– Esta música fica na cabeça – disse Gisela Casimiro.

– É verdade… – respondi.

– Aliás, na minha já está. – acrescentou.

Estávamos a sair da sala estúdio, depois do ensaio de duas partes de duas cenas, apresentadas à imprensa, quando surgiram estas frases.

Escrevo no lugar de quem não cresceu com essa música.

Peço-te que ouças”, dizem a D. Maria da Glória.

Imagina”, repetem.

E un ta encontrou sima rio ta encontra mar

Três. Mulheres. Negras. Línguas. Criadoras. Directoras Artísticas. Intérpretes. Vencedoras da 2ª edição da Bolsa Amélia Rey Colaço. Mais. Teatro Nacional D. Maria II. 03.09.2020. Noite de estreia.

Cleo Tavares, Isabél Zuaa, Nádia Yracema estavam ali, na penumbra do palco, quando o público ia chegando. Estavam ali com todas as que só puderam estar nelas. Movimentavam-se como se dialogassem com o invisível. Dialogam. Preparam-se para o palco dentro do palco.

Crioulo Tchokwe Português. Entra o “entre”. De repente. Perante. Tentei apontar, no escuro, o que entendia de um longo mantra de louvor e pedido de intercessão à Mãe. Três vozes dentro de três vozes dentro de três vozes dentro de três vozes procurando dentro: Mamã, mamé, mama.

É importante perder aqui:

Diz-me mãe como de manhã ergues o corpo
Eu vejo-te vasta como a água
E encontro-te como o rio encontra o mar
Mamã, ergue também o meu corpo

nha mamé koma ki parmanha bo ta lanta curpu
en ta ódjabu manga di agú
en ta contrau sima rio tá contra ku mar
mamé, lanta nha curpo tan

Flan mama modi ki di manha bu ta labanta bu corpo
un ta odjou cheio moda agua
E un ta encontrou sima rio ta encontra mar
MAMA, labanta nha corpo també

Ensina-me mãe como, tal como o entardecer, expandes a tua mente
Eu sinto-te leve como o vento na pele
E encontro-te raiz, profunda na terra que me sustém
Mamã, expande a minha mente também

sinan mamé kuma solnoti bu ta iáabri bu menti
en sinti lebi sima bentu na pêl
en ta contrau raiz fundu na terra ki ta kudin
mamé expandi nha mente tan/

inxinan mama, cima entardecer modi qui bu ta abri bu cabeça
un ta xintiu levi cima vento na pele
E encontrou raiz, profundu na tera qui tá susten
Mama, abri nha cabeça també

Mostra-me mãe como na sombra da noite elevas os sonho
Eu admiro-te alta como o céu
Pois mesmo na sombra, tu és luz
E eu te encontro
Mamã eleva também os meus sonhos

mostran mamé sima na sombra de noti bu ta lanta sunhu
en ta admirau alto sima céu
papia té na sobra abó ta sedo luz
en ta kontabu
mamé labanta nhas sunhu ta

monstran mama na sombra di noti elevan nha sonho
un ta admirau cima altar na céu
Mesmu na sombra abo é luz
ami un ta encontrau
Mama elevan també nhas sonhos

Por segundos, grande parte do público fica “estrangeiro na sua própria casa”, diz-nos Isabél Zuaa. Aí, está noutro lugar. As actrizes partilham as línguas, “enquanto pequenos segredos. Aquilo que queremos que vocês percebam todos, no geral, está dito, mas há outras coisas que, se calhar, só algumas pessoas percebem,” continua. “Essas línguas também habitam Lisboa. Fazem parte desse encontro que uns escolheram, e que outros nem tanto. Fazem parte da herança de cada um e desse ‘entre lugar’, de que nós todas fazemos parte,” acrescenta Cléo Tavares.

Conhecem a língua da rainha. Sabem a sua história. O seu extenso nome e repetem-no: Dona Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina di Cruz Francisca Xavier di Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga.

“Estás a ouvir-nos?” – perguntam. Sem resposta, continuam. Na procura por um exercício de empatia, convidam-“na” a imaginar o inimaginável que viveram:

Imagina, lá pá dianti, bu dissa di sedu dunu di bu própi kurpu, di bu vontadi, di bu sunhus, di bu speranças pá bô ku bu djintis.

Kuda só, bu tem kluta pa diritu di ama. kila simplis, bu orbigadu luta pa diritu di ama bu fidjus.

Suma k bu fala, odja ku é dau konsidju pá ka bu prenhãtá, pabia y eraba prigoso…

“Se morrer, morrerei no meu posto”

Lá pa dianti, nim dunu di bu vida, nim dunu di bu morti, nim dunu di bu kurpo. – Isabél

Bó é obrigabu trabadja un stiku bai, sen para , nen pa bu kumi, bu korpu ta ba ta caba un dia tras di kelotu. Bó é obrigadu ta faze trabevesia pa atlantiku ku un txada korpu riba’l bó.

