Eles lá estão. Hoje estão na Baixa. Por acaso ou não, depende da maneira como se agarram às ruas de Lisboa comparativamente a outras ruas do mundo. Amanhã, talvez alguns escolham um sítio diferente para estar. Outros querem aqui ficar para sempre. Pelo menos enquanto os forem vendo. Às vezes, só os vemos se estiverem completamente tapados por um mar de gente, mas, quando a rua está mais vazia, são normalmente os nossos preconceitos que os tapam, ou a nossa excessiva falta de tempo ou até algo que não sabemos o que é, mas ainda assim não lhes aumenta a visibilidade alheia. Hoje estão na Baixa, são artistas de rua.

Assim como não é consensual a definição de arte, certamente que não o é também a definição de arte de rua. Estará, certamente, associada à qualidade. Mas não poderá um artista de rua fazer maus desenhos? Daniel Arthur tem resposta, e a resposta é ele mesmo. “Eu desenho maus retratos”, diz, sorrindo, sabendo que terá de se explicar. “É um conceito que eu desenvolvi, e que não vem de uma grande ideia, mas de uma grande frustração”.

Espreitando por detrás do ombro, o jovem de 22 anos olha quem passa na Rua do Carmo, onde há um ano desenhava retratos académicos com colegas de Belas Artes. “Fazia um desenho realista em 10 minutos e cobrava o mesmo que agora, um euro. Mas não davam valor ao meu trabalho. As pessoas não estavam quietas e nunca ficavam contentes, esperavam dali uma foto”, conta, esboçando, de repente, um ar sério e solene. “Então eu percebi: não quero continuar a fazer isto. Vou mesmo fazer maus desenhos, e que venha quem deseja, mais do que um desenho, algo verdadeiro e espontâneo”, revela Daniel Arthur, que cobra por vezes em abraços a quem não tem dinheiro. Quem passa, poderá ouvi-lo repetir: “não existem erros, mas sim felizes acidentes”. Os mais perspicazes talvez consigam detetar na voz quente e liberta de Daniel uma ligeira acentuação nalgumas palavras. É um dos poucos portugueses ou brasileiros que pronunciam os dois sotaques na perfeição. Nascido no Brasil, está em Portugal há 14 anos, mas sonha em breve viver no Vietname.

Bad portraits na Rua do Carmo

Contudo, antes de partir de novo para outro continente, tem uma causa a defender, e certamente que qualquer protagonista destas histórias partilha das suas intenções, já que partilham também a rua. “Não vendemos droga, não roubamos, estamos a produzir e oferecer algo de bom. Há pessoas que vão de propósito à Rua Augusta por causa dos artistas que lá estão. E depois, quase todos estão lá ilegalmente, a fazer um trabalho honesto. A Câmara não nos dá condições para fazermos o que gostamos”, afirma o jovem artista, levantando os braços em sinal de incompreensão e desaprovação. Depois o seu rosto ganha uma nova expressão e um sorriso, sem que o olhar perca a firmeza: “Tenho muitas inquietações dentro de mim. Quero mexer nisto tudo e falar muito. Já estou a contactar muitos artistas de rua e consigo sentir neles a mesma energia. Nós vamos chegar a algum lado”, professa, desenhando no ar uma certeza com o lápis que segura na mão, como se assinasse a promessa que fez.

 

“Montmartre”, diz Daniel.  Refere-se ao bairro parisiense conhecido por albergar artistas de rua que exercem a profissão sem contrariar a lei, caso a candidatura seja aprovada e cumpram as regras estipuladas. Nesta zona de França, se tudo isto conferir, os cidadãos terão direito ao seu metro quadrado, onde poderão ser artistas sem, por isso, serem infratores. Em Lisboa também há artistas e metros quadrados para ocupar com cultura. Mas a sua arte ainda não é amiga da lei. “Portugal sempre foi um país onde não houve muito investimento nas artes. Há aquela mentalidade do género ´ah, somos pequeninos, ninguém quer saber de nós´, mas é isso que não nos deixa avançar. Temos dos melhores artistas!”, exclama.

