A 20 e 21 de Junho, pelas 20h00 e pelas 18h00, respectivamente, a peça By Heart, uma criação Tiago Rodrigues, reabrirá a portas do Teatro Nacional D. Maria II. Desde a sua estreia, em 2013, no Teatro Maria Matos, em Lisboa, percorreu 20 países e contou com 250 apresentações, levando, em cada uma, 10 poemas à memória de 10 pessoas do público.

“Essas 10 pessoas nunca viram o espetáculo e não faziam ideia que poema iam aprender de cor à frente do público. Enquanto os ensina, Tiago Rodrigues vai desfiando histórias sobre a sua avó quase-cega misturadas com histórias sobre escritores e personagens de livros que, de algum modo, estão ligados à sua avó e a ele próprio. Esses livros também estão lá, em palco, dentro de caixotes de fruta. E à medida que cada par de versos vai sendo ensinado ao grupo de 10 pessoas, vão emergindo ligações improváveis entre o vencedor do Nobel Boris Pasternak, uma cozinheira do norte de Portugal e um programa de televisão holandês chamado Beleza e Consolação. E o mistério da escolha do poema que as 10 pessoas decoram vai sendo esclarecido”, lê-se na apresentação.

BY HEART – Tiago Rodrigues / Mundo Perfeito – TRAILER
O corpo é reconhecido como guardador de poemas. A memória surge como fruto da afectividade e constitui-se resíduo último da singularidade e da liberdade, logo da resistência. Dentro de um corpo, a palavra morta é insuflada e a efemeridade, a que as páginas estão sujeitas, adia-se um pouco mais. “By Heart é uma peça sobre a importância da transmissão, do invisível contrabando de palavras e ideias que apenas guardar um texto na memória pode oferecer. É sobre um teatro que se assume como esse lugar de transmissão do que não pode ser medido em metros, euros ou bytes. É sobre o esconderijo seguro que os textos proibidos sempre encontraram nos nossos cérebros e nos nossos corações, garantia de civilização mesmo nos tempos mais bárbaros e desolados. Como diria o professor de literatura George Steiner numa entrevista ao programa de televisão Beleza e Consolação: “Assim que 10 pessoas sabem um poema de cor, não há nada que a KGB, a CIA ou a Gestapo possam fazer. Esse poema vai sobreviver”, continua a apresentação.
Ontem, dia 9 de Maio, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, galardoou o Director Artístico do Teatro Nacional D. Maria II, distinguido com o Prémio Pessoa 2019.
Texto de Raquel Botelho Rodrigues
Fotografia de Magda Bizarro