Quando era pequena, na minha cozinha viviam três mulheres nuas: uma que cosia (Machine Worker in Summer, Madame Yevonde) e outras duas que olhavam para mim enquanto uma agarrava o mamilo da outra (Gabrielle d'Estrées et une de ses soeurs, autor desconhecido) — viviam as três dentro dos postais do frigorífico e assustava-me que alguém as pudesse descobrir assim: nuas.

Elena Ferrante no livro As Margens e a Escrita conta que, quando era jovem, sentia vir das páginas que escrevia uma voz de homem que tentava imitar. Como lia muito e quase nada do que gostava fora escrito por mulheres, ficou-lhe a ideia de que o seu cérebro de mulher a limitava “e portanto nunca seria capaz de escrever livros como os dos grandes escritores”.

Quando a minha mãe leu isto perguntou-me se também eu, como Elena Ferrante e ela própria, sentia a pressão para criar como um homem; eu disse-lhe convictamente que não. Menti: ainda esta semana comecei a escrever sobre nudez e parei, ao fim de meia dúzia de parágrafos, a pensar não posso falar sempre sobre feminismo, quando eu não estava a escrever sobre feminismo, estava simplesmente a contar uma experiência minha — a escrever como uma mulher, a criar como uma mulher, e pareceu-me errado.

Crescemos e surge o quem és? quem sou? e eu achava, no auge da minha adolescência, que era muito madura por me definir apenas pelo que fazia e pelo que dizia; por dizer que o meu corpo continuava a ser meu, mas já não era o eu — na verdade, sentia que tinha de pô-lo de lado para que ser mulher não me limitasse.

Nessa altura, rejeitei tudo o que fosse demasiado físico: não pintei, não dancei, não fotografei. Até nas minhas memórias passei a ver-me como uma cabeça flutuante com contornos indefinidos. Finalmente gostava de viver e este monte de pele (fraca, feminina) não me permitia a eternidade; tinha medo que ela quebrasse, falecesse, paralisasse. De repente, puf — campa.

Na altura, se me pedissem para me desenhar, não o saberia fazer — provavelmente por vergonha que me vissem de forma tão sincera. Hoje, se me pedissem para me desenhar, desenharia uma mulher casa, como as de Louise Bourgeois.

Na minha casa há loiça por lavar, alguns armários não são abertos faz anos e as janelas do último andar rangem ao abrir. Rangem e eu ponho a cabeça de fora e olho para os pés pequeninos lá em baixo que não param quietos e abanam a casa toda; até já desisti de ter frascos e frasquinhos: não sei onde os pôr e estão sempre a cair. Aqui, tudo o que estiver a mais deita-se fora, e mesmo assim há tanta coisa que ou andamos em biquinhos dos pés ou pisamos os desenhos espalhados pelo chão.

O soalho é pinho-branco; às vezes, no verão, ponho a casa ao sol e ela lá ganha uma corzinha — o soalho fica pinho-bege. Nunca pintei as paredes, nem as quero pintar: gosto da minha casa caótica e de pântanas, com muito por aprender.

As ervas do jardim crescem e crescem e estão por cortar, e no topo da casa há uma pitangueira que a protege do sol e que eu decoro de vez em quando com ganchinhos coloridos, mas nada de muito arrojado, falta-me a paciência. Não tenho plantas — acabo sempre por as deixar morrer.

Na minha casa há muitos livros — metade deles nunca hei de ler — e a cada mês que passa uma nova rotina: este mês comemos muitas laranjas e papas de aveia (até já não aguentarmos mais), e para o mês que vem quem sabe? Talvez morangos e manteiga de amendoim. Os vizinhos dizem que é um mau hábito, eu digo: temos pena, a minha casa é nova e quer coisas novas. Vou até à pontinha dos dedos das mãos (longe das janelas para que os frascos não me oiçam) gritar aos pés que me levem a dançar que já estamos parados há muito tempo!

A minha casa cheira sempre a comida e há sempre pessoas a entrar e a sair. Na cozinha vivem três mulheres nuas: uma que cose e outras duas que olham para mim enquanto uma agarra o mamilo uma da outra. Chamem as visitas; espero que as descubram assim: nuas.

-Sobre a Noa Brighenti-

Noa Brighenti começou por colecionar conchas e cromos aos 6 anos. Com 9 recitou o seu primeiro poema, teve o seu primeiro amor e deu o seu primeiro concerto no pátio da escola. Fartou-se dos museus aos 13, jurou que nunca mais pintaria aos 14 e quando fez 17 desfez este juramento. Com 20 anos, coleciona gatos e perguntas. Pelo meio, estuda Direito na Faculdade de Direito de Lisboa, anda, pinta e lê. De vez em quando escreve — escreve sempre de pé.

Texto de Noa Brighenti
Fotografia da cortesia de Noa Brighenti
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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