Korpu xeiu dor, abertu i pan di trauma.

Kusé ki ta seria di bu fidjus, bu netus, bu busnetu- kusé ki ta serba di bó, ku tudu kel storial liriba’l bó? Imagina kusé ki ta serba di nha korpu di nos corpo de nos storia oxi, sem quel travessia de atlantiku.

Imagina izisti sen medu. – Cleo

Mas, para isso, tem de as escutar. Abrir é o princípio. Janelas. A casa de D. Maria é muito velha, muito pequena e o que é vivo é imenso e ocupa espaço. E “ninguém sai”, cantam. A caixa negra, a sala quadrada com paredes pretas e fundo liso, “não foi feita para os corpos negros.” Ali, a tela é branca e a luz também “tem reflectores para a nossa pele e, de repente, podemos pôr-nos em evidência, em destaque”, diz Nádia. Com elas, todas as que chamam, por vezes, nome a nome a nome a nome, um fio que brilha.

“A música está tão alegre, tão animada,
dá-me uma vontade imensa de viver
!”
“Porém, até então temos de
viver e trabalhar. Trabalhar sempre!”

As coreografias contam biografias. A escrita do corpo. As narrativas tranças que, nas mãos umas das outras, começam a falar, a cantar. À nossa frente, três mulheres vão partilhando fragmentos, que se tocam e dispersam e voltam a tocar. Como o gesto de entrançar cabelos, são momentos que deslizam uns sobre os outros. Inesperadamente, o peso de umA História encontra a forma do riso para cair. Os sintomas de um racismo estrutural são postos num espelho, que devolve a imagem ridícula de D. Maria. São chamadas “preta”, “MAS bonita”, “mas inteligente”, “mas educada”. Comem “cachupa refogada ao pequeno almoço”. Com elas, o sexo é “selvagem”. Cresceram “sem pai”. São todas tão parecidas.

Apaguem as luzes. Sorriam!

“Isto, que acaba por se reflectir no palco, vem de uma viagem, de olharmos para nós próprias. A dramaturgia seguiu esse lugar porque, quando olho para mim, que vim de Cabo Verde e cresci aqui, não posso dissociar de ser uma mulher negra em Portugal. E, quando reflicto sobre essa saudade, reflicto sobre mim. Existe uma extensão entre o racismo estrutural e a Cleo. Não foi o mote: ‘vamos falar sobre racismo’. Quando penso sobre a minha infância, penso que, quando cheguei, não me deixaram logo sair e tive que ir para uma sala ser interrogada. Era muito nova. Penso que a minha mãe, aqui, ocupa um lugar diferente do que ocupava em Cabo Verde. Penso no que ouço quando vou a um casting.

Quero falar de mim como artista.”

Isabel – Eu sou tão preta que a expectativa não era eu estar no palco

Todas – Mas sim a limpar o palco

Ver no palco de forma vertical. Isabel

O mito do meio. Mas nós tínhamos essa inocência. ‘Ahh artes é que é!’ Mentes abertas… Até a própria formação está viciada e parece que faz questão que os corpos não brancos sejam identificados como outros. ‘Ahhh sensibilidades…’ Essa desconstrução não é só de quem é o opressor. O oprimido tem que a fazer também. Tinha essa esperança, que, no meio artístico, fosse encontrar o meu lugar, mas não durante muito tempo. Era o lugar da preta única” – Isabél.

“E nós falamos desta questão de mudar a casa a partir de dentro… Essa violência, esses papéis estereotipados, que acumulam preconceitos até não mais.” – Nádia.

“A pessoa não diz isso, diz: tenho um papel para ti, uma oportunidade.” – Isabél

“E, tu, de repente, chegas lá, aceitas e pensas: como é que eu, Nádia, artista, posso trazer outras camadas para aqui, o diálogo e o debate para a mesa? Ao início aceitava. E era uma violência, para mim, extrema, mas, depois, de repente, passaram a ser lugares de reflexão. É entrar na casa para mudar.” – Nádia.

“Tem que existir mais diversidade quando se forma uma equipa audiovidual, porque são pessoas que carregam outras histórias, trazem outras sensibilidades e, normalmente, aquele que escreve, escreve a partir do seu olhar e sobre o outro corpo. Esse pensamento é muito condicionado. Tens que abrir esse caminho. Quem lemos, quem consumimos, é formador do nosso pensamento. Por isso pergunto: quantos autores negros já leste? Essa diversidade tem de ser trazida para a comunidade artística. Cada vez que recebo o guião, estou constantemente a ser debatida com a minha cor de pele, porque a primeira coisa que está la é ‘mulher africana ou mulher negra’.” – Cleo

“E a outra é só mulher… Para além da formação do pensamento, o teu afecto, aquilo que te afecta, que te comove, aproxima, a tua empatia… O meio artístico, muitas vezes, justificava-se a partir de dados históricos, factuais. E eu sempre perguntava quem escreveu. E, do outro lado, sei, acredito e sinto que há pessoas que não compactuaram.” – Isabél


E tu pensas em como estas aqui há anos, anos e anos e isto é uma questão. Mas vais para onde? Qual é a minha terra? Nádia

Esta peça deseja rasgar. “No fundo, trazer a essa humanidade, esse quente, a nossa história, que é a história de outras pessoas, para que haja essa identificação e não a representatividade, porque cada um representa-se a si próprio. Um preto, quando está no palco, representa todos os pretos e um branco não representa todos os brancos.”