Mais tarde, Daniel desenha Aroa, uma menina espanhola, enquanto o irmão desta, Telmo, ri alegremente a cada traço que cria. No papel, Aroa tem um corpo de gato, e a pequena parece bastante feliz com isso. Naquela hora, a Rua do Carmo condiz com a cidade de Lisboa, calma e exposta pelas luzes em tons de laranja e branco, que a noite trouxe consigo. De súbito, Daniel pede aos irmãos um retrato dele próprio, que ganha vida uns minutos depois. Na vez de Aroa, o riso de Telmo faz-se ouvir de novo. Os vidros da loja por trás de todos eles refletem os momentos em que o número de artistas sobe para três e os transeuntes se juntam àquela atmosfera divertida. Depois de todas as obras feitas, Daniel deixa-lhes um desafio: “Nunca dejen de dibujar”. O jovem explicou-nos mais tarde porque pede um retrato às crianças que desenha: “Há magia e liberdade na representação pela mão das crianças que são muitas vezes perdidas com o crescimento e a formação académica. Esquecemos essa ingenuidade do desenho, que é tão importante e bonita. E a melhor parte são os risos delas”.

Quem tiver oportunidade de sentar-se por alguns minutos a conversar com ele poderá, além de ganhar um mau retrato, ouvir uma tese que defende como facto universal: “o talento não existe, apenas acredito que há pessoas com certas sensibilidades, mas quem diz ao outro `tens muito jeitinho e talento´ está a eliminar completamente todo o trabalho que ele fez. Tudo na vida se consegue com trabalho.” O jovem agarra no caderno e prossegue com a mensagem: “Sem medo, peguem num papel e numa caneta e façam um rabisco qualquer. É lindo podermos expressar o que as palavras não tocam, tirarmos cá de dentro sentimentos e inquietação. Isto é válido em todo o tipo de meio criativo”.

Telmo e Aroa desenham Daniel Arthur

Daniel desenha agora uns traços no caderno, calculados pelo seu olhar sério, mas provenientes de algo exterior, como em qualquer retrato. “Na rua, tenho acesso a todo o tipo de pessoas. Desde o mendigo ao homem de fato, todos passam pelo meu trabalho”, declara, realçando de seguida o valor do contacto humano e da troca cultural. Na verdade, os bad portraits têm sido bastante mais bem sucedidos do que os retratos que começou por levar às ruas do Chiado. Estas ruas dão-lhe gente com quem, sem o rigor dos retratos perfeitos, tem o privilégio de conversar à vontade, enquanto desenha uns terríveis e divertidos olhos ou um corpo desproporcional. “A parte mais bonita é a comunicação, onde encontro pequenas expressões e informações sobre a pessoa que dão ao desenho mais significado e profundidade, porque este é muito mais do que só técnica ou imagem”. E, dizendo isto, acrescenta mais umas formas ao retrato que tinha começado. O rosto começa levemente a ganhar vida, até os cabelos e a face deixarem perceber que se trata de uma figura feminina. Daniel oferece ao rosto inacabado umas expressões mais humanas. O semblante é sereno e o cabelo em forma de rastas. Os braços estão abertos, porque a modelo, na realidade, segura docemente um rapazinho de dois anos. Daniel interrompe o desenho e volta a eleger a rua como lugar para si no mundo: “há pessoas que pensam que estou na rua porque não tenho um lugar melhor para estar. Mas eu estou aqui por escolha, porque quero estar aqui”.

