A partir do desenho aproximou-se da forma e, consequentemente, da curiosidade pelo objeto. No trabalho que tem desenvolvido, a artista portuguesa Bela Silva leva a cerâmica a um novo entendimento sobre o lugar que esta arte ocupa. É transdisciplinar, vive de uma tensão entre o clássico e o moderno, mas não tem limites. A certa altura, paira no ar o verso do poeta Mário Cesariny: “Ama como a estrada começa”. E a cerâmica é exatamente um princípio de algo, que nem sempre tem fim à vista.

Nesta entrevista ao Gerador, a artista que trabalha entre Lisboa e Bruxelas, na Bélgica, fala-nos um pouco do seu percurso, dos campos de férias que passou na Grécia dedicados à arqueologia, da sua passagem pelo Estados Unidos, mas também da obra que continua a ser feita entre os dois países, aberta a diferentes influências. Com uma exposição marcada para setembro, a ceramista aborda ainda as mudanças no seu processo de criação e forma como olha para a tendência crescente em torno da cerâmica, quer em termos de mercado, quer em termos daqueles que procuram criar.  

Gerador (G.) – Li numa entrevista que passavas as férias da adolescência em campos de arqueologia na Grécia. Fica daí uma ligação com a história e a arte que a influenciou no seu percurso?
Bela Silva (B. S.) – A parte da história sempre me interessou e, em especial, a parte de arqueologia. Passava os meus tempos livres, quando era mais jovem, com cerca de 15 anos, em campos de arqueologia e a verdade é que isso acaba por se refletir também um pouco no meu trabalho, porque há sempre essa inspiração de outras épocas. E, de facto, a Grécia é incrível nesse aspeto, porque tudo aquilo que lá existe é igualmente contemporâneo. Eles acabaram por influenciar uma série de artistas. Basta olhamos para as peças do Giacometti, por exemplo.

G. – Mas acaba por ser um dado curioso. Nem todos os jovens de 15 anos teriam essa oportunidade.
B. S. – Claro, mas tem que ver com o meio onde cresci. O meu pai trabalhava com metal, fazia peças e é uma pessoa que tem uma ideia das proporções do objeto. A minha mãe também fazia a parte dos padrões porque trabalhava moda, no prêt-à-porter e fazia desenhos dos moldes em papel, portanto eu vi-a sempre a desenhar. Havia na família umas tias que também pintavam, portanto havia ali já um lado artístico, mas que acabaram por não seguir, porque era complicado viver da arte.

G. – De qualquer das formas, era um meio onde já se sentia essa ligação artística?
B. S. – Sim e também muitas histórias que me fascinavam. Desde o Walt Disney, à Alice no País das Maravilhas, os contos de Andersen. São coisas de que eu sempre gostei, os contos, e que sempre me acompanharam.

G. – E embora hoje esteja mais ligada à cerâmica, sei que era no desenho que depositavas as suas primeiras ambições artísticas.
B. S. – O desenho acaba por ser a base de tudo. E o barro, já falando em cerâmica, permite dar vida a algumas dessas formas que desenhava. Por isso é que, para mim, sempre foi um material interessante, que, na altura, quando andava nas Belas-Artes e quando ainda não havia este boom da cerâmica, até ficávamos mal vistos, quem trabalhasse com a terra. Porque era o craft, não era a arte em si, o que levantava todas aquelas questões discutidas durante gerações. Mas não me interessava muito esse lado. Interessa-me a criação.

Bela Silva reparte o seu tempo entre Bruxelas e Lisboa
© Angela Martin-Retortillo

G. – Mas disse que a sua mãe desenhava e que o seu pai também tinha uma ligação ao objeto, nomeadamente ao metal. Existia aí uma harmonia que passou para si enquanto ceramista?
B. S. – Sim, acabava por estar rodeada por diferentes cheiros, das tintas, do metal, das ferramentas. Desde miúda que sempre houve essa ligação.

G. – É depois em Chicago que se liga de forma mais objetiva à cerâmica. Como foi essa experiência do outro lado do Atlântico? Notava uma outra forma de olhar para a cerâmica?
B. S. – Quando cheguei a Chicago era completamente diferente. Naquela altura, havia poucas coisas em Lisboa e, quando cheguei, perguntei onde é que era o Art Institute. Parei à frente do museu, com uns grandes leões na porta e disse «meu Deus, isto é que vai ser a minha escola». Mas não era a escola, era o museu que pertence ao Art Institute e nós depois até tínhamos um cartão que dava acesso ao museu e à biblioteca. Mas claro, os americanos na cerâmica fizeram a diferença. Com muita inspiração japonesa, acabaram por fazer peças também de grandes proporções que criaram toda uma nova escola da cerâmica, sobretudo nos anos 60 e 70. Eles queriam que desaparecesse essa noção do craft, ligado ao barro. Quando trabalhas com barro, chamam-te de ceramista. Mas quando trabalhamos com o bronze, não te chamam ‘bronzista’. E nessa minha estadia conheci alguns desses artistas que fizeram essa diferença na forma como se olhava para aquele material.

