“Ala Ala Arriba”[1]

Quem visita ou passa pela Póvoa de Varzim sabe que há um cheiro que carateriza a sua cultura: o cheiro da maresia. Não é novidade que as raízes desta terra nortenha sempre estiveram ligadas à proximidade do mar e, consequentemente, à presença abundante dos pescadores, que diariamente embarcam em direção ao alto-mar arriscando a vida, à procura de sustento para a família. Aliás, cientes da profissão de risco, os poveiros sempre dedicaram especial atenção a estes profissionais. A prova disso é o nascimento da camisola poveira. Confecionada há mais de 150 anos, antigamente, tinha como função proteger os pescadores do frio, já que eram compostas por lã. Mas, afinal, em que consiste esta arte?

Apesar de a própria origem e produção da camisola estarem pouco documentadas e estudadas, de acordo com o texto “O Traje Poveiro”[2], “a camisola poveira era inicialmente (na primeira metade do século XIX) feita na Azurara e em Vila do Conde e bordada na Póvoa pelos velhos pescadores. Em evolução, passou a ser bordada pelas mães, esposas e noivas dos pescadores, e, depois feita e bordada na Póvoa.”

No caso concreto da Póvoa, é-nos possível remontar ao século XVIII, época em que os pescadores usavam camisolas de lã em cor natural. Pelo menos é o que se depreende das imagens pintadas em ex-votos do Santuário da Senhora da Abadia, em Amares. A camisola era feita em lã natural proveniente da região da serra da Estrela.

Ainda, tendo por base o mesmo texto, e já no período pós-Segunda Guerra Mundial, com o surgimento do gosto pela moda étnica, a camisola poveira bordada salta fronteiras e torna-se um produto apetecível para nacionais e estrangeiros. Nesta altura, surgem outros tipos de produtos, como camisolas, casacos, carapuços e coletes confecionados com os mais elaborados pontos de tricô. Encontrado um contexto onde não escasseia o know-how, os empresários locais iniciam o recrutamento de mulheres da classe piscatória, mas não só, sendo o resultado final a produção em massa de milhares de camisolas e outras peças para os mercados português e internacional. Nesta altura generalizam-se, igualmente, toda uma série de motivos nos bordados, tornando o produto mais apetecível ao turista. As camisolas eram bordadas a ponto de cruz, com motivos em preto e vermelho, que identificavam a família. Nos bordados, para além do nome e a alcunha do proprietário, eram comuns os seguintes desenhos: siglas, remos cruzados, vertedouros, corações, âncoras, barcos à vela e o escudo com coroa real.

Fotografia disponível via facebook Camisola Poveira

À época, a camisola poveira de lã era ainda usada como peça complementar do traje de romaria e festas, conhecido também na comunidade piscatória como “farda branca”.

Contudo, o pior estava para advir. A partir dos anos 80, a mudança da moda originou uma quebra na procura e uma decadência local desta atividade que, durante mais de uma década, moveu o comércio local e ajudou no equilíbrio financeiro de muitas famílias. A camisola poveira vai perdendo protagonismo e, pouco a pouco, a sua venda restringe-se ao chamado turismo de saudade, adquirida sobretudo por emigrantes poveiros para a levar para suas segundas casas. Lentamente o comércio da camisola desaparece e apenas uma ou outra loja resiste.

Fotografia disponível via facebook Póvoa de Varzim

O re(erguer) da camisola poveira

Como diz o povo português, há males que vêm por bem. Após a polémica, ocorrida durante o mês de março deste ano, em que a estilista norte-americana, Tory Burch, foi acusada de plágio ao pôr à venda, na loja online da sua marca, uma camisola poveira por 695 euros, sem fazer qualquer referência à sua origem, a tradição voltou à ribalta.

A verdade é que desde aí a procura pela camisola poveira disparou e a peça voltou a fazer parte do quotidiano das pessoas por todo o mundo. Para satisfazer as necessidades e matar a curiosidade sobre a profissão, o município inaugurou, no dia 4 de abril, um centro de formação apto para capacitar e captar mais artesãos para a região. Ainda nesta linha de projetos, o município limitou o preço das camisolas poveiras a 99 euros e criou um espaço, à distância de um clique, na plataforma eletrónica Marketplace para a compra das mesmas. A receita reverte integralmente para o artesão, produtor da peça vendida.

Para Aires Henrique Pereira, presidente da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, “o principal efeito promocional desta polémica foi o desejo, que irrompeu de forma exponencial, de tantas senhoras fazerem formação na área da produção desta camisola”. Face a isto, não tem dúvidas de que sua preservação está, mais do que nunca, garantida.

Fotografia da cortesia da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim

Para o presidente, uma das dificuldades momentâneas passa por conseguir que a oferta satisfaça a procura. “Ao tempo de produção de cada peça (50 horas em média) acresce o do transporte. As entregas ao domicílio, cujos custos acrescem ao valor da compra, cobrem o território continental, Madeira, Açores, estados-membros da União Europeia e restantes países.” Outra dificuldade transparece na fixação de preços. Apesar de articulada com os produtores, admite que “está longe de ser financeiramente compensador: na produção destes artefactos há, de facto, uma fortíssima e determinante componente de “amor à arte”, esclarece.

No que toca ao centro de formação, “que é, em boa verdade, um Centro Interpretativo da Camisola Poveira”, explica que, neste momento, acolhe, um curso, com a duração de 350 horas. “Além da aprendizagem (ou, em muitos casos, aperfeiçoamento) da arte de bordar a camisola, as formandas recebem noções de empreendedorismo. Está a decorrer um outro curso, mais breve, com apenas 50 horas de duração, dirigido a senhoras que querem aperfeiçoar tecnicamente uma arte que já conhecem. Nos dois cursos, participam 75 senhoras. E temos 40 a aguardar oportunidade”, finaliza Aires Pereira.

