Isto de imaginar festivais antes deles acontecerem e ainda por cima querer falar nisso antes de tempo dá nisto. Vocês a lerem no momento certo aquilo que nós dissemos no momento anterior a esta certeza absoluta: bem ou mal dito já aqui está dito e aqui está escrito. Andando a flutuar pelos espaços do Exquisito, viajámos de lá atrás até aqui ao presente e em direcção ao futuro. Mas o que vai ser o Exquisito? Ou o que está a ser… ou o que já foi o Exquisito? Vejam do ponto da linha espaço temporal que preferirem , mas vejam.

Há meses que tentamos desenvolver esta ideia do Exquisito, palavra de origem amaldiçoada na nossa cultura mas bem distinta na língua inglesa ou espanhola. De facto, esquisito no nosso dia leva-nos para algo que é negativamente distinto, por isso quisemos e queremos fazer um festival anual que perturbe o peso da palavra, do conceito e que troque a letra s pela letra x. Mas como se isso fosse fácil, quisemos fazê-lo em Telheiras, com ideias emergentes e com um tema que reflectisse o próximo ano. Depois das Certezas absolutas, é o tema de 2018 para fazer pensar durante 2019. Claro que tivemos de procurar ajuda. Não de psicólogos mas de programadores especializados nas áreas exquisitas. Aterraram no nosso colo a Carolina Trigueiros, mulher curadora das artes visuais e das artes plásticas conceptuais, o Daniel Neves, designer ex-machina mas também músico autodidacta em músicas experimentais e a Rosana Ribeiro, linda bailarina criadora de dança ou de festivais em jardins e afins. Das duas uma, ou nos matamos uns aos outros ou ficamos juntos para o resto da vida. A única certeza absoluta é que este texto se transformou numa peça de teatro visio-sonoramente performática.

Como queremos falar do depois das certezas absolutas, valeria a pena perceber o que são para nós certezas absolutas.

Qual é a tua maior certeza absoluta, Daniel?

“Para mim, uma referência constante é o passado, o que aconteceu antes é sempre a base para fazer uma coisa nova. Não ignorar a história, saber o que existiu antes para se criar mais. O passado é a única certeza. Todo o passado que conhecemos. Falando culturalmente, estilos musicais antigos, músicas que existiram e já não existem, coisas de há milhares de anos que são certezas que existiram e que agora as estamos a ouvir e a ser influenciados por isso… agora se é correcto ou errado, disso já não sei nada”.

E tu, Carolina, certeza absoluta de quê?

“Acho que podemos ter a certeza que nascemos e eventualmente vamos morrer, no entretanto as coisas podem mudar e a nossa perspectiva também pode vir a ser outra. A maneira como vemos o mundo está em constante mutação e constante alteração e por isso a única certeza que temos é a certeza que tudo muda e que tudo pode ser alterado, por isso temos de estar abertos a aceitar e a perceber as mudanças”.

Saavedra —  E se houvesse uma máquina do tempo e se pudesse ir lá e alterar o passado?

Carolina— “Sim, porque o passado é uma memória que fica. A nossa memória do passado, do que aconteceu connosco, do que já vivemos é uma memória que está sujeita a características pessoais, que pode ser subjectiva ou enganosa. Eu posso lembrar-me de uma coisa que se calhar nem aconteceu. Até a nossa memória nos engana”.

Rosana— “Até a história nos engana, é relativa se pensarmos em canções e lendas que passam, elas são todas transformadas, podem não ser a certeza”.

Daniel — “A certeza é que elas existiram. Não da forma em que estamos a ver ou a interpretar. Sabemos que Mozart e Beethoven existiram, porque temos as pautas mas não temos a certeza que tenha sido mesmo assim que aconteceu”.

Rosana— “Também tens isso com o Shakespeare. Existiu ou não? Era uma pessoa ou várias?”

Daniel— “Mas existem as obras, e elas são a referência”.

Rosana, e a tua certeza absoluta?

“Não sei se tenho uma certeza absoluta, como disseste, sem dúvida nascer e morrer. O ciclo da vida… que nem mesmo nós entendemos perfeitamente como funciona”.

Carolina— “Nunca houve certezas absolutas, não há nunca uma única certeza universal, mas nós vivemos numa altura em que já nada é uma certeza”.

Daniel— “No presente nunca há certezas”.

E acham que ainda faz sentido discutir o que é a arte?

Daniel— “Eu deixei de discutir”.

Carolina— “A própria definição nunca vai ser evidente, porque não podemos catalogar a arte ou colocá-la numa caixa”.

Rosana— “Mas a discussão é importante”.

Carolina— “A discussão é importante, mas o que permanecerá só o tempo nos dirá”.

Rosana— “E é também o que nos diferencia dos outros animais, sermos um objecto pensante em tudo isto que estamos a fazer”.

Carolina — “Mas há vários níveis e expressões do que pode ser arte. A partir do momento que uma obra nos interpela e lança questões ou quando ficamos intrigados porque não compreendemos totalmente uma música, uma instalação ou uma performance, tudo isso entra numa definição do que pode ser arte. Há arte que pode ser mais política, arte por arte…”

Saavedra E a definição? A sensação de isto é arte ou isto não é arte? Como fazer isso sem um conceito claro?

