Bernardo Sassetti é um dos pianistas de jazz portugueses mais sonantes, lembrado pela sua obra e pela entrega e entusiasmo que pautavam os projetos que abraçava. O seu legado tem vindo a ganhar novas formas desde setembro de 2012 com a criação da Casa Bernardo Sassetti, uma associação cultural sem fins lucrativos, que surgiu como resposta ao desaparecimento prematuro do artista. No dia 13 de setembro, a Casa lançou um CD de gravações inéditas de Bernardo Sassetti – Solo –, composto por músicas tocadas no Teatro Micaelense em 2005. Passados quase dois meses desde o lançamento do disco que chegou ao número um de vendas no top nacional, o Gerador foi falar com Inês Laginha, pianista, compositora e diretora artística da Casa Bernardo Sassetti, para saber mais sobre este disco, mas também para falar sobre os projetos que a Casa tem em vista.

Do invulgar top 1 à possibilidade de editar nove discos 

Foi com alguma surpresa que Inês Laginha recebeu a notícia de que Solo estaria no top de vendas durante algumas semanas, chegando inclusive a ser o CD mais vendido por uma semana: “É superinesperado, num contexto de um CD solo de jazz, com piano. É uma coisa muito invulgar, certamente inédita na vida do Bernardo e de qualquer pianista que eu conheça. Portanto, fico contente.” Partilha ainda que numa primeira edição decidiram imprimir mil discos, mas que, em duas semanas, recebeu uma mensagem da Universal, a distribuidora, que dizia estarem sem stock, pelo que seria preciso imprimir mais mil unidades.

Este é o primeiro de nove possíveis discos por lançar de Bernardo Sassetti. “Ou seja, há nove gravações possíveis de serem editadas. Algumas de espetáculos ao vivo e outras que foram feitas em estúdio.” A maior responsabilidade é a de tentarem fazer “jus às opções que presumimos que o Bernardo teria tomado se tivesse de ser confrontado com o que vamos agora editar neste disco”.

No que diz respeito à periodicidade de edição dos discos, Inês explica que não sabe se será possível ou se haverá interesse em editar um por ano. “Por enquanto, estamos a editar um por ano e se tivermos apoio da DGArtes” – que ainda não têm – pretendem continuar esse caminho, inclusive porque “2020 é o aniversário dos 50 anos do nascimento do Bernardo e obviamente que faz toda a diferença se a Casa tiver apoio estrutural para podermos fazer o ano ativo como acho que merece. Nestes dois anos, editámos um e editaremos outro, que é a Menina do Mar, do conto da Sophia de Mello Breyner”.

Para 2020, gostavam de editar Maria do Mar, do filme de Leitão de Barros, “porque é o único dos nove que foi mesmo gravado com o intuito de ser editado, tal e qual como está. O produto final foi escolhido e definido pelo Bernardo. Deixou-o prontinho. Portanto, seria a próxima coisa que o Bernardo iria editar na altura. É óbvio que queremos editá-lo e, já agora, usamos os seus 50 anos”.

Posteriormente, os planos ficam mais difusos, mas existe material para perfazer nove discos: “Dois possíveis CD a solo do Bernardo – um em estúdio e outro ao vivo. Depois temos algumas colaborações do Bernardo de discos gravados com o seu trio, outro que era um projeto chamado ‘Vadios’ – com o Camané, Mário Laginha e Carlos Bica, portanto, fado, dois pianos e contrabaixo. Quisemos começar a solo, concetualmente gostaríamos de terminar o ciclo a solo e pelo meio passar pelos discos de trio e outras colaborações, mas não sabemos se vamos poder manter este ciclo com a regularidade da edição anual.”

Solo: as gravações fruto da procura do som de um piano especial no Teatro Micaelense

A decisão de começar a edição de discos por um tocado a solo deveu-se ao facto de ser “a versão mais pura do Bernardo: nu, muito exposto e puro. Quando pensei e discuti sobre isto, achei que faria sentido começar e acabar a solo”.

