Há uma companhia de teatro recém-nascida, com sede em Oliveira de Azeméis. Chama-se Bandevelugo e utilizou o mote do Dia Mundial do Teatro, 27 de março, sábado passado, para se dar a conhecer. João Amorim, ator oliveirense, é o porta-voz deste novo projeto que recebeu recentemente financiamento da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis e da Direção Geral das Artes (DGArtes), e partilha o primeiro momento na vida desta companhia: apresentar “A Tempestade”, de William Shakespeare, de forma itinerante pelas freguesias e uniões de freguesia do concelho.

“A ideia desenvolve-se a partir dessa premissa, criar as condições para que todas estas pessoas possam na sua aldeia, mesmo que em centros paroquiais, pavilhões ou armazéns, assistir a um espectáculo”, partilha João Amorim com o Gerador. Pensar o teatro numa dimensão local, sem depender da disponibilidade da programação de grandes salas de espetáculos e tendo, aliás, em mente que grande parte das pessoas no município nunca  viram uma peça de teatro. 

Bandevelugo é uma companhia com e para a comunidade. João Amorim conversou com o Gerador sobre esta dimensão local, o motivo da escolha de Shakespeare, e a ausência de estruturas e apoios fora dos grandes centros urbanos. 

Gerador (G.) - Antes de mais, gostava que me contassem um pouco mais da vossa história já que há pouco que consigo encontrar na internet. Como surgiu a Bandevelugo e o que motivou essa criação?João Amorim (J.A.) - É exactamente sobre essa inexistência que trata esta comunicação. Como se, de momento, fosse a forma possível de criar. A Bandevelugo foi apenas registada esta semana. A Tempestade será o primeiro trabalho deste projecto. 

Talvez possa afirmar que a Bandevelugo surge neste momento como reação a uma tentativa de definir um futuro que, no Maio/Junho do ano passado, já se ameaçava cáustico. Tive, como todo o sector, praticamente todos os trabalhos cancelados. Então, com imenso tempo, surgiu a oportunidade de procurar concretizar uma vontade, talvez megalómana, mas enfim, uma ideia que, no meio de tanta incerteza fazia caminhar. 

Embora exista esta circunstância, a disponibilidade, que permitiu a sua execução, há uma camada bem superior, a que motiva. Porquê continuar, ou procurar, fazer teatro onde ele já existe? Como posso deixar de compactuar com um sistema que privilegia constantemente a ascensão das assimetrias territoriais no que concerne à acessibilidade de programação cultural próxima e regular? E assim foi, com um enorme vínculo no território do qual sou natural, Carregosa (Oliveira de Azeméis), que me suportei para materializar uma vontade que por vezes ia surgindo mas, fruto do caos em que por norma vivemos, pela sobreposição de trabalhos, nunca havia sido devidamente planeada. 

A companhia já tem um logo para se apresentar graficamente // Cortesia de Bandevelugo

G. - Foram recentemente apoiados pela DG Artes e a Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis. O que é que esse apoio representa para vocês?
J.A. - Acima de tudo representa, finalmente, a conquista de condições para que um conjunto de profissionais se possa juntar e trabalhar com o tempo e dignidade que todos os projectos deverião ter. Representa talvez a forma perfeita de se arrancar com um projecto que sonha um dia poder ser uma Companhia, com contratos de trabalho, com equipa fixa, programação regular… Muitas vezes assistimos ao surgimento de colectivos que se entregam a estes inícios de alma e coração sem qualquer tipo de vencimento para conquistarem o seu espaço… felizmente tive a sorte de poder reunir condições e convidar pessoas de que gosto, e pagar-lhes.  

