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Campanhã: a cultura também se apeia nesta estação

Da estação de Campanhã saem comboios suburbanos, regionais, de longo curso e internacionais. Mas a centralidade do carril não encontra paralelo na vida da freguesia mais oriental do Porto. Para lá da ferrovia, há uma cidade que não cabe nos roteiros turísticos, mas onde as práticas artísticas assumem o seu lugar. Ora incipientes, ora excessivas, ora a precisar de amadurecer e de se reinventar, a leitura faz-se a partir de experiências variadas num território diverso.

Porto, 2017. Um corso carnavalesco invade as ruas de Campanhã. É a Parada Desatada, culminar da participação portuguesa no projeto europeu Reclaim the Future / Exige o Futuro, desenvolvida pela companhia de teatro Visões Úteis na freguesia e inserida no programa municipal Cultura em Expansão. Aconteceu a 15 de julho.

O mote do projeto era partir do Carnaval enquanto terreno comum de reivindicação e mudança. De futuro.

A primeira etapa consistiu num levantamento das comunidades e espaços existentes em Campanhã, um trabalho desenvolvido por Inês de Carvalho, cenógrafa e figurinista que assume também funções de mediação e criação artística no Visões Úteis, e pela mediadora Márcia Andrade. “Era impossível mapear todos os grupos, todas as pessoas que se juntam, que fazem coisas, que têm associações ou projetos”, conta Inês ao Gerador. O primeiro objetivo era dar visibilidade: “A Parada foi uma espécie de levantar, de fazer surgir e tornar mais visíveis as práticas artísticas que já existem na comunidade e a forma como as pessoas se associam”, sintetiza.

E a ideia de dar visibilidade não vem ao acaso, já que todos os participantes do projeto trabalharam a ideia de estar à margem, fosse pela sua geografia ou pela proposta artística. A Campanhã juntaram-se Dunquerque (França), Västmanland (Suécia), Ilhas Hébridas (Escócia) e Riga (Letónia).

Ao mapeamento seguiu-se a apresentação da ideia às coletividades, dando tempo às pessoas para se familiarizarem com o projeto e enquadrando-o sempre na sua dimensão europeia. Seguiram-se visitas técnicas aos locais de intervenção e trabalho de cenografia, e “as pessoas apareceram sem saber o que ia ser o resto”, explica Inês. O resto seria um percurso que, em pouco mais de um quilómetro, encerra a distância entre passado e futuro. A Parada Desatada começou no antigo Bairro de São Vicente de Paulo, demolido ainda durante o executivo de Rui Rio e ainda hoje um descampado de vistas desafogadas, seguiu pela Praça da Corujeira, onde se ergue a Junta de Freguesia, e terminou no antigo matadouro industrial, que brevemente será requalificado. Foi de lá que, em conjunto com a Associação Columbófila Invicta, se lançaram pombos com mensagens para o futuro.

E não ficaria por aqui. O extinto Bairro de São Vicente de Paulo assumiu protagonismo nas memórias dolorosas dos seus antigos habitantes, entretanto espalhados por outras zonas da cidade, despojados dos afetos e amparos de uma vida. Essas memórias serviriam de base a uma instalação visual e sonora desenvolvida pelo cartógrafo social Pedro Rocha. Os testemunhos, de quem lá viveu ou por lá foi criando raízes, ficariam reunidos no livro Ficou Tudo ao Deus Dará, de Márcia Andrade, editado em 2018. Ainda nesse ano, o Reclaim the Future teria o seu evento final em Bruxelas, trazendo a periferia para o centro da Europa, numa Parada que juntaria os projetos dos cinco países para mostrar, lê-se no final do documentário que resume o processo, que “a arte e a cultura pertencem e podem ser criadas por todos”. “Quisemos garantir que não ia só o Visões Úteis, mas pessoas da comunidade, para completar a tal ligação direta entre o mais local e o mais central possível”, explica Inês de Carvalho. E também para devolver algo às pessoas, para que a sua participação tivesse retorno. Foi uma experiência “marcante”, classifica a cenógrafa, patente nas memórias e registos fotográficos que muitos ainda hoje partilham. Para Albina Pinheiro, Bininha, foi a primeira viagem de avião em quase 80 anos de vida.

