Na capa de Flesh Against Flesh (Instrumental), o mais recente disco de Aurora, ainda por estrear, vemos-lhe o rosto tal como é, sob um subtil filtro de cor entre o rosa e o laranja. Fotografada por Carlota Flor, olha-nos de frente, como se nos convidasse para a seguirmos e mergulharmos, consigo, neste álbum que é “o culminar” do seu “renascimento”. Dedica-o à sua avó, à mãe e à memória do amigo Matias Pinto. 

Em Flesh Against Flesh, tal como em Uterus (2019) e em Rave in the Cave (2017), há algo de muito pessoal, intimamente ligado com as vivências de Aurora. No caminho entre os três projetos, encontramos diferentes estados de maturação, que vão do querer ser ao ser. Que começam na intenção e chegam, por fim, a um destino. Tal como no poema “Ítaca”, do grego Konstantinos Kaváfis, as aventuras e desventuras do caminho da vida estão em tudo o que Aurora Pinho cria, como registo do que é e do que ainda está por vir. 

Pela viagem, Aurora desdobra-se como lhe apetece. Seja a representar, a desfilar, a escrever ou a pintar, apresenta as suas leituras do Mundo e liga-se às que outrxs querem partilhar consigo. Seja onde for, há sempre algo de intimamente catártico para passar para o lado de cá. Foi entre o lançamento da websérie Secreto Lx, onde interpreta Violeta, as mudanças para Berlim e Oslo, o desfile para Ninamounah e o [desfile] de Arieiv no Portugal Fashion que recuperamos uma conversa que ficou em espera na semana em que foi decretado o Estado de Emergência em Portugal. O guião nunca poderia ser o mesmo, mas as questões essenciais acabaram por resistir ao tempo; afinal, Aurora Pinho é “muito mais para além de ser trans e queer”. Sempre foi, sempre será. 

Aurora, tínhamos uma entrevista marcada para a semana que antecedeu o período de confinamento obrigatório. Também esse período e toda a pandemia deixou em espera Flesh Against Flesh, o teu mais recente disco — do qual disponibilizaste, para já, alguns instrumentais no Bandcamp. O que é que podes desvendar do que ainda está para vir?

Antes de mais, só estão disponíveis cinco músicas instrumentais, no Bandcamp. Sendo que a versão final do disco terá 15 músicas, com as lyrics que escrevi e featurings

A composição deste baby é superimportante. Sem dúvida, dos trabalhos mais importantes que até agora desenvolvi.  É um álbum recheado de colaborações e só me apetece gritar. I’m so fucking excited!

Posso desvendar alguns nomes des artistas com quem estou a colaborar: Tita Maravilha, Rezm Orah, Herlander, Moullinex, Ness, Olan Monk, Misfit Trauma Queen, entre outres. 

E, por fim, posso dizer que o facto de estar a viver uma temporada em Oslo e a viajar por Berlim, trouxe-me texturas e sonoridades diferentes. 

Este momento de pausa forçada interferiu, de alguma forma, no teu processo criativo de Flesh Against Flesh? Houve temas que revisitaste e reescreveste, por exemplo?

Não reescrevi nenhum tema, mas criei novas malhas, escrevi novas letras e convidei outres músicxs. A pandemia trouxe-me novas descobertas. O facto de eu ser uma gaja que não gosta de trabalhar sobre pressão, automaticamente permitiu-me criar espaço para rever urgências e sentidos. E se não fosse esta paragem pandémica, não teria conseguido compor e produzir o álbum em Berlim e Oslo.

O vídeo de "Body Control" foi lançado em maio deste ano

O teu nome, sempre que dito ou escrito, evoca um renascer. Depois de teres lançado Uterus e agora com Flesh Against Flesh, sentes que cada projeto vai acrescentando camadas ao teu eu artístico — ou, pelo contrário, te vai desvendando num processo quase catártico? 

