A cidade de Braga é oficialmente considerada candidata a Capital Europeia da Cultura 2027, pela Comissão Europeia. Ainda assim, antes desta candidatura, desta Bracara Augusta, existe uma equipa a gerir todo o processo. A Braga´ 27.

Esta equipa nasceu no ano de 2018, antes sequer de existir uma candidatura para Capital da Cultura. Atualmente, a Braga´ 27 é a responsável por ouvir as vozes do povo, que tenham, ou não, uma relação direta com a cidade. O objetivo é propor, assim, uma melhor cidade, por via da cultura, em 2027. Ganha a cidade que responda às questões propostas, pela Comissão Europeia, da forma mais original.

Face a isto, o Gerador foi em busca, ainda que por via virtual, de um membro da equipa para perceber melhor o que é o projeto da Braga´ 27 e o que está subjacente a ele. A elegida foi Carolina Lapa, uma bracarense “adotada”, que, atualmente, integra a equipa de comunicação. Em conversa com o Gerador, Carolina explicou como surgiu a Braga´ 27, falou sobre o seu percurso, o porquê da escolha da cidade de Braga, explicou a importância da participação dos bracarenses, e o que gostava que a cidade alcançasse no ano de 2027.

Gerador (G.) – Recentemente, para a criação de uma candidatura da cidade de Braga a Cidade Capital Europeia da Cultura foi criada uma organização, de nome, Braga´ 27. Pode explicar-nos um pouco em que consiste esta iniciativa da Braga´ 27 ? Qual o principal objetivo?

Carolina Lapa (C.L) – O projeto da Braga´ 27 começa ainda antes de se chamar Braga´ 27, ou seja, em 2018. Parte de uma iniciativa do município para que Braga fosse candidata a Capital Europeia da Cultura. Surgiu, precisamente, da necessidade de criar uma equipa que fosse respondendo a este desejo. Para tal, foi criada uma equipa que se chamava Braga Cultura 2030, e que esteve, de 2018 a 2020, ou seja, durante dois anos, a preparar uma estratégia cultural, em Braga, para a década de 2020 a 2030.

Antes de nos propormos, como cidade candidata a Capital Europeia da Cultura, começámos a trabalhar no terreno. Perceber, no fundo, a dez anos, que estratégia cultural se incluiria no eventual ano de Capital Europeia da Cultura, mas que fosse para além disso. De 2020 a 2030, uma década, que política cultural nos propomos a implementar na cidade, que iniciativas podem ser implementadas para elevar o seu perfil cultural da cidade.

Uma das particularidades da Braga Cultura 2030, e que foi herdada pela Braga´ 27, ou seja, do processo de candidatura, era fundar estes desejos e esta política cultural na vontade das pessoas. Ou seja, que os próprios bracarenses pudessem ser os decisores do que será o futuro da cultura na cidade.

Para isso, nesse período, de 2018 a 2020, fizemos uma série de projetos de auscultação, de diferentes maneiras. Aconteceram entrevistas, grupos de foco, um projeto chamado “Vamos Falar”, que continua, agora, na Braga´ 27, fizemos um almoço coletivo, em que colocámos as pessoas a fazerem uma refeição ao ar livre, e, volta e meia, trocávamos as cadeiras para as pessoas falarem e partilharem connosco as suas ideias. E, fizemos, também, o projeto “Variações”, que acabou por ser um bocadinho diferente, na sua lógica de auscultação, mas envolvendo, sempre, a comunidade. Aconteceu em quatro fins de semana, ao longo de quatro meses, em que havia atividades inspiradas na vida e obra de António Variações. Houve dois espetáculos de comunidade, uma série de espetáculos resultantes em residências artísticas, em que artistas foram convidados a trabalhar com algumas associações de Braga. E, neste processo, também íamos convivendo com diferentes bracarenses, de muitas origens e com diferentes acessos à cultura. E este foi o processo preparatório da estratégia cultural, que ficou terminada no verão de 2020, e acabou por concluir esse processo preparatório, fazendo a ponte para a Braga´ 27. Essa equipa transita, então, para a Braga´ 27, e é, então, quando dizemos que somos cidade candidata.  Começamos a trabalhar na nossa candidatura, que é onde estamos agora.

