1.

O artista que não quer ficar subterrado por aquilo que admira ou que lhe interessa; que não se quer deixar arrastar pelo vento poderoso que sopra do passado, nem acomodar na brisa morna do que se diz atual ou contemporâneo; que não quer apenas repetir fórmulas certas, nem cumprir as expectativas de outros; que não quer ficar preso às suas ideias ou certezas – repete, na sua prática artística, esta parábola que aprendi com o pintor Philip Guston, e que ele terá aprendido com Cage:

Julgo que foi John Cage quem uma vez me contou: «quando começas a trabalhar, toda a gente está no teu ateliê – o passado, os teus amigos, inimigos, o mundo da arte, e acima de tudo, as tuas ideias – estão todos lá. Mas enquanto continuas a pintar, eles começam a sair, um a um, e és deixado completamente sozinho. Então, se tiveres sorte, até tu sais.»  

A imagem é impressiva: no início do trabalho criativo, o ateliê do artista está cheio, ruidoso, com demasiadas influências e referências presentes. Conscientes e inconscientes, escolhidas ou insuspeitas – como o povoado Ateliê do pintor, pintado por Courbet entre 1854 e 1855. Pelo esforço e paciência, pelo trabalho perseverante, o ateliê vai-se esvaziando. Pouco a pouco. Um a um, vão saindo todos: a opressão da história, a presença sufocante dos outros, as influências e as seguranças da autoridade, as expectativas e o autocontrolo das certezas pessoais… Não saem todos de uma vez, não é um processo rápido. É preciso continuar a pintar, sem desistir. Demorará até o pintor ficar sozinho.

2.

Sozinho – será isso possível? Não está a alteridade sempre no coração do sujeito? Não é, cada um de nós, uma legião? Se isto me parece inegável, o gesto artístico original, no entanto, parece resultar de uma forma de esquecimento. É fruto de um apagamento, de uma retirada dessas presenças, para que algo novo possa surgir. Uma abertura de espaço para acolher o que vem. Essa elisão corresponde mesmo a um esquecimento de si, a uma forma de autossuspensão. Esvaziar-se, mais do que simplesmente esvaziar. Se cada um de nós é hospitalidade, habitado por muitos hóspedes estrangeiros, resultado de múltiplas influências, fazê-los sair é sairmos nós mesmos. Afinal, esses outros somos nós. Por isso, Cage-ou-Guston afirmam que, no fim, depois de ficar sozinho, até o próprio artista deverá sair.

3.

É curiosa a expressão de Cage-ou-Guston: «se tiveres sorte, até tu sais». Não parece bastar o esforço ativo, consciente e voluntário – é necessário mais do que isso. Não chega o controlo ou o domínio de si – e talvez seja isso o que é necessário perder. Nesse sentido, escreveu Cézanne, sobre a tarefa do pintor: «Toda a sua vontade deve ser de silêncio. Deve fazer calar dentro dele as vozes de todos os preconceitos, esquecer, esquecer, fazer silêncio, ser um eco perfeito.»

Cézanne usa, aqui, a palavra esquecer – por duas vezes – associada ao silêncio e ao vazio – necessários para que exista, no pintor, um eco do mundo. E repetirá essa proposta de um trabalho de esquecimento: «Está a passar um minuto do mundo. Pintá-lo na sua realidade! E por causa disso esquecermo-nos de tudo. Tornarmo-nos esse minuto. Sermos então a placa sensível. Dar a imagem do que vemos, esquecendo tudo o que apareceu antes de nós.» Esta atitude nada tem de ingénuo ou de louvor simplista da inspiração, pelo contrário, é uma luta contra a ingenuidade e a falsa ignorância. Um trabalho continuado.

4.

Esta forma de esquecimento, de impessoalidade, é um estado de abertura radical – original e originante: o reencontro criador com a primeira significação do corpo, antes da consciência da finitude e da limitação. O corpo é, inicialmente, «o aberto a» . A finitude e a compreensão do mundo como limite do nosso corpo não são originários, mas posteriores. A relação originária do nosso corpo com o mundo é a de abertura. O artista é o recuperador dessa tensão original. (Será também por isso que, como alguns autores sublinham, os artistas estão mais perto da sua infância? – E também Cézanne o parece afirmar: «Ali, à frente dos meus tubos, dos meus pincéis, não passo de um pintor, do último dos pintores, de uma criança».)

Ainda que a atitude ingénua não o compreenda, a nossa forma habitual de relação com o mundo é a de abertura finita: a nossa capacidade de receção do mundo é finitude. É sempre «um ponto de vista», apenas um. O trabalho de dessubjetivação é o labor para ultrapassar esta finitude do meu ponto de vista: a limitação da perspetiva, a sua inadequação ao mundo – uma luta entre a finitude pessoal e a infinidade da vida, do tempo, do mundo como horizonte-de-possibilidades.

5.

Sair de si – como o artista sai, ele mesmo, do ateliê – é a expressão que propõe a ultrapassagem do ponto de vista estreito, para tornar mais vasta a abertura pessoal ao mundo. Esta abertura é outro nome para a atenção.

6.

Gymnastique de l´atention – chamou Simone Weil a esse exercício espiritual essencial. E descreve-o, assim: «A atenção consiste em suspender o pensamento, em deixá-lo disponível, vazio e permeável ao objecto, mantendo em nós mesmos, próximos do pensamento, mas a um nível inferior e sem contacto com ele, os diversos conhecimentos adquiridos que somos forçados a utilizar. […] E, sobretudo, o pensamento deve estar vazio, em espera, sem nada procurar, mas pronto a receber, na sua verdade nua, o objecto que o vai penetrar.»

7.

A atenção é a verdadeira origem do mundo.

-Sobre Paulo Pires do Vale-

Filósofo, professor universitário, ensaísta e curador. É Comissário do Plano Nacional das Artes, uma iniciativa conjunta do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, desde Fevereiro de 2019.

Texto de Paulo Pires do Vale
Fotografia de Tomás Cunha Ferreira
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