O novo disco de :PAPERCUTZ, projeto do produtor Bruno Miguel, denominado “King Ruiner”, chegou às plataformas no dia 3 de março, de 2020, marcando, assim, o regresso da banda aos palcos nacionais e internacionais. Contudo, o pior estaria para vir: a chegada da pandemia ao mundo. E, com isto, o cancelamento dos concertos ao vivo.

Ainda assim, e numa altura em que pouco se viaja, o álbum assume uma função de reencontro com as diferentes culturas, já que, para a sua criação contou com um conjunto de influências de diferentes países. Países esses como Tóquio, Hamburgo, Nova Iorque ou mesmo a cidade do Porto. Mas esta não é a única surpresa. O disco inclui, ainda, um conjunto de vozes femininas, como a portuguesa Catarina Miranda, conhecida pelo seu trabalho como Emmy Curl, para além de Ferri, uma das revelações de 2019 do Japão, e a alemã Lia Bilinski.

Após, praticamente, um ano do lançamento, o Gerador esteve à conversa com Bruno Miguel, fundador dos :PAPERCUTZ, para falar sobre o projeto “King Ruiner”, da readaptação face à chegada da covid-19, sobre o lançamento do novo EP, e sobre o futuro dos :PAPERCUTZ.

Gerador (G.) – Sei que és formado em Informática pela Universidade do Minho. Como é que começou o teu percurso pela música? Olhando para os tempos passados, sentes que a escolha do curso te ajudou no enriquecimento da obra musical que crias?

Bruno Miguel (B.M) – Não há uma transposição de informática para música, as duas coisas sempre aconteceram em paralelo. A música é uma paixão que tenho desde sempre, e a informática e as novas tecnologias também sempre foram algo de que gostei. Claro que na altura de escolher, e eu venho de uma família em que praticamente tudo ou é engenheiro, ou algo parecido, tudo fora da área cultura, fez sentido escolher algo que, em termos práticos, soubesse que ia ter uma maior oportunidade de ter trabalho. Portanto, não me arrependo. Não acho que a formação universitária tenha uma relação direta com o teu emprego. Há várias coisas que acontecem quando vais para a universidade, e claro que o teu curso também fomenta isso. Eu fui para um curso em que as pessoas gostavam, e gostam, de estar atualizadas, de se informarem, de pesquisarem. Aliás, toda a gente do meu curso gostava de música.

Isto deu-me alguma formalização, ou seja, acho que os :PAPERCUTZ têm um lado bastante racional. Os conceitos dos álbuns, as pessoas com quem trabalho, a forma como é apresentado ao vivo, e acho que isso também advém da minha formação universitária. Não é só uma questão intuitiva musical, há algum pensamento. E, no caso particular de que como eu faço música eletrónica, e cada vez tenho adotado mais esta ideia de independência, no sentido em que no álbum anterior no King Ruiner eu trabalhei com vocalistas, músicos, espalhados pelo mundo, a ideia era ser independente.

Ser independente, na área da música, passa por teres um computador, e mais algum material, e dá uma mais valia do que se alguma coisa não estiver a correr bem, em termos de espetáculos. Em termos da parte da informática é útil a formação.

Pode parecer estranho um músico falar sobre a relação com o computador, mas faz todo o sentido. É o mesmo que falares sobre a relação entre o telemóvel e o artista… No meu caso em particular, eu uso o computador como eles usam o telemóvel. Por isso, a minha formação ainda é útil.

(G.) –  Neste seguimento, como surgiu a :PAPERCUTZ? Por curiosidade, o porquê deste nome?

(B.M) – O nome vem de uma coisa bastante simples. :PAPERCUTZ é o trabalho, com um s no fim, do corte oriental do papel. É uma versão mais rica do que o origami. O origami é um tipo de corte de papel de expressão artística através do corte de papel, mas há muitas mais. E, depois, juntámo-nos, e eu trabalho com a designer Susana, em que definiu a parte gráfica e a identidade do projeto. Ela adicionou os dois pontos, e pensámos no z para tornar a coisa mais especial.

E porque é que ainda faz sentido no projeto? As pessoas reconhecem que as músicas têm algum detalhe, alguma preocupação com pormenores. Ao início ainda mais sentido fazia, porque comecei por fazer música eletrónica, por trabalhar loops, uma coisa um bocadinho mais plástica. Portanto, a ideia de cortar e colar, mas ainda faz sentido essa noção de trabalhar as músicas de uma forma cuidada. Ainda se aplica.

