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Bruxas e demónios

Nas Gargantas Soltas de hoje, João Teixeira Lopes fala-nos da peça “As Bruxas de Salém“ e explica-nos porque ninguém está salvo dos demónios. «Se qualquer um pode “escrever no livro do Diabo“, ninguém está a salvo.»

Ao assistir à peça As Bruxas de Salém, encenada por Nuno Cardoso, mergulhando no texto do dramaturgo Arthur Miller, somos perfurados por uma lâmina inquietante: a narrativa (altamente ficcionada) do que aconteceu em Salém, Massachusetts, em finais do século XVII, poderia ser transposta, com as necessárias adaptações, a muitas outras situações em que as sociedades encontram os seus bodes expiatórios como forma de catarse ou purga coletiva. Está lá tudo: a divisão do mundo em puros e impuros; a diabolização (literal ou metafórica) de quem pensa de maneira diferente; a incapacidade de escuta dos testemunhos que não encaixam na ordem do discurso estabelecida após as primeiras acusações; a invenção de “factos alternativos” quando o que se diz não encaixa no que aconteceu e, acima de tudo, a definição de uma situação legítima de fala que engrossa a palavra (ou melhor: o poder da palavra) de todo o tipo de incumbentes que dela fazem um sacerdócio. 

Quando “as evidências espectrais” passam a ser tidas como meio de prova (alguém que se declara possuído e exprime histericamente essa condição nomeia um outro que surge como o espectro que o faz sofrer) ninguém está a salvo e a desonra, a prisão ou a forca podem ser o irreversível destino. Como diz Nuno Cardoso, o encenador, as bruxas “dão um jeito desgraçado” porque, numa sociedade em ruínas, são o mote mágico  para todas as vinganças,  vilezas e ódios.

A certa altura, suspende-se o pensamento; a razão gira à volta de si mesma, cortejando a loucura. Deixam de existir limites ou, como agora se diz, “linhas vermelhas”. Obedece-se por antecipação. Violenta-se por antecipação. Despreza-se a força do argumento depurado por discussões sucessivas e pela fidedignidade da adesão à realidade, em favor da força da simplicidade monolítica. Inventa-se outra realidade que passa a ser a primeira. De repente, na Comet Ping Pong, uma pizzaria em Washington, ocorrem, diz-se na net, “imagens de culto de desencarnação, sangue, decapitações, sexo e, claro, pizza”. Uma elite mundial de artistas famosos, aliada a políticos como Hillary Clinton, praticaria, nos bastidores dessa pizzaria, rituais satânicos, pedofilia e tráfico de órgãos. Porque não? 

Se qualquer um pode “escrever no livro do Diabo”, ninguém está a salvo. Emergem, pois, os novos sacerdotes, sedentos de sangue, detentores da palavra justa e santa, os que nomeiam, classificam, ordenam e organizam o mundo em graus de pureza. Todos os ímpios estão em perigo, pois as bruxas e os demónios andam por aí, passeando impunemente num mundo em ruínas. Felizmente, as vozes da Autoridade Certa indicar-nos-ão um caminho sem tibiezas: a salvação (ser como eles) ou a forca.

-Sobre João Teixeira Lopes-

Licenciado em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1992), é Mestre em ciências sociais pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (1995) com a Dissertação Tristes Escolas – Um Estudo sobre Práticas Culturais Estudantis no Espaço Escolar Urbano (Porto, Edições Afrontamento,1997). É também doutorado em Sociologia da Cultura e da Educação (1999) com a Dissertação (A Cidade e a Cultura – Um Estudo sobre Práticas Culturais Urbanas (Porto, Edições Afrontamento, 2000). Foi programador de Porto Capital Europeia da Cultura 2001, enquanto responsável pela área do envolvimento da população e membro da equipa inicial que redigiu o projeto de candidatura apresentado ao Conselho da Europa. Tem 23 livros publicados (sozinho ou em co-autoria) nos domínios da sociologia da cultura, cidade, juventude e educação, bem como museologia e estudos territoriais. Foi distinguido, a  29 de maio de 2014, com o galardão “Chevalier des Palmes Académiques” pelo Governo francês. Coordena, desde maio de 2020, o Instituto de Sociologia da Universidade do Porto.

Texto de João Teixeira Lopes
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