Ataques de pânico são, de acordo com vários especialistas em saúde, extremamente comuns. Isto descansa-nos? Não.

Nestes dias,  por estar a ouvir tantas pessoas de vários quadrantes nas M-Talks 4ALL do Festival Mental 2020, surge muitas vezes esta confusão. Claramente stress, ansiedade, medo e pânico são ainda muito confundidos , mas sobre isso já escrevi nesta coluna do Gerador.

Deixo esta nota sobre ataques de pânico (ao que parece “do nada”, dizem as pessoas) – dada a quantidade de perguntas que claramente dão a impressão que o Covid/Isolamento/quarentena/desconfinamento trouxe esta condição a muit@s.

Algumas pessoas têm esta experiência uma ou duas vezes na vida, outros sempre que estão a ter que falar em público ou a preparar-se para uma entrevista importante. Em casos graves, podem sentir-se sufocados, chegando quase a desmaiar. Acordar a meio da noite com palpitações, suores frios, sensação de que não está a respirar e que portanto, vai morrer, é terrível e muito mais comum do que se julga.

Além de “soluções de farmácia”, a melhor maneira para evitar os ataques de pânico é conseguir identificar sintomas e aprender a ter controle sobre eles. Ou seja: relacionar-se com este transtorno.

Mas, neurologicamente, o que acontece com o cérebro durante um ataque de pânico?

Tal como acontece com a ansiedade, paranóia, depressão e outros termos clínicos que entraram na linguagem quotidiana, um ataque de pânico pode significar coisas diferentes. Por isso, torna-se mais importante definir melhor o que significa o termo.

Pesquisadores da Mayo Clinic, organização da área dos serviços médicos e pesquisas, definiram ataque de pânico como “um episódio súbito de medo intenso que desencadeia reacções físicas graves, quando não há nenhum perigo real ou causa aparente”. Os ataques de pânico podem, efectivamente, ser muito assustadores.

Quando ocorrem, o paciente pode achar que está a perder o controle, ter um ataque cardíaco e, em casos extremos, até mesmo morrer. É assim que se torna possível entender a génese dos ataques de pânico: breves períodos de intenso medo, visceral.

Uma teoria acerca dos ataques de pânico e do transtorno do pânico é que ambos resultam de uma actividade anormal dentro do conjunto de nervos que existem na amígdala (que é composta por grupos de neurónios compactos e surge como centro de integração para as emoções, motivação e comportamento emocional, conhecida também pelo papel que desempenha no medo e na agressão).

Já o Dr. Paul Li, num artigo que escreveu para a Scientif American, atribui a culpa à chamada substância cinzenta periaquedutal, que regula os mecanismos de defesa. Um estudo com ressonâncias magnéticas que descobriu que esta área reage em resposta a ameaças iminentes.*

Mas o que fazer durante um ataque de pânico?

“E se isto volta a acontecer, o que é que eu faço?”

Os sintomas que surgem a partir desse tipo de actividade cerebral podem, geralmente, ser tratados com medicação. Por exemplo, inibidores da reacção neural da serotonina são frequentemente prescritos a pessoas que sofrem de ataques de pânico e ansiedade persistentes. Além disso, a Psicoterapia ou o Aconselhamento psicológico podem também ser muito eficazes, pois ensinam a separar as sensações de pânico a partir das respostas de ameaça.

Pode acrescentar-se que os benefícios de um estilo de vida menos stressante tem, naturalmente, enormes benefícios. Também o exercício físico, umas horas extra de sono, bem como algumas técnicas de relaxamento podem ajudar.

Convém ainda distinguir: é possível considerar os ataques de pânico como sinónimo de transtorno do pânico? A resposta é não. Um ataque de pânico, tal como uma dor de cabeça, é constituído por um conjunto de sintomas. Assim, os ataques de pânico podem vir a ser diagnosticados como Transtorno do Pânico quando passam a ocorrer com uma regularidade relevante.

Citando o Dicionário de Saúde Mental “a característica essencial do Transtorno do Pânico é a presença recorrente e inesperada de ataques de pânico, seguida de uma preocupação persistente em ter outro ataque de pânico com as as possíveis implicações ou consequências desse facto, ou com uma alteração comportamental significativa diante dos ataques”.

Ou seja: os ataques de pânico são comuns e por si só não configuram um Transtorno do Pânico. Porém, quando os ataques de pânico se tornam recorrentes na nossa saúde mental e quando ocorre desgaste físico e psicológico antevendo frequentemente o próximo ataque, aí o diagnóstico de Transtorno de Pânico torna-se mais apropriado.

Em suma: os ataque de pânico, por si só, são pontuais. Comece por respirar fundo e depois consulte o seu Psicólogo ou Conselheiro. Tudo se resolve, mesmo num Mundo e tempos tão bizarros com este em que vivemos.

* Fonte: Medical Daily

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Ana Pinto Coelho-

É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora.  Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.

Texto de Ana Pinto Coelho
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