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Book in Loop aplica economia circular aos materiais escolares em prol do ambiente e da democratização do ensino

A Book in Loop surgiu em 2016 com o objetivo de trazer a economia circular para os manuais escolares. Hoje já o faz também com as calculadoras gráficas e está à procura de mais artigos aos quais possa aplicar o seu modelo de negócio, em prol do ambiente.

Fotografia de Andrew Ebrahim via Unsplash

Se puder comprar um certo artigo em segunda mão, como uma calculadora gráfica, mas optar por comprá-lo em primeira, estará a fazer uma compra menos responsável tanto para a sua carteira, como para o ambiente. O aviso é deixado por Gustavo Alves, diretor de e-commerce da The Loop, empresa que, em 2016, lançou a plataforma Book in Loop, para levar a economia circular aos manuais escolares. 

Em entrevista por Zoom, o responsável fala sobre as origens do projeto, mas também sobre a expansão que tem registado nos últimos anos, com a introdução de novos artigos, como calculadoras gráficas, na plataforma. Gustavo Alves adianta também quais serão os próximos passos da Book in Loop e deixa claro que seria benéfico as entidades públicas fazerem campanhas de sensibilização em prol das compras em segunda mão, já que persiste o estigma.

Gerador (G.) – A Book in Loop surgiu em 2016. O que é que levou à sua criação?

Gustavo Alves (G. A.) – Há uns anos, a aquisição dos manuais escolares era um fardo pesado para as famílias e já estava identificado o eventual desperdício [desses livros], até porque muitos deles, com uma correta utilização, poderiam durar mais do que um ciclo. Assim, surgiu a ideia de tentarmos centralizar aquilo que era a economia circular informal que já acontecia em diversos meios. Os livros já eram passados entre amigos e família. O que fizemos foi tentar sistematizar e dar escala a um processo que acontecia de forma relativamente natural. Esse foi o negócio core da empresa e correu muito bem nos primeiros anos. A procura era imensa. Em 2019, o Ministério da Educação começou a promover os vouchers MEGA e, deste modo, eliminou este custo [de aquisição das famílias] para uma parte significativa das famílias. Ainda assim, subsiste o custo ambiental. 

G. – Como é que a gratuitidade dos manuais escolares impactou o vosso negócio?

G. A. – Teve um impacto brutal na empresa. Num primeiro momento, [a Book in Loop] era uma empresa de economia circular, na qual a tecnologia suportava a dimensão do negócio de compra e venda de manuais em segunda mão. A partir do momento em que os manuais passaram a ser oferecidos pelo Estado, houve uma necessidade de nos reinventarmos. Começamos a olhar para as ferramentas que permitiam operacionalizar o negócio em detrimento do negócio em si. Nesse sentido, diversificamos as áreas e passamos dos manuais escolares para a puericultura, nomeadamente carrinhos de bebé. Acreditamos que, tendo esta tecnologia e ferramentas, conseguimos circular inúmeros tipos de produtos. Continuamos no mercado dos livros em segunda mão, mas agora com uma procura muito menor. Temos alguns nichos interessantes como professores e explicadores. 

G. – Hoje na Book in Loop também vendem outros produtos além de manuais escolares, como calculadoras. Qual é, neste momento, o produto mais procurado?

G. A. – Continuam a ser os manuais escolares. As calculadoras gráficas são um setor novo [para nós]. No ano passado, fizemos um projeto-piloto: compramos algumas dezenas de calculadoras para percebermos se tínhamos competências para as recondicionar, até porque oferecemos garantia. Logo, temos de estar muito confiantes de que os produtos tem qualidade para aguentar um ciclo de no mínimo três anos. As calculadoras gráficas [novas] acabam por ter um custo extremamente elevado. Estamos a falar de artigos que custam entre os 120 e os 180 euros, e não há qualquer tipo de apoio do Estado. Acreditamos que este é um bom nicho para nos posicionarmos. Este ano, começamos a dar um bocadinho mais de visibilidade às calculadoras gráficas e temos tido bons resultados até à data, sendo que estamos no período mais fértil, em termos de vendas. 

G. – Como é que funciona o vosso processo de circulação de materiais, da aquisição à entrega?

G. A. – É muito simples. Alguém tem uma calculadora que se qualifica para entrar no nosso programa e, portanto, vai ao nosso site, preenche o formulário com as informações pessoais e as informações de equipamento e manda algumas fotografias para fazermos uma triagem inicial. Nessa primeira fase, conseguimos identificar logo se calculadora tem potencial para ser vendida ou não. Se sim, enviamos uma guia e com ela é possível entregar o equipamento num ponto pick-up sem qualquer custo. A calculadora chega ao nosso armazém e fazemos a segunda triagem. Se estiver em condições, desencadeamos o pagamento. As nossas aquisições estão tabeladas. Depois, iniciamos o processo de recondicionamento: limpamos a máquina, fazemos alguns testes, desinfetamos e embalamos o equipamento. A partir desse momento, quando são vendidas, as máquinas são expedidas na nossa embalagem, que é feita com materiais reciclados e mais amigos do ambiente.

