“A personalidade da Vera Lagoa... eu tinha ideia dela, na altura d’O Diabo e na altura das manifestações do 1.º de dezembro. Quando, numa investigação, me deparei com uma crónica dela, surgiu-me essa ideia [de escrever a biografia] e fiquei com curiosidade. Afinal quem é que era esta mulher?”

Numa tentativa de resposta a esta pergunta, a historiadora Maria João da Câmara propôs-se explorar o percurso de vida de uma das mais controversas personalidades femininas portuguesas. O livro Vera Lagoa – Um Diabo de Saias foi editado no passado dia 20 de julho pela Oficina do Livro, um mês antes de serem assinalados os 25 anos da morte de Maria Armanda Pires Falcão (a 19 de agosto de 1996).

Este nome, menos sonante e familiar, era o que estava escrito no bilhete de identidade da mulher que ficou conhecida como Vera Lagoa. O pseudónimo não marcava a diferença entre duas personalidades, mas apenas representa a assinatura da jornalista que escrevia críticas mordazes aos políticos e elites. “Ela usou um pseudónimo porque na altura, o Pinto Balsemão do Diário Popular achou que era um nome que não tinha força, não tinha impacto. Ela [própria] também diz isso. E era preciso escolher um nome mais “comercial”, digamos assim”, explica Maria João da Câmara, que afirma que o mesmo foi definido em conjunto com Luís de Sttau Monteiro. “O nome “Vera” surge “por ser verdadeira e por querer dizer sempre a verdade. "Lagoa", porque era o nome do vinho que eles estavam a beber na altura”, diz.

Para traçar o seu percurso, a autora desta biografia recorreu a variadas fontes históricas, consultou o arquivo pessoal e falou com familiares, amigos e colaboradores que contactaram diretamente com Vera Lagoa. Desse trabalho resultou um livro dividido em três partes correspondentes aos três “nascimentos” que a jornalista viveu, segundo a própria referia na altura.

O primeiro nascimento corresponde efetivamente à sua chegada ao mundo, em 1917, em Moçambique. No livro, esta primeira parte estende-se até 1966, e aborda as origens de Maria Armanda Falcão até à publicação da sua primeira crónica. “O segundo nascimento é quando nasce Vera Lagoa – no fundo é uma divisão cronológica minha baseada no que ela disse. Portanto, quando nasce Vera Lagoa, ela também descobre um novo mundo, diferente, que ela observa e critica, muitas vezes veladamente. Tem um sucesso enorme, uma popularidade impressionante. Na época não havia nada de parecido. Tudo o que ela fazia, tudo o que ela usava, o próprio penteado... tudo era imitado”, relata a autora, referindo-se ao período entre 1966 e 1974.

O terceiro – e último – nascimento acontece “depois do 25 de Abril, [altura] em que ela descobre finalmente a liberdade e os problemas que Portugal teve para conseguir essa liberdade e democracia (pela qual ela sempre ansiou, também)”. Este período decorre entre 1974 e 1996, ano da sua morte.

"Na Arrábida, usando um deux pièces. Maria Armanda deixa-se fotografar como uma estrela de cinema (1949)", segundo legenda do livro

Filha de Armando Pires Falcão, Maria Armanda é, desde tenra idade, marcada pela figura trágica do pai, oficial do Exército e opositor do regime de Salazar. Nasce em Moçambique, em 1917, quando Portugal era ainda um país colonial.

O retorno a Lisboa trouxe consigo mudanças profundas que influenciariam o percurso de Maria Armanda. “Quando regressa a Lisboa – muito por influência do pai – [aproxima-se] de meios da oposição e percebe nesse momento que há um mundo diferente, quase paralelo, a que ela adere com muito entusiasmo”, diz a autora do livro ao Gerador.

Em Portugal, Maria Armanda começa desde cedo a trabalhar, casa e torna-se mãe. Tem o primeiro contacto com o grande público através da RTP, em 1956, onde ficaria conhecida como a primeira locutora de continuidade da estação. Após uma curta carreira televisiva, torna-se jornalista no Diário Popular, assinando a crónica social “Bisbilhotices”. É aqui que nasce Vera Lagoa, comentadora da sociedade do final do Estado Novo que, de forma atrevida, mordaz e indiscreta somava escândalos e polémicas.