Carolina— “Percebo isso, mas no entanto quando Marcel Duchamp apresentou a sua obra Urinol, as pessoas disseram ‘isto não é arte’, quando o Amadeo de Souza-Cardoso apresentou as pinturas dele, as pessoas cuspiram. Isto provocou reacções porque eram coisas que as pessoas não estavam habituadas a ver e era algo que estava a construir uma nova linguagem e nova forma de ver o mundo, e a arte tem a capacidade de tratar uma realidade que não existe ou que não conseguimos sequer ainda formular ou compreender. A arte pode inverter todas as nossas verdades e regras de entendimento do mundo. E nós como contemporâneos de uma certa criação podemos ainda não conseguir aceder a uma obra que poderá ser a grande obra da nossa altura. Todos os objectos podem ser arte, como Joseph Beuys diz, todo o ser humano é um artista”.

Daniel — “Por isso, procurar uma definição de arte é procurar uma verdade absoluta que não é verdade para toda a gente ou para cada visão individual”.

Então a arte só é uma certeza absoluta no passado? 

Daniel— “Sim mas às vezes essa distância temporal pode ser mais curta, pode ser imediata, pode ser de anos, pode ser de séculos, até na arqueologia, objectos que se viam como arte ou arte que afinal se torna apenas um objecto”.

Carolina— “E é interessante trabalhar com essa hibridez, uma coisa que é uma coisa e é outra, é arte mas também é um objecto. Esse espaço híbrido também interessa aos artistas, o que é do público e o que é nosso? Qual é o papel do visitante como activador da obra? Porque se for simplesmente A e B ou azul e preto, já não há nada a entender, o que interessa é o que fica na cabeça, o que é ou não é. A não imediata resolução é o que interessa à arte”.

Mas é obrigatório a arte questionar?

Rosana— “Eu acho que é pessoal também, o que é que para ti significa arte. Para mim algo que me toque ou que me faça pensar, isso é arte. Mas isso é a minha interpretação. Para outra pessoa pode ser completamente diferente e faz com que as pessoas queiram falar sobre o assunto”.

 E o que é um artista?

Daniel— “Não tenho uma definição, mas há algo que associo sempre a um artista e que é uma pessoa que tem a intenção de criar algo. Em qualquer área artística há uma intenção, não há um artista por acaso, algo que passou por aqui e aconteceu por acaso, tem de haver uma intenção”.

Carolina— “A intenção é importante e um artista é uma pessoa que está a trabalhar todos os dias da sua vida, todas as horas do seu dia. É um trabalho que exige muito, não é um vou ali e acontece, é uma total dedicação e responsabilidade porque são pessoas que têm o privilégio do tempo também para criar. Têm o tempo para se dedicarem à criação de algo, então são responsáveis pelo que vão trazer ao mundo. De produzir para um público ou não, há artistas que produziram em ateliere só mais tarde é que tornaram essa criação pública. É uma forma de linguagem, diferente da nossa, é outra forma”.

E a primeira vez que sentiram arte?

Rosana— “O que me veio primeiro à cabeça foi uma VHSque eu tinha que me fez querer dançar. Era uma coisa feita pelos DV8 que é uma companhia de Physical Theatre de Londres, e o filme chamava-se Enter Achilles, com uma cena que acontece toda num pubinglês e aquilo transforma-se em dança e teatro tudo misturado. Foi a primeira vez que vi uma coisa e pensei ‘isto é muito interessante’. Há uma ideia por detrás do que eles estão a fazer, há movimento, está num ecrã e aquilo tudo em combinação, fez-me questionar”.

Daniel— “Mesmo antes de entrar para a faculdade, já estava a estudar artes gerais no secundário, já ia a exposições e isso tudo, porque a minha área é o design, não sou músico de raiz e nessa altura era fanático por metale por rocke assim já estava ligado a artes mesmo sem saber. Houve um amigo meu que me desafiou a ir a um concerto de um músico finlandês na Cidadela de Cascais com acordeão, que para mim era muito fora do normal e a sensação que eu tive foi: o que é que está a acontecer aqui? Eu ando a ouvir metalhá anos e isto é muito mais pesado que metal, com uma força que eu não consegui explicar naquela altura. E foi aí que percebi que tinha de começar a procurar coisas a sério e querer mais a sensação daquele dia”.

Carolina— “Como criança talvez ir ao Louvre, a Paris, entre os dez e os doze. Lembro-me da responsabilidade de ter de levar um bloco de notas para apontar os nomes. Fui também ao Centro Pompidou, ver o Urinol. Fui ver as Mademoiselledo Degas e senti imensa responsabilidade em apontar todos os nomes e observar. Cá também havia coisas mas não aquela quantidade de obras com aquele peso histórico e senti-me quase overwhelmed”.

Ainda nos levantámos várias vezes das cadeiras com a paixão das nossas opiniões, e ainda fomos lá para fora ser encadeados com a luz forte do início do Verão e as indicações da Andreia Mayer. A flutuar, nunca parando o fluxo de dúvidas, ideias e opiniões. De certeza absoluta que, se nos deixassem, teríamos ficado até agora! ;-)

Este Café Central faz parte da Revista Gerador de Setembro de 2018 que podes comprar aqui.
Texto por Pedro Saavedra
Fotos da Andreia Mayer