 

O mundo também se põe ao pescoço

Daniel regressa ao desenho, mas a mulher que segurava o pequenino, Filipa, sorri agora e prepara-se para contar a sua história ao Gerador, enquanto Axkan se solta carinhosamente dela e caminha em direção ao pai, Beto, que ajeita habilidosamente as peças que vendem. Filipa tem 34 anos, mas partiu aos 19 de Portugal para viajar pelo mundo. O seu sotaque particular é mais fácil de desvendar quando se descobre a sua história. O seu português é uma mistura de sotaque do Porto, de onde é natural, com uma pronúncia levemente espanhola, adquirida certamente durante os anos em que esteve na América Latina. Os últimos três anos, passou-os com o seu companheiro, Beto, mexicano, e Axkan, de dois anos, filho de ambos. Agora estão de passagem pela Rua do Carmo, Lisboa, onde ficam alguns dias a vender as suas peças.

Todas as obras são feitas à mão por nós. “Usamos materiais como alpaca, latão, prata, bronze, que manipulamos para ter colares, pulseiras e brincos, com pedras naturais que vamos buscar aos lapidários no México, Guatemala ou Marrocos”, conta a mãe de Axkan, enquanto que torce pequenas ligas de latão com um alicate vermelho que ganham uma figura circular e começam a formar uma pulseira. Filipa aprendeu esta arte no México com Beto. Durante os Invernos produzem as peças. Quando a meteorologia convida a sair à rua, é lá que estendem as mantas verde e branca onde colocam as suas obras à vista de quem passa.

Beto e Axkan junto às peças que vendem

O pequeno acompanha os pais no trabalho. Desde que começaram o negócio, passaram por Espanha, França, México, Guatemala e Marrocos. Filipa aparenta uma expressão serena, mas os olhos brilham sempre que Axkan caminha para si, com pequenos passinhos e um grande sorriso. “É complicado quando ele começa a resmungar e estamos com um cliente, e foi difícil quando ele era mais pequeno e misturava as peças todas, mas é muito recompensador ter a companhia dele”, confessa. “Alguns amigos meus dizem que ele faz lembrar o Mogli”, continua Filipa, trazendo à imagem o bravo jovem personagem de “O Livro da Selva”. Com o seu cabelo escuro, Axkan traz um colar com missangas castanhas ao pescoço. O pequeno fala português e espanhol, mas a mãe conta que ele balbucia, por vezes, algumas palavras que ouve, nos sítios por onde viajam. Quando estiveram no sul de França, Axkan chegou, sem o saber, a desejar “Bonjour” à mãe. Contudo, desta vez em Portugal, Filipa acredita que veio para ficar.

À medida que Axkan vai crescendo, Filipa admite que precisará de mais dinheiro e estabilidade, pelo que talvez se aproxime da sua área académica. Licenciada em Artes dos Media e Produção de Vídeo em Londres, relembra que todas as formas de vida são válidas e que Axkan só acompanhará os pais enquanto desejar. “Ele será o que quiser, mas o facto de viver assim irá prepará-lo para a vida”, declara.

“Sinto que quem se aproxima da nossa exposição é o público que sabe que este trabalho tem valor. Acho que a maioria passa e nem vê, porque não percebe este tipo de arte. Gostava que as pessoas abrissem mais os olhos ao trabalho feito à mão, são muitas horas que gastamos a produzir as peças”, diz Filipa, apontando para a pulseira inacabada que segura. “Estes círculos de latão, fazemo-los um a um e montamos tudo no final”, afirma. Depois de uma pausa, conclui: “Acho que as pessoas têm uma ideia errada sobre nós. Nem todos os que estão na rua são drogados, bêbedos, pessoas sem casa, dinheiro. Às vezes até têm tudo, mas gostam de estar na rua, de conversar com gente diferente, de vários países e de ver as peripécias que lá acontecem”. Filipa confessa que não gostaria de estar todos os dias fechada num escritório a trabalhar e que já saiu e entrou muitas vezes do sistema, alternando com um modo de vida mais hippie. No entanto, se algum dia deixar este trabalho, garante que há de manter sempre a rua por perto.

