As incertezas vividas durante o período pandémico não foram suficientes para parar os Birds Are Indie. Em abril, a banda coimbrense assinalou o décimo aniversário com a edição de um novo trabalho discográfico – “Migrations – The travel diaries #1“. Esta viagem ao passado, feita em duas fases e dois formatos, traz 5 canções da discografia anterior e apresenta 10 novas faixas, 5 em CD e ainda outras 5 editadas em vinyl, num “Migrations – The travel diaries #2″, a ser editado em 2021.

A banda de Ricardo Jerónimo, Joana Corker e Henrique Toscano foi escolhida para reabrir duas salas de espetáculo nacionais. No dia 18 de junho, inauguraram o Ciclo de concertos 7 Quintas Felizes no Theatro Circo. Já no Salão Brazil, sala de espetáculo de Coimbra, a banda pisa hoje o palco pela quarta e última vez. O concerto cancelado em abril, no Salão, deu assim origem a um espetáculo de várias sessões, permitindo que mais pessoas pudessem marcar presença, apesar da lotação limitada.

Ao Gerador, Birds Are Indie recordam o início da banda, falam do processo de edição do novo albúm e da experiência de lançamento em período de confinamento. O regresso aos palcos ficou marcado pelas novas circunstancias, contudo, a simplicidade com que a banda se apresenta parece reforçar a ideia de que “não é preciso voltar em grande, o que é preciso é ir voltando”.

Gerador (G.) – Antes de mais, recuemos ao passado, precisamente 10 anos. Como surgiu a ideia de criar uma banda e como perceberam qual o caminho que queriam percorrer no universo musical?
Birds are Indie (B.a.I.) – A ideia de criar uma banda não foi bem uma ideia, foi uma espécie de auto-desafio para nos obrigar a sair de um certo marasmo onde estávamos, em 2010. Foi exactamente como se tivéssemos dito: “Que se lixe isto tudo, vamos juntar as nossas poupanças e dar a volta ao mundo em 6 meses.” Tínhamos praticamente a certeza que isso não ia acontecer, mas precisávamos de algum tipo de objetivo que fosse animador e só dependesse de nós. Já sobre o caminho a percorrer, fomos percebendo qual era à medida que o percorríamos. Como começámos literalmente do zero, a nossa banda é um constante work in progress. E acho que, em certa medida, essa é uma das coisas que nos vai fazendo continuar.

(G.) – Entretanto, para além do habitual trio começamos a ter novos nomes associados aos Birds are Indie, tais como João Rui (mistura e masterização) e Jorri Silva (no baixo e teclados). Como é que se cruzaram os vossos caminhos? Como se deram estes encontros e como está a correr a caminhada juntos?
(B.a.I.) – Eles constituem os a Jigsaw, uma banda aqui de Coimbra, que leva já 20 anos de carreira. Cruzámo-nos com eles inevitavelmente, por estarem aqui da cidade, por irmos aos concertos deles e termos amigos comuns. Foi um processo natural. O João Rui tem misturado e masterizado muitos dos discos que têm sido gravados por projectos de Coimbra e, como este era um disco onde íamos revisitar algumas músicas antigas, quisemos desde o início ter alguém externo à banda a fazer esse trabalho de unificação entre o antigo e o novo. O Jorri é uma colaboração que vem um pouco mais de trás, toca ao vivo connosco há 3 anos, sempre que possível. Além de participar na gravação, no seu estúdio, também toca baixo e algumas teclas nos últimos 2 discos, o que ajudou muito ao som que procurávamos para eles.

(G.) – 2020 marca 10 anos de banda e com este marco surge um novo disco, que é uma viagem musical pelo vosso percurso não só enquanto grupo, mas também individual, acredito. Porquê optar por reinterpretar estas músicas e como foi feita a escolha?
(B.a.I.) – Decidimos reinterpretar algumas músicas por se tratar de um disco de celebração de 10 anos. Quando começámos a pensar em como fazê-lo, brincávamos com a ideia clássica dos best of que as bandas fazem e depois acabam. Mas torcemos esse conceito e resolvemos misturar, em partes iguais, músicas novas com regravações de músicas antigas, com arranjos totalmente diferentes das versões originais. Tudo gravado e produzido de forma coerente para que, apesar dos vários estilos que as canções possam ter, o som seja muito coerente ao longo do disco. A escolha foi feita com base em três critérios principais: 1) estarem em discos já esgotados; 2) terem potencial para o resultado final ser bem diferente da original; 3) termos alguma relação especial com essa música, enquanto banda.