Foi apoiante da candidatura do general Humberto Delgado e dos meios oposicionistas, mas viria a tornar-se contestatária contundente do jovem regime democrático no jornal O Diabo.

A sua personalidade forte e coragem singular fez dela uma figura quase icónica que ousava questionar os poderes sem se intimidar com processos em tribunal ou ameaças de bomba. “Há um capítulo intitulado ‘Em abril... Processos mil’, pois em quase todos os números do jornal [O Diabo] tinha processos”, diz Maria João da Câmara.

"Foto com dedicatória: "Aos meus filhos queridos o retrato mais "profissional" da mamã" (c.1968)", segundo legenda do livro

A autora desta biografia reconhece que atualmente o jornal já não é necessariamente o mesmo que foi fundado por Vera Lagoa (hoje é conotado com a extrema-direita). “O Diabo acho que foi um jornal muito marcante até determinada altura, depois, com a pacificação e a democratização da sociedade portuguesa, se calhar [tornou-se] um jornal muito político. Agora ele terá outro papel, mas continua a ser uma voz, para todos os efeitos”, diz a historiadora.

Rica em polémicas, a vida de Vera Lagoa é um relato do Portugal ditatorial, colonial e da posterior transição para um regime democrático, com todas as instabilidades que isso provocou. Segundo Maria João da Câmara, a controvérsia em torno da fundadora do jornal O Diabo prende-se precisamente com o facto de ter escolhido manter-se verdadeira, mesmo quando a conjuntura não era favorável às suas opiniões destemidas.

Maria João da Câmara afirma que a sua grande preocupação, aquando do desenvolvimento desta biografia, foi a contextualização, mais do que a objetividade “possível” (que diz nunca ser absoluta). “Eu, como historiadora, tento sobretudo contextualizar todas as atividades dela e os textos dela. Isso parece-me importante. Dentro da possível objetividade é aquilo que eu tento fazer”, afirma.

Maria João da Câmara. Fotografia de Augusto Brázio

A autora afirma que Vera Lagoa era uma mulher com muitas facetas, e que será talvez errado conotá-la apenas com posições extremistas. “Para já, ela esteve ligada aos meios da oposição, antes do 25 de Abril. Isso quer dizer qualquer coisa. Ela foi interrogada pela PIDE, [o que] quer dizer qualquer coisa. Ela criticou veladamente o regime autoritário. As prisões... ela ajudou – juntamente com a Margarida Tengarrinha, que era a cunhada dela – os presos políticos e as famílias. Portanto, ela envolveu-se mesmo na luta e tinha muita proximidade com o Partido Comunista e com a esquerda”, explica. “Aliás, o primeiro partido onde ela se inscreve a seguir ao 25 de Abril é no PS [Partido Socialista]. Depois, há uma desilusão com o PREC [Processo Revolucionário em Curso]. Ela começa a ver que as pessoas... enfim... a ver o que estava a acontecer neste país e não se cala.”

O facto de discordar das posições da esquerda, no período pós-revolução, não significa por isso que Vera Lagoa estivesse de acordo ou apoiasse o Estado Novo. “Uma coisa não implica a outra e, de facto, ela teve essa coragem, de dizer ‘não é isto que eu quero’”, diz a autora.

"Vera Lagoa numa festa de família no Hotel Palácio. Estoril, 7 de maio de 1995", segundo legenda do livro

Independentemente das polémicas a que é associada, Vera Lagoa era, segundo Maria João da Câmara, “uma pessoa que é equilibrada, que é livre, que é justa e que é profundamente democrática. No fundo é isto.”

Eis, assim, a biografia desse dito Diabo de Saias, que havia afirmado: «Já tenho dito que só morta ficarei calada. Mas também já tenho insistido em que a voz dos mortos às vezes se ouve com demasiada força.»

Texto de Sofia Craveiro
Fotografias cedidas pela Oficina do livro

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