Numa antiga quinta da família, o Marquês de Pombal, primeiro Conde de Oeiras, pediu ao arquiteto Carlos Mardel que lhe construísse um palácio na moda com as outras europas da altura, e nele dormiu e produziu azeite, vinho, frutas e até cereais. Sítio digno para nos sentarmos e conversarmos sobre temas no feminino. É que até a mulher do Marquês, que era mulher bem instruída e bem apessoada, por ali deixou toques de feminino por todo o lado…

Apesar de nos enganarmos na saída da A5 e quase termos chegado entretanto a Cascais, chegámos ali mesmo em cima da hora. À hora, havia uma recriação histórica para um grupo de escolas do concelho de Oeiras que nos fez ter a impressão de estar mesmo no Palácio do Marquês. Recebidos pela maravilhosa Isabel Macedo e entretidos pelas ascendências literárias do Afonso e pelas recentes aventuras interpretativas da Inês, foi-nos apresentado o Salão Nobre que de nobre tem os tetos, a azulejaria circundante e as vistas para o maravilhoso jardim que somado ao sol matinal nos deu local perfeito para nos começarmos a conhecer melhor e ao vivo. O Afonso Reis Cabral anda a escrever já o seu terceiro romance, que depois de O Meu Irmão (prémio LeYa 2014) e Pão de Açúcar (Dom Quixote 2018) será de certeza sobre outro tema intrincado e sob o peso de muita investigação, que o rapaz é mesmo bom nisso. A Inês Castel-Branco que ia dali para o Teatro do Bairro continuar a sua participação em Terror e Miséria no Terceiro Reich de Bertolt Brecht, e que está pelas salas de cinema com o primeiro filme que protagoniza, Snu de Patrícia Sequeira, só nos lembrava a fixação do seu filho com a figura do Marquês. Não se conheciam, mas podemos dizer que foi amizade à primeira vista e percebemos logo que a conversa ia correr muito bem. Sem demora, liguei a aplicação que vem de raiz no telefone e lancei a primeira pergunta.

O que é para ti, Inês, o feminino, por curiosidade um adjetivo masculino?

É uma forma de estar ou uma estética um bocadinho mais sensível, delicada e não sei que mais palavras usar. Eu cresci a ouvir que eu era uma menina muito feminina, mesmo quando era maria-rapaz, a minha mãe disse sempre que eu era muito feminina, meio felina. Como aqueles rapazes que nascem e alguém diz ‘tem mesmo ar de rapaz’, porque não tem a tal delicadeza do feminino. Mas com esta discussão nova do género, acho que estão a dividir o masculino e o feminino de uma forma com que eu não me identifico muito, não acho nada que o cor-de-rosa seja feminino e o azul, masculino.

E lança o Afonso:

Eras uma maria-rapaz muito maria!

E o que é o feminino para ti, Afonso?

É muito difícil, se pensarmos na condição humana é muito complicado definirmos a nossa condição. Eu tenho muita dificuldade em descrever em duas ou três linhas o que é o masculino e muito mais dificuldade tenho em definir o feminino, nesse sentido. Estamos a falar de características físicas e até de características culturalmente herdadas, por isso não consigo responder à pergunta dessa maneira.

Mas é um tema próximo do teu último livro, não é?

No caso da Gisberta do Pão de Açúcar, a história é difícil porque aqueles miúdos tomaram conta dela, levavam-lhe arroz, porque ela vivia num prédio abandonado que os locais chamavam de “pão de açúcar”, porque tinha estado previsto construir ali um supermercado com esse nome. O prédio é gigante, estive lá várias vezes, foi abandonado, e ali era o único sítio onde se podia refugiar. Mas no tema do feminino, aí acho que foi relativamente simples, porque no fundo eu fazia uma certa negação de mim mesmo na figura da Gisberta. Uma coisa que eu não diria, a Gisberta diz. E depois também tive o trabalho facilitado porque no livro, não sei se na realidade também ou não, ela é uma figura muito pura e até despojada como se a realidade a atravessasse, não sei se isso é feminino ou não mas é naquela personagem tal como eu a construí, mas sem intenções de encontrar essa pulsão do feminino porque eu não faço ideia do que isso seja.

E não reconheces nada de feminino em ti?

Porque eu não sei o que isso é, a visão exclusiva de uma coisa ou outra é complicada. Dizer que a sensibilidade e a atenção ao próximo é uma coisa mais feminina, eu não sei se é.

Concordas, Inês?

Eu fui ensinada a ver o feminino assim enquanto cresci e mesmo já em adulta, pela forma como fui ensinada e pelas minhas raízes, eu consigo olhar para uma obra de arte, por exemplo, e achá-la mais feminina ou mais masculina. Ou um livro, ou uma peça de roupa porque essa divisão está feita na minha cabeça. Se é a certa ou que foi condicionada pelo que me ensinaram, acho que é mais condicionada.

E a questão da igualdade de género, ainda achas que faz sentido discuti-la?

Eu acho que faz, e ainda vai fazer muito mais tempo, infelizmente. Contudo já há uma luta muito mais feita do que havia no tempo das nossas avós, mas ainda falta muito para a igualdade… o assédio sexual então… desde que saiu o #MeToo não há uma mulher com quem eu fale que não tenha passado por isso pelo menos uma vez na vida. Uma coisa básica como os salários, enquanto houver essa discrepância ainda há muito por fazer.

E na literatura, Afonso, há mais escritores que escritoras? Até porque dizemos mais comummente os escritores do que as escritoras.

Aí entramos na discussão se se deve impor à nossa língua uma sobrecorreção do que a língua se tornou, eu acho que não, é uma distração e entra-se no ridículo como o lugar comum dos políticos dizerem as portuguesas e os portugueses e isso está errado do ponto de vista do português e do ponto de vista político. Porque todas estas questões podem exacerbar os ânimos contra uma causa que até é justa.

