocha da Silva. Sendo eu próprio um homem a escrever sobre uma relação, da primeira vez caí muito na ideia de contar só a perspetiva dele, que era uma coisa que não tinha tanta noção. Dois anos depois, quando me confrontei com o espetáculo, percebi”, explica Mário Coelho, que destaca ainda esta tendência ao longo da história das artes performativas.

“Ao longo da história sempre tivemos muitas histórias de casais que trabalharam juntos e infelizmente a História conta grande parte das vezes momentos em que quase sempre as figuras masculinas acabam por prosperar e as figuras femininas são igualmente importantes e fazem parte do processo criativo, mas acabam por nunca ser faladas - por exemplo, o caso do Bob Fosse e a Gwen Verdon, - é muito difícil falar dele sem falar dela, que era também artista dos espetáculos dele. E é isto, como está sempre uma forte figura feminina presente mas nunca é falada”, sublinha.

Echos from a liquid memory – A fragmentação da memória e a sua volatilidade humana

Um aquário repleto de água e com elementos áudio submersos ocupa o centro do Convento de São Domingos. Entre o público, uma jovem figura feminina surge e entra cautelosamente lá dentro, enquanto o som dos pés a bater nas paredes do acrílico se amplifica.

A partir do momento em que se oferece à água por inteiro, a imensidão de sons, ambientes e possibilidades para que nos transporta são tão voláteis e líquidos como a memória. Percecionamos o caos, os gritos mudos, a calma e a tranquilidade, até uma certa resignação. Sentimos a angústia, observamos o desespero, a fugacidade das lembranças, tudo a partir da água, o elemento forte que “carrega uma memória coletiva do mundo, do universo, e não só do ser humano”, conforme refere a intérprete, Carincur.

A trilhar um caminho no cenário artístico marcado pela transdisciplinaridade, onde se cruzam campos como a performance, o som e as artes visuais e digitais, Echos From a Liquid Memory é o culminar de uma longa investigação sensorial e imersiva da artista, que testa as múltiplas possibilidades resultantes da manipulação e processamento do som e imagem digitais através da já referida água.

Echos From a Liquid Memory, de Carincur. | © Inês Sambas

“Acima de tudo, é uma performance e um dispositivo em que, de alguma maneira, nos sentimos todos ligados. Eu gosto sempre de trabalhar com dispositivos híbridos, transdisciplinares: aqui está a eletrotecnia, a engenharia sonora, a performance, a música, o álbum, tudo isso faz parte deste organismo vivo e qualquer um de nós poderia estar ali dentro”, expõe a intérprete em entrevista ao Gerador.

Dentro do aquário, é criado um novo universo, um novo ecossistema, onde as interações de matéria orgânica e não-orgânica coexistem numa narrativa abstrata, tendo como foco a fragmentação da memória e a sua volatilidade na existência do ser humano.

“Fala muito desta questão da memória que a água carrega, que é uma memória coletiva. Ao ver esta peça, que também é um álbum, percebemos três fases da memória – protomemória, memória e metamemória – e quis questionar o que é que são as nossas memórias coletivas, quais é que são as reinterpretações e reivindicações das nossas memórias, até que medida são ficção ou não, como é que as transformamos para nos servirem. Acima de tudo, vai também muito ao encontro de propor que se derrubem estas barreiras das dualidades competitivas entre espécies – como colocamos sempre o ser humano como ser superior, gosto de propor que não somos superiores a nada, às máquinas, aos trans-humanos, e gostava que nos sentíssemos como um só, um ser uno”, acrescenta Carincur.

Tal como a memória, também a interpretação desta peça é líquida. “Uma coisa é quando sentimos a memória que tem muito a ver com a sensação, mas a partir do momento em que a contamos a alguém já é uma perceção sobre a memória, não é bem a realidade. E a história que contamos, e que vivenciámos, tudo isso é muito volátil e líquido”, conclui a artista.

Vära – A urgência do encontro entre corpos e a luta pela suficiência

Sete corpos nus partilham um espaço cercado por plástico, expostos perante uma imensa plateia como se de carne num talho se tratassem. A luz escure e deixamos de os ver. Quando a claridade retoma, todos gatinham em simultâneo em frente, muito lentamente. Todos numa procura e tentativa de diálogo através da repetição.

Mas um corpo começa a ficar para trás, outro começa a andar em sentido contrário, e, de repente, um a um começam a cair. Cair e levantar, cair e levantar, repetidamente. E assim vão acumulando erros, insistindo e ampliando o confronto com a realidade cada um.

