O Gerador conversou com Bruno Martins, director artístico do espectáculo “Paisagem Efémera – natural e rural: Iº Ato”, que estreará no Palco Gerador, no dia 13 de Novembro, pelas 21h00, permanecendo até dia 15 deste mês. Com o Teatro da Didascália, abriremos as paisagens de Joane e poderemos entrar dentro delas, até se tornarem invisíveis.

G. (Gerador) – Foi em Joane, uma vila portuguesa do concelho de Vila Nova de Famalicão, onde o Teatro da Didascália tem a sua morada, que esta peça começou. Qual a razão da escolha deste espaço para recolher a matéria de criação?

Bruno Martins (B.M.) – É uma resposta fácil, porque, na verdade, a nossa sede, o local onde criamos e coabitamos com a população, e onde nos cruzamos com o público, todos os dias, é, precisamente, Joane. Portanto, acaba por ser também inspirador, para nós, na contaminação de conversas, de cruzamentos de olhares com as pessoas.

Os diálogos que tínhamos com as pessoas de cá, com os nossos coabitantes desta freguesia, acabaram por ser, também, o motivo pelo qual escolhemos fazer e aprofundar artisticamente essa matéria. Por um lado, a criação inspira-se nessas conversas de café, mercearia, de cruzamento na rua, mas, também, num olhar mais mais afinado para o nosso território e, em particular, para a natureza, e pelo facto de estarmos, desde 2018, sediados numa quinta, no centro de Joane, que tem uma envolvência natural muito forte. Isso começou a inspirar a equipa artística, no sentido de aprofundar mais essa relação entre a arte e a paisagem.

G. – De que forma é que investigaram o lugar, que habitavam?

B.M. – Foi, no fundo, olhar com outros olhos para esta paisagem e para este lugar, a partir da pesquisa que fomos fazendo, através de entrevistas a uma série de pessoas de Joane, interlocutores, que sabíamos que foram importantes para o desenvolvimento, quer político, quer social da freguesia, da leitura de materiais, que fomos recolhendo junto destes, mas também de livros, de documentos escritos. Um deles, que foi muito importante, é um livro escrito pelo padre Benjamim Salgado, que era daqui de Joane, e que se intitula A Igreja do Divino Salvador de Joane. Era uma igreja romana, que existia nesta freguesia e que, entretanto, desapareceu nos anos setenta. Mas constituiu o elemento central, a partir do qual ele fez uma série de pesquisas e recolheu uma série de documentos para falar sobre a presença de humanos em Joane, desde os tempos pré-romanos. Portanto, faz toda uma travessia até os tempos de hoje. Nesse livro, conseguimos perceber a transformação da paisagem, através dessa recolha de documentos que reuniu nesse livro e comentou. É muito interessante porque havia vários documentos que pertenciam, e pertencem à Igreja, e que descreviam, por exemplo, a flora, fazendo uma recolha das árvores de fruto que existiam na freguesia. À medida que vamos lendo, vamo-nos apercebendo do passar dos anos e do nascimento de uma comunidade, ali, desde uma época muito distante. Isso foi muito importante para a pesquisa, assim como os jornais, como o Perspectiva, um jornal revolucionário que foi impresso e que se focava nesta zona de Braga. Era jornal mensal, e a partir do qual é interessante perceber todas as lutas sindicais do pós-25 de Abril, pelos direitos dos trabalhadores da indústria têxtil, que é muito presente aqui neste território, mas não só. Foi muito inspirador para perceber, também, como é que foram estas transformações, não só da luta pelos trabalhadores, mas do impacto que tinha a indústria têxtil, e ainda tem, na dinâmica social desta terra. Uma parte do processo foi construída em passeios, com a equipa toda, por diferentes lugares, obviamente já com um olhar contaminado pelos materiais que tínhamos recolhido e lido, porque foram todos lidos e relidos durante a quarentena, entre Abril e Maio. No final de Maio, quando finalmente pudemos sair de casa, fizemos uma série de passeios, já com a presença destes materiais, destes documentos na cabeça. Então, o olhar já estava contaminado por toda essa história. Na verdade, o olhar já procurava aquilo que queria ver nestes lugares. Foi aí que começámos a escolher lugares. Por exemplo, o António Júlio, um dos criadores, já tinha uma intenção de trabalhar sobre a ideia do Rio Pele, que é um rio que atravessa a freguesia, que é muito citado nesse livro do Padre Benjamin Salgado, e que tinha muita importância nos registos deste. O rio não tem, propriamente, uma zona ribeirinha, ou seja, uma zona acessível, não está visível aos nossos olhos, actualmente. Mas, antes, era muito importante, porque dividia a freguesia a meio e impedia, inclusivamente, se houvesse cheias, a passagem de pessoas de um lado para o outro da margem, porque as pontes eram de pedra, há muitos, muitos anos atrás. O António Júlio foi à procura desse rio, nessas caminhadas. Foi, de alguma forma, uma desilusão, porque, de repente, o rio não existia, não era visível. Ele teve, inclusivamente, de procurar um espaço, que até sai dos limites da freguesia para uma outra ao lado, para encontrar o espaço ideal, em que o rio fosse visível e ele pudesse trabalhar sobre esse rio.