Porto, 2021. Já não há carnavais, mas continua a fazer-se cultura em Campanhã. Desde 2019 que o programa Cultura em Expansão se desenrola num modelo diferente. De um formato de apresentações pontuais pelas diferentes freguesias, passou-se a uma estrutura baseada em quatro polos fixos (Campanhã, Miragaia, Pasteleira e, a partir de 2020, Bouça) e programação desenvolvida com parceiros locais, ainda que sem deixar de fora outros pontos da cidade. Em Campanhã, o parceiro é o Visões Úteis. Guilherme Blanc coordenou a equipa de programação do Cultura em Expansão desde a primeira edição, em 2014, primeiro a partir do pelouro da Cultura da Câmara do Porto e depois do Gabinete de Arte e Coesão da Ágora – Cultura e Desporto do Porto, E. M., quando a empresa municipal passou a englobar a vertente cultural do município. Embora, entretanto, tenha assumido funções no Departamento de Arte Contemporânea e Cinema da Ágora, ainda acompanhou o desenho da edição de 2021. A mudança de formato resulta de “um exercício de constante necessidade de interpretar a forma como a atividade cultural cresce, a forma como o tecido social muda, a forma como os públicos reagem à oferta cultural”, explica Guilherme Blanc. E se para o projeto arrancar era importante haver uma gestão centralizada, a sua sedimentação permitiu abrir a porta a outros participantes com quem o programa fosse pensado em conjunto, abrindo também espaço a outras práticas e entendimentos culturais. Independentemente das alterações orgânicas, Guilherme Blanc acredita que o Cultura em Expansão tem contribuído para uma ideia de cidade, e nessa ideia cabe a “descentralização de oportunidades de fruição cultural”, o princípio que norteia o projeto.

Aplicar o conceito de descentralização a uma freguesia que dista cerca de quatro quilómetros da Avenida dos Aliados pode parecer estranho, mas aqui a fita métrica de pouco serve. A chegada do comboio, no século XIX, haveria de consolidar a identidade industrial da zona oriental – as carcaças desse passado ainda se erguem à vista de quem observa a freguesia a partir da margem sul do Douro. Com a indústria chegaram os operários, primeiro pobres e mal alojados, e depois, com o desmantelamento da atividade a partir das décadas de 60 e 70 do século XX, desempregados. Enquanto isso, no extremo ocidental crescia a cidade do consumo e do lazer e no centro histórico a do comércio e da modernização.

Campanhã é, ainda hoje, a freguesia mais pobre do Porto, e a que mais bairros sociais viu nascer. Contam-se 13, construídos para acolher população oriunda de barracas e ilhas insalubres. José António Pinto, assistente social na freguesia desde o final dos anos 90, depara-se há muito com as mesmas realidades: violência doméstica, alcoolismo, toxicodependência, desestruturação familiar, falta de habitação. Por isso mesmo é que José António Pinto, popularmente conhecido como Chalana, que, em 2013, deixou ficar na Assembleia da República a medalha de ouro comemorativa do 50.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em troca de políticas de valorização da dignidade, acredita na importância da promoção da cultura. “Não é pelo facto de o território ser vulnerável que devemos desistir de promover a cultura […], pelo contrário, aí é que o território pode ser valorizado através da cultura”. E para o assistente social, o Cultura em Expansão podia ir mais longe no cumprimento deste desígnio: “É uma experiência, é gratificante, é positiva, mas não semeia”. Para semear, seria necessário dar condições técnicas e humanas aos coletivos locais para o desenvolvimento da sua atividade.

Apostar no desenvolvimento das instalações, dos equipamentos, na formação de dirigentes associativos e de públicos e diversificar a oferta cultural são eixos que José António Pinto considera essenciais, a par da avaliação do impacto emancipador da cultura no território. Este impacto pode fazer-se sentir de várias formas: não apenas através da consciencialização das pessoas e do consequente reforço da politização, como da criação de postos de trabalho por via de uma aposta mais sustentada na cultura e no combate ao estigma. E o assistente social não tarda em aventar uma ideia: com um festival de cinema ao ar livre no Parque Oriental [junto ao Bairro do Lagarteiro], chama-se público e associa-se uma zona estigmatizada da cidade à prática cultural.

A roda que não chegou a sê-lo

O verão já fugia, mas ainda cheirava a férias naquele sábado, 28 de agosto. Talvez por isso, e pelo embate entre o FC Porto e o Arouca, prestes a acontecer ali ao lado, contavam-se pelos dedos das mãos as pessoas que iam chegando ao pavilhão da Paróquia de Nossa Senhora do Calvário para a Roda de Histórias de Verão, inserida na programação deste ano do Cultura em Expansão em Campanhã.

Há quem venha cumprimentar e prometa regresso quando não houver jogo, e há quem já tenha criado raízes. Bininha vem a pé desde Azevedo, o extremo da já periférica freguesia. Assistente social informal, habituada a acorrer às aflições da vizinhança, é a “assessora” de Chalana no Lagarteiro. Passo despachado, assistiu à missa ali ao lado e agora senta-se para uma hora e meia de espetáculo.

