As mulheres são a grande força revolucionária da humanidade. Uma força latente, pouco consciente de si mesma, tímida, por vezes incoerente. Não admira. A sociedade foi-se desenvolvendo de modo a garantir o domínio dos homens e a subjugar as mulheres. Veja-se as religiões. Todas, sem exceção, assumem como grande propósito a repressão do feminino. Colocando as mulheres num plano inferior, perverso, perigoso. Bruxas, adulteras, histéricas, foram sendo queimadas e apedrejadas através dos tempos. E continua. A mulher é o mal absoluto de todas as religiões. Os talibãs aparecem hoje como os mais radicais, mas na verdade seguem a mesma norma presente nos chamados moderados de todas as restantes crenças e cânones. É preciso, a todo o custo, submeter as mulheres.

Se nas religiões o ódio à mulher é uma evidência bem documentada, na organização social ele é igualmente uma constante. A civilização tornou-se num sofisticado mecanismo de dominação masculina sobre as mulheres. Tudo é pensado para garantir a sua dependência ao macho, pai, irmão ou marido. A família é patriarcal ainda que a vida humana seja radicalmente matriarcal. Somos todos descendentes de uma única mãe. Os direitos das mulheres são constantemente diminuídos, as restrições enormes. Recorde-se que, em vários países da Europa, só recentemente as mulheres foram permitidas a viajar sem consentimento do marido. Ou que, na civilizada Suiça, só em 1971 lhes foi dado o direito de votar. A história da opressão sobre o feminino é conhecida, chocante e continua até hoje de muitas formas.

Neste contexto, os pais preferem ter filhos a filhas; o ensino privilegia os rapazes às raparigas, embora estas sejam mais inteligentes e aplicadas; no mundo do trabalho a discriminação é salarial, mas ainda mais flagrante ao nível das chefias.

Por outro lado, a agressão sexual, explicita ou implícita, é constante. O abuso e a violação são uma prática comum em muitas sociedades. Nas relações de trabalho o assédio é uma realidade. Sendo a violência doméstica o corolário de uma sociedade que desvaloriza e fragiliza as mulheres.

As soluções não são brilhantes. Nas últimas décadas vai-se falando de quotas e paridades. No entanto, as capacidades das mulheres são avaliadas à luz de parâmetros masculinos. Assim, embora, nalgumas partes do globo, as mulheres venham ganhando relevância no mundo da política e das empresas, o domínio masculino mantém-se. Porque é a sua visão do mundo que prevalece. E, esta, convenhamos, não tem tido um grande sucesso. Pelo contrário, é uma catástrofe. Por isso, talvez seja altura de dar uma oportunidade à outra metade.

As formigas, e outros insetos sociais, resolveram o assunto expulsando os machos das suas colónias. Servem fugazmente a reprodução e de seguida são banidos. Estas sociedades, radicalmente feministas, funcionam bastante bem. Serão um modelo possível para o futuro? Quando os homens tenham destruído por completo o planeta? Ou, melhor ainda, e que tal uma parceria entre mulheres e máquinas, deixando aos homens a tarefa da reprodução e do entretenimento. Aliás, as máquinas não têm género.

-Sobre Leonel Moura-

Leonel Moura é pioneiro na aplicação da Robótica e da Inteligência Artificial à arte. Desde o princípio do século criou vários robôs pintores. As primeiras pinturas realizadas em 2002 com um braço robótico foram capa da revista do MIT dedicada à Vida Artificial. RAP, Robotic Action Painter, foi criado em 2006 para o Museu de História Natural de Nova Iorque onde se encontra na exposição permanente. Outras obras incluem instalações interativas, pinturas e esculturas de “enxame”, a peça RUR de Karel Capek, estreada em São Paulo em 2010, esculturas em impressão 3D e Realidade Aumentada. É autor de vários textos e livros de reflexão, artística e filosófica, sobre a relação Arte e Ciência e as implicações, culturais e sociais, da Inteligência Artificial. Recentemente, esteve presente nas exposições “Artistes & Robots”, Astana, Cazaquistão, 2017, no Grand Palais, Paris, 2018, na exposição “Cérebro” na Gulbenkian, 2019 e no Museu UCCA de Pequim, 2020. Em 2009 foi nomeado Embaixador Europeu da Criatividade e Inovação pela Comissão Europeia.

Texto de Leonel Moura
Fotografia Bebot
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
gerador-gargantas-soltas-leonel-moura