No primeiro dia da 10.ª edição do Bons Sons, ainda marcado pela azáfama dos últimos preparativos, Cem Soldos, no concelho de Tomar, recebeu de braços abertos uma massa humana preparada para abraçar o mote do festival e viver a aldeia de forma plena.

De ano para ano esse mesmo mote, que serve de base para um manifesto do festival que pretende pensar a aldeia sob o signo da contemporaneidade em harmonia com a tradição, cimentou-se não deixando ninguém indiferente ao carácter singelo de um evento que ultrapassa a imagem de um típico festival de música.

Numa edição marcada também pelos 13 anos de existência do festival, o Bons Sons mostra-se bem vivo. Atualmente, os costumes da aldeia estão de tal forma entrosados, que um evento com dimensão para 35 mil espectadores não surpreende, funcionando apenas como mais um dia normal na vida dos habitantes de Cem Soldos.

E se é verdade que o Bons Sons marcou bem o seu legado dedicado à promoção da música portuguesa, o cartaz deste ano revela-se eclético e pujante em termos de uma programação que pretende ser diversificada, não apenas em géneros musicais mas também nas restantes atividades que proporciona aos seus visitantes.

Num dia quente, como seria de esperar no mês de agosto, a chuva chegaria no final da noite para refrescar um primeiro dia que foi emotivo pela despedida dos Diabo na Cruz de Cem Soldos, onde tinham atuado em 2010.

Mas antes disso, olhemos para o que mais nos foi proporcionado nesta primeira jornada de festival. Ainda a tarde se fazia moça, e já atuavam, no palco Giacometti,  Raquel Ralha & Pedro Renato, que trabalharam juntos nos Belle Chase Hotel e que nos trouxeram recriações de The Doors e Pink Floyd, onde o público pôde perder a sua natural inocência e participar em coro. Seguiu-se Senza, duo formado por Catarina Duarte e Nuno Caldeira –, que inaugurou o Palco Amália, ao som de canções do seu álbum de estreia Praia da Independência (2016), mas também do seu mais recente original Antes da Monção (2018).

Entre passeios pelo recinto do festival, com tempo para jogar os já célebres Jogos do Helder ou beber um copo de vinho no espaço da Adega Poças e aí ver o recém pintado mural de Mariana Miserável, foi com a Orquestra Filarmónica Gafanhense, no palco Zeca Afonso que, em certa medida, se deu a abertura oficial desta edição. Com uma plateia bem composta, foi ao som de versões de Zeca Afonso, José Mário Branco, Fausto ou Sérgio Godinho – nomes essenciais para se perceber a história e percurso deste festival – que se deu esse desejado pontapé de saída.

A Orquestra Filarmónica Gafanhense foi responsável por um dos concertos de abertura do Bons Sons © Carlos Manuel Martins

Já noite dentro, o Bons Sons testemunhou, certamente, um dos momentos altos desta edição de 2019 no concerto que juntou Benjamim a Joana Espadinha. Talvez por serem ambos responsáveis por alguns dos melhores temas da pop nacional dos últimos anos, o duo deu um concerto de tom fraternal, com um conjunto de temas, com influências sentidas na pop dos anos 80, mas também na bossa-nova. Sem que um ofuscasse o outro, o público pôde ouvir e entoar entoar temas como “Os teus passos” ou “Terra Firme”, ambos de Benjamim, mas também “Pensa bem” ou “Leva-me a dançar”, do disco O Material Tem Sempre Razão de Joana Espadinha, editado já este ano.

Antes do concerto mais esperado deste primeiro dia, houve tempo ainda para as atuações de X-Wife, que regressaram em 2018 com álbum homónimo após um breve hiato, e de Fogo Fogo, que facilmente arrebatam o prémio de banda que mais fez mexer o público presente em Cem Soldos, com funaná suficiente para incendiar o palco Lopes-Graça. De resto, os Fogo Fogo, “projeto-filho” da Casa Independente, trouxeram temas já conhecidos do seu primeiro EP Nha Cutelo (2018), como o tema Oh Minina, mas também do seu novo EP Dia Não, editado no passado dia 9 de junho.

No final do concerto que juntou Benjamim e Joana Espadinha no palco António Variações © Vera Marmelo

Se à partida para esta edição estavam anunciados um conjunto de encontros inusitados entre 13 bandas que iriam regressar dessa forma aos palcos do Bons Sons, em homenagem pelos 13 anos de festival, o facto de os Diabo na Cruz serem o único grupo desse conjunto a atuar a solo fazia prever um concerto emotivo e inédito, face ao anúncio do fim da banda, após a saída do seu vocalista e fundador Jorge Cruz. Não obstante, os restantes membros optaram por terminar a atual digressão, na qual o guitarrista Sérgio Pires assumiu o lugar de vocalista, com a entrada de Daniel Mestre para o lugar de guitarrista.

De forma quase antológica, o concerto passou em revista canções clássicas dos Diabo na Cruz, como “ Vida de Estrada”, “Luzia” ou “Dona Ligeirinha”, com direito a um revisitar do tema “Pioneiros”, presente no segundo disco Roque Popular (2012). Perante uma legião de fãs, bastante fiel e reconhecida, os músicos aproveitaram a oportunidade para dedicar as canções ao antigo fundador, num concerto que contou com a participação de Carlos Guerreiro, dos Gaiteiros de Lisboa, banda de importância seminal no percurso dos Diabo.

“É um ciclo que termina”, resumia Bernardo Barata, baixista do grupo, mostrando-se agradecido ao público que acompanhou os Diabo na Cruz ao longo dos anos, tendo-se tornado num dos casos mais bem sucedidos da música nacional deste século.

Numa jornada em que a chuva se manteve pela noite fora, o Bons Sons arrancou em grande, com um conjunto de concertos que, de certa forma, ilustram bem o ecletismo provocador de um festival que nos transporta para o centro de uma aldeia, que é, não só um ecossistema natural para a música, mas acima de tudo para a cultura. Algures no recinto pode ler-se a frase que diz “acreditamos que a cultura está na base de tudo”. O Bons Sons confirma isso: se há espaço para despedidas, haverá sempre espaço para a confirmação. E já não restam dúvidas: em todos os ciclos que terminam, há outros tantos que começam.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de capa de Verónica Paulo
O Gerador é parceiro do Festival Bons Sons

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