Filipa Coelho estava grávida do terceiro filho quando descobriu que este viria com uma deficiência. A síndrome de Down mais conhecida por trissomia 21. Na altura, tudo parecia desabar, já que era uma realidade “dos outros”, e não dela. Ainda assim, não tardou em ver “uma luz ao fundo do túnel”.

Empenhada em desconstruir a imagem destes jovens com dificuldades intelectuais e no desenvolvimento, decidiu apostar em Portugal num modelo inovador inclusivo de formação, que potenciasse empregabilidade e inclusão para pessoas com trissomia 21, perturbações do espectro do autismo, entre outras. O Café Joyeux. Um projeto que nasceu na França, em 2017, e que tem como objetivo testar um conceito de restauração inclusiva.

O primeiro espaço em Portugal resulta de um acordo entre a associação VilacomVida e a Fundação Émeraude Solidaire e abriu a 23 de novembro, no número 26, da Calçada da Estrela, em Lisboa. No próximo semestre, segue rumo a Cascais. O objetivo é não parar, continuar a abrir mentalidades, e a assistir a “situações de quebra-gelo”.

Entre a agitação do café, a alegria dos funcionários e o som do cair da gorjeta, o Gerador esteve à conversa com Filipa Pinto, atual presidente da Associação VidacomVila. Ao longo da conversa, a presidente partilhou a sua experiência pessoal, procurou refletir sobre a não inclusão, nos dias de hoje, e sobre a importância de pensar sobre estas realidades.

Gerador (G.) – O primeiro restaurante Café Joyeux foi fundado em 2017, em França, com o objetivo de formar e empregar pessoas com trissomia 21 ou outras perturbações cognitivas, como o autismo. Agora foi a vez de em parceria com a associação VilacomVida prosseguir para a cidade de Lisboa. Quando e como é que nasceu essa vontade para trazer o projeto para Portugal?

Filipa Coelho (F. C.) – Eu sou formada em comunicação e marketing. Sou uma pessoa muito positiva. Tenho uma base de jornalismo e sempre me entusiasmou muito dizer o que melhor se faz pelas empresas, pelas pessoas. Estava a trabalhar numa consultora até que fiquei grávida do meu terceiro filho. Tudo parecia desabar quando soube que ele ia nascer com trissomia 21. Obviamente foi um choque enorme, mas rapidamente não tardei a ver uma luz ao fundo do túnel e o que me apercebi? Quando soube que o Manel ia nascer com trissomia 21, por mais que eu soubesse o que era a trissomia 21, por mais que tivesse amigas com filhos com trissomia 21, é sempre a realidade dos outros não é a nossa. Senti que cada mesma forma como esta realidade me assustouque a maioria das pessoas também estranhasse porque simplesmente não sabem o que é. Está longe de nós.

Portanto, eu achei que mediante um convite que tive para integrar um grupo de pais de crianças e jovens com dificuldades intelectuais e no desenvolvimento faria sentido não só um projeto a trabalhar nesta área, que já existem imensos, mas através da comunicação digital aproximar esta mensagem. De facto, as pessoas que têm este perfil são pessoas que têm capacidades e que devem falar mais alto do que o rótulo que normalmente lhes damos. Ou seja, nós estamos habituados a falar de pessoas com dificuldades como aquele é o João que tem trissomia 21 ou aquela é a Sofia que é autista. Ou então nem dizem Sofia. Dizem que aquela rapariga é autista e eu achei que nós tínhamos de mudar isto. Comecei a perceber que se na verdade nós estamos todos muito longe desta área da diferença se criássemos oportunidades de sentir esta diferença perto das nossas vidas o problema de inclusão social, intelectual, profissionalmente se iria resolver mais rapidamente porque a pessoa desmistifica preconceitos. Porquê? Porque nós antes de sermos profissionais ou professores que ensinamos, nós somos pessoas e esta dimensão humana, da pessoa enquanto indivíduo que se relaciona, que tem amigos, que vai a cafés, não está trabalhada nesta ligação com a diferença. Por isso, é que as coisas falham. O que percebi é que como alguma vez queria que o mundo fosse inclusivo se eu nem sei o que tenho de evoluir. Se eu nem sequer conheço esses perfis e apenas penso que são pessoas com um rótulo à frente então quero fazer duas coisas. Por um lado, comunicação positiva das capacidades e dos talentos destas pessoas, revelar à sociedade este mundo que existe e que está tão longe de nós. Portanto, a comunicação aproxima e as redes sociais também propiciam isso. Portanto, aproveitar todo este fenómeno do social good que muda tanto as pessoas e tantas vidas a favor desta causa. E, por outro lado, dar o testemunho como empregadores, que não seja só mais uma empresa a pedir para contratar, mas a contratar. Agora, se quiséssemos contratar e se o continuássemos a fazer longe de toda a gente não estávamos a contribuir para a inclusão. Portanto, fui visitar os sítios na Europa, quis criar aqui um conceito, que era o café com vida, que basicamente era aquilo que o Joyeux é, e quis ser, e quando estava na iminência de lançar o café descobri que este tinha nascido em França. Portanto, o querer um projeto que toque a vida das pessoas, como é o Café Joyeux, está alinhado com a missão da Associação VilacomVida, da qual eu sou hoje presidente, e que foi criada para trabalhar numa perspetiva diferente, mais próxima da sociedade e também em rede a quem vamos recrutar as pessoas.