Este álbum é o culminar do meu renascimento. Fecha o capítulo de vários tipos de violências a que o meu corpo e mente foram submetidos pela sociedade binária. Desde cirurgias, transfobia, bullying, rejeições, às ameaças e afins. 

É a extração e o desmame da dor psicológica e física que acumulei durante anos. 

É redescobrir novos prazeres. 

É a minha libertação. 

É desenterrar, reparar sonhos e objetivos primordiais. 

É encontrar, finalmente, um lugar de força, ou espaço no caos que é este mundo.

Ao longo do teu percurso tens-te assumido como artista multidisciplinar. Estares na música, no teatro, na performance ou noutra área que te fizer sentido é também uma forma de alargares o teu campo de possibilidades e romperes limites? 

Emocionalmente sempre fui muito caótica, choro imenso. Criar permite-me desafiar novas linguagens e canalizar toda a dor destrutiva que sinto. 

Sou demasiado perfecionista e o facto de me deixar manchar, ou contagiar por diversos campos ligados à arte, faz-me querer mais e mais. Ando sempre faminta. 

Sinto que dançar, cantar, representar, desfilar, posar, escrever, pintar nunca é suficiente. Ou seja, para mim não há limites. E ainda tenho muito para viver, romper, oferecer, descobrir e redescobrir. 

Aurora desdobra-se em múltiplas áreas artísticas, sem fronteiras

Enquanto atriz integraste, mais recentemente, a web-série "Secreto Lx", no papel de Violeta. Sendo "Secreto Lx" uma série LGBTQI+, com um elenco composto por pessoas LGBTQI+, que impacto acreditas que pode ter — tanto para quem interpreta estes papéis, ao assumir a importância ter castings realmente inclusivos, como para xs espectadorxs? 

Estou exausta da implantação do sistema binário nas séries, filmes ou whatever. Eu sempre me senti e ainda sinto alienada, porque nunca me vejo representada em lado nenhum. Acho super importante e urgente haver representatividade. Primeiro, porque finalmente em Portugal está a ser retratado um papel de alguém trans numa série. E segundo, esse papel ser representado por uma identidade trans. Alguém que realmente viveu e experienciou toda a violência do que é ser transgénero.

Em relação ao impacto nos espectadores, tenho recebido mensagens bastante calorosas e encorajadoras. Desde pessoas que se identificam com a história da personagem Violeta, a pessoas que falam do rompimento de tabus, como é o caso do tema HIV, ou a representação de alguém transgénero e drag queens. A receção da série tem sido incrível.

De qualquer forma, não é suficiente. E é necessário reforçar a inclusão na sua totalidade. Reforçar urgentemente as mulheres trans afrodescendentes e latinas. A urgência dos corpos não-binários e das pessoas intersexo. Ou seja, a série não passa de uma perspetiva branca, composta por pessoas brancas, para a comunidade branca. Portanto, ainda há muito trabalho pela frente.

No caso americano vemos séries como "Orange is The New Black" ou "POSE" a ter um sucesso incontestável e a reforçar a importância (e urgência) de repensar a estrutura hetero-cis normativa da indústria cinematográfica. Em Portugal, no contexto televisivo e cinematográfico dito mainstream, vês essa evolução a acontecer?

Não, de todo. É que nem sequer é lenta, é só praticamente inexistente. Digo isto porque, existindo um a dois exemplos na história portuguesa, é só ridículo. Daí ser das coisas mais importantes a serem implantadas neste sistema português de merda. 

Secreto Lx é uma websérie LGBTQI+ que começou no Brasil

No recentemente lançado "Disclosure", o documentário de Sam Feder, Amy Scholder e Laverne Cox, esta e outras questões são levantadas. Acreditas que ter pessoas trans a representar pessoas trans, com narrativas que não se centrem apenas no facto de serem trans, podia ter um impacto positivo numa mudança de mentalidades? 