Nós tendemos a tratar isto como um projeto, porque está em constante mutação. Não é uma banda. Não é um artista a solo. Quer dizer, eu sou a parte integrante do projeto, mas depois ele estende-se a partir do momento em que trabalho com outros músicos. Hoje em dia, há uma série de pessoas que já posso dizer que fazem parte do projeto. Mas, na realidade, o projeto começa com uma banda que eu tinha no Porto chamada “Oxygen”, isso sim era uma banda. Eu passei por todas estas fases do que implica desde a ideia da música até chegar ao resultado final, de chegar às pessoas. E, na altura, o estúdio em que eu estava a trabalhar, o estúdio da Susana, teve uma encomenda para um espaço do Porto que é os Maus Hábitos. Eles queriam um CD multimédia que acompanhava a transformação dos Maus Hábitos no espaço cultural. Então, eles queriam que houvesse uma sonorização das salas virtuais, e isso obrigou-me a colocar-me pela primeira vez no papel de produtor. É assim que :PAPERCUTZ começa. Começa com uma experiência, e depois nasce em 2008, que é quando eu começo a escrever, e sai, no fim desse ano, o álbum dos :PAPERCUTZ. Portanto, não é uma banda. É um projeto mutável. Aliás, há uma nova fase do projeto que não estou só a trabalhar com vocalistas, vou trabalhar com um arranjador de música erudita. Ele vai fazer mesmo parte do processo de composição porque nós vamos gravar mesmo com instrumentistas de música clássica. Portanto, é mesmo em constante mutação.

(G.) – Foi em 2017 que começaram por apresentar o álbum de originais, intitulado “King Ruiner”, tendo a edição física e digital saído em 2020. Que temas te foram mais prioritários de incluir neste projeto?

(B.M) – Primeiro, é a primeira vez que trabalho com mais que uma vocalista. Com isto, a primeira prioridade que tive passou por gravar um tema com cada, colocar isso num alinhamento, e tentar perceber se aquilo faria sentido. E foi uma boa surpresa.

Acho que o consumo do álbum, hoje em dia, não é fácil. As pessoas estão mais habituadas a escolher uma canção, ou uma playlist, e, para tornares a coisa interessante, para as pessoas percorrerem o alinhamento do álbum, tem de haver algo de novo. E o alinhamento do álbum é esse mesmo: os vocalistas mudam.

Fotografia disponível via facebook :PAPERCUTZ

(G.) – Em 2020 o grupo ainda teve novas edições internacionais deste álbum, um trabalho de eletrónica pop negra e exótica, gravado entre o Porto, NYC, Hamburgo e Tóquio. Como tem sido a experiência de percorrer os palcos internacionais?

(B.M) – Há três questões nisto. Eu estava em digressão. E, quando vou a Nova Iorque, eu vou tocar a um festival. Eu já tinha o contacto da Redbull, eles têm um estúdio. Isto, permitiu-me trabalhar com algumas pessoas que eu queria. Aproveitei o facto de já lá estar em concerto. E isso aconteceu também na Alemanha.

Os :PAPERCUTZ estavam numa digressão, e a Lia, a pessoa que canta no álbum, eu gostei tanto da voz dela que decidi convidá-la a juntar-se neste projeto. Há uma praticidade no meio disto tudo. 

A segunda era porque queria deixar-me inspirar, um pouco, nos próprios ambientes. Eu acho que os :PAPERCUTZ vivem um bocado de uma certa globalidade, e isso permitiu que, por exemplo, tu pegues no projeto, em Portugal, e equipares ao que se está a passar no resto do mundo. Eu acho que isso acontece porque eu viajei muito em concertos, sempre estive em contacto com outras sonoridades e outras pessoas. Por isso, quis deixar-me influenciar.

Há um último, e terceiro, motivo, que é um álbum que também retrata uma fase, e os álbuns do :PAPERCUTZ também acabam por ser pessoais. Uma parte da minha vida está nas letras e nos conceitos. E, a verdade é que o álbum também é uma fotografia, é uma determinada altura da tua vida. Acho que fazia muito mais sentido tu dizeres a alguém que colaboraste com aquela pessoa, e tiveste lá, do que simplesmente estar a dizer que enviei um email àquela pessoa. Acho que o álbum também tem essa caraterística. O álbum aconteceu mesmo dentro daquelas localidades.

(G.) – No seguimento, sentes que é, então, esta globalização que diariamente te inspira para a composição dos temas?

Claro que sim! Quem está em informática sempre esteve em contacto com o resto do mundo. Não só do que vem dos Estados Unidos, mas no geral sempre teve um acesso, muito cedo, à Internet. Mas há uma geração mais nova em que a Internet já é um lifestyle, não é só uma questão prática, mas uma cultura que já vem da Internet. As pessoas estão a ficar mais parecidas. O que é que isso tem de bom? Tem de bom que nós não precisamos de ficar presos ao nosso país, e acho que a própria música portuguesa começa a revelar esta globalidade. Tens fenómenos, como está a acontecer, com a integração de música africana. E, no meu caso, também foi um pouco isso. Fui buscar influências a músicas africanas, mas também a cantos tradicionais. Por isso, sim, acho que essa globalidade de não estares preso a uma geografia é bom. E :PAPERCUTZ tem isso.