Fotografia de Lais Pereira

(G.) – Falando, agora, um pouco sobre ti. Atualmente, sei que integras a equipa de comunicação. Mas como é que começou este teu percurso por lá? O que te motivou a pertencer a esta equipa?

(C.L) – Bem, eu não sou bracarense. Sou uma bracarense adotada. Nasci em Vila do Conde, e sou bastante vila- condense, mas já não vivo em Vila do Conde há muitos anos, apesar da minha família viver toda lá. Vivi alguns anos no Porto, cerca de dez, depois vivi em Paredes de Coura, e depois vim para o projeto de Braga, que é a cidade onde estudei. Estudei cá no início dos anos 2000, na Universidade do Minho. E, quando surgiu a possibilidade de poder integrar o projeto da candidatura, confesso que fiquei cheia de dúvidas. Não sabia se deveria regressar a Braga, se não deveria regressar, se deveria deixar Paredes de Coura. Na altura, estava no projeto Comédias do Minho, tinha feito uma mudança recente para o Alto Minho, e estava mesmo com dúvidas se deveria trocar o Alto Minho, pelo Baixo Minho. Mas, depois, quando percebi mais o projeto, achei que poderia ser um exercício bom para mim, uma experiência boa.

O meu trabalho foi sempre na área da publicidade. Depois, ao longo dos anos, fui-me especializando em comunicação cultural, mas ainda não é uma área em que me sinta uma expert. Então, esse processo de descoberta e aprendizagem é o que me move. Quando surgiu esta oportunidade pensei que era uma forma de aprender, e de descobrir como cresceria com o projeto.

Fotografia de Adriano Ferreira Borges

(G.) – Porquê a cidade de Braga para Capital Europeia da Cultura? Na tua opinião, o que é que a cidade bracarense tem de destaque face às outras cidades portuguesas?

(C.L) – Cada cidade, que já manifestou interesse em concorrer, tem particulares bastante interessantes. Braga tem coisas que lhe dão alguma unicidade. É uma cidade com 2000 anos de história, que teve a presença de vários povos ao longo dos anos, que lhe dá uma certa multiculturalidade ancestral. É quase como se fosse um palimpsesto, vais escrevendo por cima do que já foi escrito. Braga tem essa capacidade de sedimentação. Tens vestígios do romano, tens uma série de camadas históricas. E, depois, tens o presente que é, também, muito sedimentado. É uma cidade que cresceu muito rápido nos anos 80. Era uma cidade-província, que teve um boom urbanístico, e de construção. O que faz com que o centro histórico se mantenha antigo, e, depois, logo no anel seguinte, a cidade tem muita habitação, prédios muito altos, estradas, túneis… É uma cidade que cresceu muito rápido e, se calhar, por crescer tão rápido nem sempre cresceu bem. Há sempre esse passado recente que aconteceu, e não há nada que possamos fazer para o mudar.

Depois, é, também, curioso teres uma cidade super antiga, hiper-religiosa. Braga é uma arquidiocese. A igreja católica tem esta presença na cidade, que é um bocado difícil de ignorar. Tens muitas igrejas, ouves os sinos, sentes essa presença no quotidiano.

E, ao mesmo tempo (mais uma camada) a questão da inovação, que foi uma coisa que começou, também, nos anos 90. É uma cidade que tem a Sé, que é a mais velha, e depois tem o INL que é o Instituto Ibérico de Nanotecnologia. E esse contraste, acho que é das coisas mais interessantes da cidade.

Agora, num contexto de Capital Europeia da Cultura, ou de candidatura, não é tanto a cidade que tens neste momento que é relevante. Mas, o que interessa, e o que a Comissão Europeia quer avaliar, é a cidade que queres ter em 2027. Por isso, os atributos que uma cidade já traz são fundamentais, mas não é só isso que importa. Importa tudo aquilo que somos e tudo aquilo que queremos ser. E é sobre tudo aquilo que queremos ser que somos avaliados.