(G.) – Vocês lançaram o disco em período de confinamento. Tinham concertos marcados que acabaram cancelados ou reagendados. Como foi a reação do público ao vosso regresso nestes últimos meses tão particulares?
(B.a.I.) – Felizmente a nossa editora Lux Records concordou em fazê-lo e a reação foi bastante positiva. Da parte do público, muita gente nos encomendou o disco (e continua a encomendar) e estamos sempre a receber mensagens a elogiar o disco ou as canções, ou os videoclips. Parece-nos que também houve mais tempo para as pessoas se dedicarem às coisas que gostam, sendo a música uma delas. E mesmo por parte da imprensa, notámos que talvez tenha havido mais espaço para nós, uma vez que, neste período, muitos discos ficaram na gaveta e o nosso estava mesmo ali à mão.

(G.) – Foram escolhidos para reabrir duas grandes salas de espetáculo – Salão Brazil e Theatro Circo. Qual foi a sensação de saber que o desconfinamento passava por pisar novamente os palcos e, sobretudo, ter quatro concertos marcados em Coimbra, a vossa cidade?
(B.a.I.) – Foram duas situações diferentes, mas ambas muito boas. No Theatro Circo foi um convite direto do programador que, ao conceber um ciclo de concertos de projectos nacionais mais independentes, para lentamente reabrir a sala, pensou em nós para o inaugurar. Talvez por sermos uma banda muito descontraída em palco, sem grandes necessidades técnicas ou de cenário, somos o que somos. E esse espírito era o ideal para um primeiro reencontro. Não era preciso fazer nada extra-produzido, com enorme glamour ou com grandes ambições estéreis. E nós encaixámos bem nessa busca de simplicidade. Já no Salão Brazil, foi uma proposta da nossa parte. Tínhamos lá um concerto marcado em abril, que foi cancelado, e como sabíamos que o Salão ia voltar aos concertos com lotação limitada, sugerimos fazer várias sessões, como se faz no teatro, deixando as pessoas à vontade para aparecerem quando quisessem. E isso também reforça a ideia que que não é preciso voltar em grande, o que é preciso é ir voltando.

(G.) – As salas de espetáculo estão reduzidas a um quarto da capacidade habitual, contudo, aquilo que pode ser um concerto mais intimista, pode também transformar-se no oposto, devido ao distanciamento social necessário e medidas de segurança impostas. Quais foram os ajustes em termos de “pensar o espetáculo” que tiveram de ser feitos para estes concertos? E como estão a correr os espetáculos?
(B.a.I.) – A nossa abordagem, quando estamos em cima do palco, é a de tentar, desde o início, quebrar o gelo. Sempre foi assim e, na verdade, sempre o fizemos para combater a nossa intrínseca timidez e um certo nível de desconforto por estarmos ali. E essa intimidade procuramo-la inevitavelmente, mesmo que seja em salas grandes ou em festivais. É uma forma de estar, não tem a ver com o espaço físico em si. Nunca sonhámos com isto de ter uma banda, nunca nos preparámos. Por isso, encaramos um concerto nosso como um encontro com pessoas e não um espectáculo que providenciamos para um qualquer público. Dessa forma até tiramos pressão sobre esse momento e tornamos tudo mais descontraído e fluído, para todos. Tendo isto em conta, não precisamos de fazer grandes adaptações ao que fazemos normalmente pelo facto de a sala ter menos gente ou as pessoas estarem de máscara. Para nós e público ficarmos satisfeitos, isso nunca dependeu de salas cheias ou de uma enorme exaltação, só precisamos que as pessoas estejam connosco. E, nesta altura, isso continua a ser o mais importante.

(G.) – Em 2021 teremos uma nova viagem dos Birds are Indie. Mas e no futuro para onde é que vão querer continuar a voar?
(B.a.I.) – Em 2021, se tudo correr como planeado, lançaremos o segundo volume deste “Migrations – the travel diaries”. Será uma edição em vinyl e contará com as mesmas 5 músicas antigas que estão no CD, mais 5 músicas totalmente novas. A ideia é serem edições siamesas, que se complementam, não só no formato, mas também no alinhamento e no artwork. Nos próximos tempos, além dos concertos que temos marcados por cá, vamos tentar regressar a Espanha, onde já tocamos com frequência desde 2012, e onde este ano tivemos de cancelar uma digressão que seria em maio (e que seguiria até Itália). Depois disto, será como tem sido ao longo de 10 anos: logo se vê.

Entrevista de Bárbara Dixe Ramos
Fotografia de Bruno Pires