G. – Quais foram as descobertas mais curiosas e que vos cativaram mais para a criação?

B.M. – Houve muitas coisas. Foi uma pesquisa muito intensa. Havia coisas muito interessantes, que tivemos de deitar fora, ou seja, não pudemos utilizar tudo. Por exemplo, no meu caso, nas entrevistas que fui fazendo, nos materiais que fui lendo, aquilo que mais me inspirou mais foi uma certa tensão dos entrevistados relativamente ao olhar que têm sobre Joane. Há um certo carinho sobre a freguesia, mas, ao mesmo tempo, um olhar crítico sobre ela. É uma espécie de relação de amor-ódio, que acho que todos temos com os lugares onde habitamos. Em quase todos eles havia um ponto comum, que era o fato de, em Joane, não se passar absolutamente nada, ou seja, de ser um lugar que já teve tempos áureos, do ponto de vista cultural e artístico. Talvez, por falarem comigo, como eu venho da área do Teatro, a conversa acaba por se encaminhar para as artes, porque, de facto, Joane, depois de 74, passou a ter uma expressão muito grande no teatro, que se deveu a uma associação, que formou o primeiro espaço cultural, aqui, o primeiro teatro-estúdio, que, na altura, era bastante revolucionário. Transformaram uma pequena antiga vacaria num teatro, numa sala-estúdio, já com equipamentos de luzes e com uma grande aspiração a profissionalizar-se, e a encontrar recursos técnicos para fazer as suas produções. Foi uma associação que, do ponto de vista do trabalho cultural, teve muita importância e que, obviamente, depois nos anos noventa, ainda teve um grande impacto na freguesia, que depois foi esmorecendo. Então, as pessoas que entrevistei viveram esses tempos e têm uma memória de Joane, não direi cosmopolita… Mas, à escala de uma freguesia, tinha, realmente, uma relação com as artes muito interessante. Desenvolveram um festival. Vinha gente de todo o lado, de vários pontos do país. Vinham apresentar as peças ao Porto e, depois, vinham a Joane. Era um ponto muito interessante. Mesmo as grandes cidades aqui à volta, Guimarães, Braga, Famalicão, se queriam ver teatro, tinham de vir à freguesia. Na altura era inusitado. Há uma imagem, destas pessoas, de uns tempos áureos ligados à cultura. Em comparação com o agora, há um certo deserto. Essa desilusão é algo que trabalho na minha intervenção performativa, que é uma candidatura à junta de freguesia, uma pseudo-candidatura, enquanto candidato independente, que produz todo um discurso absurdo sobre como vai transformar a vila, a partir das suas deficiências, aproveitando aquilo que esta não tem para a tornar especial. Por exemplo, aproveita o facto de não acontecer nada para transformar isso num percurso turístico. Isso é, no fundo, no discurso dele, a chave para cativar um nicho de mercado de turistas, que gostam de visitar locais, onde não se passa absolutamente nada. É, assim, um discurso absurdo, mas que roça algum empreendedorismo bacoco, onde se pretende dar uma nova camada, uma nova roupagem, a coisas que são absolutamente banais. Dentro desse discurso, acabo por fazer transparecer uma série de preocupações, que fui recolhendo destas entrevistas.