G. – Nos manuais escolares, o processo também é esse?

G. A. – Neste momento, não estamos a recolher manuais escolares, porque não estamos certos da procura. Desde 2019 que temos um stock grande e estamos a tentar dimensionar qual a procura do mercado privado [que não tem direito a manuais gratuitos por parte do Estado] para tomarmos a decisão sobre a angariação de mais livros. Ter manuais escolares connosco tem custos logísticos grandes e pressupõe que haja um certo volume de procura. Se não houver, é difícil materializar o negócio. Não somos subsidiados por ninguém. O negócio tem de libertar margem para pagarmos as pessoas que estão cá. Se financeiramente não for interessante, não nos podemos meter, sob pena de a empresa ter maus resultados.

G. – Como caracterizaria o vosso cliente?

G. A. – Temos dois tipos de clientes, que frequentemente ocupam os dois extremos do espectro do consumidor. Temos aquelas pessoas que nos procuram pelo preço. Não há qualquer tipo de oferta no mercado melhor do que a nossa. Além disso, temos garantia e oferecemos a possibilidade de devolução. Se comprar num marketplace, a partir do momento em que o produto é adquirido, se houver algum problema, a pessoa que vendeu não se vai responsabilizar. Entre as pessoas para as quais o preço é o mais importante, temos uma elevada procura. Depois, temos o outro extremo: pessoas que até têm algum rendimento disponível, mas têm como principal preocupação a questão ambiental. Para elas, não faz sentido comprar um artigo novo, se há um bem que já foi utilizado, mas está perfeitamente funcional e há uma empresa responsabiliza pela garantia. Neste ciclo, temos três missões. Uma missão ambiental, porque cada produto que circulamos significa que menos um tem de entrar na linha de produção. Uma missão na educação, porque tentamos democratizar mais o ensino. E uma missão social, porque as pessoas que compraram as máquinas calculadoras há dez anos recuperam agora rendimento através da nossa plataforma. 

G. – Disse que o vosso negócio não é subsidiado. Faltam apoios públicos e comunitários para projetos que apostam na circularidade? 

G. A. – Sim, mas há alguns passos por parte das entidades públicas no sentido de apoiar este tipo de negócios. Onde o investimento podia dar mais fundos seria na sensibilização do consumidor, porque há ainda um estigma em torno da compra em segunda mão. Acho que era importante tentarmos passar a mensagem de que é uma compra menos responsável se puder comprar um artigo em segunda mão e optar por um novo. Maiores ações de sensibilização nessa área por parte das entidades públicas seria uma vez benesse para nós. Depois, a cada nova tipologia de artigo que testamos, há um imenso risco financeiro para nós. Se fosse subsidiado, poderíamos procurar novos nichos. Não ser obriga-nos a andar um bocadinho mais devagar.

G. – No que diz respeito às questões ambientais, apostam também em esquemas de compensação de carbono. Porquê?

G. A. – Os manuais usados são um nicho cada vez mais reduzido. Temos uma relação de grande proximidade com a Sonae. Foram eles que nos apoiaram em 2017. [Por isso,] conseguimos, de forma relativamente ágil, entrar no mercado de manuais novos. E porque é que o fizemos? Não só pela dimensão do negócio, mas também porque acreditamos que há também na venda de manuais novos potencial para ter um impacto positivo no ambiente. Esse impacto positivo, do nosso lado, deu-se com a compensação carbónica. Além de querermos ter um negócio que seja rentável, queremos inspirar os líderes de mercado que vendem manuais novos a replicar aquilo que é a nossa responsabilidade social, através da compensação carbónica. 

G. – Quais serão os próximos passos da Book in Loop?
G. A. – Queremos consolidar os novos negócios, tanto a nível de manuais novos como a nível de calculadoras, e também começamos a testar a venda de infinite books, que casam muito bem com este espírito ambientalista. Agora queremos construir sobre estes alicerces. Provavelmente, vamos agora para a expansão de gamas. Sabemos que há muitos equipamentos, mesmo no ensino superior, que se qualificam neste critério da durabilidade. Agora vamos querer encontrar novas gamas, que possam traduzir-se em impactos positivos para a sociedade e para o ambiente. Eventualmente livros que estejam dentro do plano nacional de leitura. Vamos dando passos cautelosos no sentido de dar soluções um bocadinho mais responsáveis e ambientalmente positivas ao consumidor.

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