Há um velho ditado alemão que diz “o ar da cidade confere liberdade” (“Stadtluft macht frei”). A afirmação está na génese do fenómeno que ao longo dos séculos determinou as cidades como lugares de cosmopolitismo, o espaço por excelência de encontro com o outro. Nos dias que correm, e já bem no centro daquilo a que vários autores chamam a nova crise urbana, numa equação complexa em que se pode juntar os efeitos do confinamento populacional face à pandemia, podemos finalmente começar a pensar as cidades do futuro?

Ao lermos Watermark, do poeta Joseph Brodsky, subsiste uma lição que pode ser importante para um pensamento mais estratificado sobre as nossas cidades e o futuro das mesmas: no seu retrato reflexivo sobre Veneza, é fácil entender que a ‘Sereníssima’ (como é também conhecida) não é uma cidade para ver, senão uma cidade para ser experienciada. Não obstante, importa salientar que essa mesma Veneza por onde o poeta passou, e onde a água que a sustenta funciona como espelho da sua própria narrativa histórica, não é a mesma de hoje.

No seu livro Se Venezia muore (2014), o arqueólogo e historiador de arte italiano, Salvatore Setti, alerta para o decréscimo populacional de Veneza, onde o rácio atual é de 140 turistas para um residente. Mais do que isso, o autor alerta para o facto das principais conquistas da civilização ocidental enfrentarem uma ruína iminente por força do turismo de massa e de uma determinada homogeneização cultural.

Importa, pois, perceber como queremos perspetivar as cidades do futuro, que flutuam num equilibrado jogo de escolha, em que, por um lado, não se coloca em causa o turismo (necessário), mas por outro existe a necessidade de melhoria das condições de vida para os residentes destes aglomerados urbanos. E sem que nada o previsse, a atual conjuntura traz, mais uma vez, à tona a necessidade de um melhor planeamento sobre a utilização do espaço público. E nada melhor do que pensá-lo através da cultura.

Durante as últimas décadas multiplicaram-se os exemplos de territórios que se transfiguraram a partir da implementação de projetos culturais, cuja ação tem ajudado a criar novas dinâmicas em diferentes zonas das cidades, promovendo o aparecimento de uma vida renovada a muitos bairros, criando fatores de atratividade turística e cultural. O caso pode ser facilmente analisado a partir da perspetiva de Lisboa, onde a tendência de crescimento do turismo se tem alavancado em boa parte nessa mesma dinâmica.

Numa entrevista recente à revista portuguesa Smart Cities, Richard Florida, autor de The Rise of the Creative Class e The New Urban Crisis, sublinha que a pandemia veio acentuar os sintomas dessa crise. A gentrificação, o decréscimo e envelhecimento populacional e a forma como os agentes políticos são coniventes com estes fatores retratam bem o adensar deste debate. Note-se. por exemplo, o caso de Fernando Medina, atual presidente da Câmara de Lisboa, que após tantos anos a defender a necessidade de um turismo que alavancasse a economia, se venha agora retratar dessa mesma postura, considerando que a capital portuguesa deve constituir meios para restringir o aumento de alojamentos locais, como forma de devolver a cidade aos seus cidadãos.

O momento que vivemos é especialmente propício a reflexões mais opinativas sobre a forma como pensamos o lugar onde vivemos. Mas é preciso questionar: será que uma boa parte das populações vive na cidade por escolha efetiva? Ou apenas pela facilidade de encontrar melhores condições de vida? A cidade onde escolhem fazer as suas vidas deve ter apenas esse intuito ou deve provê-las de um quotidiano mais rico cultural e socialmente?

Vemos de que forma é que, por exemplo, a arte pública tem sido essencial para revitalizar o próprio património e de que forma é que diversas entidades têm feito um esforço para tornarem as próprias atrações citadinas (no entendimento turístico) mais acessíveis e atrativas. Mas será que a população residente entra verdadeiramente nessa equação?

Richard Florida defende que este momento pode ser fundamental para trabalhar sobre o carácter inclusivo das cidades e que nas mesmas deve imperar uma postura resiliente de proteção daqueles que ali vivem. Acredito que, para isso, importa olharmos para o espaço público como lugar da cultura, tendo uma oferta orientada para aqueles que não desejam apenas ver, mas sim experienciar e absorver o que uma cidade tem de melhor.

Juntava igualmente a esta reflexão o facto de termos hoje nove cidades portuguesas – Leiria, Coimbra, Faro, Viana do Castelo, Aveiro, Évora, Braga, Guarda e Oeiras – candidatas a Capital Europeia da Cultura 2027. Deve salientar-se que, para isso, se exige um programa bem pensado que apresente argumentos favoráveis à escolha final. A cultura está no centro destas candidaturas e todas estas cidades terão necessariamente de procurar formas de mostrar como o espaço público é fundamental para essa fruição. As cidades envelhecem com as pessoas que lá vivem, mas envelhecem mais ainda com a falta de uma postura cívica sobre o que as mesmas significam na vida das populações. Estou convicto de que cultura pode ajudar a definir melhor esse significado.

-Sobre Ricardo Ramos Gonçalves-

Ricardo Ramos Gonçalves nasceu em Castelo Branco, em 1995, mas é em Lisboa que reside e trabalha atualmente como jornalista no Gerador, plataforma de comunicação na área da cultura que lhe permite estar envolvido em projetos artísticos que escapam às próprias fronteiras do universo da comunicação. É licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e mestre em História Moderna e Contemporânea pelo ISCTE. Ao longo deste tempo de itinerância entre áreas de estudo – que lhe permitiu viver e estudar por um breve período em Pádua, em Itália –, tem-se dedicado e envolvido sobretudo em iniciativas de âmbito cultural, em especial nos campos da literatura, do cinema e das artes visuais.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Andreia Mayer
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