Se pesquisarmos, atualmente, num motor de busca por “indústrias culturais e criativas” damo-nos conta da multiplicidade de estudos e cursos existentes, debruçados sobre uma temática que há 10 anos era praticamente desconhecida em Portugal. Falamos de uma área que embora ainda esteja num certo estágio de desenvolvimento, é hoje cada vez mais reconhecida pela sua importância e abrangência. E apesar de ser confrontada com os desafios de um fraco nível de investimento – público e privado –, não lhe faltam cursos superiores que lhe imprimem uma necessidade de atualização contínua, reforçando a sua presença.

Mas será que já existe um consenso relativamente à sua definição? Na sua página online, a Direção-Geral das Atividades Económicas (DGAE) define-a como área agregadora de “um conjunto de atividades que têm em comum a utilização da criatividade, do conhecimento cultural e da propriedade intelectual como recursos para produzir bens e serviços com significado social e cultural, como sejam as artes performativas e visuais, o património cultural, o artesanato e a joalharia, o cinema, a fotografia, a rádio, a televisão, a música, a edição, o software educacional e de entretenimento (assinaladamente vídeo jogos) e outro software e serviços de informática, os novos Média, a arquitetura, o Design, a moda e a publicidade”.

A tendência para este tipo de entendimento em rede decorre igualmente de uma mudança nos paradigmas de desenvolvimento económico e social a que se tem assistido, que integram crescentemente novas dimensões culturais e criativas, contribuindo, em última instância, para um maior alargamento do próprio conceito de cultura. De acordo com um relatório de 2016 da Agência para o Desenvolvimento das Indústrias Criativas (ADDICT), intitulado A economia criativa em Portugal Relevância para a competitividade e internacionalização da economia portuguesa, são vários os factores que evidenciam essa crescente relevância.

Entre eles está a “melhoria do nível de rendimento médio das famílias”, a afirmação de um “mercado global de bens e serviços”, a “abertura de novos espaços de conhecimento, de difusão da cultura e de acesso à informação” ou ainda o aumento de número de empregos nesta área. Paralelamente, a cultura foi-se convertendo, em vários domínios, num “segmento de mercado” em ascensão sob o impulso de consumidores que afetam parcelas crescentes do seu rendimento para adquirir “produtos culturais”.

Falamos então de um fenómeno de massificação no consumo (cultural e não só), que coloca noutros termos a relação entre cultura e economia, assim como o entrosamento entre a parte mais criativa, relacionada com as diversas atividades artísticas, e a ascensão das tecnologias digitais. Foi justamente esta complexidade que levou Dora Santos Silva, docente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa, no departamento de Ciências da Comunicação, à elaboração de um curso que correspondesse ao crescente interesse por parte dos estudantes na mesma. E não foi a única instituição a seguir o mesmo caminho.

As indústrias culturais e criativas: que papel a desempenhar nas universidades portuguesas
De ano para ano é possível que apareçam mais cursos e em diferente graus, mas para já é possível contar pelos menos meia dúzia de formações superiores relacionadas diretamente com a área das indústrias culturais e criativas. Debrucemo-nos sobre algumas destas.

Na FCSH, a pós-graduação em Comunicação de Cultura e Indústrias Criativas, coordenada por Dora Santos Silva, vai entrar este ano na sua 2.ª edição, tendo a duração de dois semestres e 30 vagas, todas elas já ocupadas. Em entrevista ao Gerador, a docente conta que esta edição do curso teve em média três vezes mais candidatos do que o número de vagas disponíveis, entrando, desde logo, para o top 3 das pós-graduações mais concorridas da faculdade.

De acordo com Dora Santos Silva, a pós-graduação surgiu de uma necessidade identificada ao longo dos últimos anos quer como resultado da sua investigação académica na área dos media digitais e da comunicação de cultura, quer sobretudo da sua experiência profissional, que foi marcadamente híbrida. “Se no início pensava que esse hibridismo ou interdisciplinaridade me prejudicaria, acabei por perceber que era precisamente isso que faltava num curso”, sustenta.

Tendo desempenhado diversas profissões, todas ligadas ao vasto universo da comunicação, Dora percebeu a necessidade de um curso que abordasse todas as vertentes necessárias em que tinha trabalhado: “conteúdos, comunicação estratégica, programação, estratégia, modelo de negócio, media digitais e criativos, além do suporte teórico fundamental relacionado com as cidades criativas e as questões contemporâneas da cultura”.