Dezassete horas. A luz amarela do palco ilumina os contadores de histórias Carlos Marques e Thomas Bakk. Era para ser uma Roda de Histórias, mas a pandemia trocou as voltas às intenções acolhedoras e impôs o formato tradicional: Carlos e Thomas no palco elevado e o público distribuído por cadeiras, em escrupuloso cumprimento do distanciamento regulamentar. Apesar da parca audiência (15 pessoas, organização incluída – cerca de um terço da sala), o gelo foi difícil de quebrar. Mas Carlos e Thomas são profissionais e não se deixam intimidar pelas máscaras e pela ausência forçada de afetos. Carlos invoca o abraço das palavras, à falta de outros abraços, e abre com um poema de Afonso Cruz, “Praia”, a lembrar esse verão quase perdido. Chega a vez de Thomas. O semblante austero desfaz-se num sorriso de grandes proporções, e as histórias, umas inventadas, outras reais, ora são narradas, ora cantadas, com pandeireta a acompanhar. Ficamos a conhecer as origens de Thomas, em Recife, no Brasil, e as de Carlos, em Montemor-o-Novo. Ficamos a saber que ambos eram maus alunos até descobrirem o teatro, a poesia, os livros. Quando Carlos conta, com a ajuda da guitarra, a história do homem chamado “Pouco Juízo”, já a plateia se vai libertando, devolve deixas, ri, faz-se ouvir. A profecia inicial de Thomas cumpre-se: no final, as caras tinham mudado. Cumprira-se também um dos objetivos dos contadores: deixar as pessoas mais leves e instar à comunicação. E quem sabe, da próxima será ainda melhor: “Gostava de ver esta sala um pouco mais cheia em outubro”, atira Carlos antes de terminar, incentivando o passa-palavra para a roda seguinte, a de histórias de outono.

Roda de Histórias de Verão ©Renato Cruz Santos/Cultura em Expansão

Bininha sai no mesmo passo apressado em que chegara, o passo que é todo um modo de vida. Vem às iniciativas do Cultura em Expansão sempre que pode, mas logo atira que em Campanhã abrem-se associações e depois não acontece nada. Quando lhe tentam fazer ver que as associações a que alude são novas e é preciso dar-lhes tempo, já Bininha está vários passos adiante, a impacientar-se com uma juventude incapaz de lhe acompanhar o ritmo. Despede-se com um “Gostei muito, gostei muito”, não sem antes recordar a ida a Bruxelas.

O teatro amador

Do pavilhão até aos blocos do Bairro do Cerco são poucos passos. Pelas contas da Domus Social, a empresa municipal de habitação do Porto, o bairro tem 892 fogos. Em número de habitações, apenas é ultrapassado pelo bairro das Campinas, em Ramalde, com 900 fogos.

Construído em 1963, o Bairro do Cerco é “um dos territórios mais estigmatizados e excluídos no contexto do Grande Porto e da freguesia de Campanhã”. A descrição lê-se na dissertação de mestrado em Sociologia elaborada por Sofia Sousa em 2018 – O Cerco é a minha casa! Apropriações e identidades face ao espaço habitado. O trabalho visava avaliar o peso dos processos de exclusão social nas trajetórias das mulheres do bairro, e pelo caminho a autora não encontrou uma sobreposição entre o discurso mediático e a realidade. Os órgãos de comunicação social “contribuem para uma perpetuação dos sentimentos de estigma e insegurança, pela dimensão da notícia, pela exposição do conteúdo e pela regularidade com que se fala ou não do Bairro do Cerco”, expõe Sofia Sousa, que identifica “problemas de caráter social que podem transmitir insegurança”, como o consumo e venda de droga, que presenciou, o que não invalida que em muitos momentos o bairro passe despercebido. Sofia Sousa nunca se deparou com situações de perigo ou insegurança nas incursões ao terreno, apenas “olhares questionadores” ante as caras novas observadas da janela.

As mulheres entrevistadas no âmbito da dissertação relataram uma situação profissional assente em empregos precários e incertos, que correlacionam com o lugar de residência, mas também uma vontade de romper com o passado e com posições de marginalidade, sobretudo no que respeita aos filhos e à quebra do ciclo de abandono escolar.

José Bastos é professor de EVT do 5º e 6º ano na Escola Básica e Secundária do Cerco. Há 25 anos a lecionar no bairro, não generaliza nem se resigna a fatalismos. Sentiu necessidade de voltar a fazer um trabalho aprofundado com os alunos após o confinamento, ou pelo menos com parte deles, já que a diferença entre os que vêm de famílias estruturadas e os que não vêm é notória: “Muitos são filhos de antigos alunos que já tinham problemas”, explica.

O dia é 16 de outubro, e José Bastos senta-se no auditório da sua escola para assistir ao II Fórum de Teatro Associativo e Artes Performativas. Uma área que tem vindo a trabalhar com os alunos, e que integra a matriz curricular do segundo ciclo.