As luzes acentuam o conforto e desconforto. Correm, perdem o juízo e voltam a si, sempre à posição inicial, de gatas. Levantam-se. Há uma tentativa de cantar em uníssono que rapidamente os transforma em algo que de monstruoso. A árdua e interminável luta de superação de si mesmos ainda não acabou e testam-se um bocadinho mais, superando e rompendo com todos os limites psicológicos e físicos, mesmo até ao fim.

Vära, de Daniel Matos. | © Inês Sambas

Assim é Vära, a urgência do encontro entre corpos. “Este espetáculo começou por ser uma procura de como é que podes ver as falhas como potências. O lugar da fragilidade, que é sempre algo que te põe num lugar de inferioridade, daquilo que não é suficiente - quão suficiente és para cumprir objetivos que desenhas para ti próprio e que depois não cumpres, qual a suficiência que tens na tua existência, o quão suficiente és para o mundo e para os outros, e partiu daí, desta ideia de ‘o que é que é isto de ser suficiente e qual a ideia de limite nessa suficiência, e como é que dentro disso encontras uma fragilidade que é uma potência. E não ter medo que a vulnerabilidade se torne num lugar de poder”, descomplica Daniel Matos, o coreógrafo e artista visual responsável pela obra.

Está na lista de nomes em destaque no panorama da dança contemporânea em Portugal e é através das suas coreografias arriscadas, sofisticadas e fisicamente impactantes, abraçadas por uma linguagem madura e rigorosa, que o artista pretende alcançar o seu propósito de “perceber como é que nós conseguimos encontrar uma naturalização do corpo em que te possas permitir sentir fisicamente, emocionalmente e psicologicamente as coisas e partilhar com os outros”.

“Ao mesmo tempo, há também uma ideia de como é que consegues estar presente, e essa presença ser feita através da tua carne. Como é que a carne e a matéria podem ser levadas a um limite em grupo, e encontramos uma força comum, apesar de ser uma revolução individual”, acrescenta, explicando que apesar do conceito de grupo, é muito clara a ideia “do que é estar sozinho em grupo e estar em grupo sozinho”. “Não há um individual de destaque mas há um individual vincado dentro do grupo. Porém, aqueles individuais necessitam do grupo para que a partitura possa existir”, elucida.

Meu Profano Corpo Santo – A ousadia de desafiar o sagrado

Tocam os sinos da Igreja e uma melodia vincadamente religiosa ecoa por todo o jardim do Convento de São Francisco. À nossa frente, mesmo ao centro, um altar apresenta-se completo com tudo aquilo que é essencial: bíblia, velas e vinho colocados sobre uma toalha lisa.

Entre os espectadores, surge uma figura vestida de branco, com uma lanterna de velas na mão e um olhar tímido, que transparece uma dualidade de receio e culpa. Mas tudo muda a partir do momento em que sobe a palco, bebe ininterruptamente e sem remorsos o copo de vinho e despe o manto branco que a cobria. E agora? O que fazer para se livrar de tal pecado? Rezar. É durante essa reza que começa a busca pela compreensão das relações do seu corpo com a ordem do divino.

Estrangula-se a si própria, chicoteia-se e castiga-se. O castigo confunde-se com o prazer num corpo que se acusa a si mesmo de blasfémia e onde a inquirição cresce a cada momento. Numa tentativa de resolver o conflito da comunhão e do sagrado, despeja sobre si a cera a escaldar das velas, chora e sai de cena.

O corpo reaparece, desta vez, assente em pernas de pau e mostrando-nos um conceito distinto de sagrado e profano. Aqui, os julgamentos são deixados para trás, o altar incendeia-se e a música religiosa dá lugar a música de festa, enquanto a culpabilização dá lugar à celebração.

Meu Profano Corpo Santo, de Keyla Brasil. | © Inês Sambas

“O Meu Profano Corpo Santo é um espetáculo ritual, sobre o corpo e as suas possibilidades de entrar nas suas próprias camadas, buscar dentro desse corpo o que é sagrado, o que é profano, o que é puro, impuro, o que nos salva e o que nos mata. Levamos para o palco arte e vida, um corpo que se entrega ao risco, um corpo vulnerável, que se entrega para uma busca de algo que é muito sagrado e algo que é muito profano, que vai em busca de”, revela, ao Gerador, a responsável pela obra, Keyla Brasil.