O mágico dos ratinhos

Um a um, Gambino e os outros hamsters siberianos vão surgindo, à medida que o mágico levanta os copos. Na plateia reina o silêncio, ouvindo-se apenas um violino tocando uma música lenta e comovente ao longe, na direção dos Armazéns do Chiado. Quatro hamsters de tom esbranquiçado surgem, sem explicação lógica, na mesa forrada a preto. Meus senhores, é magia! A audiência bate palmas, incrédula, e o mágico curva-se ligeiramente, numa vénia de agradecimento. É o terceiro dia que Ricardo Pimenta escolhe a Rua do Carmo para mostrar aos lisboetas e aos que, não o sendo, por lá andam, o seu truque mágico de sucesso.

Há seis meses que o jovem faz magia de rua, e magia, no geral, há seis anos. “Faço casamentos, aniversários, e quando não tenho tanto trabalho, a rua é um meio de mostrar o que faço e ganhar algumas gorjetas. Na verdade, quando dei por mim, comecei a divertir-me mais na rua do que em certos espetáculos privados”, conta, sorrindo e referindo ainda que o trabalho na rua lhe tem permitido conhecer outros mágicos e lhe deu muitas oportunidades.

O número de Ricardo nas ruas é sempre o mesmo: cups and balls. Mas o mágico, natural de Vila Real, decidiu criar a sua própria versão. “Há um mágico famoso que faz este truque com pintainhos, mas para nós, mágicos, é muito feio copiarmo-nos uns aos outros, então decidi utilizar hamsters siberianos, que são pequeninos e calmos”, declara o jovem, que garante que não há um dia que não saia de casa nervoso quando esse dia é para fazer magia. “O público português é difícil de prender, mas, depois de conquistado, é incrível”, garante, opinando que em Lisboa é mais difícil parar as pessoas que no Porto, onde lhe deram a alcunha de “mágico dos ratinhos”. E como mágico que é, confessa um truque, que vem em forma de pergunta retórica, para lidar com espetadores difíceis: “em vez de os ignorar, porque não conquistá-los?”.

Ricardo e um espetador durante o truque mágico dos hamsters

 

Quem passa vai deitando um olhar curioso, e há até quem acalme a passada, para ver se o mágico está a fazer das suas, mas neste momento não há truques de magia: o esquadrão de hamster siberianos está em repouso. “Acontece pensarem que isto é um jogo a dinheiro, ou então tenho, por vezes, de lidar com defensores dos direitos animais que me apontam o dedo sem sequer ver o truque até ao fim”, admite, com a pose confiante que manteve do início ao fim. “Mas quase sempre consigo mostrar que os animais são bem tratados. O fundamental é que se mantenham hidratados, está tudo a pensar no bem deles”, acrescenta.

O som do violino volta a fazer-se ouvir, mas desta vez a melodia é frenética e intensa. Ricardo realça que o fundamental é manter o sentido de humor. Até quando os hamsters aprontam das suas e o obrigam a improvisar: “eles têm um sítio secreto onde os escondo, e por vezes escapam de lá!”, conta. O artista volta os copos para baixo e põe as bolas vermelhas sobre a mesa, pronto para mais uma atuação. Depois, deixa no ar uma mensagem: “A música é bem divulgada, ou o cinema, mas a magia também é uma arte e deveria ser mais difundida. O público português deve dar uma oportunidade à magia”.

O pequeno grande violinista

Tocam os sinos na Baixa. Todos os ouvem, mas Nikita só consegue, de momento, fazer-se ouvir por quatro turistas. A uns metros da entrada dos Armazéns do Chiado, o jovem de “treze, quase catorze anos”, como diz, faz cada cerda do arco que segura com a sua pequena, mas firme, mão deslizar virtuosamente sobre as cordas do violino. Já viveu em Itália, mas é russo. Agora está em Portugal, onde a família tenciona ficar. Os seus olhos claros brilham quando fala, e ele poderia falar-nos em italiano, russo ou português, porque domina todas as línguas. De vez em quando, faz umas pausas no seu concerto para uma audiência efémera e diversificada e aproveita para falar com Ricardo, o mágico, que ficou seu amigo pelo menos durante aquele dia.