G. – Que acabaram por transformar a forma como se olhava para a cerâmica.
B. S. – Completamente. Há toda uma escola e alguns até foram meus professores. Foi importante essa experiência. Quando cheguei lá não conhecia ninguém, com umas temperaturas terríveis… Chicago é uma cidade muito interessante em termos da arquitetura, onde os arranha-céus têm vários elementos da arquitetura clássica, com proporções que não têm nada que ver com a escala e o urbanismo europeu. Era outra coisa e foi assustador, mas ao mesmo tempo foi também excitante porque pude, principalmente, ter tempo para me focar durante dois anos nos estudos. E com o acesso ao museu que tem um quadro do Amadeu Souza-Cardoso, o que acabava por me inspirar.

G. – Já falou por diversas ocasiões da obra de Amadeo. De que forma é que lhe foi importante?
B. S. – Eu gosto imenso das suas ilustrações a preto e branco, por exemplo. Mas é também um pintor, e ainda há pouco tempo foi exposto em Paris, que muitas pessoas não conheciam. E foi uma pena o esforço que se fez em montar essa exposição e depois não ter continuado para outros países e dar a conhecer o artista.

G. – No caso da cerâmica portuguesa, há um legado que lhe é importante?
Tive uma ligação sempre com o Bordalo e vemos nele as influências do Palissy, nomeadamente toda a mistura dos bichos. Lisboa é uma cidade também toda ela virada para a cerâmica, mesmo hoje, em matéria de ateliers e depois também com a azulejaria, presente desde logo nas fachadas dos nossos edifícios.

G. – Mas diria que Portugal acaba por ter um papel importante no caso da cerâmica?
B. S. –Portugal é um país da cerâmica e muito ligada às artes decorativas e ao imobiliário. Somos muito fortes nisso. Nós nunca tivemos aqueles pintores como os espanhóis tiveram, como um Velasquez ou um Goya, mas quando nós olhamos para a nossa arquitetura e a forma como utilizamos a azulejaria encontramos algo que muito é característico de Portugal. E é pena que muitos arquitetos, mesmo hoje em dia, continuem a utilizar só as fachadas brancas, muitas vezes inspirados pelo que se faz lá fora e acho que deviam, às vezes, olhar também para aquilo que temos e para o seu potencial.

G. – Sei que nos últimos anos tem utilizado muitas colagens, por exemplo, e outro tipo de técnicas. Há um processo de desconstrução da própria cerâmica ou continua a existir uma base rígida?
B. S. – Eu gosto muito de trabalhar no relevo, está na base de tudo que faço. Mas sinto que estou sempre a começar e que há ainda muito para explorar. O tempo passa rápido e fico sempre a pensar que ainda não consegui fazer bem aquilo que queria.

O estúdio de criação

G. – Recorda-me uma frase do Cesariny que diz: “ama como a estrada começa”. Na cerâmica e na escultura consegue perceber quando termina uma obra?
B. S. – Não e é isso mesmo que eu gosto, porque há sempre essa surpresa. Às vezes, começo com um desenho, mas a partir de um momento temos que deixar fluir as coisas e a expectativa é a de se ser surpreendida no final. Mas é um trabalho muito demorado. As pessoas não percebem o tempo que leva, às vezes que cada peça tem de ir ao forno. Por vezes, as pessoas pensam que a cerâmica é como fazer um bolo. Mas é um processo que demora tempo e que muitas vezes não corre bem, porque há peças que se partem.

G. – Tem feito também várias obras de arte pública. Como olha para esta tendência que, cada vez mais, se vê nas cidades?
B. S. – Em Portugal, fiz pouca coisa ainda. Fiz no metro de Alvalade, mas tem sido no estrangeiro, mesmo com arquitetos e decoradores, que fui tendo essa possibilidade de poder fazer esse tipo de projetos. A verdade é que em Portugal têm surgido poucas coisas.

G. – Mas é uma tendência que lhe interessa ou tem dificuldade em relacionar-se depois com as obras que ali deixa?
B. S. – Às vezes fico com pena de elas não me pertencerem (risos). Mas é ótimo que isso esteja a acontecer. Eu acho que agora estou numa fase muito importante do meu trabalho porque também há todo um acumular de experiência e chegas a uma altura em que realmente estamos posicionados e sabemos onde é que queremos ir e o que queremos fazer. E quando surgem essas oportunidades de concretização é ótimo.