(G.) – Explorando agora um pouco as músicas do álbum. O tema 'Become Nothing' foi inspirado no poeta Fernando Pessoa e na sua relação com o onírico e figurativo, num diálogo da realidade com a ilusão ou o sonho. Identificas-te com este poeta no dia a dia? Se sim, em que aspetos?

(B.M) – Há uma parte mesmo pessoal na letra que diz que a pessoa tem o livro do Pessoa na cabeceira.  E eu tenho-o. Há vários pontos interessantes no Fernando Pessoa. Primeiro, tu se olhares para a figura em si, nunca és capaz de perceber a capacidade intelectual daquela pessoa. Estamos a falar de alguém que todos nós conhecemos, mas eu posso dizer que ele é uma pessoa equiparável a William Shakespeare. Estamos a falar de alguém tão rico, que nasceu em Portugal. Ele até brincava com isso… Achava-se maior que o próprio país, e maior que a condição humana, o que é verdade dado que nós continuamos a ter acesso à obra dele. Mas há uma grande questão, apesar desta admiração por ele, no sentido em que era uma pessoa que não se deixava ficar pela sua condição física. Agora, na identificação é preciso algum cuidado, e isso também está na letra da música. Eu admiro o escritor, mas o Pessoa sofria de alguma frustração. Eu acho que quando te colocas numa posição de, como ele, de pensar na tua vida, de exteriorizar a forma de ser… Claro que para um escriturário é preciso um bocado de cuidado, porque o Pessoa tinha uma enorme frustração. Portanto, é uma admiração com algum cuidado.

Também acho que é normal, tanto eu como outras pessoas, termos uma admiração por escritores é uma coisa quase universal. Também é muito mais fácil falarmos sobre a obra dele, do que sobre a própria pessoa. A obra tornou-se maior do que o próprio ser.

(G.) – Refletindo, ainda, sobre as tuas músicas do álbum… Sentes que há alguma com que te identifiques mais? Se sim, porquê?

(B.M) – Eu gosto muito da “Become Nothing”.

O álbum que começa um bocado pela parte instrumental, em que começa com os coros, e as vozes femininas, a cantar em coro. E o álbum abre com um tema que se chama “Halfway There”, que é o primeiro tema a ser cantado pela Catarina. E eu gosto bastante desse tema porque ele não tem nada propriamente que se destaque. Não tem um refrão explosivo. Não tem melodia ultra catching, mas é daqueles temas que quando ouves algumas vezes ele fica-te na cabeça. E, depois, também acho que a letra é bastante interessante. “Halfway There” no sentido em que, às vezes, nós não sabemos se estamos no caminho. Imagina dentro das próprias adições se estamos no caminho certo, ou não, até lá chegar. Imagina que uma das tuas ambições passaria por te tornares numa escritora, mas só vais saber se aquilo funcionou, ou não, quando lá chegares. Até lá tens muitas dúvidas… Aquele tema retratou isso, em que sobretudo se tornou mais relevante este ano. As pessoas têm de ter uma crença nelas muito grande para passar por fases em que o futuro é indeterminado, porque o contrário é uma pessoa perder-se num certo fatalismo. E a música fala sobre esses dois lados, e acaba por ser a superação. O álbum é um bocado isso. Escuto os dois lados.

Mas é engraçado porque tu, às vezes, numa letra tens alguém a dizer eu consigo tudo, ou eu sou um zero à esquerda, e esta letra, em particular, diz que eu não sei em qual dos dois me encaixo. Eu acho isso engraçado.

Become Nothing | :PAPERCUTZ

(G.) – Os :PAPERCUTZ preparavam-se agora para um conjunto de concertos presenciais. Face às novas diretrizes do governo, para o combate à covid-19, acabaram por ser cancelados. De que forma te procuraste readaptar face à chegada do vírus?