Para mim, Braga tem esta capacidade de transmutação muito grande. E, se já mudou tantas vezes, ao longo dos séculos, ao longo dos milénios, eu acho que mudar também está na sua identidade. E pode não ser a primeira coisa que se pense da cidade de Braga… Mas ela tem esse poder de transmutação. 

Fotografia de Lais Pereira

(G.) – Há pouco falavas-me de quando a cidade de Braga apresentou a candidatura a Capital Europeia da Cultura 2027. Mas que iniciativas lançaram para alcançar esse patamar? Onde é que as pessoas podem encontrar algumas dessas atividades?

(C.L) – O que aconteceu foi que foi lançada uma call, por parte da Comissão Europeia, em que a comissão define, em 2027, os países que acolherão o evento Capital Europeia da Cultura que, neste caso, serão Portugal e Letónia. A partir desse momento, é feita uma call, em cada um desses países, a dizer que as cidades que manifestem interesse em concorrer a este título devem fazê-lo até x data. Primeiro há uma espécie de manifestação de interesse, que deve ser enviada até ao 23 de outubro de 2021, e depois devem entregar um dossier da candidatura até ao dia 23 de novembro de 2021. E é esse dossier que tem de responder a uma série de perguntas, e, no fundo, o que acontece é que quem responder a essas perguntas, da forma mais original, à partida, será o vencedor. Estamos, agora, no processo de escrita desse dossier. Nele, tens de explicar o porquê da cidade querer ser candidata, o que já foi feito nesse sentido, o que se espera fazer em 2027, e para além desse ano. Caso a cidade seja a vencedora, o que vamos implementar a nível artístico e cultural. Nesse processo de escrita, continuamos a tentar envolver as pessoas. Temos, então, até 23 de novembro para entregar esse processo de candidatura. Apesar de estarmos em março, acho que já começamos a pensar que estamos a ficar atrasados. É uma coisa que demora imenso tempo a fazer. Estamos sempre a tentar ser o mais rápidos possível, e fazê-lo bem. Mas sim, enquanto pensamos no dossier de candidatura, e o escrevemos, estamos, também, a consultar a comunidade de Braga, e a perceber com eles o que poderá ser mais interessante propor enquanto conceito de candidatura.

Para isso, temos mantido o projeto “Vamos Falar”, mas tendo em conta o contexto pandémico estamos a fazê-lo por zoom, numa lógica de sessões de trabalho. Como é que elas têm acontecido?

No fundo, falamos com o máximo número de pessoas, mandamos newsletter, convidando pessoas que possam, ou não, ter uma relação direta com a cidade. Há um trabalho que é pensado para agentes culturais, mas, também, há um trabalho que pode ser feito pelas pessoas. É fundamental que as pessoas, artistas ou não, alguém que trabalhe na área da cultura, ou não, possam participar nesta construção. E, basicamente, essas sessões dividem-se por temas que as pessoas acham particularmente relevantes.

As coisas boas da cidade são sempre tidas em conta, mas é fundamental, neste processo de candidatura, uma cidade olhar para si própria e perceber o que está menos bem. Por isso, algumas vezes recebemos esse feedback menos bom, e que é importante para olharmos para algumas feridas que a cidade possa ter. É material de trabalho para percebermos que tipo de exame podemos fazer à cidade, que tipo de check-up uma Capital Europeia permite fazer à cidade. Então, são esses inputs que as pessoas nos dão que contribuem, também, para este processo de escrita de candidatura. E, pensar, também, que conceitos, ou questões, seriam interessantes ver resolvidos, e encontrar um caminho pela cultura para as solucionar, em 2027.

Temos alguns planos para a rua, mas só quando for possível. Por enquanto, estamos em salas simultâneas do zoom, que é muito parecido com um hall de entrada de uma sala de espetáculos. Para já, vamos ter de trabalhar assim.

Fotografia de Lais Pereira

(G.) – No site do Braga´ 27 lê-se o seguinte: “Uma Capital Europeia da Cultura faz-se sobretudo do capital humano da cidade. Por isso, procuramos ideias para pensar, tempo para ajudar e vontade para participar.” Como, agora, me referias, este é um projeto que se constrói no diálogo com a sociedade. Mas caso as pessoas se queiram voluntariar, de forma autónoma, é possível?

