A Sociedade Filarmónica Incrível Almadense é um monumento, em Almada e no país, com 170 anos de história, certinhos de apoio à cultura e ao ensino da música para todos. Muitas foram, ao longo das últimas décadas, as Filarmónicas que permitiram que muitos músicos tivessem a sua formação e se iniciassem na sensibilidade musical, bem como que por elas passassem aqueles que amam a “dor” de serem amadores para toda a vida. Lá nos metemos nós no típico cacilheiro só para vosso incrível deleite.

Chegámos em cima da hora, na correria de ver na gráfica a revista irmã mais velha desta que agora estão a ler e já lá estava o Gimba, como sempre o imaginamos, de guitarra ao colo a dedilhar umas coisas novas mesmo ali ao lado da Incrível. O Gimba ou Eugénio Lopes é um músico multicolor que só recentemente começou o que se pode chamar uma carreira a solo, mas anda há quarenta anos nisto, e depois dos Afonsinhos do Condado ou dos Irmãos Catita lança agora o álbum Ponto G só com músicas de sua autoria mas cheio de convidados conhecidos. Subimos ao prédio da Sociedade Filarmónica, que mesmo ao lado do icónico edifício da Incrível nos recebeu pela mão do Joaquim Brás, saxofone tenor, que, depois de perder um dedo na Lisnave, tocou sempre sopros desde os nove anos de idade até ser, hoje, reformado e membro da direcção da SFIA. Subimos ao último andar onde a direcção se reúne com porta para um terraço com vista para a cidade de Lisboa. Rodeados de prémios, troféus, medalhas e obséquios de meio mundo, ficámos sentados numa mesa onde os retratos de todos os presidentes nos olhavam com aquela pergunta típica do passado: vejam lá se levam isto prá frente! E assim fizemos. Costas endireitadas, gravador ligado, veio logo à baila a primeira pergunta.

De onde vos veio o gosto pela música?

Joaquim?

Comecei na minha terra, Beira Alta, na Banda Filarmónica de Abrunhosa-a-Velha, perto de Viseu. O meu pai, que Deus tem, era um apaixonado pela música mas nem sabia ler uma pauta, gostava muito de ouvir música e disse-me para ir para a Banda, e eu já com a quarta classe feita e a ver se entrava para o Liceu em Mangualde fui pra Banda. Mas ele, que morreu muito novo, já não me viu a tocar.

Gimba?

Deixa-me só fazer um parentesis para dizer que é mais fácil entrar na música e aprender música fora dos centros urbanos, nomeadamente nas bandas filarmónicas, do que numa cidade qualquer onde uma lição de guitarra ou saxofone custa uns trinta euros.

E, Joaquim, na banda ninguém paga?

Pelo contrário, até os vamos buscar.

Mas o teu gosto pela música de onde vem, Gimba?

Dos meus pais. O meu pai, quando eu era miúdo, gostava de ouvir jazz melódico. A primeira música que me lembro de ouvir na vida é o Take 5. Nessa altura o jazz era bastante melódico, pelo menos os artistas de que ele gostava. Eu cresci na mesma altura que os Beatles, o meu primeiro disco foi o She Loves You. Todas as crianças têm um enorme fascínio com música, e há umas crianças que ficam logo ‘é isto’! Eu tive a sorte de andar numa escola experimental chamada Centro Infantil Helen Keller que misturava cegos com caixas-de-óculos, como eu, e normovisuais. Era uma escola diferente em que não havia o quadro do Salazar na parede, não havia campainhas. Se não houvesse aulas nós chorávamos. Era uma escola muito para a frentex e tinha muita música, nomeadamente divisões de compasso a cantar canções tradicionais; depois apareceu uma professora de piano e eu fui para as aulas de piano. Mas voltando aos amadores, eu sou músico profissional porque vivo da música e de coisas à volta da música como dar cursos de escrita de canções, mas não me considero um profissional porque os profissionais são os que lêem. É como na medicina, há os médicos e aqueles curandeiros de medicinas alternativas e eu sou mais desse lado, porque uma pessoa que lê música vê uma pauta e ouve logo a música, e isso é que é um músico profissional. Eu venho do panorama pop rock que, pelo menos em Portugal, é um mundo de autodidactas, um que arranha uma coisa na guitarra e depois monta uma banda e por aí fora e poucos sabem música. No nosso meio tens pessoas com formação musical como o Pedro Abrunhosa que deu aulas e é contrabaixista. O José Cid penso que sabe onde é o dó no piano mas não sabe muito mais música do que isso. Eu, como aprendi piano e um bocadinho de leitura, consigo acompanhar uma pauta e até virar a página, agora ler e escrever não consigo. A música tem de ser aprendida em criança, naquilo que os psicólogos chamam de janelas de aprendizagem, porque aprender música do zero com quarenta anos é algo que vai correr mal. É uma coisa que tens de aprender e continuar.

