Na escola primária, aprendi que preto era cor de lápis. Onde nasci, as pessoas eram brancas ou negras. Chamar alguém de “preto” era pedir confusão.

Quando vim para Portugal, percebi que as pessoas usavam a cor do lápis mais escuro para se referirem a mim. Habituei-me, na escola e entre amigos, a ouvir uma cor antes do meu nome. Aquilo que sempre conheci como um insulto tinha, pelos vistos, encontrado o seu lugar nas relações afetuosas.

Comecei a desconfiar das palavras. Quando me chamavam “preto”, fazia cálculos mentais para decifrar o grau de ofensa com que a palavra me tinha sido atirada. Tinha de decidir entre reagir ou ignorar. Ignorava sempre, embora me sentisse sempre ofendido. Julgava que o problema estava em mim, por não conseguir aceitar a normalização de um termo que sempre interpretei como violento, desnecessário e imperdoável, mas que agora saltitava elegantemente de conversa em conversa.

Os anos passavam e eu perdoava as ofensas como um trabalhador dedicado. Chegava a preparar-me, de antemão, para as piadas inconvenientes relacionadas com a minha cor de pele. Acumulava rascunhos de sorrisos que transformava em gargalhadas empáticas quando era necessário. Observava o baile grotesco de estereótipos e insultos que antecedia catarses coletivas de risos e palmas. A desilusão crescia.

Fui percebendo, lentamente, que não eram as palavras que mereciam a minha desconfiança, mas sim as pessoas que usavam palavras das quais eu tinha aprendido a desconfiar. Decidi confiar mais nas palavras, tentando nunca ignorar o seu significado, por mais flexível que alguém o fizesse parecer. Imaginava as palavras como histórias, e as pessoas que as proferiam eram narradoras espontâneas, alienadas da função que lhes tinha atribuído em segredo. Avaliava-lhes a capacidade retórica, da mais discreta e passageira à mais humilhante e aparatosa. Atentava em termos como “catinga”, “carapinha”, “preto”, “mulato”, “monhé”, “cabrito”, e por aí fora. Se surgissem em formato de piada, tornava evidente que não tinha intenções de me rir. A desilusão crescia e ignorar deixara de ser uma opção. A cor do lápis mais escuro desaguava numa extensa lista de vocábulos excêntricos que me faziam arrepiar de vergonha. Quanto mais confiava nas palavras, menos confiava nas pessoas, mesmo que estas, quando confrontadas sobre a pobreza dos nomes e adjetivos que usavam, negavam possuir qualquer indício de preconceito.

O prestígio da consciência branca na luta anti-racista não deve advir do simples reconhecimento da presença negra no seu campo de visão. Os corpos negros existem para ser respeitados antes de nomeados.

Cada palavra é uma história, e todos temos responsabilidade nas histórias que contamos. Devemos, naturalmente, ser ainda mais responsáveis quando a história não é nossa.

-Sobre Marco Mendonça-

Marco Mendonça nasceu em Moçambique, em 1995. É licenciado em Teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Estreou-se nos The Lisbon Players. Em 2014, começou a trabalhar com a companhia Os Possessos. Estagiou, entre 2015 e 2016, no Teatro Nacional D. Maria II, onde participou em espectáculos de Tiago Rodrigues, João Pedro Vaz, Miguel Fragata e Inês Barahona, entre outros. Em 2017, trabalhou numa criação de Tonan Quito e fez o seu primeiro espectáculo com a companhia Mala Voadora.  Em 2019, estreou-se como autor e co-criador em “Parlamento Elefante”, projeto vencedor da primeira edição da Bolsa Amélia Rey Colaço. Atualmente, integra o elenco de “Sopro” e “Catarina e a beleza de matar fascistas”, de Tiago Rodrigues.

Texto de Marco Mendonça
Fotografia de Joana Correia