No conto de Charles Perrault distribuído na década de 50 pela Walt Disney, a Bela Adormecida é uma jovem branca, de cabelos longos claros, que esboça uma inocência, amaldiçoada por Malévola, que a enfeitiça para que caia num sono profundo. A jovem espera pelo beijo do príncipe encantado que a salvará dessa mesma maldição, para que, juntos, possam viver felizes para sempre. Mas, e se a Bela Adormecida utilizar esse mesmo sono para dominar o seu observador e mostrar que não precisa dele para ser feliz para sempre?

Diana de Sousa sempre foi bastante tímida e nunca viu no palco um lugar que também podia ser seu. Entre educação artística e o mundo das artes, foi num curso de expressão teatral com um texto de Tchekhov que lhe surgiu o interesse por esta arte. O Conservatório acabou por ter um papel importante, pois uma cadeira de performance levou-a a perceber que o caminho tinha de ser entre performance, artes visuais, sempre com o lado de criação. Desde 2015 teve a oportunidade de trabalhar enquanto atriz e criadora, mas só em 2017 se estreou a solo com Travessa da Espera, em que, pela primeira vez, abordou o tema da espera por parte das mulheres.

Travessa da Espera, “que nos dá a imagem da mulher que espera pelo amor pacientemente”, conta Diana, incluía mulheres que viviam no Porto, e Diana fez a inversão de papéis. Por exemplo, descreve “havia uma mulher que estava numa relacionamento e tomou a decisão de fazer a transição de sexo, depois havia uma outra senhora que, na altura, do terramoto do México, em 2017, ficou vários dias sem saber se o seu marido tinha morrido ou não, outra tinha uma relação à distância então contabilizava os dias que não estava com o namorado, outra das histórias era uma mulher cujo pai tinha sido um dos primeiros presos do Tarrafal então ela tinha herdado esse lado convicto e acabou por ser presa também, e não prisão escrevia muito e refletia também, até chegar à conclusão que a pior coisa que tinha feito na vida tinha sido casar”.

Em 2018, começou a olhar para o papel desta mulher que espera com outros olhos e percebeu que podia juntar conceitos como somnofilia, voyeurismo, convocando outros referentes literários, mas também aparatos evocativos de protocolos de submissão e dominação e ainda a quase “padronização da mulher perfeita”.

Do teatro ao chat, quem domina é quem não observa

“A Bela Adormecida é algo mais feminista, e, quando iniciei o projeto, nunca pensei que tivesse estes vários formatos”, começa por lembrar Diana, que começou o projeto pelo RIVOLI – Teatro Municipal do Porto, apresentado no âmbito do FITEI. Esta primeira fase, conjugava artes visuais, cinema, tecnologias e literatura em cima de palco. A própria criadora estava “dentro e fora”, como explica, como Bela Adormecida num cenário onde o público quase está dentro de cena. Ainda no mesmo ano, a Bela Adormecida tornava-se digital com o nickname bela_adormecida – a versão duracional do projeto.

Esta versão está dividida em dois momentos, o momento do chat, onde existe uma conversação de mais ou menos uma hora, e depois o encontro. Tudo é uma performance e os participantes sabem-no.

“Um pequeno quarto. Vemos algures um relógio-despertador de mesa que toca todas as manhãs, sempre às sete. É meia-noite. Uma mulher, com uma peruca de fios de cabelos pretos que lhe caem ligeiramente abaixo do queixo e de lábios pintados de vermelho, dorme numa cama, imóvel. Está pronta para ser visitada.

bela_adormecida: Um destes dias, vou estar sozinha, a dormir, num quarto. Vais ficar comigo da meia-noite às sete da manhã. Podes ficar o tempo que quiseres. Cinco minutos ou a noite toda. Mas, às sete da manhã, quando o relógio tocar, já lá não poderás estar. Para falares comigo entra no chat.”

