Atualmente existem projetos em que se põem músicos a atuar em escritórios, em táxis, em barcos ou até em lugares cuja localização é desconhecida ao público até à hora do espetáculo. O fenómeno de promover uma maior ligação entre público e artistas, pondo-os num espaço diferente do habitual, não é novo, mas há sempre espaço para ideias inovadoras. É a partir deste princípio que nasceu, em 2015, um projeto português, chamado Bathstage, que depois de uma fase embrionária, está agora num período de retoma. O conceito é simples: convidar artistas e pô-los a atuar numa banheira, chuveiro ou polibã disponível numa qualquer casa de banho mais próxima.

Carolina Caldeira é fundadora e diretora artística do projeto, que idealizou enquanto trabalhava num hotel da cidade de Lisboa. Nessa altura, como a sua função passava por fazer uma inspeção aos quartos, antes e depois das habituais limpezas, surge a ideia de utilizar o mesmo hotel para promover um concerto com músicos numa dessas casas de banho.

“Trabalhava num hotel e uma das coisas que tinha de fazer era inspecionar a limpeza dos quartos, portanto passava muito tempo em casas de banho a analisar basicamente tudo. Foi assim que me surge a ideia de que podíamos ser o primeiro hotel a ter concertos em banheiras”, conta a fundadora em entrevista ao Gerador.

A equipa do Bathstage é composta por Carolina Caldeira, Ana Paula Neves, Francisco Peres, Mariana Corda, Tiago Gomes, Tiago Charrua, Chiara Missaggia, Victor Hugo e Luis Sangiorgio

Sem recursos disponíveis para tal, é nesse período que passa também pela escola Restart, onde vislumbra a possibilidade de tornar o Bathstage numa realidade. “Nessa altura, tive um professor, chamado Ricardo Miranda, que me deu, basicamente, as ferramentas necessárias para a materialização do projeto”, salienta.

Assim em 2016, é gravado, juntamente com uma equipa de alunos da Restart, um primeiro episódio com as Golden Slumbers, mas que não teve o impacto esperado. Em simultâneo, e no ano em que a Web Summit vem para Portugal, surge a proposta de fazer do Bathstage um festival, em conjunto com a startup Uniplaces. O Bathstage Festival aconteceu em quatro pequenas casas de banho de uma residência estudantil e contou com a atuação de Dark Sunn, Mike El Nite, Surma e outros artistas portugueses. “O festival correu super bem, e tivemos mais de trezentas pessoas. Foi dessa forma que fechámos o ano de 2016”, explica.

A partir daí, Carolina passou por uma fase em que apresentou o projeto a diversas marcas, no sentido de obter possíveis apoios. “Tinha os dois modelos, o online e o festival, mas não obtive apoios. Entretanto, comecei a trabalhar numa nova empresa e achei que o projeto ia ficar por ali”, sustenta.

A verdade é que uma das suas candidaturas a possíveis apoios surtiu efeito e, em 2018, é convidada a apresentar o seu projeto no Art Directors Club of Europe– High Potentials, em Barcelona, onde se dão a conhecer ideias inovadoras, que vão do design à produção de eventos.

Quando regressa a Portugal, é contactada pelo fotógrafo brasileiro Daryan Dornelles, que lhe propõe fazer uma nova gravação do Bathstage. Motivada pela nova oportunidade, Carolina junta uma nova equipa, composta atualmente por Ana Paula Neves, Francisco Peres, Mariana Corda, Tiago Gomes, Tiago Charrua, Chiara Missaggia, Victor Hugo e Luis Sangiorgio.

Em 2016, acontece o primeiro Bathstage Festival onde atuam diversos artistas nacionais

Em fevereiro deste ano, foram gravados sete episódios, sendo que o primeiro foi lançado na última segunda-feira e conta com uma performance do cantor Zé Manel, vocalista dos Fingertips.

Para já, o Bathstage tem preparados mais seis episódios, que saem todas as segundas-feiras, a contar já com a próxima, no dia 20 de maio. Entre as próximas atuações, constam artistas portugueses, brasileiros e ainda uma cantora islandesa. “Sendo um projeto aberto, quanto aos artistas e géneros musicais, funciona, sobretudo pela combinação entre gostarmos de um artista e ele gostar do projeto”, realça.

Para já, a diretora artística do Bathstage não consegue imaginar qual o possível futuro do projeto. “A volatilidade do Bathstage permite que ele caiba em qualquer lugar, em qualquer país, com qualquer estilo de música, porque é muito humano. Quando vais ver um concerto ao Altice Arena, pode ser um grande espetáculo, mas a verdade é que a arte de um músico começa num sítio mais humano, como o quarto”, sublinha.

É esse o espaço que o Bathstage quer ocupar, refere ainda, sublinhando que o projeto pretende “funcionar com um convite a artistas e promover a aproximação com o público”. O princípio é simples, reforça: o de trazer músicos a atuar em banheiras. Além do mais, trata-se de uma espécie de lei básica do nosso quotidiano, afinal “qual de nós não canta no banho?”, conclui.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias de Tiago Charrua

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