Inauguração do Café Joyeux em Portugal

G. – Precisamente, esta é a primeira empresa em Portugal que, em vez de formar para contratar, contrata para formar pessoas com deficiência, sem experiência profissional ou formação. Podes-nos explicar como é que funciona este processo de recrutamento? Que requisitos devem procurar cumprir?

F. C. – O Joyeux vem mostrar que esse modelo funciona! É um processo de recrutamento como outro qualquer. O Joyeux comunica que os seus cafés, restaurantes, servem para ajudar estas pessoas a tornarem-se autónomas. Simplesmente, ao invés de ser mais um projeto de formação, como há tantos, quisemos inverter. As pessoas que nos procuram são famílias que têm filhos que estão a terminar a escola ou que estão em casa ou que não se revêm na resposta institucional. Procuram-nos porque querem que os filhos tenham direito a ser formados, de adquirirem maturidade com o face to face com o cliente e não no contexto de protegido, que normalmente é o que acontece. E porque querem uma solução que seja adequada ao potencial da autonomia que os seus filhos têm. Isto é que é a grande negligência social aqui. Hoje em dia, temos cerca de três mil jovens, só no distrito de Lisboa, que terminam o seu percurso escolar e que têm à sua espera a mesma resposta que pessoas com perfis de dificuldade de aprendizagem, mas com menor ou nenhum potencial de autonomia. Ou seja, estes jovens vão para centros ocupacionais ocupar o tempo e lá vão encontrar pessoas que por terem deficiências profundas nunca conseguiram ter a sua autonomia ou profissão. É uma negligência enorme que isto aconteça porque não é justo. É preciso dar uma oportunidade a estas pessoas e o estado hoje não está estruturado de forma a pensar neste segmento. Os centros ocupacionais têm listas enormes, os pais estão em casa desempregados porque tiveram de ir tomar conta dos filhos, com tudo isto vem uma bola de neve associada a sintomas de depressão, de contextos familiares mais infelizes, de menor qualidade de vida. Toda esta bola de neve advém de a sociedade não ter uma resposta adequada. O que nós quisemos fazer foi mostrar que era possível ter um negócio de sucesso, num sítio premium, em que todos os restaurantes podem querer estar, por ser um sítio de passagem, e que ao mesmo tempo forma e emprega estas pessoas. Portanto, quisemos ser disruptivos e mostrar que é possível ter sucesso mesmo sendo uma IPSS. Este é um negócio social da associação VilacomVida com o objetivo de sonhar alto.

Inauguração do Café Joyeux em Portugal

G. – O objetivo é dar visibilidade à limitação cognitiva e potenciar o encontro social e a inclusão. Como é que se explica esta exclusão em pleno século XXI? Achas que existe uma falta de literacia, de formação, para acolher pessoas com deficiência?

F. C. – É falta de informação. As pessoas não estão informadas sobre esta realidade. A informação não pode ser porque vou fazer um trabalho na escola ou porque me chega um folheto às mãos ou porque eu até tenho interesse e vou à internet pesquisar. Há milhares de informação sobre estas realidades. De facto, esta informação não falta. Às vezes o ângulo em que é perspetivada é distinto, depende da fonte, mas eu acho que aqui a grande questão é que a pessoa só se sente informada nesta realidade se a experienciar, se sentir na pele o que é relacionar-se com uma pessoa que está a servir um café. Nós queremos estar onde toda a gente está. Toda a gente vai a um café, vai almoçar fora e gosta de estar num ambiente agradável e com uma música agradável e ser bem servido. Isto é humano. Se o Maomé não vai até à montanha, a montanha vai a Maomé, e é isto. Se nós entrarmos naturalmente na vida das pessoas, se nós deixarmos de ser aquele mundo que as pessoas só conhecem no Natal porque isto fica bem as coisas podem ser diferentes. Isto tem de mudar, tem de fazer parte da nossa vida diária. Nós temos vindo a assistir a situações de quebra de gelo assim num abrir e fechar de olhos de pessoas que nem sequer sabiam o que era a trissomia 21 e que se calhar chegam aqui e são atendidas por pessoas que lhe servem café ou um almoço que é delicioso. E, acima de tudo que sorriem e dizem bom dia ao Café Joyeux e que estão atentos ao seu pedido, que são atentos à sua imagem, etc. No segundo em que alguém vier aqui e passar por essa experiência amanhã essa pessoa tem a possibilidade de contratar alguém com a mesma realidade eu garanto-lhe que essa pessoa vai olhar para o currículo e interessar-se mais. É só isto.