E mulheres nas vossas áreas artísticas? Inês, encenadoras que te tenham marcado…

Trabalhei com a Maria João Luís, acho que foi a única mulher com quem trabalhei e gostei muito. Acho que a diferença não tem que ver com o género mas com a linguagem de cada um e com a mensagem que quer apresentar.

E tu, Afonso?

Acho que essa questão é sempre pertinente, mas acho que depois se cai no exagero de se achar que se é mulher tem determinadas características, se é homem tem outras e no meio disto a personalidade da pessoa que, sendo homem ou mulher, tem as suas características e muitas vezes parece posta um bocadinho de lado. Como perguntar se trabalhar com uma mulher é diferente… Parte do princípio que como mulher teria uma determinada característica, porque pode até ser uma pessoa insuportável de trabalhar, seja mulher ou homem.

Inês: Eu acho que o que pode ter que ver com o género, na época dos nossos avós, é que só os homens é que chegavam a certos cargos e agora as mulheres para lá chegarem demoram um bocadinho mais. Por exemplo, os encenadores, há muito mais homens que mulheres, mas começa a haver mais espaço para as mulheres e ainda vai haver mais e não sei se, daqui a vinte anos, não estaremos a fazer a pergunta ao contrário e haver mais mulheres que homens numa função. Em todas as áreas, como há essa abertura, haverá cada vez mais mulheres.

Mas ainda faz sentido discutir a igualdade?

Enquanto o número não for igual faz sempre sentido.

Afonso: Faz sempre sentido mas temos de ter cuidado porque se cai no extremo da correcção da linguagem e na senda do #MeToo quando se passou isto ou aquilo é verdade porque foi uma mulher a denunciar e a posição de vítima é pura nesse sentido.

Inês: Neste caso, não concordo contigo porque oitenta por cento das mulheres já passaram por isso.

Afonso: Não duvido e não tenho essa sensibilidade que tu tens, como é evidente. Mas, por exemplo, no caso do Aziz Ansari, ainda aqui há pouco tempo, foi simplesmente uma relação amorosa que correu mal e não mais do que isso.

E como editor, Afonso, que és, também escolhes, e pergunto se há pressão para escolher mais autoras do que autores?

Não. O que acontece é tentar impor alguns livros com esse tema, escritos por mulheres, mas isso são movimentos normais, e é compreensível que isso aconteça.

Inês: Mas isso é difícil, o meu irmão está a produzir um evento de Chefes de cozinha e a percentagem de chefes femininas é de um por cento.

Afonso: Eu percebo a pertinência do tema, mas a minha experiência pessoal é completamente diferente. Eu venho de uma situação com quatro irmãs, onde já era minoria. Depois a tirar literatura a esmagadora maioria dos meus colegas eram mulheres, e no mundo da edição a maioria também são mulheres.

E tens uma escritora preferida?

Sim, tenho e esta resposta que te dou até é a recuar à minha infância, que é a Selma Lagerlof, a primeiro prémio Nobel mulher, que por acaso até calha bem. Aos doze ou treze anos, li a Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia, que é um livro espectacular e que me marcou imenso.

Inês…?

Eu não consigo escolher favoritos em nada, mas uma que eu gosto muito é a Maria Filomena Mónica, ou a Arundhati Roy, Maya Angelou e até a Agatha Christie, por isso tenho várias.

Mas tu também já interpretaste duas mulheres muito importantes para esta conversa, a Snu do filme homónimo da Patrícia Sequeira e a Mariette da versão de 2008 da famosa Vila Faia, mulheres que mudaram mentalidades nos seus tempos, não?

A Mariette em 1982, interpretada pela Margarida Carpinteiro era de um tempo onde não se dava tanta importância às pessoas bonitas na televisão, coisa que eu até prefiro, faltam muitas pessoas reais nas telenovelas de hoje em dia. A primeira crítica que sai à novela é precisamente que esta mulher e este homem não poderiam ser tão bonitos como eu e o Albano Jerónimo, e que eu concordo. Aliás, quando eu fiz a pesquisa para a personagem as várias profissionais de sexo com quem falei diziam todas que eu nunca seria uma prostituta de rua, com essa cara e esse corpo jamais seria uma Mariette. A Snu já foi diferente, porque para além da relação com o Sá Carneiro, ela foi uma editora e que, em pleno regime do Estado Novo, editava ideias políticas proibidas cá, que editava textos sobre o aborto, sobre a emancipação feminina, só a sua condição social evitou que fosse mais perseguida, mas que perdia dinheiro cada vez que editava um desses livros porque a PIDE ia lá e apreendia os exemplares todos com um “minha senhora, neste país não!”.

E acham que poderemos voltar a dias mais obscuros sobre os direitos das mulheres?

Inês: Eu acho que não e digo-te que, quanto mais viajo, mais gosto de Portugal e dos portugueses, da nossa história, da nossa cultura e da nossa forma de pensar. Mesmo nas coisas erradas, a forma como as melhoramos é sempre mais lenta mas fica. A prova disso é o Portugal da Snu e o Portugal actual.

Duas pessoas tão interessantes e de ideais tão inclusivos continuaram a falar e a falar sobre o muito que o feminino, eterno discutível, nos faz sentir e como todos estes temas sociais, políticos e culturais nos põem à frente da defesa da democracia, essa sim um substantivo feminino. Fomos lá fora para o jardim e ainda lá estaríamos com a ideia de que falar é o verbo masculino mais feminino do nosso universo. ;)

Esta entrevista foi publicada na Revista Gerador Maio 2019 que podes descobrir aqui.
Créditos – Texto de Pedro Saavedra e fotos de Diana Mendes