E para si, Joaquim, qual é diferença entre um amador e um profissional?

Para mim o profissional é aquele que vive da música, que escreve, compõe e vive desse trabalho. Por exemplo, todos os maestros que vêm para a nossa Banda vêm da Marinha, praticamente são profissionais, porque ao maestro nós temos de pagar. Nas aulas os aprendizes têm de pagar esse tempo. Por mês os alunos pagam trinta euros para terem duas horas de aula por dia, mas é só um incentivo para não desistirem.

Mas qualquer pessoa pode chegar aqui e inscrever-se?

Joaquim: Qualquer dia, qualquer pessoa. Actualmente temos um aluno de sessenta e oito anos, porque ele diz que trabalhava e que nunca tinha tido hipótese de aprender música e hoje, reformado, vem ele e um neto.

Gimba, não achas que agora há mais espaço para projectos autodidactas de raiz portuguesa mais experimentais, sem seguir modelos internacionais e com mais identidade?

Sim, porque é mais fácil chegar a coisas diferentes, já quase nem é preciso ser curioso. Antigamente tinhas de ser curioso e ir à procura. Se te interessavas por jazz, era difícil, não havia escola e talvez encontrasses um livro que viesse do estrangeiro… hoje com dois cliques tu tens as pautas à tua frente e de qualquer género. A própria tecnologia dos instrumentos modificou-se muito. Mesmo quem não saiba muito de música faz umas colagens eletrónicas, por exemplo. O autodidatismo está muito mais facilitado. No meu caso, eu comecei a arranhar guitarra e por acaso tenho bom ouvido, fartei-me da escola que era uma coisa clássica e eu queria era fazer boa figura no liceu a tocar os Led Zeppelin. Arrependi-me depois porque devia ter continuado na escola e ter feito a minha aprendizagem. Hoje tens mais acesso a partituras e tablaturas e métodos, até há escolas em que a aprendizagem da música já nem é por pauta, é por digitações no piano ou na guitarra. As coisas evoluíram para coisas mais pluri-multina-cenas. O formato do cantautor voltou. Há vinte anos, anos oitenta e noventa, não havia muito o cantautor e hoje tens instalados muitos bons exemplos nacionais como o Samuel Úria, a Minta, Jorge Palma e até eu. Ou a Joana Espadinha que tem uma música muito imediata, sais logo a cantar. Uma série de malta muito boa, aqui e internacionalmente, porque há público para isso.

O Joaquim, que música ouvia, em novo?

Eram os Beatles, e também toquei em bandas como os Seis Latinos, em bandas rock nunca toquei, e tocávamos músicas de baile, para o pessoal andar mais juntinho. Eu andei três anos no Conservatório Nacional, mas naquele tempo era muito difícil, entretanto arranjaram-me trabalho na Lisnave e pagavam bem e os estudos ficaram de lado. As lições do Conservatório era um Doutor da minha terra, de quem a minha irmã era empregada, que pagava. Como fui sempre pobre e nunca rico, deixei isso para trás. Em casa tenho muitos discos que já não oiço e de manhã tenho sempre de ligar a rádio. Até acho que tenho lá um disco dos Afonsinhos do Condado…

E tu, Gimba?

Eu é mais “em casa de ferreiro espeto de pau”, oiço muito pouca música. Não gosto de entrar no carro e pôr logo música, eu gosto da banda sonora do que está à minha volta. O meu dia a dia é fazer música, por isso andar sozinho na rua e ouvir os sons dos carros e das pessoas é a minha banda sonora preferida.

E o que fazem nos tempos livres?

Gimba: Eu gosto de passear por Lisboa, chamo a isso geografia, nem sei se é bem o termo certo. Estás no alto do elevador da Bica a ver a vista e não tens a mesma sensação se estiveres no alto do Castelo de São Jorge a ver outra vista. Se eu vier da praia e chego a casa tenho uma sensação mas se eu vier do Porto tenho outra. Chegar ao mesmo sítio mas com sensações diferentes. Um dos meus hobbies é observar essas sensações e vivê-las.

E o Joaquim?

O meu passatempo é trabalhar aqui na Colectividade e tocar saxofone tenor, eu tocava clarinete mas como perdi um dedo lá no trabalho não chego à chave. Podia ter posto uma prótese mas preferi mudar de instrumento e enquanto puder com a gaita…

Lá insistiu o Gimba em voltar a pé para Lisboa sem phones nos ouvidos e o Joaquim lá ia de seguida para mais uma reunião de direcção da Incrível. Apesar do céu nublado, levámos na memória a forma como as bandas e os autodidactas vão continuar a fazer entrar tanta gente boa no mundo da música. Mais para “amar” a dor, mais para serem “Cria” a dores! ;-)

Esta entrevista foi publicada na Revista Gerador de Janeiro de 2019 que podes descobrir aqui.
Créditos – Texto de Pedro Saavedra e fotos de Sónia Rodrigues