A organização está a cargo de quatro grupos de teatro amador a desenvolver atividade em Campanhã: Novo Acto – Associação de Artes Performativas, Teatro Amador de Campanhã (TAC), Era Uma Vez...Teatro (projeto nascido na Associação do Porto de Paralisia Cerebral para sensibilizar a sociedade para as capacidades artísticas das pessoas com deficiência) e Bambolinas e Trambolhos, um grupo maioritariamente dedicado aos fantoches, ainda sem casa definitiva mas com intenção de se instalar em Campanhã.

Durante a pausa do almoço, afinam-se cumplicidades e projetos. José Bastos e Rui Martins, encenador do Novo Acto, vão alinhavando ideias para os meses que se seguem. Em breve, esta estreita colaboração deverá materializar-se no Teatro Infantil de Campanhã (TIC), que visa captar crianças a partir dos 10 anos. “O professor Bastos faz uma espécie de prospeção a nível dos quintos anos e nós falamos com o agrupamento”, explica Rui Martins. O agrupamento articula a integração das crianças no grupo infantojuvenil e o Novo Acto e o TAC asseguram a formação. Foi, aliás, através da formação que estes dois grupos se consolidaram. Parte dos elementos que hoje compõem o Novo Acto já andavam nestas lides desde 1994, mas sem casa fixa. Após um festival de teatro em Campanhã, em 2015, surgiu o desafio da Junta. O Novo Acto aceitou, ficou, e, em 2016, constituiu-se como associação, tendo Rui Martins como presidente. Seguiu-se a ação de formação, dirigida por Martins e Francisco Nogueira (encenador do TAC, entretanto também constituído como associação), e captaram-se elementos para dar continuidade aos dois grupos. Agora, o Novo Acto ensaia no pavilhão de Nossa Senhora do Calvário, por via de um protocolo tripartido entre a associação, a paróquia e a Junta de Freguesia, que concede algum apoio logístico e financeiro, complementado por apoios municipais a que o grupo se candidata. Para o ano, o coletivo já decidiu que não irá candidatar-se a estes apoios, em virtude de ter recebido fundos para levar a cabo espetáculos que a pandemia obrigou a suspender.

Espetáculos como A Floresta do Raio Vermelho, de Jomar Magalhães, que numa das versões do Novo Acto deixa de ser uma floresta no Brasil para passar a ser uma floresta no Bairro do Lagarteiro, permitindo que as crianças se relacionem com o que acontece à sua frente. Com o teatro infantojuvenil traz-se essa faixa etária que acaba por arrastar os adultos – o contrário, diz Rui Martins, é mais difícil: “Trazemos os pais porque se é um miúdo que quer ir ao teatro o pai também vai (se é o pai que quer ir o miúdo não vai), e trazemos os avós, que é o prolongamento disso, e envolvemos a comunidade toda.”

A Floresta do Raio Vermelho, por Novo Acto ©Novo Acto – Associação de Artes Performativas

O Cultura em Expansão também faz parte do percurso do Novo Acto desde 2017. Nesse ano, o grupo trabalhou com um elenco profissional, sob a direção de Tónan Quito, na peça Fé, Caridade e Esperança, de Odon von Hórvath, apresentada no auditório da Junta de Freguesia de Campanhã. Em 2020, o Novo Acto integraria Cortes do Porto, do dramaturgo e encenador Rui Catalão, um projeto que explora as narrativas e ambições de uma comunidade quando os seus elementos se encontram. Para Rui Martins, vale a pena envolver as comunidades através de um projeto deste tipo, embora haja arestas que gostasse de ver limadas: “Muitas vezes os projetos são feitos com horários predefinidos que não são adequados para nós.” No Novo Acto, esta situação é particularmente limitadora, já que dos 12 elementos, quatro são enfermeiros a trabalhar no mesmo serviço. Ainda assim, Rui Martins reconhece uma melhoria na articulação com as estruturas locais desde que o Visões Úteis é parceiro do Cultura em Expansão em Campanhã, que advém do conhecimento que Inês de Carvalho tem do território e do envolvimento que potencia.

As Cortes do Porto, de Rui Catalão – Cultura em Expansão 2020 ©Novo Acto – Associação de Artes Performativas

Seja em que moldes for, Rui Martins reconhece a dimensão do desafio: “Campanhã é muito bairrista, e as pessoas unem-se em torno disso […] No caso das rusgas, quando é para fazer as pessoas participam; se é algo que lhes saia daquilo já é mais difícil e têm de ser sensibilizadas.” Depois, vem a questão dos horários: se com a população estudantil é complicado trabalhar durante o dia, no caso dos seniores a disponibilidade diminui à noite. “Nós compreendemos a parte da programação mas para os grupos de teatro amador, que [funcionam] em função das disponibilidades, também é muito complicado”, remata Rui Martins.