O bailado do titiritero

Uma grande multidão bate palmas com entusiasmo, mas o espetáculo ainda não começou. O de Alfonso, pelo menos. Porque a Fanfarra de Coimbra e os seus fanfarrões fazem uma algazarra tal, que Alfonso não consegue fazer-se ouvir o suficiente para atuar. Sentado no parapeito de uma das lojas da movimentada Rua Augusta, o artista espera, confundindo-se com um turista. As suas atuações coincidem com as escassas pausas da Fanfarra conimbricense.

“Chama-se Griselda. Mas temos de tratá-la por Griseth, para que pareça francesa. Ela não se conforma com dançar bem. Quer voar. É o sonho de qualquer bailarina”, declara Alfonso solenemente. Com um tom entusiasmado, prolonga o final das palavras ou para dar ênfase ao que diz ou porque é um hábito que adquiriu durante o tempo que viveu em Itália. Talvez lá até se tenha cruzado nalguma rua com Nikita, nunca se sabe. Enquanto coloca as luvas negras, a Habanera da ópera Carmen enche aquela parte da rua, chamando a atenção de quem passa, com o seu ritmo preciso e instigante. O espetáculo vai começar.

Alfonso e Griseth na Rua Augusta

 

A música de Bizet silencia-se em degradé até desaparecer. De repente, Griseth começa a mover-se, sob as ordens do argentino Alfonso, assim como a orquestra, que agora se ouve, cumpre as diretrizes de Tchaikovsky, levando o seu bailado “Lago dos Cisnes” a percorrer em bicos de pés a Rua Augusta e a chegar aos ouvidos de quem por lá caminha. De acordo com Alfonso, “Tchaikovsky deveria estar ao alcance de todos, assim como está uma canção popular”. Começa então a formar-se uma multidão espaçada. A primeira reação é um olhar curioso; seguidamente, a audiência percebe que se trata de um teatro de marionetas e a personagem principal e exclusiva é uma bailarina trajada de rosa, presa ao artista por um rolo de pintar paredes. Depois, as reações dividem-se conforme as idades de quem assiste. Os mais velhos mantêm ou não um sorriso, conforme o que vêm seja do seu agrado. As crianças mantêm a expressão curiosa e os olhos muito abertos até ao fim, seguindo fielmente os movimentos da bailarina. Durante o bailado, Alfonso vai falando em espanhol e explicando a sua peça.

Tal qual Gepeto olha o seu Pinóquio, Alfonso olha Griseth. No entanto, quem assiste acaba por não ficar até ao fim. As crianças são quem se despede mais tarde. Mas ainda assim, as lacunas na multidão teimam em não se preencher com a chegada de mais gente. A arte, mesmo incompreendida, será sempre arte. A sua imutabilidade de certezas não se compadece com hesitações. Deste modo, Alfonso mantém o tom firme até ao final. Entra um paso a cuatro e o artista sai do cenário agarrado a Griseth e aproxima-se das crianças. Finalmente, vem uma valsa e a bailarina, que voara, dobra-se numa vénia e perde a vida, caindo inanimada.

“Soy un titiritero”, diz o artista. É uma profissão muito praticada na sua Argentina, embora tenha tido no século passado os seus tempos áureos. Os titiriteros são quem faz teatro de marionetas. Contudo, a expressão enternecedora de Alfonso e o seu olhar puro deixam transparecer uma ligeira tristeza na alma.  “As crianças não percebem o que digo, o espanhol”, desabafa, triste porque os pequenos o olham sem o entenderem, num número que se destina a eles. O espetáculo só se completa com a palavra, ou não se transcende completamente, afirma o titiritero. O que Alfonso mais deseja é ver as crianças dançando consigo e com Griseth.