Capa do disco Solo, de Bernardo Sassetti

Solo é composto por sete gravações feitas no Teatro Micaelense, em Ponta Delgada, nos Açores, que são fruto de três dias a tocar sozinho num piano que era falado na altura como sendo “superespecial, com uma mecânica muito fácil, um som particularmente bonito, e todos os pianistas estavam com vontade de ir lá tocar”. Assim, aproveitando o facto de ter umas datas livres, o pianista desafiou o técnico de som, Nelson Carvalho, levou um afinador e aquilo em que estava a trabalhar, resultando numa série de gravações que surgem como “uma espécie de amálgama de diferentes sonoridades que o Bernardo andava a explorar na altura, sendo que obviamente ficam unidas pelo facto de ser o Bernardo de 2005 a tocar, há uma abordagem naquela fase. Depois, naturalmente por ser um disco a piano solo. Isso mais as canções. Tudo isso faz com que acabe por ser um disco, na minha opinião, bastante consistente. Mas a verdade é que ele não foi para lá com um projeto concreto. Ele vai explorar, tocar tudo o que lhe apetece tocar naqueles dias. Depois, foi escolher”. O objetivo principal era o de “experimentar e gravar naquele piano, mas não tinha nenhum intuito concreto de fazer um disco com este tema, ou esta direção”.

Quando Nelson enviou os áudios a Inês Laginha, já havia uma seleção feita pelo Bernardo de quais eram os takes escolhidos de cada música. “Não ouvi todos os takes, só um de cada música. Depois, eu própria discuti com o Nelson e outros músicos próximos do Bernardo sobre que opções fariam sentido e havia dois discos possíveis para sair destas gravações: um disco mais de ambientes, porque havia uma série de temas muito longos, via-se mesmo que era uma coisa meio catártica, e depois havia uma série de temas curtos – canções. Nós achámos que seria mais interessante, para este disco em particular, editar um disco de canções o mais inéditas possível.”

Desta forma, encontramos, por exemplo, uma música que vem do filme Costa dos Murmúrios, duas que nunca foram editadas e que vêm da suite Maria do Mar – música que o Bernardo fez para um filme de Leitão de Barros. Essas duas canções foram incluídas pois “estas versões são bastante diferentes das versões com orquestra, e porque acho que são canções muito fortes e desconhecidas para todos os efeitos, pelo que achámos que seria interessante incluí-las”. Existem ainda alguns temas “que eu nunca tinha ouvido e até conheço alguma da obra do Bernardo”.

“Rapazes, não vos massacro mais. Temos disco!”: O humor com rasteira de Sassetti

Ao ser desafiada a descrever Bernardo, Inês Laginha destaca o “balanço muito bem conseguido entre amargo e doce. Da mesma forma que tinha um lado melancólico e lírico muito forte, tinha muito humor também”. Define o humor do artista como surreal, “uma existência à parte e muito complexo, bastante intelectual e ao mesmo tempo muito engraçado.”

Inês relembra algumas histórias que revelam o sentido de humor do pianista. “Era um clássico o Bernardo aproximar-se de um piano e começar a tocar Richard Clayderman e depois ficava a olhar para nós com um ar superexpectante pelas nossas reações. Ele tinha um lado humorístico fortíssimo. Acho que falta lembrar o seu lado humorístico. As pessoas tendem a lembrar-se do lado melancólico, do lado potencialmente pesado do Bernardo, até porque a música que ele fez para cinema tendeu a ser mais melancólica e lírica”.

Partilha ainda o concerto no CCB resultante do projeto 3Pianos, que integrava Pedro Burmester, Mário Laginha e Bernardo Sassetti. O concerto aconteceu em 2011 com três pianos em palco e reuniu performances a solo, em duo e em trio percorrendo o repertório dos três pianistas.

