Sinto-me presa entre mundos.

O real e o digital.

Tive o meu primeiro computador portátil aos 22 anos, imagine-se!

Até para a altura eu já ia atrasada, na faculdade fazia-me falta um computador minimamente veloz e ainda andava eu com um espécimen emprestado, velho e pesado, que de pouco mais me servia senão para editor de texto.

Só mais tarde, quando fui estudar para os Estados Unidos, me vi obrigada pela universidade a adquirir um Macbook Pro com uma série de programas em versão académica, por um preço “simpático” que, para as carteiras de uma grande maioria da população portuguesa de 2007, seria nada menos do que escandaloso!

Ora, eu que nem o Word dominava, tive rapidamente de me modernizar, todos os meus colegas eram hábeis na utilização das potencialidades do portátil e não se esperava nada menos do que isso de mim.

Confesso que não fui lá muito bem sucedida, ainda hoje me sinto pouco à vontade com este bichinho ao qual me fui afeiçoando com certo espírito aventureiro. Concedo-me, na actualidade, um lugar de curiosidade relativamente à tecnologia. 

Faço pequenas investidas para ganhar alguma confiança nesta relação, não arrisco muito, tento aumentar a minha auto-estima pela regularidade da exposição, na esperança de que os anos tornem a interação mais natural.

Quando abri conta no Facebook, vivia em Boston e mal se tinha conhecimento da  plataforma em Portugal, tanto quanto sei. Fi-lo com um intuito académico; comunicar com os novos colegas da faculdade, o que, sem ter telemóvel nos primeiros tempos, se provou ser de uma utilidade extrema. Entretanto, passaram-se 13 anos e todos damos por adquirido o Facebook, como se estivesse connosco desde sempre… que pensamento assustador.

Ora, esta plataforma já “sabe” mais da minha vida do que muitos familiares meus e à semelhança das relações humanas, é preciso aprender a lidar com ela. 

A mesma conta já viu uma jovem universitária postar fotos suas, dos colegas e namorados, recitais e jantares, saídas com amigos, comentários políticos, denúncia de questões humanitárias, iniciativas que me pareciam interessantes, celebração de aniversários, de prémios de colegas, demonstrações públicas de admiração aos familiares ou amigos até chegar a uma quase neutralidade de opinião e utilização daquele espaço, com o objectivo de divulgação dos concertos e outras ramificações da vida profissional adulta. 

Com a crescente importância das redes sociais na vida profissional e pessoal dos cidadãos, bem como o poder que estas proporcionam a quem as administra,  entregamos voluntariosamente um sem número de informação consentida ou não sobre a vida de cada um de nós. Tristemente, vamos descobrindo abusos de poder impensáveis, dos quais todos podemos vir a ser vítimas, se é que já não o somos, sem ter disso plena consciência, na actualidade.

Penso que, tal como muitos outros, fui sendo seduzida e manipulada pela minha ingenuidade, levada a providenciar informação privilegiada em troca de uma facilidade de comunicação e promoção. Era tentador o estreitamento das distâncias e também as oportunidades profissionais que daí surgiram, até então de difícil acesso, contidas em pequenas bolsas com canais muito exíguos, códigos de entrada complexos de mais para alguém como eu, romântica, que durante, talvez, demasiado tempo, não quis aceitar que o mundo da música era menos do que idílico. 

Construí um espaço dentro do mundo digital que me permite ser uma artista independente, à qual se tem acesso quase direto e que tem uma visibilidade internacional, dentro da sua comunidade artística, que dificilmente seria alcançável sem os benefícios da evolução tecnológica.

Ainda que toda eu seja contacto humano, proximidade, partilha em primeira mão, vejo-me retida neste limbo, em que já não posso abdicar da tecnologia sem que isso tenha um prejuízo muito significativo na minha actividade artística, que no final do dia não se resume “apenas” a uma questão profissional.

Ainda ofereço resistência. Porque não gosto de ser prisioneira de nada, muito menos de uma realidade distópica que cada vez mais se aproxima dos filmes de ficção científica de controlo da humanidade através da tecnologia. O triunfo da máquina em relação ao ser humano. 

Vou oferecer resistência sempre. Está na minha natureza.

A minha natureza leva-me ao fascínio pelo novo, pelo exótico, pelo pitoresco, pela experiência concreta, pela construção humana e suas derivações, por muito assustadoras que elas possam ser.

Tenho uma boa canção para ilustrar este meu limbo, que celebra o encontro da natureza e a construção humana, quase aberrantes por contraste.

Bom Outono!

Autumn in New York

Why does it seem so inviting

Autumn in New York

It spells the thrill of first-knighting

Glittering crowds and shimmering clouds

In canyons of steel

They’re making me feel, I’m home

It’s autumn in New York

That brings the promise of new love

Autumn in New York

Is often mingled with pain

Dreamers with empty hands

They sigh for exotic lands

It’s autumn in New York

It’s good to live it again

This autumn in New York

The gleaming rooftops at sundown

Autumn in New York

 it lifts you up when you’re let down

Jaded roués and gay divorces 

who lunch at the Ritz

Will tell you that it’s 

Divine

Autumn in New York

Transforms the slums into Mayfair

Autumn in New York

You’ll need no castles in Spain

Lovers that bless the dark

On benches in Central Park

It’s autumn in New York

It’s good to live it again

-Sobre Rita Maria-

Rita Maria começou a estudar música aos oito anos e desde os catorze a cantar jazz. Estudou canto lírico no Conservatório Nacional de Música de Lisboa, Jazz na Escola de Jazz do Barreiro, ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo), no Porto, e também na Berklee College of Music em Boston como aluna bolseira. Passou parte da sua vida adulta entre Portugal, Estados Unidos e Equador. Deambula entre a improvisação do Jazz e a nostalgia do Fado, o Experimentalismo, a fusão com world music e o rock, já tenho partilhado o palco com diferentes músicos e integrando variadas orquestras. É cantora da Banda Stockholm Lisboa Project, lançou, em novembro de 2016, com o guitarrista e compositor Afonso Pais o disco “Além das Horas” e é cantora da banda Saga Cega. Recebeu o Prémio de Artista do Ano, Prémios RTP/Festa do Jazz 2018. Neste momento, está a desenvolver o seu trabalho artístico com o pianista e compositor Filipe Raposo com quem já lançou o primeiro disco “Live in Oslo”, em 2018, e lançará, em finais de 2020, “The Art of Song vol.1: When Baroque Meets Jazz”. Círculo é o mais recente trio colaborativo do qual faz parte e que se estreou em disco a janeiro de 2020 com os músicos Mário Franco e Luís Figueiredo.

Texto de Rita Maria
Fotografia de Alice Bracchi
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