“Viemos conversar com o Benvindo Fonseca”, dissemos assim que entrámos na Dance Spot das Amoreiras. “Ele está lá em baixo, no estúdio”, responderam-nos. Com a porta entre-aberta e de pés descalços no linóleo que cobria o chão, Benvindo recebeu-nos de sorriso aberto e convidou-nos a entrar. Durante cerca de duas horas, partilhou as histórias de uma vida a dançar, que começam com a “energia sem fim” de uma criança  moçambicana e viajam até àquele preciso momento na Dance Spot com a música das aulas de clássico a decorrer nas outras salas e as gargalhadas do intervalo a ouvir-se, ao fundo.  

Quando nos encontrámos com Benvindo, ainda se usavam casacos de Inverno, davam-se abraços genuínos, e viam-se sorrisos que não tinham de ser escondidos por máscaras. Vimos-lhe o sorriso que tão bem o caracteriza assim que entrámos e, pouco depois, percebemos que não estávamos ali apenas para ouvir as memórias do Ballet Gulbenkian, companhia da qual foi bailarino principal. Tínhamos de começar pelo início de tudo. 

Filho de pais cabo-verdianos, Benvindo nasceu em Moçambique e é descendente de avós indianos e portugueses. Com a energia que tinha em criança, jogou ténis e basquetebol, e praticou patinagem artística, “para ver se acalmava” — mas só acalmou quando descobriu o lugar em que se encontrou, a dança. Quando se mudou para Portugal, depois do 25 de abril, começou a ver “Fame” e, quando viu Leroy Johnson (personagem interpretada por Gene Anthony Ray) pensou: “é isto que eu quero fazer”. 

Fame, série que se passa na High School of Performing Arts, em Nova Iorque, marcou uma geração

“Houve uma audição no Teatro ABC para bailarinos, e eu já tinha começado a fazer umas aulas com uma amiga mas por auto-recreação. Tinha uma coisa que se chamava de duplo tour – quando eu saltava no ar em duplo tour, dava três voltas. O que acontecia era que eu via as coisas na televisão e imitava; dançar já era algo meu”, conta Benvindo. Nessa altura, ainda não sabia, mas a audição para “Grande Curtição”, musical do Parque Mayer, ia mudar o rumo da sua vida. “Na altura da ‘Grande Curtição’ a imprensa toda disse: ‘chegou o Leroy português’. Aquilo deu-me autoestima, como se me dissessem ‘parece que é por aqui’. Entretanto não se fez o musical mas conheci bailarinos que estavam no Grupo Dança Jazz, da Lilian Viegas e do Rui Horta”. 

A “dança por intuição” num corpo movido pela vontade de chegar mais além

Depois de entrar para o Grupo Dança Jazz, acabou por entrar no Conservatório. “Entrei logo para o quinto ano, porque tinha dança por intuição”, recorda Benvindo. O momento confirmação de que era aquele o seu caminho deu-se quando foi ver um ensaio de Outono, de Vasco Wellenkamp, na altura para o Ballet Gulbenkian: “Eu não queria acreditar no que estava a ver. Naquele auditório, com aqueles bailarinos… eu não quis acreditar que em Portugal existisse uma companhia com aquela qualidade. Todo o cenário, tudo aquilo era uma magia de tal ordem que eu só dizia ‘o que é isto?!’ ”

A vontade de pisar o mesmo auditório levou-o a fazer uma audição para a Escola do Ballet Gulbenkian. Entre cerca de 300 pessoas, ficou nos 20 últimos, mas acabou por não ficar. No ano seguinte regressou e ficou entre os três finais; finalmente conseguiu entrar. Dessa altura recorda que “vinham sempre coreógrafos internacionais convidados” e que “era a melhor escola que havia, com salas específicas para diferentes estilos de dança”. Tínhamos repertório com os próprios bailarinos que nos iam ensinar, e vê-los a entrarem no estúdio… tudo aquilo era fascinante. E é engraçado que esse sentido comigo, já na Companhia [do Ballet Gulbenkian], manteve-se: o fascínio pelos meus colegas. Aquilo era tudo gente de uma excelência!”

Mais tarde, Benvindo ia acabar por trabalhar regularmente com Wellenkamp

Naquela altura, quando se saía da Escola do Ballet Gulbenkian, “entrava-se para estagiário da companhia e depois de três anos nessa condição, entrava-se efetivamente para o quadro”. Enquanto estagiário “havia a possibilidade de ir trabalhar para Cannes, com uma bolsa de estudo, com a Rosella Hightower, uma das grandes bailarinas dos tempos do Nureyev”. Mas Benvindo estava na Companhia de Dança de Lisboa, na altura dirigida por Rui Horta, e sentia-se bem com a dinâmica que recorda como sendo quase mágica, capaz de “encher o São Luiz durante um mês inteiro”. Com o apoio de Rui Horta, Benvindo ganhou uma bolsa para ir estudar para Nova Iorque e o mundo abriu-se para si. 

