Uma coisa perturbou, desde muito cedo, o correr dos dias. Já tinha reparado nisso no liceu, ao pousá-las sobre a carteira. As suas mãos eram grossas, quase desproporcionadas, em relação aos braços. A pele opaca e peluda, até por cima dos dedos, como uma forragem. Mãos morenas, rudes.

Escondia-as nos bolsos, davam jeito os bolsos. Assim evitava agredir os outros com a massa impositiva que, cada vez agitando os braços, ocupava o espaço todo. Quase que podia provocar uma pequena ventania, ao abaná-las!

Desde a juventude pareceu tímido e metido consigo próprio, apesar de alto e forte. As mãos dentro dos bolsos levantavam-lhe os ombros e ficava com o pescoço meio enterrado ali, a cabeça inclinava-se para baixo. Andava sempre de sacola, para não ter de segurar malas ou pastas e exibir o par que devia ficar no recato das calças, casacos, gabardinas.

Passava por malcriado. Se alguém cheio de sacos deixava cair alguma coisa, não era ele que acudia. Se uma pessoa idosa carregava peso a mais, não se oferecia para a ajudar. Tinha vergonha de exibir a esquerda e a direita, ambas motivo de censura.

Evitava andar de bicicleta ou jogar ténis.

Não dava abraços nem apertos de mão. Limitava-se a abanar a cabeça em sinal de cumprimento.

Nunca batia palmas nos concertos, aniversários, festas em geral. Passava por arrogante e amiúde, por grosseiro.

A mulher gostou dele assim. Enfiado. Escapulido entre uma camada de vestimentas. Metido consigo próprio, como ela dizia.

Raramente lhe via as mãos, mesmo no sexo, ele preferia fazê-lo no recato da noite escura, tinha receio de a atemorizar com a visão excessiva dos polegares. E o seu dedo mínimo! Que ironia chamar-lhe mínimo!

Trabalhou toda a vida como vigilante num centro comercial, à frente de três ecrãs, avisando, quando necessário, os seguranças, a propósito da senhora que tinha metido dois pares de slips, à socapa, na mala ou do miúdo que surripiava rebuçados. Ali, na sala de vigilância, estava sozinho, não podia incomodar ninguém com a presença impositiva das manápulas.

Quando a filha nasceu, nunca lhe deu colo à frente de estranhos.

E os anos, as décadas, passaram, neste cuidado de dissimulação.

Certa terça-feira, teve uma pontada aguda no ventre. E mais outra. E outra. Foi-lhe diagnosticado um cancro no pâncreas. Deram-lhe, no máximo, um ano de vida.

Dia após dia, começou a mirrar. Aquele ar de matulão foi-se desfazendo. O corpo perdeu o músculo, caíram os cabelos, toda a penugem corporal desapareceu. A pele ficou translúcida, leitosa. A filha ia visitá-lo ao hospital, já acamado. Agora, não escondia as mãos. Antes pelo contrário, colocava-as sobre os lençóis imaculados, exibi-as vistosamente.

- Joana, já reparaste?

-O quê, pai?

- As minhas mãos. Viste como a pele está fina? Até se vê o azul das veias, como nos príncipes. Olha, estão finas e elegantes as minhas mãos! Tão bonitas! Lindas!

- Joana?

-Sim, pai?

- Promete-me uma coisa. Estas mãos são mesmo lindas, assim como estão. Elas merecem ser vistas. Quando eu morrer, diz-lhes para as cortar e pô-las num daqueles frascos de vidro, com líquido, sabes? Aqueles onde se veem as rãs, os peixes e os bebés que nasceram antes de tempo?

Estas mãos maravilhosas! Quero que todos possam admirar as minhas mãos.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier

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