Talvez, não sei. Acredito que é super importante vestirmos outras peles, não nos ser incutido só papéis trans. Porque somos muito mais do que isso. Mas o que não pode mesmo acontecer é pessoas cis estarem a ocupar o nosso lugar. Sejam homens ou mulheres, é nojento. E, infelizmente, ainda acontece muito. Como vemos na “Casa de Papel” ou “Girl”, entre outros múltiplos exemplos de que poderia aqui falar. 

O documentário “Disclosure” é amazing, chorei muito. Retrata bastante bem a violência do poder hetero-cis-normativo nos nossos corpos. E a urgência de uma mudança radical em todo o mundo. 

Paul B. Preciado diz recorrentemente que a vivência de uma pessoa trans é, inevitavelmente, política. Em grande parte das entrevistas que deste até agora, a narrativa que as conduzia era o facto de seres uma mulher trans; aguardas pelo dia em que possas falar sobre isso como uma camada da tua existência e não como tema central? 

Claro que sim, sem dúvida. Mas sendo realista, sei que o meu corpo será sempre político. Há mesmo muita falta de informação e é superimportante eu abordar. Trazer todas estas questões para a primeira fila, daí permitir que o façam. 

Eu penso no futuro e na possibilidade de a nova geração ganhar espaço para levantar outras questões e premências. Mas pronto, espero que um dia deixe de ser um problema e também deixe de ser o foco das minhas entrevistas. 

Eu sou muito mais para além do facto de ser trans e queer

Pensando nesta reflexão em torno do corpo, o que é que desfilar em eventos como a Moda Lisboa e o Portugal Fashion — como aconteceu tanto na última temporada, como na anterior — representa para ti? Como é que te sentes?

O mundo da moda é bom para eu explorar a minha androginia. Gosto imenso de ser produzida e de vestir vários alter-egos. Essa parte fascina-me, mas em contrapartida sempre existiram muitas problemáticas, como transfobia, transtornos de peso, e é uma indústria superdifícil para corpos não cis. 

Eu sou a única manequim trans agenciada e publicamente assumida. 

No backstage do Moda Lisboa e Portugal Fashion normalmente ando sozinha, porque não me identifico com as outras manequins. Olham para mim de lado, acham sempre que sou a drogada raver e acabo por ficar a fumar sem parar, a ouvir música, ou a ler. 

Enfim, não tenho paciência para betas ocas.

Mas o que mais me fascina é desfilar, eu adoro a adrenalina e representar as roupas das novas coleções. E é superimportante o meu corpo lá estar, precisamente por não existir representação. Demonstar à nova geração que também há espaço para corpos não cis. Penso sempre na minha infância e adolescência, e que se tivesse visto diversos corpos nos desfiles, nas revistas Vogue e em outros espaços, teria sido mais fácil.

Sei que andas entre Lisboa, Berlim e Oslo, como tu própria já referiste nesta conversa. Além do lançamento do teu disco, o que mais podemos esperar de novo num futuro próximo?

É um futuro cheio de estreias, sinto-me super ansiosa e excited

Ainda este ano vou lançar três videoclipes, “Witch Bitch feat Diogo”, “What feat Herlander” e “Showdown feat Odete”. No próximo ano, vou andar em tour com o meu novo disco. Apresento o meu novo solo, a minha peça Nymphomaniac

Vou estrear o filme "Break Your Dick" (documentário), do Pedro Rei, que retrata a minha história. O filme do André Godinho, "Uma Rapariga Imaterial".  

Tenho várias sessões fotográficas marcadas, com fotógrafos amazing. Tenho também a peça “Mina” da Carlota Lagido, uma peça só com mulheres. Vou continuar com a peça dos Teatro Praga - André e.Teodósio, “Inverted Landscapes”. 

E sou uma das protagonistas do novo filme da Francisca Marvão, sobre a música queer em Portugal, entre outros projetos que ainda não posso revelar.

Texto de Carolina Franco
Fotografia de @Alípio Padilha, da cortesia de Aurora Pinho

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