Em Março de 2016 fomos aos Açores - São Miguel, não era a 1ª vez de nenhum dos dois mas a 1ª vez que o faríamos juntos. Quando pedimos algumas dicas aos amigos, o Tó e a Raquel disseram-nos que não podíamos deixar de conhecer o João da Ponte, nem que fosse por telefone, ele seria o melhor cicerone. Andámos um pouco desencontrados até que os nossos telefones entraram em sintonia e a voz quente e amistosa do João deixou-me logo encantada. Algumas sugestões do que comer, beber e onde passear. Depois, lá marcámos um jantar e conhecemos as suas duas lindas miúdas, a Ema e a Diana. A figura do João era bonacheirona, um fumador inveterado, de olhos azuis meigos e fortes ao mesmo tempo, foi literalmente amor à 1ª conversa que sentimos os dois pelo João, há pessoas que nos marcam de uma forma tão vincada em cinco segundos, o João sem dúvida era uma delas. A coisa mais bonita que o João fez foi levar-nos a uma deliciosa sessão de poesia, uma espécie de pequeno clube fumarento, em que entre muitos copos e muitos livros todos eram convidados a ler com o coração e foi o que fiz sem preconceito ao ler o livro de Coríntios do apóstolo Paulo e ele fez a brilhante e já habitual leitura do poema do grande escritor moçambicano José Craveirinha, “As saborosas tanjarinas de Inhambane”, um poema carregado de humor e a ironia sobre realidade moçambicana corrompida. Foi com muita emoção que quando nos despedimos do João fisicamente tive a honra de ler dez vezes pior do que ele este poema em jeito de homenagem ao homem da luta e do amor que ele tinha sido. Nestes dias, tenho pensado muito no João da Ponte e lembrei-me que o meu pai declamava poesia, dançava, fazia teatro e que se sempre achei que lhe tinha herdado o lado da engenharia, fico agora com a certeza de que o receio que teve quando larguei a engenharia e que se transformou num imenso orgulho quando me tornei cantora se deve aos genes dele de um engenheiro com coração de poeta, dançarino e amante de artes encantador também nos primeiros segundos e homem de muitos amigos.

Uma das poucas “exigências” que constam do meu rider de hospitalidade em dias de espectáculo são laranjas. Numa espécie de ritual de acalmia e recuperação de energia, como quase sempre uma ou duas laranjas no final dos concertos e no dia 14 de Agosto de 2020, em Ponte de Lima, não abri excepção, comi uma laranja. Não que goste especialmente de laranjas, o meu fruto preferido é a manga, mas desde os tempos do rock & soul frenético dos Wraygunn que as laranjas me trazem energia e pratico o ritual de contrariar o provérbio que diz que a laranja à noite mata. Foi o meu pai que me ensinou a gostar de laranjas, a descascar de forma singular os topos da esfera, depois longitudinalmente, cortar às rodelas, comer com garfo e umas pitadas de sal grosso. E nessa 6ª feira em que o meu pai partiu para a eternidade senti, tal como as saborosas “tanjarinas de Inhambane”, que este sabor cítrico me iria acompanhar em todos os momentos de saudade e das minhas orações cantadas misturadas com miculungwanas, esse grito de dor ou de alegria que me permite abraçar a morte, mas também a vida. Serão agora e para sempre as laranjas do meu coração, a lembrança que Deus me deixa de que 2020 continua a ser o ano de me recordar que “morrer não é o fim, pode ser mesmo o princípio”, mas para aqueles que crêem ainda que morram, viverão ( João 11-25;26).

*Texto escrito de acordo com o antigo Acordo Ortográfico 

-Sobre Selma Uamusse- 

De origem e nacionalidade moçambicana, residente em Lisboa, formada em Engenheira do Território pelo Instituto Superior Técnico, ex-aluna da escola de Jazz do Hot Club, mãe, esposa, missionária e activista social,  Selma Uamusse é cantora desde 1999. Lançou a sua carreira a solo em 2014, através da sua música transversal a vários estilos mas que bebe muito das sonoridades, poli-ritmias e polifonias do seu país natal, tendo apresentado, em 2018, o seu primeiro álbum a solo, Mati.  A carreira de Selma Uamusse ficou, nos últimos anos, marcada pelas colaborações com os mais variados músicos e artistas portugueses, nomeadamente Rodrigo Leão,  Wraygunn, Throes+The Shine, Moullinex, Medeiros/Lucas, Samuel Úria, Joana Barra Vaz,  Octa Push etc. pisando também, os palcos do teatro e cinema.

Texto de Selma Uamusse
Fotografia de Rafael Berizinski
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