Rodeados de cardumes de tuk-tukes ao som dos martelos pneumáticos que preparam uma nova intervenção artística no Largo de Santo António da Sé, havia nas portas 12 e 13 um atelier. Havia, porque quando estiverem a ler este texto já não haverá, mas quando lá estivemos havia. O Atelier Contencioso da Ana Velez, Joana Gomes, Maria Sasseti e Xana Sousa estava ali mesmo à mão para juntarmos uma artista plástica feminista e uma actriz, ela mesma um ícone feminino na mesma sala. De que falaríamos? De coisas do arco da velha, de certeza!

Sentado num sofá do programa do Alvim, ao meu lado, um lugar ao lado do João Ascenso, estava a Rita Ribeiro, esse ícone icónico da actriz portuguesa. Mulher desde sempre ligada à revista à portuguesa, tinha-me dado uma lição de representação um dia no Teatro Rápido, onde cinco vezes por dia encarnava a mãe de Gisberta (transexual agredida até à morte na cidade do Porto que deu origem a este texto do Eduardo Gaspar e que recentemente deu origem ao segundo romance do Afonso Reis Cabral). Nesse espectáculo que depois cresceu dos 15 minutos iniciais e que daria a volta ao nosso país, a Rita fez-me recuar ao Aqui Há Fantasmas do Henrique Santana, em 1985, ano em foi a primeira vez que vi teatro na televisão. Como pode uma actriz continuar tão viva em personagens tão diferentes é a pergunta que quem não conhece a Rita nunca poderia nela encontrar resposta satisfatória. E a Ana Vidigal, quem é? Se há artista malcomportada em Portugal é a Ana. Rodeada de meninas em quase todas as suas obras toca na ferida do papel narrativo da mulher na nossa sociedade. Ainda haverá meninas limpinhas e meninas sujas? Seremos apenas as memórias que deixamos para trás? Ela não pára de nos fazer essas perguntas seja em exposições na Gulbenkian ou numa estação de metro como Alfornelos, por isso vamos lá ligar o gravador e dar início a esta conversa feminista ou será feminina?

Por isso começamos exactamente por aí, o que é o feminismo hoje.

És feminista, Rita?

Não. Mas sou feminina e tomo sempre o partido do lado feminino, que é um lado muito intuitivo com muita sensibilidade e percepção diferente da do lado masculino, mas feminista... queimar soutiens e esse género de coisas, não. Fazia sentido se calhar na altura mas hoje em dia o que precisamos é de um maior equilíbrio entre o masculino e o feminino.

E o movimento #metoo na América, nunca passaste como actriz por coisas semelhantes?

Nunca me passou nada disso pela cabeça, mas também teve uma época. Que as mulheres ganham menos do que os homens? Algumas sim, mas eu nunca senti isso.

E tu Ana, feminista?

Completamente. Eu sou uma feminista porque eu continuo a achar que as mulheres ainda, apesar de tudo o que já foi feito, continuam numa situação de desigualdade em relação aos homens. Houve várias vagas de feminismo. A que há hoje em dia é uma que resulta de uma mediatização do movimento de Hollywood, mas aquela que me convenceu e a que me alertou foi a que teve início em 74 em Portugal. Eu era uma criança, mas à medida que fui crescendo e entrando nas Belas-Artes percebi que o 25 de Abril para mim só foi conquistado no dia em que as mulheres tiveram direito a decidir sobre o seu próprio corpo. Com mulheres como a Maria Teresa Horta, a Maria Isabel Barreno, a Madalena Barbosa e a Leonor Beleza, que apesar de não pertencer ao M.L.M. — Movimento de Libertação das Mulheres, também trabalhou pela libertação das mulheres portuguesas. Mas que me disseram que agora era a nossa vez de fazer alguma coisa. Sobre a queima dos soutiensno Parque Eduardo VII, não é verdade que tenham sido queimados soutiens. Até há um filme no Youtubeem que vês uma massa masculina a cair em cima das dez mulheres que lá estavam a fazer uma festa de sacerdotisas com símbolos do antes do 25 de Abril. Mais engraçado ainda é que as mulheres de esquerda acusavam-nas de burguesas, o que acontece em todas as revoluções porque a burguesia tem mais acesso à cultura, e elas eram burguesas e usaram tudo aquilo que podiam, em favor de todas aquelas mulheres que eram pura e simplesmente escravas nos partidos de esquerda. Mas tu estavas a perguntar o que era ser feminista, e tu também deverias saber, os homens também podem ser feministas, não é?!

