Doenças e/ou transtornos mentais, um assunto interessante e que só ganhou a minha atenção há coisa de um ou dois anos.

Tendo crescido num bairro social, sempre que ouvíamos falar em problemas mentais, automaticamente rotulávamos essa pessoa de “maluca”.

Agora, aprendi que isso é completamente errado. Vejo que, de fora do bairro, diz-se que a pessoa está doente, um termo com uma conotação completamente diferente e que vem trazer toda uma nova visão sobre a forma como encaramos este “bicho de sete cabeças” — eu gosto de lhe chamar “o Elefante na sala” que todos gostam de ignorar.

Ora bem, eu, Nuno Varela, com 36 anos, nascido e criado em Lisboa, será que tenho alguns traumas, alguns medos, causados por situações que podem afetar-me psicologicamente? Acho que sim. E como eu, conheço mil casos! Mil não… melhor direi, uns cinco mil. Afinal, o que sofremos por ter crescido num meio problemático e com tantos dramas económico-sociais? Pais presos quando ainda somos crianças, medo constante da polícia a qual sempre nos disseram que era uma força inimiga? Porquê?! Não sei, mas mais vale fugir do que tentar perceber. Acresce ainda: amigos presos, alguns com penas bastante longas, a morte de muitos amigos, abuso policial, problemas com outros bairros (na maior parte das vezes não tens nada que ver com isso, mas és apanhado no meio), etc… etc… perante tudo isto, que tipo de adulto é suposto sair dali? A resposta é uma incógnita, pois, tanto te pode afetar muito psicologicamente, como podes aprender a ter um escudo e aprendes a preparar-te para uma vida mais dura, sem que o teu passado ou vivência te afete tanto.

Isto é, pelo menos, o que muitos de nós pensamos que acontece, mas acreditem, meus amigos, elas batem, entram e ficam lá e, por isso, acho necessário mudar os hábitos quanto a este tema. Desde logo, no que diz respeito a assumir o problema, procurar ajuda profissional. Ao contrário do que se pensa, procurar ajuda não é um ato de fraqueza! Presta atenção quando te sentes mal. Quando a gripe é mais forte que tu, o que fazes? Vais ao médico. O mesmo deveria acontecer quando notamos que a nossa cabeça não está bem.

Sinceramente, acho que este tipo de ajuda deveria ser mais importante e evidenciado nas comunidades, não só para os jovens, mas também para os nossos pais, as pessoas mais velhas. Julgo que, se perguntar a 200 pessoas da geração da minha mãe se já foram a um psicólogo ou psiquiatra, a resposta será "o que é isso?"

Fora do bairro parece ser super normal abordar estes temas, seja uma ida a um psicólogo ou dizer que alguém passou por uma depressão, mas aqui não, o que deve criar uma espécie de vazio e solidão nas pessoas que estão a sofrer sozinhas e não tem as ferramentas para acordar desse pesadelo.

Com isto, seguem-se os vícios, escapes, tentativas e formas de lidar com o problema. Todos nós já apontámos o dedo àquele gajo que fica só no bairro a fumar ganzas, ou a beber cerveja, o dia todo. E como seria se pensássemos que ele apenas está doente e não sabe lidar com a sua doença?

A partir de agora, este é um tema em que vou depositar mais atenção e tentar ter a sensibilidade para falar com as pessoas, tentar ajudar de alguma forma. Podemos achar que somos fortes, mas, no fundo, somos seres humanos e não temos de carregar 1000 kilos de traumas. Fala e procura ajuda se te sentes mal a este nível.

Aproveitei para falar e colocar esta questão junto de duas pessoas, que sei que conhecem bem as comunidades por dentro e o que se passa nos bairros sociais da nossa capital: o meu grande amigo Loreta e a minha amiga de longa data, Makeda.

Perante muitos dos acontecimentos que se assistem e vivências que um jovem de um bairro social passa, tais como familiares presos, abusos policiais, falecimento de amigos em idade jovem, achas que devia haver uma maior ligação entre estas comunidades e psicólogos e, ainda, se quem passa por estes dramas deveria procurar ajuda, porque pode estar a sofrer de alguma forma e simplesmente não sabe?

MAKEDA:

“Claramente. Os moradores dos bairros são muito negligenciados, seja pelo estigma de que vivem à margem e que “não precisam destas coisas” ou por acharem que patologias psicológicas são apenas problemas da classe média-alta.  Eu creio que alguns bairros já criam estruturas próprias para lidar com este tipo de flagelos dentro da comunidade, sejam as associações ou até as juntas de freguesia, que, no caso do meu bairro, tem um papel bastante ativo.

Há muitos jovens que sofrem em silêncio por acharem que quem padece desse tipo de angústia é fraco, então vestem uma máscara, e muitas vezes a ferramenta de cura são atos impensáveis, quando, por vezes, uma simples orientação poderia ser a chave. É imperativo saberem que não é errado chorar, não é errado sentirem-se em baixo e não é errado procurarem ajuda, seja ela orientativa, profissional ou simplesmente um ouvido para os escutar.”

LORETA:

“Sim. A maior parte dos jovens e jovens adultos que conheço exibem sinais óbvios de stress pós traumático. Bulling, Depressão, "mania da perseguição" mudanças repentinas de humor e dificuldade em sentir empatia perante o sofrimento alheio.”

Pensemos nisto. É, sem dúvida, um tema importante a abordar.

-Sobre Nuno Varela-

Nuno Varela, 36 anos, casado, pai de 2 filhos, criou em 2006 a Hip Hop Sou Eu, que é uma das mais antigas e maiores plataformas de divulgação de Hip Hop em Portugal. Da Hip Hop Sou Eu, nasceram projetos como a Liga Knockout, uma das primeiras ligas de batalhas escritas da lusofonia, a We Deep agência de artistas e criação musical e a Associação GURU que está envolvida em vários projetos sociais no desenvolvimento de skills e competências em jovens de zonas carenciadas.Varela é um jovem empreendedor e autodidata, amante da tecnologia e sempre pronto para causas sociais. Destaca sempre 3 ou 4 projetos, mas está envolvido em mais de 10.

Texto de Nuno Varela
Fotografia de Lucas Coelho
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