“Vocês não imaginam a mudança radical, não tinha nada que ver”, partilha. “Se eu tinha este talento, aquilo foi catapultar a outro nível e fez-me perceber onde é que eu estava e, entre os muito bons, o que é que eu era. Fiz várias audições e entrei em todas, mas havia uma companhia de que eu gostava muito que era o Alvin Ailey. Por acaso, é uma companhia de negros, mas não era por essa razão. Tinha um repertório que me fascinava em todos os sentidos”. Fez a audição e entrou, mas uma aula na Gulbenkian nas férias de verão e a persistência de Jorge Salaviza, o então diretor, mudaram-lhe o rumo. “Sempre tive o sonho da Fundação e o Jorge ofereceu-me logo o contrato de solista. Tinha os melhores coreógrafos do mundo, ainda por cima a coreografarem para mim, a fazer os papéis principais, num país em que tinha as melhores condições do mundo, a ir a todo o lado com salas cheias. Estava em casa, ao pé dos meus pais, e fui ficando – e com bailarinos que eu admirava. Eu, às vezes, nem acreditava que estava ali. Beliscava-me.”

Benvindo não só ficou no Ballet Gulbenkian, como acabou por se tornar numa das referências dos tempos áureos da companhia, junto a colegas que admirava como o próprio Vasco Wellenkamp, Olga Roriz e  Gagik Ismailian. 

No Ballet Gulbenkian, com palcos preenchidos pela alegria de viver

Quando lhe perguntámos qual era a magia do Ballet Gulbenkian, motivo para os seus olhos brilharem tanto quando falava da companhia, Benvindo respondeu além da excelência dos corpos em movimento. “Eu acho que há fatores que, às vezes, são inexplicáveis e que têm que ver com um sentimento português, muito próprio, primeiro. Este povo não é um povo qualquer e é por isso que, às vezes, saem pessoas daqui, e são boas em qualquer parte do mundo. Há aqui qualquer coisa que é o sentimento. A forma mais profunda de comunicar com o outro é a emoção. Nós podemos não entender técnica nenhuma nem filme nenhum, se nos emociona toca-nos e fica para sempre.  Portanto, a arte ganha outro valor quando há essa emoção. E o que aliava na Fundação era um trabalho de grande qualidade com emoção, com pessoas muito autênticas.”

Com Vasco Wellenkamp a coreografar e Graça Barroso, que “era um grande trunfo”, como primeira bailarina, o Ballet Gulbenkian atingiu, de acordo com Benvindo, os seus tempos áureos. “Eu sonho alto, mas isto eu não sonhei. Com a Graça eu nunca sonhei, ela era mesmo uma grande bailarina, e fui o último partner dela. As pessoas conhecem a Margot Fonteyn, mas a Graça era bailarina deste nível e ainda mais. Só que é nosso e como não divulgamos tanto a dança, as pessoas, às vezes, não têm noção. Nós íamos lá fora e não imaginam como éramos tratados. Para já, a Fundação só entrava nas melhores salas e estava esgotado uma semana, sempre, em todo o lado.”

Benvindo Fonseca destaca a mestria de Vasco Wellenkamp e de Graça Barroso

Além da companhia “de excelência”, o bailarino e coreógrafo recorda que havia “muita humildade” e a “generosidade de passar o conhecimento uns para os outros”. Consigo, essa partilha deu-se com o bailarino alemão Ger Thomas, que decidiu “ensinar-lhe tudo o que sabia”. “Às vezes, estamos numa sala e não podemos esquecer-nos de que a sala tem 1000 e tal pessoas mas tens de dançar para a que está no fundo, até pelo respeito por ela ter saído de casa. E tens de comunicar com ela. E se comunicas com ela, com o da frente comunicas seguramente. E vem da maneira como se põe as costas ou a mão, da maneira como projetas o pescoço, como te ligas com a música. E depois, alegria, sempre”, recorda o que ficou até hoje dessa partilha.

Quando estava no auge da sua carreira, Benvindo teve um acidente de trabalho e viu-se impedido de dançar. A alegria de estar em palco pareceu, por tempos, apenas uma miragem; um impedimento com o qual quem nasce para dançar nem sempre consegue lidar. Mas Benvindo renasceu como uma fénix. 