Quem se dedica de corpo e alma a esta arte é Maria da Luz Ferreira. Formadora e artesã da camisola poveira, admite que foi de pequenina que começou a torcer o pepino ou, neste caso, a lã. “Eu com 9 anos, já tricotava, só que, com o tempo, fui perdendo o hábito e parei durante muitos anos.” O reencontro acabou por ocorrer em 2009, na Rua da Junqueira, quando abandonou a vida fabril e abriu um ateliê por sua conta. “Quando comecei em 2009 achavam a camisola poveira um produto parolo, que não se usava. Só as começaram a levar mais a sério quando começaram a aparecer em revistas e nas televisões, mas mesmo assim não as usavam facilmente.”

Fotografia disponível via facebook Maria da Luz Ferreira

Com isto, esclarece que o clique do pensamento ocorreu com o “apoderamento” da nossa cultura por parte da estilista americana. “Ela fez pela camisola aquilo que ninguém conseguiu fazer durante anos. Ela subiu a camisola para um patamar mais elevado. Disse ao mundo que a camisola vale aquele valor e que é para ser usada, no dia a dia, o que não estava a acontecer na Póvoa. Os poveiros, ditos da cidade, não vestem a camisola diariamente. Vestem para as janeiras… Ela veio dizer que era uma peça com cultura e bonita.”

Ainda assim, e apesar da euforia recente pelas formações e pela aquisição das camisolas poveiras, admite que continua a existir um desinteresse generalizado pela comunidade juvenil, já que “os tempos são diferentes”. “Eu, com 9 anos, já tricotava… Imagina, se fosse neste tempo, eu, uma miúda com 9 anos, a tricotar… diziam-me já que era exploração infantil. Nós não pensávamos assim, sentíamos orgulho em fazer aquilo. Hoje, o querer que os jovens façam é precisamente para que não se perca, a tradição”, explica Maria da Luz.

Neste fio condutor confessa que este é um dos pontos que mais a inquieta. “Os mais velhos começam a ficar cansados. Eu daqui a 10 anos não vou querer estar agarrada às agulhas. Temos de passar isto aos mais novos para que algum aproveite e prossiga este projeto, que não vai ser muito rentável.”

É, precisamente, sobre esta rentabilidade que recai o outro aspeto negativo. “As minhas camisolas são todas tricotadas à mão, seja em lã grossa, como em lã fina, e estão a ser vendidas entre 100 e 110 euros, dependendo do tamanho da camisola. Outras camisolas em lã mais fina variam os valores entre 130 e 150 euros. A câmara está a destabilizar a situação ao colocar uma tabela de preços entre os 80 e os 100 euros. Limitou que se conseguisse fazer algum negócio. Tem de se vender mesmo muita camisola para se fazer muito dinheiro”, reflete.

E Maria simplifica as contas. “Imaginando que gastamos 27 euros em material para a tricotar, pago ao quilo de trabalho, gasta-se à volta de 37 euros para um quilo de trabalho… A camisola pesa mais de um quilo. Depois, temos as lãs para bordar que são mais 4 euros, e ainda temos o trabalho da bordadeira que só é pago a 15 euros, que é muito pouco para as horas de trabalho que ela passa a bordar. Tudo isto já soma 80 e tal euros. Portanto, a margem de lucro é muito pequena para se fazer grande coisa. O que deveria ser mexido, até mesmo para elevar a camisola para outro patamar.”

Ainda assim, admite que se o futuro passar pela industrialização da camisola, mesmo com a fixação de preços, está a um bom valor. Para um trabalho manual, “está a ser muito mal paga.”

Com isto, torna-se cada vez mais “difícil continuar esta arte com estes valores. Vai ter de se repensar muito. Se fizermos as contas, isto não é negócio… Neste momento, estou eu a fazê-las à mão e a sentir-me usada. Eu, como empresária, sinto-me mal em quem está a trabalhar uma semana e meia, mas ao mesmo tempo não consigo pagar mais porque não consigo pedir mais ao cliente”, conclui.

Quem está nestas condições precárias é Maria do Sameiro, empregada de costura de Maria da Luz. “Eu comecei a fazer camisolas desde os 10 anos porque foi a minha mãe que me ensinou. A minha mãe fazia porque o meu pai e os meus irmãos eram pescadores. Nunca deixei de fazer camisolas, mesmo com as minhas filhas, porque é uma arte de que gosto. É uma tradição antiga. Isto era o nosso pão de sustento”, salienta.

Fotografia disponível via facebook Camisola Tradicional Poveira

Com isto, acredita que a solução para o desinteresse dos jovens pode passar pelas mães. “Eu tenho uma filha com 6 anos e já a ensino a trabalhar com as agulhas. Era bom que ela apanhasse o gosto e tricotasse, mesmo fazendo outras coisas. Eu acho que as mães deviam ensinar a fazer estas coisas, para que os filhos levassem isto para o futuro. Para que não se perca a cultura e a tradição. O pescador sempre vai precisar delas.”


[1] Expressão usada pela comunidade piscatória da Póvoa de Varzim.

[2] https://www.cm-pvarzim.pt/content/uploads/2019/07/23-camisola-poveira.pdf


Texto de Isabel Marques
Fotografia disponível via facebook Camisola Poveira