A esta hora, Filipa ou Beto costumam levar o pequeno Axkan a lanchar. Talvez num destes dias o tenham passeado na direção do Tejo e ele tenha dançado ao som de Carmen. O pequeno compreenderia as palavras de Alfonso. Se não, e haverão certamente oportunidades no futuro para tal, talvez Aroa ou Telmo tenham passado na Rua Augusta antes de irem desenhar o retrato de Daniel. De qualquer modo, Alfonso virá amanhã, mas não fica por muito tempo.

Alfonso caminhando pela assistência

“A amizade é um dos grandes capitais que o ser humano pode manter. Não tenho onde cair morto, mas tenho muitos amigos”, declara. Nos anos de 83 e 84, o artista teve um grande êxito profissional em Buenos Aires. Hoje, Alfonso conta que a situação política e económica na Argentina se encontra bastante mal e a pobreza é abundante: “a reforma que o governo me paga não é suficiente para sobreviver. Por isso, o artista fez da mudança uma constante e da viagem uma rotina. Desta vez parou em Portugal, veio visitar uma amiga do Brasil. Mas não só. Alfonso é fascinado pela literatura portuguesa. Queria ver a Lisboa de Saramago e de Fernando Pessoa. Modestamente, diz que não sabe se é artista, porque isso lhe parece “muito sublime”. Mas Pessoa, que tanto admira, teria uma resposta para ele. “Não há para a arte critério exterior. O fim da arte não é ser compreensível”, pode ler-se nos registos que o poeta deixou. Talvez até os tenha escrito sentado num café do Largo do Chiado, olhando para a rua onde Emílio voará.

 

Emílio

“Ei, psst!“, diz Emílio Ramos a um pedinte sentado a alguns metros. De seguida, aponta para os seus olhos e depois para os dele, fazendo sinal para que olhe pelas suas coisas, em pleno Largo do Chiado. Provavelmente nunca se falaram, mas são quase vizinhos, porque Emílio vive dentro das paredes a que o sem abrigo se encosta muitos dias durante horas. “Vivo ali com uns velhos, mas nasci em Torres Vedras, sou saloio”, declara erguendo a mão com o dedo indicador em riste. Já são onze e tal da noite, o artista arruma agora o material, findo mais um dia de trabalho.

Quem frequenta a livraria ali perto ou convive com Emílio por estas horas, sabe que é lá onde guarda as suas coisas. “São os meus melhores amigos!”, exclama o homem de estatura não muito elevada, sorrindo com agrado. Passa agora a mão pelo cabelo farto, com as feições ainda escondidas pela tinta dourada. Emílio é um homem-estátua, mas não um qualquer. Ele voa, ou pelo menos assim o faz parecer a quem passa. “Inspirei-me no António Santos. Vi o gajo e tentei alterar a lei da física dele, mas arranjei maneira de me mover”, conta com orgulho.

Um grupo de italianos aproxima-se de Emílio, empoleirado ainda na estrutura onde se eleva, que já não sorri nem dança para quem passa, o espetáculo já acabou. Encantados com a sua invenção, os italianos gritam “bravo, bravo!”, e um deles, de rosto simpático e divertido, aponta para o artista e diz “È magico!”. Emílio não lhe responde, mas segundos depois de os italianos virarem costas, comenta, corrigindo os turistas: “Magico é trabalhar, isso é que é!”.

Emílio, o homem estátua

 

Agora de pés bem assentes no chão, embora a sua personalidade demonstre que é um homem que viaja um pouco em mente, o homem-estátua conta porque optou por este caminho: “Ao fim de ficar farto dos horários e de aturar patrões, tive de arranjar maneira de fugir do capitalismo”. Enquanto vai fumando e expelindo o fumo lentamente pela boca, diz após um breve silêncio: “Deus é para os ricos. E isto, ao fim ao cabo, é arte. Nem sabes o que fazes, entras e dizem-te `isto é arte´. Mas ser artista no Chiado é difícil, para teres um bom ordenado é duro”.