Gravação de parte do concerto no Centro Cultural de Belém com o projeto 3Pianos, por Incubadora d’Artes production através do seu canal de YouTube

“O concerto era bastante dinâmico, e eles iam rodando nos pianos também, porque havia um piano que estava sempre virado para o palco. Isto para dizer que geralmente quando tocavam um dos temas em duo, o que não tinha tocado apresentava o que havia acontecido em duo e o que ia tocar a solo. Lembro-me muito bem de o Bernardo fazer uma sequência de piadas muito engraçada. Em todos os concertos, o Mário e o Pedro tocavam uma suíte de Samuel Barber e ele, todos os dias, inventava um facto diferente sobre Samuel Barber, mas com um ar supersério porque ele gostava muito desta coisa desconstruída de não declarar necessariamente o humor. Começava por estar sério, só para perceber se as pessoas percebiam se era a brincar ou não, e depois lá sorria. Era um momento muito engraçado, muito de criança, essa reação física que ele tinha, essa expetativa. Lembro-me de ele dizer algo do género: ‘Para quem não sabe, o Samuel Barber era um grande fã de críquete’, e depois ele continuava a falar e ouvia-se umas gargalhadas pontuadas no público das pessoas que conheciam o Bernardo e que viam que ele claramente estava a inventar. Mas ele não declarava e depois seguia. Também apontou para um espaço vazio acima dos pianos e disse: “Aquele aparelho ali” – e toda a agente a tentar perceber que aparelho era – ‘é um medidor de aplausos, porque há um concurso a acontecer. Vocês não sabem, mas há um concurso e o compositor vivo mais aplaudido da noite vai ganhar’ – é preciso dizer que os únicos compositores vivos eram o meu pai (Mário Laginha) e o Bernardo – ‘uma semana de férias na Figueira da Foz’. Começam a rir, e ele faz assim um ar de como quem diz que ainda tem mais: ‘O segundo compositor vivo mais aplaudido da noite vai ganhar duas semanas na Figueira da Foz.’ O humor do Bernardo tinha muito este tipo de coisa: tem rasteira, o humor escondido, o isto podia ser a sério, mas não é”, conta Inês.

Já a música era tratada como um assunto sério, não sendo necessariamente identificável o sentido de humor de Sassetti ao ouvi-lo tocar. “Ele tinha muito humor, mas no que toca especificamente à música, ele levava aquilo muito a sério. Dá para brincar se musicalmente o nível estiver altíssimo. Não se brinca com a música. Pode-se usar a música para brincar, mas isso é uma coisa diferente. Aquilo é um assunto supersério. Era profundamente profissional, uma dedicação quase obsessiva, em todas as artes, mas em particular na música.”

Porém, ao ouvir as gravações de Bernardo aquando da fase de produção do disco, Inês revela que se ouvia comentários do pianista entre músicas. Por sentir que o sentido de humor do pianista muitas vezes não era partilhado nos seus tributos, fez questão de incluir um dos comentários que espelhasse este traço. No fim da última música, encontramos “uma espécie de hidden track. Há ali uns segundos de silêncio e depois ouve-se o Bernardo a falar e a dizer: ‘Rapazes, não vos massacro mais. Temos disco!’ Achei que era superadequado e uma maneira forte para acabar o disco”.

As particularidades do jazz

Os discos não irão conter temas inéditos, mas as gravações são-no na sua maioria. Sendo o jazz o principal veículo de expressão musical de Sassetti, este género assume uma particular relevância quando se fala na edição de gravações inéditas. Independentemente do estilo musical, de cada vez que um músico grava um tema, a gravação será diferente porque depende de várias condicionantes, seja porque o piano, o ambiente ou o próprio estado de espírito do músico muda. Porém, no contexto jazzístico há “mais espaço para essa mudança. O que está definido num tema de jazz é uma melodia e uma estrutura harmónica, ou seja, os acordes que acompanham aquela melodia. Geralmente, improvisa-se por cima dessa estrutura harmónica, portanto a sequência dos acordes mantém-se e o músico está a improvisar por cima. Imagina que a harmonia me diz para tocar dó maior, ela não me diz como o tenho de tocar, o ritmo com que tocar, nem como devo espalhar essas notas no piano. Tudo isso é escolha minha. Isto acontece logo quando estou a tocar a melodia, que é a parte mais definida. Tenho de manter a sequência dos acordes e o tempo que fico em cada um, mas continua a haver muito espaço para liberdade e escolha na interpretação. Portanto, claro que estas interpretações, mesmo naquelas em que ouvimos o Bernardo a solo noutro contexto qualquer, será à partida diferente”, explica Inês.