Rita, tu és mãe, avó e foste também bisavô muito cedo. Como é para ti fazeres o papel de mãe?

É o melhor papel da minha vida, é o que me encaixa mesmo bem porque eu sou supermaternal, mas para tudo, não só para as minhas filhas. Mas agora um pouco menos, até digo que já me reformei do papel de mãe. Já estão criadas, uma tem quarenta e três e outra vinte e um, são vinte e dois anos de diferença. Quando te vês na situação de reparar que já cresceram, são donas da sua vida, não tens de interferir. Os filhos não são bem nossos, são-nos emprestados, são mais uns degraus para a nossa evolução e vêm-nos ensinar muito mais do que nós lhes ensinamos a eles. Tive essa consciência depois da segunda e inverti completamente os papéis. Depois quando elas saem de casa percebes que já não há dependência e surge o deixa-me olhar por mim e pela minha vida. Pode haver um momento mais cinzento mas depois aproveitas sempre a oportunidade para fazeres outras coisas. Mas continuo sempre presente na vida delas e sabem que quando querem colo, têm colo. Porque é um papel que adoro fazer.

Um papel extraordinário que te vi fazer foi a Gisberta. Uma mãe que tu vivias cinco vezes por dia no Teatro Rápido.

É uma questão de compreensão humana, um actor tem muito a ver com isso, é colocar-se no lugar do outro e compreender. Um actor ou outro qualquer ser humano poderia fazer isso. Foi bastante forte e um exercício emocional extraordinário, não me aconteceu por acaso porque nada me acontece por acaso e num momento da minha vida que teria de fazer uma catarse de várias situações, porque isso eu aproveito sempre. Não era muito fácil fazer aquilo mas também não era muito difícil. Acabou por ficar muito pegado à minha pele porque eu fiz cinco anos a Gisberta, só parei este ano. Sempre que me convidavam, eu aceitava. Os quinze minutos foram mais crescidos para aguentar a história de um menino que nasce com vontade de ser menina e a perspectiva daquela mãe. Era ficcionado mas mais tarde viemos a saber que tinha imensos pontos em comum com a realidade. Fechámos essa jornada no Festival de Teatro do Alpendre na Ilha Terceira e decidimos ficar por ali. Há mais coisas para fazer, porque estava um pouco farta de fazer mulheres sofridas. Porque até uma certa altura era a cómica do musical e da revista, depois de repente papéis sérios e dramáticos com mulheres duras, secas, sofridas que se matam ou que matam os filhos e eu disse para mim isto já chega, já aprendi o que tinha a aprender. Eu não sou nada assim, grata pela experiência, mas quero seguir em frente, experimentar outras coisas.

Ana, tu trabalhas muito com memórias, mas nas tuas obras surgiram-me como uma pergunta: o que é uma menina limpa?

Uma menina limpa foi para aquilo que eu fui educada. Foi uma coisa que me surgiu de um trabalho que eu fiz. Os títulos surgem sempre quando estás a fazer alguma coisa e às vezes nem têm nada a ver com o trabalho, coisa muito curiosa que gosto muito de fazer é de arranjar títulos para obras. Eu roubo imenso, coloco logo entre aspas, e quando vejo um título bom guardo. E nesse caderno onde guardo frases já me surgiu a pergunta ui, ui, isto é meu ou é d’outro? A menina limpa e a menina suja surgiu de uma vez que estava a fazer um trabalho para a Galeria 111 e estava a fazer uma projecção numa tela de uma ilustração do livro dos anos trinta do Monteiro Lobato que era da minha mãe, o Pica-Pau Amarelo, e aquilo correu-me mal por isso peguei numa esponja e sujei aquilo tudo e pensei em dar-lhe depois uma aguada por cima. Mas para não perder tempo, que eu sou daquelas pessoas que detesta perder tempo, decidi passar a projecção para o lado e depois logo limpava a outra parte. Ficou feita a projecção na tela e quando olhei para as duas imagens, uma era uma menina completamente suja e a outra era uma menina completamente limpa e eu senti que dava para iniciar uma série e foi assim que surgiu o tema.

E é provocador...

É provocador, sim. Tanto que a Isabel Carlos, que foi a curadora da exposição da Gulbenkian escolheu o nome da série para ser o nome da exposição.

Mas tiveram uma educação muito convencional?

Ana: Completamente conservadora. Andei num colégio de freiras até ir para o Liceu.

Rita: Eu fugi. Os meus pais divorciaram-se e meteram-me num colégio de freiras, mas só lá estive quatro meses e fugi duas vezes.