(B.M) – Uma das coisas que acontece é que devo ter sido dos primeiros projetos com a pandemia na mão, porque nós íamos fazer uma digressão na Ásia. A maior parte das pessoas, e dos músicos, começa a perceber que vai ter datas canceladas por volta de fevereiro, março. Eu já estava a discutir isto desde dezembro de 2019, até porque já havia notícias do que se estava a passar na China. Claro que eu não tinha noção de que íamos ser tão afetados. Mas o que acontece no caso dos :PAPERCUTZ é que nos virámos, e não é mal, para o nosso país. Como nós não podemos ir tocar lá fora explorámos mais as salas cá. Por exemplo, falaste sobre a questão dos concertos adiados,  e se olharmos para as salas do Theatro Circo ou do Multiusos, são salas completamente diferentes. E esse olhar para dentro fez-me querer trabalhar com artistas nacionais. Por exemplo, o King Ruiner teve uma, ou outra edição, com artistas nacionais, que agora nos acompanham ao vivo. Por isso, houve sobretudo um trabalho introspetivo. Nós sabemos que neste momento vamos estar muitos meses cá e, em vez de estarmos num estado de negação, vamos tentar construir uma coisa nova. E passou por isso. Trabalhar sobretudo com pessoas ou artistas nacionais. Já para não falar que me permitiu conhecer mais artistas portugueses, como a Mariana que tem um projeto que se chama meta, ou a Sofia que tem um projeto que se chama mema. … Traçámos muito a ideia de que faz mais sentido focarmo-nos em algo que está mais perto de nós, e isso até levantou questões importantes. Escrever de novo um tema em português, fazer videoclipes em salas, e em coliseus, e lutar contrarregras de segurança. Há esse olhar para dentro.

(G.) – Este ano, os :PAPERCUTZ preparam-se, ainda, para lançar um novo EP ‘So Far So Fading’ . Porquê o lançamento do mesmo neste período pandémico? O que podem as pessoas esperar dele?

Eu não gosto de ficar parado, e há situações, como tu disseste, em que não vamos poder tocar ao vivo, por isso faz sentido estar em estúdio. Há também estas cantoras que conheci que me puseram a pensar que tinha de fazer algo com elas.

O EP chama-se “So far so fading” numa alusão do “so far” de todo este caminho feito até agora, “so fading” no sentido em que o passado não é assim tão importante, é algo que se esvanece. Ou seja, é um olhar para trás, mas é mais um olhar para um agora. E o agora é olhar para este EP. São estas cantoras, estas pessoas… Mas tudo isto aconteceu com uma certa naturalidade conforme os dias iam passando. Provavelmente um álbum só ocorrerá em 2022 para o podermos apresentar em Portugal e fora. Este projeto é uma espécie do que aconteceu ao projeto neste ano de 2020. Mas se olhar para ele ainda vejo que tenho muito a fazer nele.

(G.) – Neste, contas, ainda, com um conjunto de convidados como o orquestrador Bruno Pinto Ferreira e um quarteto de cordas e as cantoras Evaya (Beatriz Bronze), Meta (Mariana Bragada), Maree Lawn e mema. (Sofia Marques). O que te levou a apostar neste conjunto de artistas e não em outros? O que achas que eles te podem oferecer de único ao projeto?

No ano passado eu fui dar um concerto ao CCB, e foi quando comecei a desenhar esta ideia mais expansiva do concerto. E o álbum tinha mais do que uma vocalista.

Por exemplo, na Sofia, há uma portugalidade na voz dela, e quando ela interpreta o tema comecei por pensar que os temas podiam ser readaptados na voz das cantoras, e que eu própria podia dar uma nova roupagem para eles. Elas trazem uma nova linguagem ao tema. O Bruno é uma coisa muito simples, natural. Nós temos um amigo em comum, o Ricardo, e já tinha reparado que o Bruno tinha ganho um prémio em termos de arranjos, e começou a aperceber-se que havia temas que podiam ganhar mais com novos arranjos. Inicialmente, pensei que não queria integrar mais ninguém. Mas depois comecei a pensar — o que é que o Bruno traz? É uma linguagem de alguém que é um instrumentista, e permite comunicar com esses músicos. Uma coisa é eu ter música eletrónica, que é toda muito pensada na minha cabeça, mas se depois quiser gravar isso será realmente uma instrumentação clássica. Mas há ali pequenas formas de comunicar aos músicos. E o Bruno sabe. Eu comunico de uma forma simples, e ele de uma forma complexa. Há aqueles termos… Mas quando começo a ver esse lado do EP quase que se torna algo factual. Arranjos, novas vocalistas, e além da parte eletrónica integrar esta parte da música erudita.

(G.) – O que ambicionas para o futuro dos :PAPERCUTZ?

(B.M) – Gostava que as pessoas continuassem a conhecer o projeto cá. Nunca quis ser, e não é todo uma coisa de massas, é um projeto que as pessoas precisam de tempo. Nós não queremos facilitar o trabalho ao público. Há algo que nós damos, mas depois as pessoas têm de fazer este trabalho de interesse em pesquisar, em perceber as letras. E, depois, o trabalho lá fora. Continuar a tocar em festivais, em eventos, mas sobretudo esta ideia de continuar a fazer coisas novas e diferentes.

Passa por fixar o que nós conseguimos nos últimos tempos de mais pessoas em Portugal terem interesse em nos conhecer, e continuarmos a nossa música para fora.

Texto de Isabel Marques
Fotografia disponível via facebook Bruno Miguel