As histórias mais comuns que ouvimos e contamos são as dos livros de contos de fadas sobre príncipes e princesas, beijos a dormir e salvamentos de donzelas em apuros. As protagonistas são mulheres (cis, heterosexuais) que precisam de ser salvas, que procuram e/ou esperam por quem as salve, normalmente homens (cis, heterosexuais) que têm a força, a perspicácia e, claro, uma aparência impecável de galã de cinema. Histórias sempre acompanhadas de “já passou” e/ou de “tudo vai ficar bem”.

Sempre gostei de contar histórias e de ouvir as histórias das outras pessoas. Existem grupos de pessoas que se reúnem para contar as suas histórias, onde em poucos minutos ficamos a saber daquelas pessoas, factos, acontecimentos e outros momentos que talvez nunca tivessem sido contados, ditos em voz alta. Estas histórias raramente são acompanhadas de “já passou” ou de “vai ficar tudo bem”. O que acompanha muitas vezes esta história é um disclaimer logo no início que é “esta história não tem um final feliz”. Podem ter esperança, aprendizagem, luto, vulnerabilidade, mas raramente têm um final feliz.

No dia 20 de Novembro contamos histórias de pessoas que ficam na nossa memória porque não tiveram um final feliz.

Dia 20 de Novembro é o DIA DA MEMÓRIA TRANS.

Segundo dados da Transrespect: no último ano (Setembro 2020 - Setembro 2021), 375 pessoas trans foram assassinadas. Estes são apenas os números que são visíveis, das histórias que foram contadas. O número ao certo não sabemos porque muitas pessoas não vêem a sua identidade reconhecida, há países em que não se consegue saber estes números e muitas pessoas trans são mortas pela transfobia mesmo que não sejam assassinadas.

São várias as razões que nos fazem ter a certeza que, a este número enorme, se soma um número invisível.

Gosto de contar histórias e de ouvir as histórias das outras pessoas. Gostava que as pessoas gostassem de ouvir mais histórias de pessoas trans. Histórias de pessoas que ao lutarem pelos direitos de um grupo de pessoas que é discriminado, desprezado, violentado e assassinado pela sua identidade de género, aparência, gestos, maneira de ser e de estar, está também a lutar para que todas as pessoas possam ser mais livres.

Não perceber o contributo destas vidas, destes corpos para o mundo inteiro, é não perceber que muito mais é o que nos une do que aquilo que nos separa e a diferença não nos separa, ela soma, complexifica, mostra-nos que podemos ser exatamente quem somos. Por isso continuamos a contar as histórias de quem veio antes de nós para nos dar lugar.

Lista de nomes de pessoas trans assassinadas no ano 2020/2021 e um pouco das suas histórias podem ser encontradas aqui.

-Sobre Alexa Santos-

Alexa Santos é formada em Serviço Social pela Universidade Católica de Lisboa, em Portugal, e Mestre em Género, Sexualidade e Teoria Queer pela Universidade de Leeds no Reino Unido. Trabalha em Serviço Social há mais de dez anos e é ativista pelos direitos de pessoas LGBTQIA+ e feminista anti-racista fazendo parte da direção do Instituto da Mulher Negra em Portugal e da associação pelos direitos das lésbicas, Clube Safo. Mais recentemente, integrou o projeto de investigação no Centro de Estudos da Universidade de Coimbra, Diversity and Childhood: transformar atitudes face à diversidade de género na infância no contexto europeu coordenado por Ana Cristina Santos e Mafalda Esteves.

Texto de Alexa Santos
Fotografia de Lisboeta Italiano
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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