Do Cerco ao Centro

Vamos Imaginar um Bairro de Luz. Era este o mote do concerto que o Balleteatro, escola de teatro e dança do Porto, levava ao encerramento da Feira do Livro, nos jardins do Palácio de Cristal, a 12 de setembro. O espetáculo era o culminar de uma residência artística desenvolvida para crianças dos 10 aos 17 anos do Bairro do Cerco e apoiada pela Domus Social. Do trabalho de escrita, canto, movimento e composição musical resultaram cinco temas originais e uma adaptação. No palco, as crianças invocam felicidade, magia, união, capacidade para se ser quem se quiser.

Para a segunda parte, a banda convidada é o Oupa! Cerco, um projeto musical também nascido de uma residência artística, desta feita inserida no Cultura em Expansão. Ao longo de quatro meses, em 2015, a rapper Capicua, acompanhada de uma equipa que incluiu DJ, psicólogos, realizadores e fotógrafos, orientou oficinas de escrita, produção musical, marketing digital, promoção e vídeo. Do trabalho nasceram oito temas, um CD e um concerto no Rivoli. O videoclipe de Do Cerco ao Centro assinala a jornada. Hoje, o centro é o Palácio de Cristal, e Pedro, Ricardinho e Joca levam o hip hop ao palco:

“Não é só um bairro, é respeito acima de tudo / Sem preconceito eu aceito quem vem conhecer este mundo / Às vezes nem tudo é como parece / E relatos nem sempre são reais sobre aquilo que acontece / Mas quem vem cá não esquece a pura realidade / E vamos levar o Cerco ao centro desta cidade.”

O preconceito pode ser base de criação artística mas nem por isso tem de ser limite. Joca, que em miúdo já sentiu a discriminação na pele num torneio interescolas, apenas por ter identificado a sua, acredita que a questão está na forma como se lida com esses rótulos, e até vai mais longe: “Esses estigmas só continuam tão presentes por nossa causa, pelos coitadinhos que se metem nesse papel. És do bairro, és do bairro, não és diferente de ninguém”, atira. Mesmo quando o preconceito surge de forma invertida, como Ricardinho já testemunhou: “Quando nos damos a conhecer, antes de dizermos de onde somos, depois não acreditam que a gente é do Cerco.”

Em 2015, Gisela Borges, psicóloga e coordenadora do projeto que viria a dar origem ao Oupa! Cerco, resumia ao Público os motivos da escolha deste território: ausência de um projeto de intervenção social e comunitária de grande amplitude e de iniciativas para jovens acima dos 20 anos, para além de uma identidade fragmentada. Para Joca, Pedro e Ricardinho, três dos quatro elementos que hoje compõem o Oupa! Cerco, não foi um despertar artístico, mas a reativação de algumas práticas: “Desde pequenitos começámos a rimar, depois acabámos por fazer um grupo antes da residência, e depois também abrandámos […], e a residência serviu para nos voltar a unir nessa parte musical”, explica Joca. Foi também a oportunidade de dar uma roupagem mais profissional ao que já vinham a fazer. “Nunca tínhamos ido a bons palcos, palcos com condições, e foi uma das coisas que [o projeto] nos proporcionou”, complementa Pedro.

Por outro lado, sendo um projeto coletivo feito para mostrar o bairro, não havia total liberdade de criação artística:

“O objetivo era mostrar o bairro à cidade. No fundo também não se pode dizer que foi um mau trabalho”, resume Pedro.

“Não estou a dizer que foi um mau trabalho. Foi de limitação, se calhar podíamos ter mostrado mais musicalmente de nós”, complementa Joca.

“Gostaríamos de ter feito músicas mais à nossa forma”, aquiesce Pedro.

No entanto, a metodologia de trabalho não retira importância ao resultado. Para Joca, foi uma “mudança tremenda”. “Toda a vivência dentro do projeto foi muito gratificante. Como é ires para um concerto, tudo o que tens de ter a nível de gestão, ires daqui para o Alentejo e quem te vai guiar, não teres de te preocupar com nada, só teres de cumprir horas, chegar. Nós estávamos completamente à parte desse mundo”, explica.

A 5 de julho de 2015, a residência terminava com o concerto do Rivoli, mas não era o fim do Oupa! Cerco. Os CD venderam-se, e o grupo foi convidado a atuar no Marés Vivas, o que aconteceria dali a poucos dias, a 16 de julho. O Oupa! tinha crescido para lá de Campanhã, para lá do Porto.

