Ao terceiro dia, o Bons Sons encheu-se de público numa jornada marcada pela atuação de nomes que, como se costuma dizer, “já não são de agora”. Falamos obviamente dos Pop Dell’Arte, Três Tristes Tigres, mas também de Tiago Bettencourt, ‘homem do leme’ no que toca a alguma da melhor da pop nacional produzida nas últimas duas décadas. Não apenas por isso, mas também por nomes emergentes, como os Baleia Baleia Baleia e os já bem encaminhados Glockenwise – que dividiram palco com JP Simões –, Cem Soldos é por estes dias uma montra de talentos do panorama musical português.

Se a esta parte se pode pensar que há pouco mais de uma década seria praticamente impensável programar um festival com apenas nomes nacionais (ou da chamada lusofonia), atualmente as bandas portuguesas ganharam espaço até nos grandes festivais e muito disso deve-se, certamente, a projetos como Bons Sons, que lhes deram palco, obrigando-nos (público) a repensar também o nosso relacionamento com a cultura portuguesa, em especial com a música.

Mas vamos à história do terceiro dia, que para nós começou no palco Giacometti onde vimos Jorge da Rocha, músico associado à cena jazz, que trouxe na calha o seu álbum de 2017, To Drop and Let Go, com recurso somente ao seu contrabaixo e voz. Já no fim de tarde, aventuramo-nos no palco António Variações, onde reinava o punk dos Baleia Baleia Baleia, projeto de Manuel Molarinho, no baixo, e Ricardo Cabral, na bateria.

Lançados em 2018 pela ZigurArtists – label do festival Zigurfest, em Lamego –, o duo traz-nos uma completa antologia satírica, mas nem por isso menos pertinente, de letras que nos falam de um quotidiano invadido pela tecnologia, de que é exemplo crasso o tema “Quero ser um ecrã”. A lógica deste concerto seguiu a máxima “primeiro estranha-se, depois entranha-se” conquistando o público, que aderiu em peso a este pujante punk da ironia. Também é bom que nos possamos rir de nós próprios, com sentido autocrítico, certo?

No pujante concerto dos Baleia Baleia Baleia © Vera Marmelo

Como dissemos no início deste texto, a noite pertenceu em parte a nomes mais ou menos consagrados da música portuguesa, entre eles os Três Tristes Tigres, liderados por Ana Deus, e que parecem ter ganho novo fôlego nos últimos anos, o que se materializou também no regresso ao estúdio que promete trazer um quarto disco à banda com três já lançados, o último deles em 1998.

Na mesma linha e, curiosamente no mesmo palco [Zeca Afonso], seguiram-se os Pop Dell’Arte, criados em 1985, pelo seu mítico vocalista João Peste. O conjunto que nos anos 80 teve o pico da sua carreira, tem-se reinventado constantemente em termos de formação, o que faz com que este conjunto actual possa soar estranho à geração que os viu começar. Mas nesta rampa de (re)lançamento, os  Pop Dell’Arte ganharam novos públicos que, felizmente, os mantém bem vivos na estrada e ainda bem.

Mudemos de palco. No centro nevrálgico deste Bons Sons, o palco Lopes-Graça foi pequeno para todos aqueles que foram ver Stereossauro, aqui bem acompanhado pelo seu eterno companheiro DJ Ride, que mais tarde fecharia as contas deste dia. O entusiasmo era expectável, ora não fosse pelo embalo que o seu mais recente disco Bairro da Ponte trouxe. À electrónica como base, junta-se o fado e o pop, de nomes tão díspares como Camané, NBC, Rui Reininho ou Dino D’Santiago. Nas primeiras músicas acompanhadas por Ricardo Gordo na guitarra portuguesa, seguiu-se um loop de scratch, onde não faltaram alguns dos temas mais conhecidos do disco, como “Flor de Maracujá” ou a remistura de “Verdes Anos”, tema de Carlos Paredes. “Acabei por criar um bairro onde todos estes nomes puderam habitar”, realçou o DJ e produtor em entrevista ao Gerador, sublinhando a convergência de géneros cada vez mais presente no universo musical, o que, em larga medida, permitiu que este álbum se concretizasse.

Stereossauro trouxe o seu Bairro da Ponte até Cem Soldos © Carlos Manuel Martins

Para uma plateia muito bem composta, num dia em que o Bons Sons esgotou, seguiu-se Tiago Bettencourt que entra em palco com um setlist onde não faltaram os clássicos mais célebres do seu reportório. O público respondeu positivamente, como se quer, com as letras na ponta da língua, num concerto que escalou na canção “Carta”. Mais um momento icónico desta 10.ª edição de Bons Sons para se juntar à lista.

Mesmo com a chuva que chegou a cair no concerto de Stereossauro, o público não se dispersou e manteve-se até já bem perto das duas da manhã, para ver mais um dos concertos em que a organização provocou um encontro inusitado, neste caso, entre os Glockenwise, grupo de Barcelos muito bem calibrado depois do lançamento do seu mais recente disco Plástico e JP Simões. Quanto ao cantor português nem vê-lo, mesmo quando apareceu em palco com canções do seu mais recente projeto Bloom ou de saxofone na mão, que diga-se, foi imperceptível. A junção não atingiu o ponto de maturação e o fim deste terceiro dia pareceu ameno, sem grandes surpresas, salvo com a redenção de Stereossauro e Tiago Bettencourt. Mas animemo-nos, o domingo vai valer muito a pena.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de capa de Verónica Paulo
O Gerador é parceiro do Festival Bons Sons

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