Este é um dos interesses que torna esta música em algo singular, na sua opinião: a possibilidade de ouvir diferentes versões da mesma música e a descoberta que daí advém. Tanto ao ouvir o espólio de Bernardo, como a ouvir qualquer bom músico de jazz a tocar, Inês sente que existe uma capacidade de reinvenção em cada interpretação de uma música. “Uma das coisas interessantes acerca do jazz é que o processo de uma pessoa trabalhar para ficar bom músico prende-se a ter mais opções. Ou seja, mesmo nos temas do Bernardo, alguns são relativamente simples e mesmo um músico iniciado no jazz consegue sobreviver ao tema, no sentido em que consegue tocar aquela melodia com aquela harmonia, fazer uma improvisação simples em cima daquela sequência harmónica, e depois concluir. A diferença para um profissional é que as opções são muito maiores. Costumo fazer o paralelo com o vocabulário. Se uma criança quiser dizer que o dia está bonito, só vai conseguir dizer isto desta maneira. Se pedirmos a um aluno de filosofia de uma faculdade para dissertar sobre a beleza do dia, podemos ter uma dissertação de páginas e páginas. É o que acontece na evolução dum músico de jazz. Ou seja, com um excelente músico de jazz, de versão para versão, a música pode ser completamente diferente, porque ele tem como transformar aquilo. Consegue olhar para aquilo de milhões de maneiras diferentes e, portanto, aí sim, nota-se essas diferenças. Um músico inicial, se calhar, faz uma versão muito boa, mas se formos ouvir a segunda é muito parecida com a primeira, porque ele não tem outras maneiras de passar por ali. Acho que isso é o que torna o estudo do jazz numa coisa tão interessante ou desafiante. É fácil desistir no processo, porque, às tantas, é muito abrangente e complexo. Este estudo permite a constante reinvenção e procura e obriga a nunca ser preguiçoso.”

Projetos em vista pela Casa Bernardo Sassetti

Quanto ao futuro, existe “uma urgência em disponibilizar o espólio do Bernardo e garantir que a música do Bernardo esteja acessível para quem o quiser ouvir e tocar. Mas para mim há dois trabalhos-objetivo na Casa Bernardo Sassetti. O primeiro é dar a música tonal disponível para outros músicos criarem em cima dessa música, e isso é o que temos feito com o concerto anual. O ano passado com o Ricardo Toscano, este ano com o Bruno Pernadas. Aí, claro que há uma libertação. Por exemplo, o Bruno, este ano, nem sequer incluiu piano na instrumentação, coisa que, para mim, é superinteressante. Depois, para quem conhece bem a música do Bernardo, a abordagem do Bruno à música é muito diferente da abordagem do Bernardo. O Bruno tende a tocar temas mais longos, muito seccionados, e essa abordagem, tal como eu previa, viu-se na música. Agora, esse para mim é o interesse: não estarmos tão agarrados à pureza. Se consideramos que a música do Bernardo é intocável então faz-se um museu, fazem-se os discos, e ficamos parados. Para mim não é isso que faz sentido, sobretudo numa música como esta. Gosto de acreditar que o próprio Bernardo ficaria muito feliz ao perceber que vários músicos continuam a sentir interesse em visitar as músicas e em tornar a música do Bernardo um bocadinho deles. Esse processo é que é interessante. O outro lado do futuro na Casa é que depois deixe de ser pelo Bernardo ou sobre o Bernardo: é pela música que o Bernardo conhecia e defendia. Ou seja, começarmos a investir em simplesmente ser um veículo para ajudar o jazz, para o ensino das áreas em que o Bernardo se transformava, um bocadinho como funciona a Casa Fernando Pessoa ou a Fundação José Saramago. Acho que esse é o objetivo a longo prazo da Casa: depois desta urgência e do óbvio foco no Bernardo, tornar-se numa associação que, em nome do Bernardo, serve a comunidade em áreas que ele trabalhava.”

