Bonnie Parker e Clyde Barrow foram um casal de criminosos norte-americanos, que se conheceram em 1920, no Texas. Ela tinha 29 anos e ele 30. Apaixonaram-se e viram um no outro um escape para viverem o período da Grande Depressão. Ao longo de dois anos de assassinatos, assaltos e fugas, Bonnie e Clyde conquistaram os Estados Unidos e foram idolatrados como duas estrelas de cinema. Morreram ambos em 1934, quando a polícia decidiu entregar a perseguição do casal a Frank Hamer, um ranger texano. A 23 de Maio Bonnie e Clyde foram mortos a tiro por Frank Hamer e cinco polícias. A sua morte não foi consensual porque, apesar de inequivocamente criminosos, eram vistos como um símbolo contra o “estado opressor”. Havia neste casal uma espécie de “performance da fuga” e uma estética apurada na forma como se fotografavam, como se vestiam e como se comportavam.

No passado dia 25 de Maio, Bonnie e Clyde estiveram no Ministério da Cultura, no Palácio da Ajuda, para entregar à Ministra da Cultura, Graça Fonseca, um cabaz de alimentos e 151 euros em dinheiro. Este montante e o cabaz foram o resultado de uma campanha crowdfunding chamada “Não Deixemos a Graça Cair na Desgraça!”, organizada por um grupo de profissionais da cultura na plataforma GoGetFunding. Este grupo, para já, prefere manter o anonimato.

Esta acção tinha como objectivo angariar dinheiro e bens essenciais para que a ministra não passasse dificuldades. Desta forma irónica o grupo conseguiu estabelecer um diálogo com a ministra, que até agora não fora conseguido em tentativas de outras entidades ou grupos. A ministra decidiu finalmente falar, e disse à Bonnie e ao Clyde que, até ao final do ano, trabalharia no estatuto de intermitência dos trabalhadores da cultura (medida urgente que permitirá a proteção social desses trabalhadores).

Os dois actores que interpretaram Bonnie e Clyde, mantêm também, até agora, o anonimato. Chegaram ao Palácio Nacional da Ajuda numa Renault 4L, vestidos a rigor, cada um deles com uma boina, símbolo que caracteriza estes personagens, e com uma flor presa a uma corda que colocaram a tiracolo lembrando uma espingarda e também fazendo referência ao 25 de Abril.

Bonnie vestia uma mini-saia amarela e um lenço laranja ao pescoço, e Clyde uma manga cava branca, por cima uma camisa e umas calças de fazenda presas por suspensórios. O anonimato foi possível, porque uma vez obrigatório o uso de máscaras, metade da cara dos actores ficou tapada. Além da máscara, os actores usaram também óculos de sol.

Há neste acontecimento, a que poderíamos chamar “happening”, uma estratégia que se assemelha à de Bonnie e Clyde verdadeiros. Muitos dizem que o mediatismo à volta destas duas figuras não era inocente. Tal como Bonnie e Clyde, o grupo deu grande mediatismo a esta acção. Na campanha crowdfunding, por exemplo, o projecto era apresentado através de um vídeo com a música do Starwars e com um texto com o mesmo tipo de letra e efeitos do início do filme. Tudo isto absolutamente estratégico para chamar a atenção da imprensa.

Esta campanha foi bastante noticiada e falada nos programas de informação, de humor e de debate, mais do que qualquer outra iniciativa feita pela proteção social dos trabalhadores da cultura, até agora, neste período de quarentena.
Este belíssimo “happening” traz consigo uma elaborada estratégia política ao usar a estratégia do ministério da cultura, entregando a Graça Fonseca o mesmo a que têm direito grande parte dos trabalhadores da cultura desde o início de Março. É no mínimo irónico que seja um acto simbólico como este a iniciar o diálogo com a ministra da cultura.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre a Isabel Costa-

Trabalha em teatro, cinema, na área de produção de exposições e curadoria. É diplomada em teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema, tendo completado a sua formação na Universidade de Warwick (Inglaterra) e na UNIRIO (Brasil). É membro do grupo de teatro Os Possessos desde 2014. Na área de produção de exposições passou pelo Paço Imperial no Rio de Janeiro (Brasil), pela Galeria Luis Serpa Projectos (Lisboa) e pela galeria Primner. Em 2016 terminou o mestrado Eramus Mundus Crossways in Cultural Narratives, tendo passado pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas na Universidade Nova de Lisboa, pela Universidade de Perpignan (França) e pela Universidade de Guelph (Canadá). Dedicou-se ao tema do arquivo na performance arte. Em 2017, iniciou a criação de projectos a solo. Apresenta a criação “Estufa-Fria-A Caminho de uma Nova Esfera de Relações” na Bienal de Jovens Criadores, e a primeira edição do Projeto Manifesta, um projecto produzido por Os Possessos. Em 2019, apresenta as criações “Maratona de Manifestos” e “Salão Para o Século XXI.”

Texto de Isabel Costa
Fotografia de Telmo Pereira
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