Por exemplo, a Margarida Gonçalves, outra criadora do projecto, começou a pesquisar sobre a resiliência das plantas, a forma como, por exemplo, na quarentena, pelo facto de termos estado muito tempo dentro de casa, foram crescendo, nas ruas, muitas ervas, porque as pessoas e os carros não passavam nesses sítios. Normalmente, não crescem porque estamos sempre a calcá-las. O espaço de Joane que ela escolheu foi, precisamente, um espaço, no centro de Joane, que é um baldio, onde, antigamente, foi uma estamparia, que foi, entretanto, demolida, desmantelada. Neste momento, está completamente consumida pela natureza. Ainda se veem alguns vestígios. A Margarida trabalha na ideia do ecoterrorismo, a de plantar, de forma clandestina, nas nossas cidades, nossas terras. Esta ideia de paisagem tem, também, um lado muito ligado com uma forma de produção. Tentamos que ela seja, também, sustentável, ou seja, que o projeto, do ponto de vista da produção, pudesse ser sustentável. Então, há aqui um olhar sobre a natureza e de como ela está em perigo, nos dias de hoje. Essa ideia acabou por contaminar muito as nossas criações, a forma de escrita. Por isso, o Júlio, quando escolheu o rio, também já é contaminado pela forma como tratamos os nossos recursos, como olhamos para eles, como nos servimos deles. No caso do Júlio, foi importante o facto do rio ter sido mencionado, muitas vezes, no livro, como um aspecto geográfico muito importante na vila, há muitos anos, e, neste momento, ser completamente irrelevante, invisível. Deu nome a uma fábrica, que, agora, tem muito mais importância para a vila do que, propriamente, o rio. Riopele é uma fábrica têxtil e que se serve do rio para a sua produção, porque precisa de muita água para as suas caldeiras. Ao mesmo tempo, a fábrica é espécie de proprietária de parte deste rio. Então, o trabalho dele também fala sobre esta tensão, e foi isso, talvez, que o inspirou mais para este projeto sobre o rio. Tentámos, por várias maneiras, entrar dentro do espaço da fábrica, ou seja, não dentro do espaço da fábrica, mas do espaço em que a fábrica veda parte do rio. Mas não nos deram acesso. Portanto o trabalho dele acabou por ser esta relação, também, de tensão, da apropriação deste rio por uma fábrica, que se serviu dele ao longo dos anos e que, agora impede, que os outros possam usufruir, de forma livre, por exemplo do moinho que está lá, e ao qual queremos ter acesso.

G. – Na sinopse, escrevem: “Algumas das nossas intervenções parecerão anacrónicas à vista dos mais desatentos. Afinando o olhar, descobre-se que afinal os artistas apenas ampliaram o que sempre esteve à vista de todos.” Intervieram junto dos habitantes, procurando, por exemplo, pelos problemas políticos e socioculturais desta localidade, o seu património imaterial, como os rituais religiosos, os cantares, que se vão perdendo. Poderemos afirmar que se trata de uma peça documental?

