Nos sopés da Serra da Estrela virados para a Cova da Beira, aproveitando as descidas das águas, foram sendo instaladas as fábricas de lanifícios mais antigas de Portugal. Mesmo ali com uma vista arrebatadora e num edifício antes Fábrica e agora Teatro, chamaram-nos para um conjunto de três cadeiras em cima de um estrado negro. Não resisti e a minha primeira frase teve de ser: venham à minha beira!

Saímos da nossa terra manhãzinha cedo a caminho das Beiras entre o Douro e o Tejo. Almoçámos pela Covilhã, onde nos esperava a Elisa Bogalheiro, mulher dos mil ofícios mas de apenas um amor, a sua terra. Ali mesmo onde nos recebeu, ao lado do novo Centro de Inovação Cultural em obras, a conversa começou. Teleféricos adiados, nova zona demarcada de vinhos da Beira, receitas de cabrito e tijeladas, queijos queimados e maranhos e mel de urze e mais muitas coisas que nos abrem o apetite para aquelas zonas. Mas também falámos de cultura e de programação cultural e nisso o aquecimento estava feito para a digestão que aí vinha. Pequeno passeio para desmoer as entranhas e lá nos encontrámos dentro do Teatro das Beiras. Inclinado sobre o relevo da cidade, mesmo ao lado da ponte pedonal sobre a Ribeira da Carpinteira, é o teatro com as melhores vistas do país. A Luísa Azevedo, aka Hey Luísa já lá estava na conversa com o Fernando Sena. Instagramer de realidades fantásticas, recentemente centrada em Lisboa, e o director, desde sempre, desta companhia de teatro falavam de espectáculos que Luísa teria visto ali quando aluna do secundário, coisas que por ali estavam a ser acontecimentos memoráveis e felizes de relembrar. Não os quis interromper mas lá tivemos de ligar o gravador e começar a conversa sobre a terra que deles era mais do que minha, por isso a minha curiosidade borbulhava e lá me decidi a começar com um

Para ti, o que é a Covilhã?

Eu por acaso nasci, por acidente, em Lisboa — começou logo a Luísa — mas sempre cresci e vivi aqui até ter dezoito anos e ter ido estudar para Lisboa. A Covilhã é a minha casa, é e será sempre a minha casa. Eu acho que esta zona, especialmente a serra, e os meus avós têm casa lá em cima nas Penhas da Saúde e quase todo o meu verão é lá em cima, por isso a serra tem um significado muito especial para mim. Mas a Covilhã é mais do que isso. O que eu digo a quem vem cá a primeira vez é para irem ao centro da Covilhã, mesmo ali no centro histórico que eu também só descobri quando comecei a tirar fotografias, porque como estamos numa encosta temos esta visão espectacular da paisagem de todos os miradouros da cidade. Depois, também há aqui muita arte urbana escondida em recantos do nosso centro, espectacular para fotografar.

Então foi a fotografia que mudou a tua maneira de ver a Covilhã?

Luísa: Sim. Porque a escola e o shopping são na parte baixa, por isso eu não tinha razões para vir ao centro que é na parte mais alta da cidade, não conhecia as ruas apertadinhas, as escadarias, as rampas, os miradouros, os murais e para tirar fotografias comecei a explorar estes novos recantos da cidade. Com quinze anos também não podes ainda pegar no carro e ir onde quiseres, por isso depois das aulas lá vinha eu por aí acima para vir fotografar. A Covilhã é mesmo um cantinho escondido que tem esta parte de ruas e ruelas mais características e depois ainda tem toda esta paisagem que está aqui à frente. A cidade acaba por ser toda ela um miradouro, o que do ponto de vista estético, eu acho extraordinário.

Fernando, tu já conheces a Covilhã há mais anos, não é?

Pois eu não me importava de a conhecer há tão poucos anos como a Luísa. Eu comecei a fazer teatro quando tinha uns dezasseis anos, sou mesmo daqui e ainda me lembro da Covilhã ter à volta de duzentas fábricas. Depois há o desmoronar da indústria têxtil, nos anos oitenta, e começou um tempo em que a Covilhã hibernou completamente. A indústria empregava doze mil operários, por isso todas as pessoas na Covilhã tinham alguma ligação ao têxtil, incluindo na minha família. Por isso o grande desafio foi provarmos que era possível primeiro fazermos um grupo de amadores, porque na altura que fundámos o GICC (Grupo de Intervenção Cultural da Covilhã), nessa altura não havia nenhuma estrutura aqui que se dedicasse ao teatro, tinha havido a secção de teatro do Orfeão da Covilhã e o Cine-Teatro funcionava muito mais no âmbito do cinema. Apesar de me lembrar de lá ver um espectáculo que se chamava Todas as Árvores Morrem de Pé, da Companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro, que era a companhia residente do Teatro Nacional. Por isso criar o grupo na altura foi um desafio interessante, depois começámos a organizar o Festival de Teatro da Covilhã. Mas fazíamos isso nos tempos livres, só em 1994 nos profissionalizámos e esse desafio foi muito maior.

Vocês, então, fizeram a alfabetização teatral da Covilhã?

Fernando: Foi engraçado, porque na altura que formámos o GICC, além de fazermos teatro, foi uma dinamização de alfabetização com professores que nesta casa tiveram alguns sucessos com alunos que passaram nos exames da quarta classe.