Sentadas, com os pés descalços no tapete vermelho do salão nobre, não passam para a pergunta seguinte sem fazer silêncio, para que cada uma possa responder, e trazem um texto longo, que sempre esteve inscrito numa “memória celular”, nota Isabél.  Para além dessa, outra que não se queima em fogueiras. “Os nossos antepassados, embora não tenham escrito, não tivessem tido possibilidade de publicar, de serem estudados, fizeram o esforço de passar essa cultura, que chegou até nós, já com muita mistura. Mas é essa que celebramos”, reconhece Cleo.

E esse esforço foi a maior herança de resistência, o canto alto, porque o silenciamento das suas narrativas gritava de todo o lado. “O meu pai dizia-me: ‘precisas, enquanto preta, de ser cinco vezes melhor que todos os outros brancos. Enquanto mulher preta, em Portugal, para conseguires alguma coisa, tens que ser cinco vezes melhor’. Teres que ser melhor… A questão da competição tem que ver com o racismo, o capitalismo… Tenho é que me sentir bem”, partilha Isabél.

“Eu ia para a escola e ouvia: ‘preta de merda vai para a tua terra’. A minha mãe não conseguia arranjar trabalho porque era preta. Falávamos sobre isso. A própria vivência fazia com que essas questões tivessem de ser faladas em casa e a nossa história tivesse de ser contada para nos fortalecer”, conta Nádia.

“A minha mãe nunca foi muito de falar, porque eu também não expunha muitas das minhas micro agressões. Mas é na preparação, quando sais de casa e te ensinam que não podes errar, tens que ser extremamente educada e há comportamentos que não podes ter. Essa limitação da liberdade, de teres que cumprir a ideia que alguém tem sobre ti e, no nosso caso, desconstruir. Desde sempre que a última coisa que a minha mãe diz, quando falamos ao telefone [e eu tenho 32 anos] é: ‘força!’. Há essa preocupação de como correu o dia, sem nunca falarmos directamente sobre. Também há esta coisa da minha mãe, que é: ‘isto é assim. Então prepara-te.’ Queria que me desse colo e ela dizia: ‘isto aconteceu, tens que ter força’. A única vez que a vi chateada foi quando eu e a minha irmã fomos humilhadas numa loja. Caiu uma coisa no chão e a pessoa correu connosco. Aquilo fez-me muito mal, mas não percebi. Foi a única vez que vi a minha mãe realmente chateada. Pegou em nós e foi à loja. Mas, em casa não foi ‘amor, vamos preparar você para o racismo estrutural’. Aqui é força, aqui é lutar. Chora e, daqui a três, minutos vai”, diz Cleo enquanto bate, num gesto oblíquo, com uma mão na palma da outra.

E, ali, lutaram a dançar com todos os tempos, num manifesto afectivo. Aquele chão foi chicoteado para ser libertado e celebrado com o sangue que as nutriu. Nesse esforço ritmado, Nádia ordena, numa força que lhe é anterior. Ela é o visível dessa força: “O meu corpo, é, cansaço, é pesado… não! A diferença entre o Ser, estado permanente e Estar, estado passageiro. O meu corpo está cansado… estava, o meu corpo está pesado… estava, falo do meu corpo passageiro. O meu corpo permanente é livre, é leve, é acção, é uma mutação de estados.”

E, a partir de dentro, recomeça esse poema corpo a corpo com o corpo seu, em parto:

“Corpo meu corpo meu corpo meu

Meu corpo eu te autorizo a ocupar qualquer lugar”

“Todas – Somos as filhas das lavadeiras, das cozinheiras, das empregadas domésticas que estudavam escondidas à luz das velas, das mães que foram retiradas das suas cabanas e foram obrigadas a trabalhar nas roças. Meu corpo eu te autorizo a ocupar qualquer lugar.”

Chamam episódios de violência exercida sobre as vidas negras em Portugal.

D. Maria, aurora negra está a acontecer na tua casa. Aurora Negra está esgotada na tua casa, todos os dias.

– nha ta obi?

Texto de Raquel Botelho Rodrigues, com Nádia Yracema, Cleo Tavares e Isabel Zuaa

Fotografias de Filipe Ferreira