Desenvolver competências de liderança nos jovens e colocá-las ao serviço do diálogo intercultural é a missão da AIESEC. Com três programas-bandeira - Global Talent, Global Teacher e Global Volunteer, o movimento propõe-se trabalhar o desenvolvimento pessoal e profissional dos seus membros, preparando-os, respetivamente, para uma experiência de estágio, ensino ou voluntariado internacional. O movimento é reconhecido pela UNESCO e os seus projetos no âmbito do programa Global Volunteer pretendem contribuir para a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), nas áreas das alterações climáticas e redução das desigualdades. Os candidatos a voluntários podem, inclusive, procurar oportunidades através do ODS com o qual mais se identificam.
A AIESEC surge no tempo e no espírito do pós-guerra. O ano de 1948 é consensualizado como o início do movimento, ainda que nem todas as informações sejam conhecidas em detalhe: no livro que assinala o seu septuagésimo aniversário, dá-se conta da inexistência de um documento oficial de constituição da AIESEC, apenas o conhecimento, via transmissão oral, de que pelo menos sete estudantes de seis países (Bélgica, Suécia, França, Suíça, Holanda e Checoslováquia) estiveram envolvidos no arranque. A justificação para a ausência de informação mais detalhada é o período histórico e as dificuldades de comunicação decorrentes da guerra. A AIESEC foi-se progressivamente alargando, estando hoje presente em mais de 100 países e territórios. Inicialmente um acrónimo para Association Internationale des Étudiants en Sciences Économiques et Commerciales, o movimento evoluiu para algo muito mais abrangente. Agora, AIESEC já não é acrónimo, apenas o nome do movimento, e os seus membros são designados por “AIESECers”.
Em Portugal desde 1959, a AIESEC chega a 0,01% dos jovens, mas o seu diretor de gestão de projetos (e presidente a partir de agosto) tem a ambição de chegar a 10%.
O que significa ser membro da AIESEC?
Há várias razões pelas quais as pessoas entram na AIESEC, e nem sempre são as razões pelas quais ficam. Ser membro da AIESEC tem vários pontos positivos. Todos os membros conseguem realmente desenvolver capacidades de comunicação, de liderança no geral, capacidades de que precisam para desenvolver liderança, e também estão a contribuir para algo maior. Não gostamos de nos chamar uma organização, gostamos de nos chamar um movimento que está realmente a lutar pela paz e por alcançar o potencial humano. E fazemos isto através de intercâmbios, através de exchanges e através de estágio internacional. Portanto, os membros também sentem que estão a lutar por esta causa, por este movimento, e é algo para que querem continuar a contribuir.
E depois também fazem parte de uma grande comunidade. Aqui em Portugal somos mais ou menos 250 pessoas todas a lutar pelo mesmo, ou seja, também conseguem criar estas conexões entre si próprias. São esses os principais fatores pelos quais as pessoas gostam de estar e de ficar na AIESEC também.
Existem três programas-bandeira: o Global Teacher, o Global Talent e o Global Volunteer. A partir do momento em que alguém se torna membro da AIESEC, o objetivo é vir a integrar um destes programas ou também há membros que não chegam a integrá-los e desenvolvem outro tipo de atividade?
Infelizmente há membros que não chegam a integrar. Nós temos certas campanhas específicas para membros internos através das quais eles podem participar destes programas. Nem todos participam, mas o nosso objetivo é fazer com que toda a gente queira participar, porque de certa forma é o que nós estamos a tentar dar aos jovens, portanto faz sentido experienciá-lo na nossa própria pele.
Em que consiste cada um destes programas?
O Global Volunteer é um programa de voluntariado internacional de curta duração, tipicamente de quatro a seis semanas. Foca-se em projetos com impacto social alinhados com os ODS, como educação, ambiente ou inclusão social. O Global Talent é um programa de estágios profissionais internacionais de média/longa duração (entre dois e 18 meses), direcionado para áreas como gestão, marketing, IT, engenharia, entre outras. O Global Teacher é um programa de estágios internacionais na área da educação, que dura normalmente de três a 12 meses. Os participantes ensinam línguas ou outras disciplinas em escolas no estrangeiro.