G. - " A Tempestade", de William Shakespeare, é a primeira peça que apresentam no concelho, percorrendo todas as aldeias. A escolha da peça teve alguma ligação com esse contexto, ou essa ideia da itinerância veio depois?
J.A. - A ideia de itinerância, de proximidade, é o pilar deste projecto. Este é justamente um estudo que quero desenvolver durante a digressão, mas arrisco-me a dizer que 80% dos Oliveirenses nunca assistiu a um espectáculo de teatro, ou visitou uma exposição, embora seja um concelho relativamente próximo do Porto e de Aveiro. Então, a ideia desenvolve-se a partir dessa premissa, criar as condições para que todas estas pessoas possam na sua aldeia, mesmo que em centros paroquiais, pavilhões ou armazéns, assistir a um espectáculo. 

A escolha do texto foi feita em conjunto com o encenador, o Ricardo Correia. Sabia que queria partir de um clássico. Muito se tem discutido acerca da necessidade de continuarmos a usar os mesmos textos, mas, a verdade é que há muitas comunidades que nunca se confrontaram com um texto de Shakespeare, ou um quadro da Paula Rego. E isso é terrivelmente injusto, acho. Todas as pessoas deveriam ter a opção, o direito, de se poderem confrontar com obras como estas. Então, que “magia” precisamos de fazer neste território para que o teatro possa acontecer, no seu sentido mais básico. Trata-se, e acima de tudo, de existir. Acontecer o que nunca aconteceu. Então, entre Próspero e Ariel, a vontade e as ferramentas, surge este projecto que pretende desviar para essas ilhas abandonadas por décadas de desinvestimento, algo que, pela sua inexistência, se torna matéria de festejo e sinalização, o percurso para o conquistar é sinuoso, mas haveremos de conseguir. 

G. - Como descreveriam o panorama do teatro fora dos grandes centros urbanos em Portugal?
J.A. - Talvez, para dar uma resposta mais sustentada não se encerre na questão do panorama teatral, mas sim, cultural. Isto porque, salvo algumas excepções, de uma qualidade brutal ( Lavrar o Mar | Comédias do Minho | Terceira Pessoa | A cidade de Viseu (...) ), o panorama teatral apenas é inexistente, e, por isso, impossível falar dele. Se normalizamos que professores de língua portuguesa/história, que nada sabem de teatro, lecionem disciplinas de expressão dramática, que mal faz termos um advogado responsável pelo pelouro da cultura? Ora, isto, inevitavelmente acarreta consequências nefastas. E a verdade é que o panorama cultural é refém da qualidade deste poder, refém da oscilação dos ciclos políticos, e refém de uma classe política, não raras vezes em decadência, intelectual e moral. Isto porque é muito fácil criar-se a ilusão de que há algo que se faz, que há investimento público. Mas, em muitos locais, ainda há uma grande falta de consciência na delineação dos objectivos do projecto cultural para esse território. Sem estratégia diferenciadora programamos como? O quê? Para quê? O que determina as minhas escolhas? Então, e aqui usando o meu território como exemplo, o panorama teatral, ao contrário do musical, anda meio à deriva. Apenas com criação de teatro amador, o que presenciamos é uma terrível desconexão destes projectos com a programação cultural do município. Não há qualquer tipo de relação entre estes barcos de resiliência e amor com o pilar cultural da cidade. Então, no meio desta desconexão, alheamento e distância, há apenas uma deriva onde a tónica é sobreviver.  

A primeira apresentação de “A Tempestade” será no dia 29 de outubro, no Auditório Diamantino Melo, em Carregosa. Integram esta primeira produção Ricardo Correia (encenador), Bárbara Soares (intérprete), Daniela Cardoso (intérprete), Daniela Silva (intérprete), Joana Gomes (intérprete), João Amorim (intérprete), Miguel Lança (intérprete), Joana Rodrigues (produtora), Rita Campos (cenógrafa), Sara Silva (figurinista), Jonathan Azevedo (designer de luz), João Castro (operador técnico), Pedro Santos (artista gráfico), Carlos Gomes (fotógrafo), João Neto (realizador) e Lara Santos (apoio à digressão).

Texto de Carolina Franco
Fotografia da cortesia de Bandevelugo

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