Com uma sólida formação em teatro e performance de rua, tendo conduzido processos artísticos em prisões e favelas no Brasil, Keyla foi recentemente protagonista de uma das ações que mais fez refletir sobre a discriminação nos palcos portugueses, ao interromper um espetáculo no Teatro São Luiz, em Lisboa, para protestar contra uma situação transfake e reivindicar a igualdade no acesso a oportunidades profissionais para artistas trans.

Através de Meu Profano Corpo Santo, a artista segue a linha de despertar a reflexão no público, através da mimese da sua própria vida, numa poderosa performance que aborda as insurreições de corpo e género.

“A gente entrega a ideia e cada um reflete a partir das suas vivências. Vamos buscar o que é sagrado e o que é profano, dentro de um processo de colonização. Por exemplo, eu sou latina, da floresta amazónica, e no processo de colonização o que para o colonizador era sagrado para nós era profano, e o que para nós, povos ancestrais, é muito sagrado, para o colonizador é profano. E a gente leva os dois ao mesmo tempo: o que pode ser sagrado para você, para mim pode ser profano”, refere acerca da performance.

Info maníaco – Os dias passam, tudo é sobre nada e todos somos eternos

Isto é sobre nada. Mas é, ao mesmo tempo, sobre tudo. Sobre não sermos opacos e sermos fósseis, mas também feitos de água, sobre o som da flauta na Roma Antiga e as memórias do Teatro Praga, sobre tropeçar e bater com a cabeça, sobre anfioxo na brasa e o conhecimento quântico, sobre sermos um fluxo de eventos, sem sinopse, início, meio nem fim. Isto é sobre o passar do tempo e sobre ocupar o tempo, sobre os tempos que se cruzam e a necessidade de se ser incondicional para o ter.

Confuso? Não, isto é apenas um cérebro infomaníaco a funcionar, numa produção consecutiva de ideias, pensamentos e memórias do seu repertório de experiências, em simultâneo com uma infinidade frenética de movimentos corporais, que não lhe deixa tempo sequer para escrever poesia.

É seguindo uma ordem desordenada que a obra Info Maníaco repensa a entidade figurativa do seu intérprete, que contém todos os dias e todos os tempos. Intérprete esse que revela tanto sobre si como ser tudo menos ele: estamos perante um desmantelamento constante do artista.

Info Maníaco, de André Teodósio. | ©Paulo Pacheco

“É uma articulação de vários saberes, tem múltiplos tempos em que me vou desmontando. O que faço é um desmantelamento de uma ideia de ‘eu’. Que ideia é que tenho de mim, que os outros podem ter de mim, como é que sou lido no mundo. Eu sou uma escultura que estou a conversar sobre o tempo real onde me estou a movimentar, onde me estou a desmontar, mas também articulo com o conhecimento do próprio cérebro sobre si, neurologia, ou o facto que une tudo isto é o planeta, portanto também física quântica e cosmologia”, explana ao Gerador André Teodósio, o autor da performance.

Membro do icónico Teatro Praga e influente figura no panorama do teatro português, com os seus espetáculos a circular nos mais variados palcos europeus, o ator e escritor apresenta em Info Maníaco um espetáculo de resposta.

“Enquanto no espetáculo Super Gorila eu tentava rebentar com o mundo, dizia que as normas não chegam, temos que alterar o status quo, alterar a normatividade que nos impõem comportamentos sociais – ou seja, aquilo que constituía a realidade não me servia, e entrava para rebentar - neste espetáculo é o contrário, já não quero rebentar com o mundo, quero só desmantelar-me. É um olhar retrospetivo sobre mim, sobre a história do Teatro Praga, sobre as ideias que defendo, algumas que vão mudando, é um espetáculo de resposta. Nós enviamos muitos e-mails de resposta mas não fazemos espetáculos de resposta a outros espetáculos”, explica.

Quanto ao conceito de infomaníaco, remete para o bombardeamento constante de informação. “Muitas vezes achamos que não queremos pensar e só queremos ficar no sofá a ver um filme ou o que seja, mas o corpo não se esquece que estão 600 músculos em movimento, que há fome, digestão, bactérias, vírus, portanto, infomaníaco não é necessariamente alguém que sabe muito, mas no fundo sabemos muito mesmo que queiramos fingir que não sabemos”, explica o artista.

No fim de contas, tudo é sobre nada e o tempo continua a correr. Os dias passam e todos somos para sempre.

Texto de Ana Rita Cristóvão

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