Como funciona a ligação do Global Volunteer com os ODS?
Os projetos do Global Volunteer estão todos diretamente ligados a um dos ODS, e esta ligação está presente no website quando os voluntários procuram oportunidades. Os projetos são desenhados diretamente tendo isto em conta para contribuir diretamente para os critérios de pelo menos um dos ODS.
Já falaste aqui na questão da liderança, que é uma dimensão muito importante da atividade da AIESEC. Na prática, como é que isto se materializa? Como é que estas competências são trabalhadas junto dos membros?
Uma das características que acho mais importantes para a liderança é o sentido crítico e o sentido de análise do que é a verdade, onde podemos encontrar a verdade, e isto é o que nós trabalhamos todos os dias.
Há vários departamentos, ou seja, [as competências] vão ser trabalhadas de forma diferente, mas os membros são mesmo puxados aos limites que conhecem de si mesmos. Não é uma organização ou um movimento no qual uma pessoa possa só estar simplesmente e não fazer absolutamente nada. Não dá para fazer isso na AIESEC, porque nós queremos realmente desenvolver a liderança, e isso faz-se com as pessoas a desafiarem-se a si mesmas, desafiarem os seus próprios pensamentos, desafiarem as suas capacidades, desafiarem o que elas próprias acham que são capazes [de fazer], e nós fazemos isso no dia-a-dia. Depois, há também a parte da comunicação: em todos os cargos há interação com bastantes pessoas, o que é muito importante.

Quando dizes que isso é feito no dia-a-dia, é através de atividades?
No dia-a-dia, no próprio trabalho. [Os membros] são estudantes universitários e nós temos noção de que a carga horária de alguém na AIESEC normalmente é maior do que em outras organizações porque nós estamos realmente a tentar desenvolver liderança e por isso é que também nos orgulhamos do facto de conseguirmos desenvolver as pessoas. A carga horária mínima é de duas horas por dia. Não parece imenso, mas comparativamente a outras organizações, não é a mais baixa. Portanto, nós acabamos por desafiar as pessoas desta forma, ao pô-las em contextos onde têm de interagir com bastantes pessoas diferentes e dar a sua opinião, e realmente encontrar soluções para os seus problemas.
Uma coisa que nós fazemos sempre nos cargos de liderança é não darmos soluções right away. Nós realmente esperamos que as pessoas cometam erros, para eventualmente conseguirem encontrar as soluções por si mesmos também. Claro que com o nosso suporte, e nós também podemos ajudar nesse sentido, mas o objetivo é que eles realmente pensem por si mesmos, desenvolvam esse sentido crítico, arranjem estas soluções, porque é assim que se vão desenvolver. Se os tratarmos como robôs, em que há um problema e se dá uma solução, eles não vão conseguir realmente pensar no que podem fazer melhor.
Portanto, são desafiados a encontrar soluções para problemas que podem surgir nas mais variadas dimensões da sua vida, é isso?
Exatamente.
Como se caracteriza a presença da AIESEC em Portugal? É exclusivamente através das universidades ou esse não é um requisito obrigatório para se ser membro?
Não é um requisito obrigatório. O único requisito é ter entre 18 e 30 anos.
O nosso maior público-alvo acaba por ser estudantes universitários, mas também temos, por exemplo, jovens que começaram há pouco tempo a trabalhar, e temos membros da AIESEC nessa situação, tanto em cargos mais baixos como em cargos mais altos. Mas a maior parte do público acaba por ser estudantes universitários, que também têm mais disponibilidade para estarem presentes nos escritórios e darem mais do seu tempo à AIESEC.