B.M. – Tem aspectos documentais. É bastante ficcionada, mas tem aspectos documentais. Um deles é que se trata de um espetáculo percurso. Mesmo na versão online, o público vai caminhar pela vila, ver o percurso, e, como é gravado a 360º, mudar a camera. É tentativa imersiva, para o espectador, que visa, de alguma forma, replicar aquilo que não pode assistir presencialmente, fisicamente. Então, este aspecto mais documental está presente nestes percursos e é trabalhado através do som. Se pudéssemos apresentar este espetáculo, como estava previsto, o público iria fazer este trajeto com os headphones. Nesses headphones, foi trabalhada uma paisagem sonora, que iria remeter para as transformações na própria paisagem da vila. Por exemplo, um caso concreto: há uma rua que nós atravessamos, entre a igreja e o espaço da Margarida [baldio], uma das principais da vila, onde, antigamente, até há, mais ou menos, dez anos atrás, acontecia a feira semanal de Joane, uma feira ao sábado, que, entretanto, foi deslocalizada para um recinto de fora do centro e teve um impacto muito grande nos lojistas, que continuaram no centro, porque a feira, obviamente, trazia muita gente e era uma fonte económica para estes. Foi uma transformação muito impactante para as pessoas dali. inclusivamente deu origem ao fecho de alguns negócios e foi uma medida um bocadinho controversa. Há uma gravação desta feira, em que se pode imaginar, ao passar nesta rua, que se está, outra vez, a caminhar pelo centro, onde existia esta feira.

Isto é uma das paisagens sonoras, que, de alguma forma, tem esse aspecto mais documental. Quando falamos desta ideia de anacronismo, tem que ver, por exemplo, com estas contaminações, que são evidentes à escala global, porque vivemos no mundo globalizado. Independentemente de estarmos em Joane, em Nova Deli, ou num outro qualquer sítio, por muito remoto que seja, as contaminações são evidentes. Então, no percurso, as pontuamos. Por exemplo, ao passar num determinado ponto da vila (e, agora, sou muito spoiler), começamos a ouvir uma paisagem sonora, que remete para um país de influências árabes, e que está em relação direta com um local específico, onde existe uma rulote de kebabs. Então, com estas relações anacrónicas, ou aparentemente anacrónicas, e digo “aparentemente”, porque não são assim tão anacrónicas, uma vez que existe mesmo uma rulote de kebabs (possível comer kebabs como é possível eventualmente comer pastéis de bacalhau em Paris), tentamos evidenciar esses aspectos, fazer emergir esse olhar mais afinado para outras paisagens, através do som. Já nos habituámos a essa imagem. Para nós, é natural ter ali uma rulote de kebabs. Mas se nós pensarmos que é uma coisa que é original de uma outra paisagem, o som e a relação com o que estamos a ver no percurso, provoca esse questionamento.

G. – A dimensão política, expressa na exposição de determinados problemas, foi intencional ou acaba por ser uma consequência?

B.M. – É uma consequência, porque um projeto que, de repente, foca o seu olhar sobre o território, é inevitável que, mais cedo ou mais tarde, a não ser que vivêssemos num mundo ideal e, mesmo vivendo num mundo ideal, essa questão política iria colocar-se, porque, se calhar, não queríamos viver num mundo ideal, e então, aí, íamos trabalhar sobre a ideia de sujar esse mundo ideal, acaba por ser sempre político. Olhar para o território e tentar escavar, escavar, perceber como é que as pessoas se sentem nele, acaba por ser o motor para a nossa caminhada, para o nosso desenvolvimento humano. Quer dizer, se tudo estivesse bem, estaríamos todos estagnados, tranquilos nas nossas casas. E não é verdade. Temos essa urgência de sair de casa todos os dias, de caminhar, procurar algo novo. Então, é óbvio que, nesta pesquisa, fomo-nos alimentando dos próprios problemas. Portanto, o facto de não acedermos ao rio, obviamente, transforma-se em matéria para trabalharmos. O facto de eu sentir sempre, nas entrevistas, um certo descontentamento, mas que é um descontentamento um bocadinho alheado da realidade, de hoje em dia…. Na verdade, acho que, culturalmente, Joane, tendo em conta o contexto actual, é das freguesias com mais actividade cultural de Famalicão. Vão-se criando narrativas na cabeça das pessoas, porque elas viveram momentos muito, muito fortes. É um bocadinho como quando as pessoas dizem que um dos momentos mais felizes da sua vida foi o 25 de Abril. Provavelmente, estavam na fase da adolescência, naquele momento, e, de repente, há um rompimento com o antigo regime. Às vezes, o olhar para trás, que as pessoas que experienciaram, e que até produziram a revolução, é um pouco saudosista, e com um certo descontentamento com o rumo que as coisas tomaram. É certo que as coisas não tomaram o rumo tão brilhante, como se perspetivava nos momentos pós-revolução. Mas o país está, certamente, melhor, independentemente de não serem tudo rosas. Então, é evidente que, quando se trabalha sobre estas matérias, com o território, acho que acaba sempre por ser um projeto eminentemente polético, se é que não é toda a intervenção artística.