É isto que se pode ler quando entramos em bela-adormecida.com. Para Diana, não interessa o que o outro lado tem para dizer – “é como comer o bichinho e puxá-lo para o meu espaço”. Durante a conversação no chat, Diana pergunta se há algo que queira ver disponível no quarto, por exemplo, um copo de vinho, jantar. Não dá detalhes do que vai acontecer e, depois de tudo acordado, a mesma faz a distribuição de cada participante (que também tem o seu nickname) por cada Bela Adormecida. O tal pedido, será ou não concedido pela Bela Adormecida, “ela está numa posição de poder, é ela que decide tudo”.

Horas antes da meia-noite, a Bela Adormecida começa a preparar o espaço – “Eu tenho um encontro uma semana antes com a Bela Adormecida porque tudo tem de ser construído como se fosse consciente. A luz, o posicionamento das coisas, o cheiro, tens de ser consciente de que se fumas um cigarro, a pessoa que chega ao pé de ti vai cheirar esse tabaco. O perfume, os brincos. O quarto tem de ser uma instalação até o que está por baixo da cama, tudo tem de ser montado para receber essa pessoa. No dia, são elas as encenadoras, são elas que tomam as decisões”, explica.

A própria espera até ao dia do encontro faz parte da performance, porque “cria uma expectativa, tanto de um lado como do outro, e existe esta força do imaginário, de arriscar. Na verdade, o amor é uma expectativa que criamos do outro e do que pode vir a acontecer, e um encontro tanto pode correr bem, como não”, desenvolve Diana.

O espaço de apresentação desta performance versão duracional acontece em quartos de hotéis, guest houses, quartos de residências artísticas, casas, Airbnb ou hostéis. Para segurança de todos, e também fazendo parte da performance, o participante tem de dar os seus dados e nome verdadeiro à entrada e existe um protocolo composto por sete regras. É expressamente proibido: remover o fato que cobre o corpo da “bela adormecida”; remover a máscara facial até à saída do espaço; utilização de materiais cortantes ou pontiagudos; dar a ingerir medicamentos, comida ou líquidos à “bela adormecida”; uso de câmaras fotográfica – filmar áudio ou imagem; uso de armas ou ferramentas, materiais explosivos ou inflamáveis; uso de substâncias químicas ou tóxicas; qualquer ato que ponha em causa a segurança e integridade física da “bela adormecida”. Existe ainda um protocolo para a Bela Adormecida com hora marcada de entrada no quarto; procedimentos a ter no quarto e/com o convidado dentro do conceito/jogo proposto; e um protocolo para a vigilante. A figura da “vigilante” permanece no espaço da apresentação (fora do quarto), até às sete da manhã e serve para encaminhar os convidados para o quarto e para relembrar o “protocolo dirigido ao convidado”, sempre que esteve tiver alguma dúvida.

Num canto do quarto, existe uma câmara que filma tudo o que acontece no espaço (os convidados sabem que estão a ser gravados). No momento que a Bela entra no quarto, põe a câmara a filmar e só às 7h00, quando a performance termina. A câmara é, sobretudo, um instrumento de prazer para ela, dando lugar ao voyeurismo. Serve de “gravador do momento”, que será só depois visto por ela. “Uma prova” do “estado de presa” do convidado, “a “rendição” completa sobre o artifício da armadilha e sobre a garra da ilusória personagem que observa de olhos fechados. O perverso e o arriscado está sobretudo naquilo que se imagina que poderá acontecer dentro do quarto, e essa é a grande força de tudo – as expectativas que ela cria no convidado e na dominação que tem sobre ele.

Mas quem são estas Belas Adormecidas?

Todas as Belas têm uma peruca que nos fazem lembrar a Branca de Neve e ainda uma segunda pele. A própria meia-noite tem que ver com a Cinderela, a Branca de Neve e a Bela Adormecida, três contos em que as mulheres aguardam pelo homem. Em todos, existe esta “esta objetificação da mulher passiva, branca, jovem, e nesta versão não é assim”, existem várias mulheres de várias faixas etárias, etnias, constituições físicas, essa linha dramatúrgica surge na ideia de ir contra a figura da mulher idealizada. Todas elas são igualmente belas, todas elas são igualmente mulheres.