Mas foi uma altura difícil para escolherem o que fazer?

Fernando: Sabes que quando se é amador, quando se é jovem, tudo é mais fácil. Mas tens de considerar também a parte política, nós nascemos com o 25 de Abril e portanto toda a onda de liberdade que passou, fazerem-se os textos que se quisesse, tudo isso era motivante e não gerava entraves. E foi isso que fizemos durante vinte anos e não só na Covilhã, mas em digressão por todo o país, ao mesmo tempo que fazíamos o Ciclo de Teatro do Outono por onde passaram praticamente todas as companhias de teatro portuguesas. E o público ainda tem os mesmos interesses? Era um público com menos formação, Portugal tinha um índice de cultura muito baixo. Tinha e continua a ter, mas hoje temos muita gente licenciada, ao contrário do que acontecia em 1974. Por isso era um público que vinha de quase cinquenta anos de ditadura e que tinha vontade de ver tudo o que aparecia.

E nunca houve polémicas com as vossas escolhas?

Fernando: Isso há sempre. Espectáculos sem polémica não têm uma piada assim tão grande. Mas sabes que quando estamos a organizar nós as coisas, escolhemos sempre por duas razões, pelo sentido da programação ou porque achamos que pode ser bom para o público da cidade, portanto nunca foi uma preocupação muito grande se o espectáculo ia chocar ou não. Importante era se o espectáculo cabia ou não no nosso espaço.

Estiveram sempre aqui?

Fernando: Nós começámos noutro sítio mas depois foi-nos cedido este espaço por uma antiga professora de História. Isto era uma antiga fábrica de lanifícios e os herdeiros não nos quiseram cá mais e também não nos quiseram vender por um preço justo, por isso durante dois anos tivemos de sair. Quando voltámos, voltámos já com a companhia profissional para o Cine-Teatro da Covilhã, onde estivemos até 2000. Mas esse espaço também era de privados com um acordo entre a Câmara e os proprietários, por isso chegou ao ponto desse contrato terminar e acabámos por voltar aqui e acabámos por conseguir comprar este edifício.

E tu, Luísa, já tinhas vindo ver teatro ao Teatro das Beiras?

Sim. Vim várias vezes com a minha escola. Eu estive seis anos na oficina de teatro da minha escola, portanto eu gosto muito de teatro. Não me lembro das peças porque já foi há muito tempo, mas a imagem que tenho é da sala lá de baixo, o auditório, e das memórias de lá ter estado.

E, Fernando, as pessoas da Covilhã, que imagem têm deste Teatro com um nome tão poético como o Teatro das Beiras?

Também se discutiu se poderia ter sido a Companhia de Teatro da Covilhã mas era demasiado óbvio e demasiado localizado. Até saiu um artigo no jornal a dizer que na Covilhã ninguém assume a Covilhã, porque até o Teatro se chama das Beiras e não da Covilhã. Mas isso foi propositado, porque nós defendemos muito mais a região do que só a cidade. E cada vez mais porque à medida que vamos caminhando nestes últimos quarenta anos, o interior é cada vez mais interior, muito por culpa de Lisboa mas também muito por culpa de quem vive aqui e de quem está à frente de organismos oficiais que, passivamente, aceitam isso.

Mas então há aqui uma distância que se sente?

Luísa: A distância que eu sinto é que uma viagem de duas horas em transportes públicos rapidamente se transforma facilmente em quatro horas. Os autocarros são limitados, os comboios são limitados e torna-se uma viagem que demora uma eternidade. Venho quase todos os fins de semana mas penso sempre duas vezes se é boa ideia. Venho na mesma porque é a minha casa e onde está a minha família mas tenho colegas meus que até gostariam de vir conhecer ou explorar o interior do país mas há logo esta barreira do demorar imenso tempo e os transportes não são os melhores.

E viveres aqui?

Luísa: Neste momento nem me estou a imaginar a viver em Portugal, quanto mais na Covilhã. Quase por capricho, por querer experimentar mais aventuras e mais oportunidades de trabalho. Aqui, a nível de oportunidades, elas não existem.

Fernando: É o tempo que se demora mas também a qualidade do transporte. É verdade que em termos de quantidade, a Covilhã melhorou muito por causa da Universidade que, com alunos de todo o país, melhorou a quantidade dos destinos dos transportes. Falamos muito do interior mas é conversa fiada. As pessoas estão onde estão os empregos e porque acontecem coisas de uma cidade grande, por isso sem criar empregos aqui, só fica o olhar para a paisagem. Mas mesmo a olhar para a paisagem precisamos todos de comer e de vestir.

Nunca te aventuraste a viver noutro sítio?

Fernando: Aventuras sim, em muitos sítios, mas viver foi sempre aqui.

E aqui continuámos a falar, cada vez mais dos processos criativos de ambos e da forma como as paisagens e as criaturas das Beiras foram influenciando ambos naquilo que criam ali e a partir dali. A Luísa desenvolve o seu processo evolutivo de edição com natureza e animais mesmo ali à frente do Fernando até chegarem cada vez mais um e outro à sua própria beira.

Esta entrevista foi publicada na Revista Gerador de Março de 2019 que podes descobrir aqui.
Créditos – Texto de Pedro Saavedra e fotos de Andreia Mayer