(C.L) – Há uma área do site que está exclusivamente voltada para isso, em que qualquer pessoa que tenha uma relação com Braga o pode fazer.

Portanto, há um menu que se chama “participar”, em que temos o voluntariado. Há também uma caixa de ideias, onde as pessoas podem deixar sugestões, e depois uma outra coisa que se chama participar com presença, que tem que ver mais com, no futuro, poder haver uma open call - uma convocatória de participação, onde as pessoas possam participar.

Outras maneiras de falarem connosco é através das nossas redes, através do email: info@braga27.pt, que acaba por ser, também, uma das nossas caixinhas abertas à conversa.

Temos também este trabalho do “Vamos falar?”, ainda hoje mandámos mais uma newsletter, em que, caso quisessem participar, só tinham de preencher um curto questionário. Presencialmente, haveremos de ter um sítio.

Fotografia de Lais Pereira

(G.) – Deste conjunto de histórias, há alguma que vos tenha marcado de uma forma particular?

(C.L) – Olha, houve algumas surpresas no processo de auscultação. Há algumas coisas que as pessoas identificam, que já tínhamos identificado. Ou seja, são coisas que já reparamos que existem e têm falhas. Mas, outras não… E, uma das surpresas foi, por exemplo, a água. Ora, Braga não é propriamente uma cidade em que te lembres do rio, não é uma cidade marítima, e, ao início, não percebemos o que as pessoas queriam dizer com a água. Realmente, temos o rio Este, que é um rio muito pequeno, muito subtil, na cidade, é uma linha de água frágil. Depois, temos o Rio Cávado, que é um rio mais imponente, que define a delimita o concelho a Norte. E percebemos que era sobre estes rios. Depois, falaram, ainda, sobre os fontanários, a área das Sete Fontes, que é uma área um bocadinho mais afastada do centro que tem, realmente, um reservatório de água. Falaram da chuva… E, de repente, a água começou a fazer sentido.

Volta e meia, então, acontecem estas questões em que as pessoas referem algumas particularidades da cidade que não são assim tão imediatas, mas que fazem sentido, e a água foi uma dessas surpresas.

Fotografia de Lais Pereira

(G.) – Por fim, e recordando, um pouco, o início da nossa conversa. Imaginando, agora, que a cidade de Braga era a vencedora, o que gostavas que a cidade bracarense alcançasse, em 2027, culturalmente?

(C.L) – Eu acho que se Braga fosse Capital Europeia da Cultura, em 2027, e se estes anos prévios de trabalho pudessem contribuir para haver uma maior constância da cultura na cidade, uma organização maior, e uma prevalência maior do que é uma realidade cultural de uma cidade, e que os cidadãos pudessem usufruí-la regularmente, acho que seria uma grande vitória para Braga. Também se alguns artistas bracarenses pudessem regressar à cidade, se houvesse uma comunidade artística que se pudesse fixar aqui, e uma comunidade de público que pudesse usufruir de cultura num registo continuado e permanente, acho que isso seria o sucesso de uma Capital Europeia da Cultura, em Braga.

Era criar essa constância, esse hábito regular de consumo de cultura, e uma fixação de uma comunidade artística, na cidade. Para mim, seriam as grandes vitórias se a Capital acontecesse em Braga.

Fotografia de Lais Pereira

(G.) – Há algo que, ainda, gostasses de acrescentar relativamente a este projeto?

(C.L) – Se houver alguém que esteja a ler isto e que reúna condições, e que tenha uma relação com Braga, se sente alguma vontade de participar, então que participe. Realmente, nós estamos mesmo a fazer um esforço grande para que as pessoas possam ter a sua voz, e que possam sentir-se identificadas neste processo e nesta candidatura.

Não queremos, de todo, estar sozinhos nisto, não faz sentido. É um projeto de cidade, em que faz sentido que as pessoas se juntem a nós e deem a sua visão através da sua participação.  Aconselho, também, as pessoas a seguirem o projeto.

Fotografia de Lais Pereira


* A entrevista surge a propósito da parceria entre o Gerador e a Braga´ 27 (Capital Europeia da Cultura).


Texto de Isabel Marques
Fotografia de Lais-Pereira