Inauguração do Café Joyeux em Portugal

G. – Sentes então que este projeto pode ser um primeiro passo para esta mudança/abertura de mentalidades?

F. C. – Sim! É um novo ponto de partida. É pensar nesta realidade como nunca antes foi pensada. Nós não temos de ser paternalistas, não temos de ser cuidadores, não temos de cuidar dos coitadinhos. Nós temos de ter coragem porque não deve haver ninguém que trabalhe com estes jovens e que não fique fascinado com o que eles nos ensinam. Portanto, se assim é porque é que isto tem de estar tão longe? Nós enquanto associação VilacomVida faz parte da nossa missão trazer a diferença para a sociedade. Íamos criar um projeto exatamente ao que o Café Joyeux oferece quando percebemos que já existia. Podia estar aqui com um ego do tamanho do mundo, a dizer que é um projeto muito giro, mas não há tempo a perder. Eu ia demorar muito mais tempo a tirar estas pessoas de casa. Toda a nossa equipa ia demorar muito mais tempo a sentir-se útil e feliz se nós tivéssemos a construir algo de raiz. Portanto, não há tempo a perder nesta área e quisemos importar uma ideia que é totalmente transportável para a nossa realidade como para tantas outras.

Inauguração do Café Joyeux em Portugal

G. – De uma forma resumida, o que é que as pessoas podem esperar do Café Joyeux?

F.C – Vão poder esperar refeições ótimas, vão poder estar num ambiente superfeliz e com boa energia, vão poder ouvir boa música. A partir das duas da tarde, vão poder ouvir música do Jouyeux, vão poder ouvir o sino quando alguém deixa uma gorjeta e também vão poder viver tudo isto assistindo à felicidade de uma equipa que está a ter uma oportunidade para mostrar o que vale.

Inauguração do Café Joyeux em Portugal

G. – Uma das formas de ajudar a associação e o café Joyeux é, por exemplo, através da compra, no site, de t-shirts, sweatshirts, aventais e sapatilhas que fazem parte da farda de todos os colaboradores. À parte destas “compras solidárias”, de que modo é que as pessoas vos podem ajudar?

F. C. – Podem assistir ao nosso próximo concerto de Natal, que vai acontecer no próximo dia 19 de dezembro, em formato online, às 18h30. Nós fizemos aqui uma espécie de trade off. Vocês conhecem o nosso projeto e interessam-se pela nossa missão, então vão ao nosso site, clicam no link dos donativos da VilacomVida e podem fazer um donativo de um euro. Em troca, recebem um link para aceder ao concerto. Nesse momento, vão ter contacto com a mensagem que queremos transmitir que é que a felicidade é a diferença, é possível que estas pessoas tenham um futuro. É possível nós fazermos a diferença nestas pessoas. Estes donativos vão fazer com que consigamos abrir o próximo Café Joyeux, criar mais postos de trabalho.

Temos também vários artistas que vão dar a sua interpretação no concerto de natal e que vão ao mesmo tempo proporcionar que esta mensagem chegue de forma alegre, levezinha. Isto não é o fim do mundo. Antes pelo contrário, acho que é o princípio.

Inauguração do Café Joyeux em Portugal

G. – O Café Joyeux de Lisboa abriu a 23 de novembro no número 26 da Calçada da Estrela. Desde a abertura até agora há alguma história que vos tenha marcado de uma forma particular?

F. C. – No outro dia, um dos nossos supervisores estava muito emocionado… Há um dos nossos jovens que tem uma síndrome chamado síndrome de Tourette. Essa síndrome faz com que a pessoa tenha alguns tiques às vezes descontrolados, não só da forma de falar, como até com o corpo. Algo que é estranho, que o faz ser socialmente rejeitado. Então, esse jovem chegou cinco minutos atrasado porque perdeu o autocarro e então o João, esse supervisor, foi lá abaixo, acompanhou-o aos vestiários e o Sebastião perguntou-lhe se ele o podia ajudar a descalçar o sapato porque tinha ficado nervoso com o atraso e estava com muitos mais tiques. Nunca tinha vivido uma situação assim, fê-lo sentir mais útil e desperto para a necessidade que as pessoas podem ter da nossa ajuda quando nós menos esperamos.

G. – No futuro, gostavam de espalhar este negócio até outros pontos de Portugal?

F. C. – Ai, sim! Nós queremos abrir pelo menos cinco nos próximos cinco anos. Já vamos abrir um próximo em Cascais no próximo semestre. Temos um pedido de uma grande empresa que quer abrir um café para os seus colaboradores lá dentro e que é um desafio que também vamos aceitar. Queremos ir para o Porto. É um dos objetivos nestes cinco anos vamos ver se conseguimos. Queremos estar um bocadinho em todo o lado. Faz falta um projeto que dê este exemplo em qualquer ponto do país, aldeia ou cidade. Vamos começar pelos grandes centros urbanos para depois chegarmos mais longe.


Texto de Isabel Marques
Fotografias da cortesia da organização