Tal como a maior parte dos seus colegas de rua, Emílio confessa que a melhor parte é ver as crianças sorrir, sobretudo quando as ergue consigo no ar e as faz voar, como Alfonso à sua bailarina. Levanta agora do chão a bateria grande preta e que alimenta o seu trabalho. Olha à sua volta, para a afluência de pessoas que aumenta. Lança uma gargalhada misteriosa e confidencia a Nuno, que trabalha na livraria, e com quem costuma conversar: “sabes por que é que não faço mais uns dez minutos?”, e aponta para a bateria, já descarregada. “Punha uma Lucília do Carmo ou um Gianni Morandi e era só fazer dinheiro!”. E dizendo isto, riem-se os dois, enquanto trauteiam as canções. De repente, Emílio faz um ar sério: “Ah! Mas têm de dizer que eu sou do Benfica!”, diz. Despede-se e, com o resto do material, entra de novo na livraria.

Marinus

Quem passa pela Rua do Carmo com frequência quando a noite já se instalou nos céus de Lisboa, já o viu, de certeza. Só não sabe que fala e que é holandês.  O acordeão move-se elegantemente, e dita as melodias tristes e nostálgicas, mas por isso não menos bonitas, que Marinus oferece a quem passa. Os que atravessam a linha imaginária perpendicular à parede onde Marinus quase se encosta e que divide a rua em dois, atravessa-a sempre com a passada mais calma do percurso inteiro entre o Rossio e o Chiado. A música toca até quem não tem coração. Curiosamente, este efeito nota-se, sobretudo, nos casais que passam de mãos dadas.

As Lisboas, o roxo e a rua

Lisboa. Lisboa. E Lisboa. Sempre Lisboa em cada uma das pinturas que ali repousam. Mas nunca a mesma Lisboa. Porque cada pintura é diferente e revela uma perspetiva diferente, até no próprio espaço e tempo. O autor mantém-se perto das criações. O senhor de camisa azul e expressão calma olha-nos agora, ao perceber que há interesse deste lado. O seu olhar permite tirar duas certezas. Uma é que a calma que aparenta é denunciada pela agitação dos seus olhos, comum aos artistas. E a outra é que aquele olhar é muito parecido com um olhar visto recentemente. Ou um olhar visto recentemente é parecido com este.

“Igor”, responde o artista quando pedimos o seu nome. Depois, fala sobre algumas das suas obras, e ficamos a saber que é também restaurador de arte. Roxo é a sua cor preferida, presente em todas as suas pinturas. O português, contudo, não é a sua língua materna, o que se percebe pela sua pronúncia. “Sou russo, mas vivi em Itália”, conta. “O meu português não é muito bom”, declara, sorrindo.

Pinturas de Igor

 

Falando um pouco mais lentamente, torna-se fácil conversar com Igor, que mostra outras pinturas que estão na parede. De repente, a imagem do jovem violinista surge na memória. “Conhece o Nikita, o rapaz do violino?”, perguntamos. “É meu filho”, responde. A conversa continua, mas já se faz tarde e pouco depois, é Nikita mesmo quem aparece. Entre os dois, falam por vezes em russo, por vezes em português. Mas Nikita faz a tradução do português para russo e vice-versa quando há palavras mais difíceis de perceber. Felizmente, a rua é entendida por todos.

O Rossio leva sempre ao Chiado, e a Rua do Carmo caminha no sentido da Rua Augusta. Mas, às vezes, a mesma rua pode dar caminhos diferentes a cada um. Isto só depende da atenção que damos a quem lá está, das conversas que despontam, ou até da maneira como a arte que lá se faz é produzida ou sentida. Eles lá estão, os artistas de rua. Uns voam, outros criam. A rua sabemos onde acaba, onde nos leva. Mas os artistas de rua levam-nos ainda mais longe.

Texto e fotografias de Carolina Gaspar