Por norma, “as pessoas acham que a Bela Adormecida está numa posição vulnerável”, mas Diana diz que é apenas uma posição de poder, uma vez que é o outro que não sabe o que está a acontecer. Quando Diana participa enquanto Bela Adormecida, fica sempre nervosa. “Há quem tenha dificuldade em adormecer, por isso acaba por tomar um comprimido, mas eu consigo sempre adormecer”, conta. No entanto, quando alguém entra, é difícil perceber quem está do outro lado. Pode existir uma leitura de se é homem ou mulher, se está ou não nervoso ou nervosa, mas Diana diz que, por vezes, há convidados que não falam, e Diana acaba por voltar a adormecer. Durante a noite, podem também acontecer situações que fazem parte da performance, como alguém bater à porta há uma da manhã e deixar um tabuleiro com um corneto e ir embora. Tudo pode acontecer.

“Sinto que é um projeto que pode ser feito para a vida toda”

A primeira performance de longa duração contou com mais mulheres como participantes. Depois, tanto homens como mulheres começaram a querer fazer parte desta experiência, e há quem tenha ido mais do que uma vez. Há participantes que não falam, outros que pintam paredes com batom, ou criam uma própria instalação de arte com papel higiénico. Há quem aguente até às sete da manhã e há quem aguente só 40 minutos. No entanto, Diana diz que o sentimento é geral – “Todos se retraem imenso, sentem-se superdesconfortáveis, há muita gente que tem curiosidade, mas também não vai, não se quer pôr nessa situação.”

A criadora de bela_adormecida diz que as pessoas olham para este projeto com curiosidade, mas que acham que esta se expõem demasiado, uma vez que está num quarto numa posição vulnerável. A mesma reforça que, para si, é uma posição de poder, porque a “Bela” está num espaço que é dela, construído por ela. – “É uma questão de como cometer um crime, tudo tem de ser pensado, tu tens de assumir as responsabilidades, se pões um vibrador, o que é que vai fazer com isso? Ela pôs-se nesta situação e convida a pessoa a entrar dentro do jogo. Não está passiva. A Bela Adormecida está adormecida há espera de um beijo para despertar e ser feliz para sempre, aqui não. Existe uma passividade, sim, mas consciente da parte dela, porque ela quer submeter-se a isso. É a questão de observar o observador que a observa e, por sua vez, observa-se a si mesma.”

As filmagens dos Encontros da versão duracional servirão também, para usar como material no projeto final Uma experiência coletiva, o nome provisório de um novo formato que irá estrear em Junho, mas que agora surge como ' bela_adormecida(como)dormirsemalmofada. Diana não quer esta experiência fique fechada a um número restrito de pessoas e gostava de a levar além-fronteiras. – “Em Portugal, sinto desconforto no geral também pelos temas que trago, há curiosidade mas não sabem, tem uma aura muito misteriosa, e as pessoas ficam hesitantes. Por isso, gostava de levar este projeto a outras culturas e perceber outras reações. Aliás, sinto que é um projeto que pode ser feito pela minha vida toda”.

Após a versão duracional presencial existiu ainda uma versão online bela_adormecida CAM :: ON, realizada na plataforma Twitch.

bela_adormecida(como)dormirsemalmofada, vai ao Porto e a Lisboa

Numa quarta fase, a Bela Adormecida vai em digressão por Lisboa e Porto numa instalação performativa com duração e 24 horas, em que várias mulheres, expostas numa galeria, figurarão a Bela Adormecida, deixando-se observar “por tod_s, por tod_s e igualmente convidad_s”. Dentro dessas 24 horas existirão performances, que a própria criadora não sabe quando acabam nem começam. A performance conta a interpretação de Andresa Soares, Joana Petiz, Rita Só, Vânia Rovisco e Inês Cóias e Piny, sendo que a artista revela que, no Atelier Gustavo Guimarães, no Porto, a 4 de junho, serão menos performers do que nas Carpintarias de São Lázaro, em Lisboa, no dia 18 de junho (a partir das 19 horas).

à espera de ainda ser menina

à espera de já ser senhora

à espera de ser vista

esperando não ser olhada

à espera que ele a venha buscar

à espera de largar o serviço

à espera de não servir

para nada.

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografia de cortesia

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