Considerando que existe atualmente “muito mercado de trabalho” na área da cultura e da criatividade, que também dialoga com a área do turismo, a responsável sublinha que, embora o curso esteja desenhado para um determinado perfil de alunos – “profissionais e recém-licenciados na área da comunicação e da cultura” – a sua procura tem chegado a um público mais heterogéneo.

“Há quem queira adquirir mais robustez teórica para poder refletir de uma forma informada sobre a cultura de hoje, há quem queira seguir uma carreira no jornalismo cultural, há quem queira lançar um projeto próprio e há – a maior fatia – quem queira adquirir competências muito específicas na comunicação em instituições culturais, recorrendo às potencialidades dos media digitais”, sintetiza.

A docente realça ainda o facto deste tipo de formações evidenciar como a relação das pessoas com as universidades está a mudar. Para Dora Santos Silva, “o objetivo já não é só fazer uma licenciatura ou mestrado e começar a trabalhar. As universidades dão formação ao longo da vida, para uma pessoa se atualizar, otimizar competências ou mudar de projeto de trabalho. Portanto, cada vez mais há profissionais com carreiras muito bem remuneradas e consolidadas, mas que querem voltar à universidade para ter essa formação mais prática”.

A união de universidades em torno da temática como fator de diferenciação
A crescente procura por estas áreas tem promovido igualmente um maior número de parcerias entre instituições de ensino superior, no sentido de poderem melhorar a sua oferta formativa. É caso da Escola Superior de Comunicação Social (ESCS) que se uniu à Faculdade de Belas-Artes e à Faculdade de Letras, da Universidade de Lisboa, para imprimir outra maior dinâmica no curso de Pós-Graduação em Indústrias e Culturas Criativas: Gestão e Estratégias. Além disso, explicam no sua página online, a iniciativa é “reflexo de um dos eixos estratégicos da Escola – a aproximação ao mundo empresarial – e das políticas públicas relacionadas com o setor criativo”.

Com cerca de 25 vagas, o curso, que no próximo ano lectivo não se encontra em funcionamento, tem entre outros objetivos “aprofundar conhecimentos sobre Indústrias Criativas e Culturais, desenvolvendo componentes aplicadas de Estratégias, Políticas e Empreendedorismo, numa perspetiva interdisciplinar”, e “estimular o desenvolvimento de uma visão integrada e completa” sobre o setor.

Mais a norte, a Universidade Católica do Porto seguiu igual tendência, juntando desta vez duas das suas escolas: a Escola das Artes e da Católica Porto Business School, responsáveis pelo mestrado em Gestão de Indústrias Criativas. “O sector cultural e criativo caracteriza-se por ter na criatividade e no capital intelectual os seus principais valores. A sua natureza multidisciplinar, interdisciplinar e transdisciplinar requer processos de colaboração e cooperação que juntem capacidades criativas e competências de gestão”, explicam no texto de apresentação do curso.

A formação conta com um plano curricular polivalente, que aborda disciplinas como “Gestão Empresarial e Estratégia nas Indústrias Criativas”, “Arte, Cultura e Indústrias Criativas” ou “Legislação nos Setores Cultural e Criativo”, tendo o objetivo final de “qualificar profissionais (…) para responder à procura do setor produtivo do sector cultural e criativo”.

Efetivamente, estamos perante uma área de estudo que não sendo nova, tem ganho maior relevância ao longo das últimas décadas em função do alargamento do conceito de “cultura” mas também da noção cada vez mais vasta de sector cultural. Mais do que isso, estamos perante uma área profundamente impactada pelo potenciar das tecnologias de informação, o que obriga as instituições culturais a terem que dominar os media digitais para comunicar e inovar no seu próprio produto.

É sob esta perspetiva que Dora Santos Silva salienta que, embora possam aparecer mais formações idênticas no futuro, o segredo para o sucesso das mesmas reside na sua atualização permanente, “sob o risco de não corresponderem às necessidades do mercado.  Por outro lado, Dora sublinha a necessidade de uma maior inovação “nas áreas das ciências sociais, das artes e das humanidades”, que fortaleçam o papel das universidades e o papel que estas podem ter no desenvolvimento de mais e melhores profissionais na área da cultura.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Glenn Carstens-Peters via Unsplash

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