E depois? A equipa que acompanhou a residência comprometeu-se a desenvolver esforços para que o projeto não morresse ali. Hoje, a associação E. C. O. Cerco – Estudo Comunitário Oupa! Cerco, paredes meias com o estúdio onde a residência foi desenvolvida, é o lugar a partir do qual o grupo quer contribuir para uma nova dinâmica no bairro e na freguesia. Continuam a criar música e querem dinamizar projetos nessa área, embora esse caminho esteja a ser percorrido aos solavancos, primeiro porque o espaço cedido esteve fechado durante vários anos e precisou de intervenções, e depois porque não existem apoios que permitam uma dedicação plena à associação. Ainda assim, em 2019, o grupo levou ao Pavilhão de Nossa Senhora do Calvário outros artistas, com o I Festival Oupa ACampanh’Arte. Pedro resume assim os objetivos da associação: “O nosso primeiro fundamento é dar oportunidade aos miúdos e esperança de que possam conseguir alguma coisa, porque já tivemos bons jogadores [oriundos] do bairro, e temos o pessoal da ginástica [Gimnocerco] que se vai mostrar à televisão.” “Se formos ver, ali no Bairro do Cerco há para aí 10, 11 miúdos que curtem e mandam umas rimas e há outros tantos que dançam, e outros que querem jogar à bola e outros projetos”, acrescenta Joca.

Para Ricardinho, que desde miúdo tem contacto com a dança e o teatro, ter oportunidades mais concertadas para mostrar o que se faz na freguesia permitiria “mudar Campanhã”. E esta mudança passaria por transformar espaços, interiores, ao ar livre ou simplesmente abandonados, em zonas de fruição cultural. Em paralelo, para Ricardinho também é importante mostrar que o Oupa! pertence ao resto da cidade. “Se fizermos uma média, se calhar tivemos muitos mais convites fora de Campanhã do que dentro de Campanhã – então temos de nos reinventar. É Campanhã que está a precisar de acordar.”

“Galeria de arte em Campanhã? Vocês estão malucos...”

A Rua de Miraflor podia não estar adormecida, mas acordou definitivamente para uma nova realidade a partir de setembro de 2012, quando Manuela Matos Monteiro e João Lafuente decidiram que seria a casa das Galerias MIRA. A 200 metros do comboio, a pequena artéria é ilustrativa do passado de um território que, com a inauguração da estação, em 1877, haveria de consolidar o seu percurso industrial. Com a chegada dos operários, proliferaram as ilhas, habitações exíguas e insalubres construídas em fileira, habitualmente nas traseiras das casas burguesas, onde se albergava e ao mesmo tempo escondia a miséria dos que fugiam das privações do mundo rural para se depararem com as privações do mundo operário. Com a otimização do espaço levada ao limite, a área de habitação raramente ultrapassava os 16 metros quadrados, que tinham de ser suficientes para albergar famílias numerosas. As doenças proliferavam.

A melhoria das condições de vida levou a que muitas fossem progressivamente abandonadas, mas ainda subsistem no Porto 957 ilhas, a maior parte em Campanhã (243). Muitos moradores foram introduzindo melhorias ao longo do tempo, e há também quem tenha visto no lado pitoresco das ilhas um pretexto turístico, contribuindo para a pressão especulativa sobre a cidade.

Em Miraflor contam-se sete ilhas, memória viva desse passado cerzido de privações comparáveis, na dimensão, aos laços de solidariedade gerados. Conta-se também um conjunto de armazéns centenários que já albergaram vinho, cereais e redes de pesca, abandonados durante vários anos. Lá funciona ainda, desde 1998, uma unidade de apoio aos sem-abrigo da Associação dos Albergues Noturnos, onde no início do século XX houve um dormitório da CP.

O casal Manuela e João ainda não sabia onde instalar o seu projeto fotográfico quando a ideia de Campanhã lhe foi soprada. Na verdade, os telhados dos armazéns já eram familiares a João, cuja infância foi vivida nas imediações. Também para Manuela a zona não era nova, já que o pai tivera uma fábrica na Rua do Freixo, um pouco mais abaixo, e os percursos escolares se haviam desenrolado por ali. “A decisão foi na hora”, conta Manuela. Com viagem marcada dali a dois dias, não quiseram partir sem antes assinar o contrato-promessa.

Dois dos armazéns deram lugar ao MIRA Fórum, dedicado sobretudo à fotografia, com Manuela e João na direção artística, e o terceiro, o Espaço MIRA, direcionou-se para a arte contemporânea, sob a direção artística de José Maia. Entretanto, Manuela e João decidiram consolidar de vez a ligação à rua com a compra de um quarto armazém, que lhes servirá brevemente de morada.

Não se identificam como galeristas, mas como ativistas sociais, o que implica integrar o território. Aquele território. “Considerámos que estar aqui era estar neste tecido social, não era estar noutro tecido social, e começámos a considerar que era importante que em Campanhã as pessoas não viessem só para a estação”, explica Manuela. Descolar a freguesia dos rótulos entranhados de pobreza e exclusão social começou com um gesto simples: incluir sempre a palavra Campanhã no endereço postal, ainda que não fosse necessário. E continuou com uma agenda cheia e variada: “Nós fazemos uma exposição por mês. Isto é uma loucura, e temos aqui às vezes três e quatro exposições, fora os debates, os concertos, as tertúlias.” Até junho de 2021, as galerias MIRA contabilizavam 187 exposições, 133 conversas e debates, 96 performances, 69 lançamentos de livros, 56 concertos, 35 residências artísticas, 25 sessões de poesia e 15 workshops, que variaram entre a fotografia e a escrita. A produção própria não é um exclusivo – o espaço também é cedido a organizações cívicas que partilhem valores e objetivos sociais.