G. – Continua a dividir o trabalho e a sua vida entre a Bélgica e Portugal. Como é que tem sido feita essa gestão?
B. S. – Emocionalmente, as emoções estão em Portugal, porque foi o país onde cresci. No caso da Bélgica, é sempre difícil quando vamos para outros países, porque deixamos a nossa tribo e ficamos um bocadinho ali por adotar. Mas também tenho de agradecer a Bruxelas por me ter a oportunidade de desenvolver o meu trabalho. A Bélgica é também um país muito central, que é o que me interessa. E é verdade que as pessoas também têm um poder económico que permite a criação de mais espaços para as artes, sendo que essa ligação está presente desde que são crianças.

G. – Uma ligação muito mais presente do que em Portugal?
B. S. – Claro é até mesmo em termos da estética. Mas lá está, também tem que ver com o clima, as pessoas lá acabam por dar mais importância à casa. Esta nossa sociedade do sul é diferente. Gostamos de estar mais na rua, no café, etc. O que é bom para mim, porque tenho estas duas vertentes, do norte e do sul.

G. – Portugal é um mercado com potencial?
B. S. – Portugal começou há pouco tempo a ser mais internacional. E se as pessoas não veem o teu trabalho é sempre mais difícil. Hoje em dia há muitas pessoas de vários países que passam por cá e então começam a surgir outras oportunidades. Claro que depois tem tudo que ver com o estar no sítio certo, à hora certa. Pode-se ter muito talento, mas se ninguém te descobre não há esse retorno.

G. – Há uns anos disse que na altura seria um erro voltar a Portugal para se estabelecer mesmo em termos de trabalho.
B. S. – Eu ainda continuo nesta vida um pouco louca de andar para a frente e para trás, o que não é fácil. Mas não tenho a menor dúvida de que, mais tarde, vou voltar.

Bela Silva no seu anterior estúdio em Bruxelas
© Frederik Vercruysse

G. – Consegue fazer uma retrospetiva do seu trabalho e das mudanças que o próprio foi sofrendo?
B. S. – Às vezes, digo aos mais jovens, que mesmo quando olho para os cadernos que fazia em Belas Artes, já havia ali uma série de coisas que apontavam para aquilo que eu ia fazer. Porque a verdade é que nesses cadernos havia desde colagens, coisas da moda, um desenho de um sapato, um desenho de um castiçal, coisas que levei também para Chicago, onde os professores diziam que eu era quase uma marca. E a verdade é que mais tarde comecei a trabalhar com marcas como a Hermès, que me deram a oportunidade de, a partir do meu desenho, criar e é isso que também me interessa. Interessa-me fazer exposições e, em setembro, fui convidada para fazer uma exposição na Casa-Museu do Victor Horta, em Bruxelas, mas nunca quis colocar um rótulo. Um artista é sempre um criativo e, no meu caso, gosto de criar distâncias. Há momentos em que prefiro não pegar no barro e acredito que essa tal distância nos faz evoluir, porque implica um olhar renovado.

G. – Mas há uma mudança de paradigma, em que o artista já não trabalha apenas para a exposição?
B. S. – Todos os artistas são diferentes. Eu acho que, como artista, é importante termos as galerias a representar-nos e que ajudam nessa parte comercial e de receber as pessoas que querem ir ao ateliê. Hoje em dia recebo imensos emails de pessoas que estão a fazer cerâmica e que querem ir ver como é que faço, mas para se ser artista é preciso que estejas sozinho. Não és um macaquinho ali no meio a fazer umas habilidades para as pessoas verem. E acho que hoje em dia as pessoas têm acesso à informação, mas ainda querem mais e há um momento em que tens de estar sozinho para poderes criar.

G. – Mas associa essa curiosidade ao boom da cerâmica?
B. S. – São modas. Houve uma altura em que foi a fotografia, agora é a cerâmica. Acontece também que as pessoas estão com uma necessidade de trabalhar com as mãos, porque estamos a viver uma realidade muito rápida. A realidade do computador não tem que ver com a nossa realidade e ninguém consegue acompanhar este ritmo. Aliás, eu acho que isto se vai dividir em dois tipos de pessoas: as que vão querer voltar para o campo e fazer trabalhos com as mãos e as outras que são completamente obcecadas com a Internet. E este tempo de confinamento vai trazer grandes mudanças.

Peça de Bela Silva
©Margaux Nieto

G. – No seu caso foi proveitoso em termos de criação?
B. S. – Para mim, a única boa foi que eu tive mais tempo para ler e assim, mas estamos fartos. Fluidez artística sempre tive, não preciso de estar confinada e com uma máscara. Sou uma pessoa que não tem falta de inspiração, tenho é falta de braços.

G. – Há alguma área artística que gostasse de desenvolver e que ainda não tenha tido a oportunidade?
B. S. – Gosto muito de madeira e de móveis e é uma área que gostava de desenvolver. Também tenho aí uns convites para trabalhar com papel de parede e tecido e é isso. A exposição já não é uma coisa tão importante para mim como foi e apetece-me fazer outras coisas.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Angela Martin-Retortillo

Se queres ler mais entrevistas sobre a cultura em Portugal, clica aqui.