Só que falar sobre paisagem é falar sobre as pessoas, sobre a paisagem interior delas, sobre o interior das comunidades e sobre as transformações sociais, não é só falar sobre o cartão-postal, que é essa a ideia, muito pitoresca, que nós temos de paisagem.

G. – A pandemia surgiu e de Joane foram para casa. Sobre a parte intitulada “Imagina”, lemos: “A primeira imagem foi a de um drive in, depois a de um acampamento e, finalmente, as regras para conter a pandemia, empurrou-me para um cenário de isolamento onde eu, sozinha, desse a conhecer um cenário de construção de blocos de betão. Mais um lugar prestes a ser novamente transformado pela mão humana. O objetivo será criar uma espécie de janela através da qual dou a conhecer o que se passa no mundo interior da pessoa que vemos ao longe. A minha questão foi: o que se poderia ver ali se fosse permitido à terra tempo de cura? De certo resultaria um tecido estampado por plantas, flores silvestres, que com o seu incrível poder de regeneração iria dar origem a padrões com cores incríveis, cheiros e outras formas de vida…. Esta criação parece que deixa de ser apenas sobre Joane, sobre os “outros”, o exterior. Há uma abordagem do recolhimento, que convoca um discurso mais reflexivo e interior. Como pensaram esta transição?

B.M. – É um bocadinho aquilo que eu tinha dito, há bocado, sobre a questão que inspirou a Margarida, e esse é um texto sobre o seu projecto, que nasce do facto de nós termos estado dentro de casa, sem poder aceder à rua. Então ela, que é do Porto, viu que começaram a crescer ervas no meio do paralelo. Ela faz essa relação directa entre a pandemia, aquilo que ela viu, em muito pouco tempo, a acontecer na rua dela, e aquilo que aconteceu ao longo de muitos anos naquele terreno, onde antes havia uma estamparia.

E sim, é na verdade uma transição, porque, por exemplo, é a única performance que é escutada pelos headphones. Ou seja, a performance dela é nesse descampado. O público tem uma distância muito grande desse espaço e da intérprete. Neste caso, tem porque vai ser online, mas, presencialmente, também teria. Aquilo que ouve é a voz, as ações e pensamentos dela. Portanto, esse espaço interior está refletido na forma como ela comunica com o espectador. É o pensamento dela, enquanto, de forma clandestina, como que escondida, imaginando que ninguém está a ver, planta pequenas bolotas naquele descampado. Tenta fazer a sua intervenção de reflorestação, de replantação. É tudo numa relação muito solitária, de pensamento, sobretudo o diálogo, o monólogo, já estabelecido entre ela e as plantas.

G. – No processo de construção do espectáculo, recorreram ao Google View. Enquanto actores, têm um forte trabalho do corpo. Que corpos é que este contexto e os dispositivos, cujo uso acentuou, estão a criar, e aos quais recorreram, também, para a apresentação?

Eu sou de Joane. Conheço bem, mas os outros criadores não. Quando nós íamos iniciar o processo de criação, faltou-nos o acesso ao espaço. Fiz um passeio pelo Google View, para que os intérpretes pudessem ver, numa perspectiva de cima, os diferentes espaços e como é que eu os via.