Apesar de vasta, esta programação não nasceu de um planeamento exaustivo, mas dá resposta aos estímulos que o meio vai oferecendo. No MIRA não há um programa, há uma porta aberta a projetos capazes de promover a inclusão e respeitar valores humanos. Uma disponibilidade que, como não podia deixar de ser para quem quer integrar o tecido social, se estende à rua. “Lentamente as pessoas foram-se aproximando, foram dando opiniões, foram espreitando, e neste momento nós fazemos parte integrante da rua”, descreve Manuela. “Há um erro muito grande, até de pessoas muito bem-intencionadas, que chegam a um sítio e querem começar logo a fazer coisas, e nós consideramos isso uma falta de respeito por quem está lá. Nós ao virmos para aqui temos é de ser aceites pelos nossos vizinhos e pela rua, não aceitá-los a eles. Nós é que viemos de fora.” E a aceitação começou logo no primeiro momento. Os vizinhos animaram-se com a reabilitação dos armazéns há tanto tempo abandonados, foram-se aproximando, metendo conversa e até alertando para uma escolha geográfica supostamente desmotivadora. Agora vêm buscar hortelã, devolvem outras plantas, e de caminho detêm-se com a exposição corrente, sem que nada disso tivesse sido imposto: “Nós não estamos aqui para educar: estamos aqui para viver em conjunto”, resume Manuela.

Do estreitar de relações haveria de nascer outro projeto: o Mapa Emocional de Miraflor, fundado nas memórias, anseios e desejos de quem ali habita. Entre 2018 e 2021, recolheram-se testemunhos de quem fez vida inteira em Miraflor, de quem só há pouco se mudou ou de quem faça do trabalho mais casa do que a própria casa, como Rosa Meireles, que instalou o seu restaurante, a Adega Viela, na Travessa de Miraflor, ali ao lado. A abertura de portas aconteceu ainda antes da chegada de Manuela e João e dos laços que entre eles se haveriam de criar a partir do espaço onde Rosa acolhe “desde o pé descalço até ao senhor de fato e de gravata e aprumadinho”, como conta no seu testemunho.

O Mapa Emocional de Miraflor é uma coprodução MIRA Fórum/Cultura em Expansão, e começou por materializar-se numa plataforma online, com excertos dos testemunhos divididos em três momentos: o Dantes, o Agora e o Porvir. Mais tarde, os testemunhos seriam passados ao papel. As versões integrais estão guardadas, e esse acervo poderá servir propósitos de investigação, como explica Manuela: “Transcrevemos as entrevistas todas, para que investigadores mais adiante as possam usar para trabalhar. Pode ser as questões da linguagem, as questões da memória, as questões da voz. Independentemente do porvir, o agora já dá sentido ao projeto: “As pessoas sentiam-se orgulhosas do seu passado, orgulhosas da rua”, sublinha Manuela, até porque havia quem a achasse “uma porcaria”. A rua e tudo o que a circundava. “Galeria de arte em Campanhã? Vocês estão malucos, aquilo é um buraco, ninguém vai lá!”, chegou a ouvir. Oito anos volvidos, quando Manuela foi entregar um exemplar do Mapa Emocional a um dos vizinhos, ficou a saber que alguém lhe perguntara onde vivia:

“Em Miraflor.”

“Na rua das Galerias?!”

“Mas eu não tenho categoria para viver na rua das Galerias?”

“Fazer com que a arte não seja uma coisa só para alguns”

Tal como Manuela, também João Melo não tinha um programa definido quando, em 2019, decidiu, com os companheiros de casa, na Rua de São Roque da Lameira, a 400 metros da Junta de Freguesia, fazer uma exposição. Depois de estudar pintura na Faculdade de Belas Artes, sentiu falta de uma ligação direta entre o universo académico e o mercado de trabalho. Foi então que surgiu a ideia de abrir as portas da casa e do amplo jardim que partilha com outras pessoas – algumas delas também artistas – e fazer uma exposição. Reuniu nove artistas do Porto que já conhecia ou cujo trabalho seguia através do Instagram, e juntou concertos ao cardápio. “Correu muito bem porque estava a chover mas apareceram para aí 150 pessoas”, recorda. Nascia o espaço Lameiro.