Os três programas que a AIESEC desenvolve dependem, naturalmente, de parcerias institucionais, com organizações que acolham os membros. Existem critérios particulares para que uma organização tenha uma parceria com a AIESEC?
Há alguns critérios, e nós temos vários tipos de parcerias diferentes. A maior parte das parcerias institucionais servem para promover os nossos programas. Nesse sentido, é bastante abrangente, porque são maioritariamente universidades, associações de estudantes, também media ou até algumas entidades governamentais e outras organizações. Não há grandes critérios para se ser parceiro da AIESEC. Apenas temos de chegar a um acordo quanto ao que pode ser feito por ambas as partes para que a parceria seja benéfica para ambos. Depois temos parcerias corporativas, onde os requisitos estão relacionados com a ética. Não nos queremos envolver com empresas que, por exemplo, apoiem estados que promovem a guerra. Não queremos ter este tipo de parcerias, porque também vão contra os nossos valores enquanto AIESEC.
A AIESEC nasceu em 1948, precisamente num contexto de pós-guerra, para promover uma lógica de entendimento entre países. Esse entendimento está agora ameaçado por este xadrez geopolítico cada vez mais imprevisível. Do teu ponto de vista, isto dá ainda mais sentido à intervenção da AIESEC ou até pode constituir um desafio maior ou pode fazer perigar, de alguma forma, os objetivos do movimento?
Eu acho que ainda nos dá mais motivação, de certa forma. Ainda dá um propósito maior à AIESEC. Isto é algo que eu ouvi desde que entrei na AIESEC e é das minhas frases favoritas: eu vou saber que a AIESEC cumpriu o seu objetivo quando a AIESEC acabar, quando não precisar de existir mais. Portanto, de certa forma, o nosso objetivo é mesmo que a AIESEC pare de existir, porque significa que conseguimos alcançar a paz. Em momentos como este, onde vemos muito conflito geopolítico e também vemos, mesmo dentro do nosso próprio país, muita discriminação e o aumento da extrema-direita, por exemplo, a AIESEC é cada vez mais relevante, e isso também nos motiva no nosso dia-a-dia para conseguirmos ter mais exchanges. Porque nós realmente acreditamos que, seja pelo voluntariado, pelo estágio ou pelo Global Teacher, realmente conseguimos desenvolver estas competências de sentido crítico nos jovens, para eles conseguirem encontrar as suas próprias soluções. Os jovens portugueses neste momento sentem muito medo do futuro, e medo também do presente, e quando as pessoas sentem medo, começam a procurar respostas simples para problemas muito complexos. E quem dá estas respostas simples é a extrema-direita, na maior parte das vezes. E a AIESEC não é um movimento que dê respostas simples, de todo. Vai desenvolver as pessoas para que consigam encontrar as soluções por si mesmas. Neste momento, alcançamos cerca de 0.01% da juventude portuguesa. Se conseguirmos chegar aos 10%, já vai haver uma mudança muito maior. Também isso nos motiva para conseguirmos alcançar mais pelo país e também pelo mundo.
Portugal juntou-se à AIESEC em 1959. Como foi o trajeto de um movimento virado para o diálogo internacional, que nasce num contexto de ditadura num país completamente fechado ao mundo?
A AIESEC na altura até foi criada com um nome que dava a imagem de uma associação de estudantes de economia. Era para passar por baixo do radar. O primeiro escritório foi em Lisboa. Na altura, obviamente, não se conseguia fazer muitas trocas internacionais, era bastante complicado. No entanto, era uma organização que, pelos seus valores, prezava pela paz e prezava por este entendimento multicultural. Infelizmente, nós não temos grandes informações de como a AIESEC em Portugal foi até ao 25 de Abril. Temos mais informações a partir de 1990, mais ou menos, mas sabemos que as trocas internacionais não eram tão prevalentes. No entanto, a AIESEC sempre falou sobre os assuntos que tinham de ser falados.