Ana: O teu era interno? É que o meu era externo. Os meus pais estavam à espera que eu estudasse, porque já a minha avó estudou, mas era aquela coisa do estudam e depois casam e acabou.

Rita: Eu quando fui para ser actriz o meu pai não achou piada nenhuma. O padrão do pai dele, que também não queria que ele fosse artista, repetiu-se. Como se repetem os padrões todos, a hereditariedade é um bocado isso. A minha mãe, essa, esteve sempre ao meu lado e teve uma paciência imensa para me aturar. Até aos meus onze anos, até eles se divorciarem, deixaram-me completamente em liberdade. A casa estava forrada a livros e eles deixavam-me ler o que eu quisesse, eu era meio maria-rapaz e saía para a rua, rasgava a roupa, os vestidos...

Alguma vez contracenaste com eles?

Com a minha mãe ainda contracenei uma vez na televisão e com o meu pai reaproximámo-nos muito humanamente durante o Passa Por Mim no Rossioe no Maldita Cocaína. A separação deles foi muito forte e eu até tive de escolher com quem ficar e o colégio interno e depois estive doente dois anos de cama. Mas a vida foi muito boa para mim e ficou tudo muito bem resolvido, a minha mãe ainda ficou a viver comigo e os últimos anos do meu pai foram muito próximos entre nós.

E coisas do arco da velha? Coisas estranhas que vos tenham acontecido?

Rita: Não, nada. Acho que sou absolutamente responsável pela minha vida. Eu nem digo merda aos colegas, digo boa sorte, muita vontade, confiança, serenidade. Tenho os meus mantras, deposito em mim a minha força, nunca deposito em nada exterior. Prendo-me muito é aos objectos porque nos recordam emoções, mas estou a trabalhar para ser cada vez mais desapegada de coisas. Eu era compulsiva a guardar coisas, ainda hoje sou, há uma panóplia de objectos que eu carrego comigo durante a vida. Há coisas que eu estimo e guardo, um quadro bordado do princípio do século da minha avó, ela era professora de bordado. Um cinzeiro do meu pai, coisas que me fazem lembrar e que guardam boas memórias. Coisas de que não guardo boas memórias é lixo. Gosto imenso de chegar ao meu camarim e passar a minha vibração, ponho cheirinhos, incensos, defumo o palco e o teatro todo com pau-santo e com coisas que eu gosto, mas é por uma questão energética, porque me sinto bem. Neste espectáculo que estou a fazer agora com mais duas actrizes, Mafalda Rodrigues e Sandra José, BOCAge, uma delas não tinha nada no balcão, outra tinha uma escovinha e eu tinha a casa já montada para me sentir bem. Eu tenho sempre o que preciso ao meu lado. E mesmo em digressão levo tudo aquilo que eu sei que me equilibra. Mas não é uma questão de superstição, é de frequência vibratória, de me sentir bem e em casa. Tenho é um gosto especial pelo número vinte e dois, gosto de ver esse número, se for a uma reunião e for no vinte e dois eu tenho a certeza que aquilo vai correr bem, é uma crença.

Mas tu, Ana, és supersticiosa?

Eu sou supersticiosa porque o meu avô era supersticioso. Eu sabia que era impensável sentarem-se treze pessoas à mesa. Isso foi uma coisa que me ficou, se convidar quatorze pessoas e faltar uma eu telefono logo a um daqueles amigos íntimos e digo logo tens de vir. Também houve uma altura, quando apareceram os telemóveis, que me calhou sempre que olhava para o relógio serem dez e dez, onze e onze, nove e nove, vinte e três e vinte e três e um dia comentei com um amigo, agora sempre que olho para o telemóvel dá-me isto, e ele disse-me isso acontece com vocês porque estão é velhas. Se calhar até já era uma coisa que eu atraía.

Ainda falámos das cartas que a mãe deu à Ana e que por respeito e pudor ela nunca abriu, apesar de usar toda a papelada e objectos que lhe dão do seu arquivo familiar. E de como a Rita ainda nos contou de um monte de papéis que o pai dela lhe deixou dentro de um forno na sua casa de Monsanto que usou num espectáculo de homenagem. Fotografados pela intuitiva Andreia Mayer e hidratados pela hospitaleira Maria Sasseti fomos continuando até ao encerramento celebrado pelas fotos publicadas em todos os nossos instagrams. Do arco da velha fica a estranheza de nenhuma das fotos terem funcionado à primeira! ;-)

Esta entrevista foi publicada na Revista Gerador de Novembro de 2018 que podes descobrir aqui.
Créditos - Texto de Pedro Saavedra e fotos de Andreia Mayer