Escrevo sobre o Brasil porque Bolsonaro prepara o golpe. Acossado, venerado por uma horda de fanáticos, pelo agronegócio, pela indústria de armamento, por setores evangélicos e por uma parte da “classe média” branca, ensaia a brutalidade “barulhenta, histérica e burra”, como escreveu agora mesmo a minha amiga Hustana, num WhatsApp de resposta às minhas preocupações. É curiosa essa repetida classificação de “classe média”, pois, em geral, significa a minoria branca privilegiada, que vive em condomínios e habita as zonas planeadas e bem urbanizadas das cidades, com acesso ao conforto da moderna vida globalizada. De acordo com o ranking do Banco Mundial, o Brasil figura como o 9º país mais desigual entre os 164 países selecionados, atrás de Moçambique, Suazilândia, República Centro-Africana, São Tomé e Príncipe, Zâmbia, Suriname, Namíbia e África do Sul.

Essa minoria acha que é o Brasil e que os outros são lixo e estorvo e que a sua existência apenas se justifica para a servir como mão-de-obra barata, herança escravocrata e colonial.  Quando o governo Lula lançou medidas sociais moderadas que chamaríamos de social-democratas (rendimento mínimo, quotas raciais, aumento do salário mínimo…), a “classe média” praguejou de imediato contra a ousadia dos pobres que compravam eletrodomésticos, carros em 3ª mão e exigiam carteira assinada para trabalhar. Nem para consumir (estimulando a economia) serviam…. Quando um pobre os questiona, respondem com soberba “Você sabe com quem está falando?” “reflexo ritualizado e quase sempre dramático de uma separação social”, como nos lembra, em notável ensaio, o antropólogo Roberto DaMatta.

Sem pudor, os seus arautos usam na prática o lema da Falange espanhola: "Viva la muerte!” para impor a “ordem e o progresso” que figuram na bandeira brasileira e que a seu modo interpretam, como o miliciano que surgiu, de metralhadora em punho com o ícone da bandeira como pano de fundo, no zoom que transmitia uma conferência minha para uma universidade paulista. Massacres (lembremos o da Candelária), chacinas da polícia militar e das milícias, execuções, como a de Marielle Franco, fazem parte do seu modo de atuação diário.

Relembro Alexandre, estudante de Antropologia que um dia me levou a conhecer as favelas da periferia, onde morava, e que me explicou que, da ponta mais distante da gigantesca área metropolitana Paulista, muitas pessoas vêem-se obrigadas a apanhar três a cinco autocarros, até chegarem à estação de metro onde, em seguida, se injetam no núcleo da cidade para irem servir como faxineiros, babás, garçons… Em certos casos, tal percurso pode demorar cinco horas, obrigando as pessoas a saírem de casa antes das quatro da madrugada.

Nesse dia, ao chegarmos perto de sua casa, cruzamo-nos com o velho pai, aflito, quase correndo. Afinal, houvera uma “geral”, rápida e massiva incursão policial, pouco tempo antes. Alexandre tranquilizou o pai, dizendo-lhe que o olhasse, que visse que estava bem e nem dera por nada. Quando há uma “geral”, a polícia escolhe os “criminosos”.

Mas no Brasil encontrei sempre uma enorme alegria, uma imensa vontade de estudar, de lutar, de resistir, de inovar. Por isso, nesta hora decisiva, publico o poema que dediquei a Alexandre, o meu jeito de escrever o meu amor por esse país e por essa cidade (São Paulo), onde o mar é cimento, mas está lá, subterrâneo, prestes a romper na tempestade que há de chegar:

André caminha de um modo implacável e certo.
Longos caracóis descem pelas costas, negros como o azeviche do urubu.

Em frente há um horizonte de concreto.
Mas André caminha de um modo certo e implacável.
Caminha como se ao virar da esquina
O mar Paulista

Fosse o oceano inteiro.

-Sobre João Teixeira Lopes-

Licenciado em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1992), é Mestre em ciências sociais pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade  de  Lisboa (1995) com a Dissertação Tristes Escolas – Um Estudo sobre Práticas Culturais Estudantis no Espaço Escolar Urbano (Porto, Edições Afrontamento,1997).  É também doutorado em Sociologia da Cultura e da Educação (1999) com a Dissertação (A Cidade e a Cultura – Um Estudo sobre Práticas Culturais Urbanas (Porto,Edições Afrontamento, 2000). Foi programador de Porto Capital Europeia da Cultura 2001, enquanto responsável pela área do envolvimento da população e membro da equipa inicial que redigiu o projeto de candidatura apresentado ao Conselho da Europa. Tem 23 livros publicados (sozinho ou em co-autoria) nos domínios da sociologia da cultura, cidade, juventude e educação, bem como museologia e estudos territoriais. Foi distinguido, a  29 de maio de 2014, com o galardão “Chevalier des Palmes Académiques” pelo Governo francês. Coordena, desde maio de 2020, o Instituto de Sociologia da Universidade do Porto.

Texto de João Teixeira Lopes

A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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