Há um distanciamento físico, sempre, entre espectador e intérprete. Mesmo nas salas, em qualquer espaço onde haja um artista e espectadores, neste momento há um impedimento, o de uma relação mais próxima, com uma interação mais próxima entre os dois, sendo que, aqui, é levada ao extremo, porque há uma relação não só distante com o intérprete, com os outros espectadores. No nosso caso, com a pandemia ou não, iria existir, de alguma forma, esta relação de vislumbrar a paisagem, de uma forma mais distante, onde somos colocados de fora para a olhar.

No entanto, o que aconteceu, agora, é distância física e temporal. Euem produziu um objecto artístico, ao vivo, ou melhor, que não é ao vivo, neste momento, vê-se condicionado a apresentá-lo, em tempo real, às pessoas.

Relativamente ao corpo, creio que tem mais que ver com esta relação de não-presença. Na peça, não é evidente a pandemia no intérprete, mas é evidente na relação entre a não-presença do espectador, do corpo do espectador, em simultâneo com o corpo do intérprete, e em simultâneo com os outros espectadores, que faz parte desse acto de comunhão, de partilha de um espaço, que é o espaço teatral, o espaço performativo. Mesmo numa sala de espetáculos, quando estamos com mais espectadores, pelo facto de estarmos distantes deles, há também uma certa sensação de que já não é tão forte comunhão com um objeto, a que se está a assistir. Há uma distância que parece que deixa de fazer ressoar as sensações que os outros espectadores estão a ter sobre o mesmo objeto. Portanto, essas ondas de circulação da experiência entre espectadores quebram-se. Tenho ouvido vários relatos de alguns colegas que sentem que a sala não reage ao espectáculo da mesma forma, porque não há esta contaminação, não há este respirar em conjunto, quase como um coro, como acontece nos coros teatrais dos coros gregos, trágicos, que é uma mesma respiração ao assistir. Ela é quebrada por esse distanciamento físico, por esse corpo, que já não é um corpo comum mas são vários corpos.

G. – A 21 de Outubro, receberam o parecer oficial da DGS, cancelando a realização do espectáculo. Quais os motivos apresentados?

B.M. – A justificação prendia-se, sobretudo, com o facto de ser um espactáculo de percurso, porque, nessa mesma semana, ou na semana anterior, uma declaração do Primeiro Ministro referia que os ajuntamentos para lá cinco pessoas, no espaço público, estariam impedidos. E o facto de se tratar de um percurso, que iria mover trinta pessoas de um sítio para o outro, entre espaços, de alguma forma, quebrava essa regra. Sendo que isto era um evento cultural, há aqui uma grande confusão, porque as medidas para espetáculos culturais foram desenvolvidas para espaços convencionais, e, de repente, há zonas cinzentas na legislação, nas recomendações da DGS [Direcção-Geral de Saúde]. Arranjámos uma maneira de fazer circular as pessoas, com uma distância superior àquela que é suposto nos teatros, que é um metro e meio. Íamos fazer circular trinta pessoas com distâncias de dois metros, através de uma corda, que estaria pintada na zona onde iriam tocar.

Assisti a outros projetos, durante o Verão, no espaço público, que também tinham estas particularidades e que foram possíveis. Mas, o facto de, de repente, aumentar o número de infectados e de estarmos numa zona que tem um grande foco, que é o Norte, levou a que a DGS não desse o parecer favorável, apesar de nós cumprirmos com todas as questões previstas nas normas. Mas, depois, há estas linhas cinzentas, porque, o facto do público transitar entre um espaço e outro, já não é considerado um espectáculo, mas uma procissão, e as procissões estão proibidas, por exemplo. Então, é como é que vamos permitir que público se desloque, apesar de estarem garantidas todas as normas de segurança, e não vamos permitir uma perseguição?

Ao mesmo tempo, se repararmos nos espaços culturais convencionais, as pessoas estão de facto distanciados, mas a forma como elas se dirigem para esses espaços, que pode ser metro, de autocarro, a pé, pode levá-las a cruzar-se. Têm de se locomover até esses espaços. Portanto seria o mesmo, ou até de forma menos segura.

Texto de Raquel Botelho Rodrigues

Fotografia de Paulo Pimenta