Benvindo Fonseca redescobriu-se como coreógrafo / Fotografia da cortesia de Joaquim Leal

Renascer, crescer, viver 

“Eu parti a tíbia, foi a ‘fratura de stress’ – o que acontece muito nas bailarinas que fazem pontas. E a nós, bailarinos, também, por causa dos saltos. O trabalho é muito extenuante. Como eu digo, às vezes começava às dez da manhã e ia até às oito da noite. As pessoas não fazem ideia. Mas é porque nós gostamos muito…”

Se na altura em que a fratura aconteceu, parecia não existir saída, hoje olha para esse momento de viragem como “a maior evolução” da sua vida. “Eu cresci muito como ser humano, comecei a criar uma empatia com o outro que eu não tinha. Estive contacto com pessoas com que jamais estaria, porque eu estava muito focado no ballet. Fui a um underground a que eu jamais teria ido, e cresci como nunca. Agora eu percebo isso, mas na altura não. Estava no auge quando me disseram ‘não danças mais’.”

Depois de tratamentos na Holanda e em Londres, passou por um processo de maturação pessoal que o fez “criar com uma sensibilidade que jamais teria”, porque se tornou “capaz de chegar a outras coisas”. Hoje, enquanto coreógrafo, nota que “as pessoas se identificam, porque sentem ali dor e superação”. “Tudo o que eu faço não é só uma dança, é algo mais, porque há toda esta vivência – sem pretensão. Há coisas, às vezes, que me acontecem na vida e eu consigo ultrapassar, porque este montante de dor que eu ultrapassei, deixou uma lição tão grande que eu relativizo o resto”. 

A solo fundou a companhia Lisboa Ballet Contemporâneo e deu espaço à criação que, enquanto bailarino, não tinha tanta disponibilidade nem espaço para pôr em prática. Criou o seu repertório e começou a receber encomendas, inclusive do Ballet Gulbenkian. Mas sabe que “nem toda a gente pode ser professor ou coreógrafo” e, por isso, o fim de carreira pareceu-lhe tão assustador como parece a colegas que não veem alternativas. 

“Cromeleque” , que Benvindo apresentou no Panteão Nacional, é uma homenagem aos seus familiares

“Grande parte dos bailarinos, quando acaba de dançar, entra em depressão profunda. As doenças aparecem, porque eles desistem. Porque aquilo foi tão intenso que, de repente, acabou e ficamos num vazio. E agora? Agora vou morrer. Mas é mesmo assim. E há muitos que entram em depressão, e alguns não saem de lá nunca. Porque ninguém quer saber e, no final, que é quando devíamos ser mais amparados, somos largados. Isto é muito triste. A pessoa fica triste e zangada, vê-se a cara a mudar de expressão. E é normal, porque fez tudo e depois ninguém pega, como quem diz ‘já não tens nada para nos dar’.”

“Houve pessoas que eu já vi dançar quando estava mal disposto e que, de repente, me fizeram o dia. E agora estão assim, sem ninguém a querer saber delas”, partilha Benvindo com profunda empatia. E é por isso que acredita que é “urgente pensar em reconversão de carreiras” e na garantia da criação de postos de trabalho para os mais novos. “Nós temos das melhores escolas do mundo, mas não estamos a criar postos de trabalho. Eu próprio, uma das minhas funções, é criar plataformas para dar esse apoio. Mas são coisas pontuais. Não sei se terão de ser os próprios jovens a sensibilizar as empresas a investir em companhias, mas tem de haver um trabalho comum para se criarem polos continuados. Se calhar, a lei do mecenato tem de funcionar. Mesmo a companhia do Vasco [Wellenkamp] tem um apoio, mas é muito pequeno. Temos bailarinos e coreógrafos muito bons, investimos na formação, mas depois estamos a mandá-los para fora.”

Ainda de pés descalços, despedimo-nos de Benvindo e as gargalhadas dos jovens bailarinos que antes ouvíamos ao longe foram-se tornando mais próximas. Dias mais tarde, encontraríamos alguns da mesma geração na Escola de Dança do Conservatório Nacional que, sem hesitar, nos falariam de Benvindo como um exemplo da alma que procuram ter em palco. 

Esta entrevista foi feita tendo como ponto de partida a reportagem de capa da última Revista Gerador, “Os passos da dança portuguesa unem-se num movimento contínuo”, que podes encontrar aqui

Texto de Carolina Franco e Ricardo Ramos Gonçalves
Ilustração de João Ribeiro, a partir de fotografia da cortesia de Benvindo Fonseca

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