Outro dos desafios passa por fazer com que novos músicos, que não chegaram a ter a oportunidade de ouvir Sassetti tocar ao vivo, tenham contacto com a sua obra. Tal consegue-se através de encomendas com músicas de Sassetti para a Big Band Júnior, com a realização de masterclasses feitas por músicos que eram próximos de Bernardo, ou até pela edição de Songbooks, que “é uma maneira de tornar disponível alguma da música que ele deixou escrita. Músicos de jazz estão muito habituados a se querem tocar um tema dum outro músico vão ouvir o CD, sacam o tema de ouvido, escrevem-no se quiserem, distribuem pela banda e tocam. Mas fora do contexto de jazz, geralmente os músicos vão à procura da partitura. Sendo que o espólio está a ser tratado, ainda não conseguimos ter uma espécie de biblioteca online com acesso a todas as partituras que o Bernardo deixou, e o Songbook é uma maneira de garantir que algumas das músicas, vão sendo postas cá fora e deixadas disponíveis para jovens músicos e, às tantas, para profissionais doutras áreas poderem explorar a música”.

Para 2020, almeja-se a edição do disco de Maria do Mar e a publicação do quarto e último Songbook. Mantendo a tradição de desafiar pianistas de clássico e jazz a tocar temas de Sassetti aquando do lançamento de cada Songbook, para 2020, Inês desafiou a pianista Maria João Pires para que o concerto acontecesse em Belgais e que o mesmo juntasse todos os pianistas que têm alguma ligação a Bernardo. “Gostava de convidar vários pianistas que tivessem uma ligação ao Bernardo e gostava de fazer isto em Belgais. Já o fizemos no São Luiz, na Sala Bernardo Sassetti. Fizemos no Hot, que era a casa do Bernardo. Em Belgais, foi onde ele gravou dois dos discos mais importantes da sua discografia – o Nocturno e o Indigo – e ele tinha uma proximidade enorme ao espaço de Belgais e, obviamente, à própria Maria João, então pensei – ‘Isso é que era bonito!’ E depois pedir à Maria João para tocar”. No entanto, a concretização de todos estes planos está dependente do estado de apoio da DGArtes.

Para depois de 2020, a incógnita é maior, mas Inês partilha o desejo de “convidar a Companhia Nacional de Bailado para fazer um bailado com a música do Bernardo, mas isso está tudo dependente de percebermos quanto dinheiro temos para podermos contribuir”.

Para além da música, Sassetti ficou também conhecido pelo seu interesse e trabalho em áreas como a fotografia e o cinema. Neste momento, existe uma exposição itinerante de algumas fotografias tiradas por Bernardo, selecionadas por Daniel Blaufuks. A exposição irá para o Teatro Micaelense, entre novembro e dezembro, e para Loulé, entre o fim deste ano e o início do próximo. Seguir-se-á a escolha de outro artista para selecionar um novo conjunto de fotografias integradas no espólio de Sassetti. Existe também a vontade de trabalhar alguns dos documentários e curtas metragens “que o Bernardo tem por finalizar e também pedir a alguém para os finalizar, ficando uma espécie de coprodução. Aqui já entra mais do que na escolha das gravações. Já não é o filme do Bernardo. Há uns que estão mais finalizados do que outros, mas quanto menos finalizados estão, mais óbvio tem de ser que aquele produto final vem doutra pessoa. Parte da imagem do Bernardo, mas depois é concluído por outra pessoa. Temos todas essas hipóteses em cima da mesa”.

A singularidade e marca de Sassetti continuam bem presentes, quer na admiração de músicos, na reinvenção da sua música em tempo real por outros intérpretes, na edição de discos de gravações inéditas que não deixam de surpreender quem o ouve, quer na itinerância das imagens que apaixonadamente recolhia. Permanece a imagem do artista que se dedicava de corpo e alma às vertentes artísticas que o inteiravam, sem descurar os momentos de humor surreal e a expetativa de um sorriso de criança junto dos que com ele se cruzavam.

Texto de Andreia Monteiro
Fotografia da cortesia da Casa Bernardo Sassetti

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