Entretanto, João continuava a pensar no rumo a dar ao seu trabalho, e naquilo que era importante fazer. “Pensei num projeto que pudesse atuar diretamente na cidade e que pudesse ter simultaneamente uma componente artística e uma componente social.” Foi o primeiro passo para a estruturação do RESIDIR, um programa de residências artísticas que resultou de uma candidatura de João Melo ao Orçamento Colaborativo do Bonfim e Campanhã – aprovada em ambas as freguesias. A ideia é pôr um conjunto de jovens artistas a trabalhar, com moradores, associações e espaços, a noção de sustentabilidade na sua aceção cultural e humana, proporcionando um encontro intergeracional e intercultural. “Nem sequer pedimos na Open Call propostas muito fechadas, porque queríamos que o contacto com os territórios e as pessoas pudesse gerar as propostas”, explica João. Foi o caso de Bruno Lisboa, que desenvolveu uma oficina de pintura experimental com um grupo de crianças do Centro Social de Soutelo, em Campanhã. O resultado seria sempre o que as crianças produzissem, pelo que a proposta nunca poderia ser muito fechada.

O projeto culminou na exposição Curva – RESIDIR, que, entre 9 e 23 de outubro, mostrou o trabalho desenvolvido por estes artistas no CACE Cultural. Deveria ter sido ao ar livre, mas as limitações impostas pela Direção-Geral de Saúde no contexto da pandemia não o permitiram.

Exposição Curva – RESIDIR ©João Melo

Flora Paim foi uma das participantes, e escolheu dar destaque ao antigo Bairro de São Vicente de Paulo. A artista centrou-se nas ideias de lugar, vazio, memória, resistência e destruição. O seu trabalho parte de conversas com duas gerações de antigos moradores do bairro e da recolha de arquivos que culminariam numa videoinstalação. Nos pequenos ecrãs de televisores antigos sucedem-se imagens da construção do bairro, vídeos de momentos festivos, fotografias da vida no bairro e, por fim, a demolição. Ligados às três televisões estão auscultadores através dos quais se podem ouvir as memórias de moradoras sobre as brincadeiras na rua e as relações de vizinhança que ruíram com o bairro. “Isto foi a mesma coisa que pegar numa bomba e meter aqui”, ou “Tanta pressa para deitar o bairro abaixo e isto está ao abandono há 15 anos”, ou ainda “Destruíram uma comunidade”.

À época, já José António Pinto estava na Junta de Freguesia de Campanhã. Recorda a justificação dada por Rui Rio, logo no seu primeiro mandato na Câmara do Porto, para a decisão: os problemas estruturais do bairro, herdados da incúria dos antecessores. O segundo mandato e a maioria absoluta colocariam uma pedra no antigo São Vicente de Paulo. Já em março deste ano, o executivo maioritário de Rui Moreira faria aprovar uma proposta que prevê a contratação de privados para a construção de 232 fogos naquele terreno, 116 para arrendamento acessível e outros 116 para o mercado livre. Poucos dias depois, a ‘comunidade destruída’ reunia-se no antigo bairro para contestar o projeto e exigir regresso compatível com os seus rendimentos, até porque a renda não é assim tão acessível: os dados do segundo concurso para arrendamento e subarrendamento a rendas acessíveis, publicados no site da Porto Vivo, SRU, mostram, para um T2 em São Roque da Lameira (a alguns metros dali e sem vistas desafogadas), valores entre os 437,5 e os 625 euros. “Os pobres não têm direito a ver o rio”, resume José António Pinto.

Legenda: Exposição Curva – RESIDIR. Ao fundo, à direita, videoinstalação de Flora Paim ©João Melo

Nesta altura, o Lameiro está fechado ao público, e abrirá quando tiver programação definida. Essa programação deverá ser regular e absorver um pouco do RESIDIR, que poderá vir a ter outras edições com outras características, ainda que certas linhas condutoras prevaleçam: manter a lógica do trabalho com a população através da linguagem das artes plásticas, e expor preferencialmente em espaços abandonados, com significado para as pessoas, como é o caso do antigo bairro de São Vicente de Paulo. Com isto, pretende-se “pôr pessoas diferentes a comunicar umas com as outras, e fazer com que a arte não seja uma coisa que está sempre fechada em galerias e museus mas que possa estar aberta e que possa também ser contaminada por aquilo que é a experiência do dia-a-dia”, diz João.

Além de “fazer com que a arte não seja só para alguns”, no Lameiro também se procura descontração na forma de apreciar, criando a possibilidade de circular entre concertos e exposições que decorrem em simultâneo e gerar conversas informais à volta disso. Pretende-se contrariar o establishment com o acolhimento de artistas emergentes, abrindo caminho a propostas inovadoras e contrariando a lógica do espaço convencional que só aceita artistas estabelecidos.

Uma orquestra onde cabe o mundo inteiro

Não é preciso ser músico estabelecido, nem músico sequer, para fazer parte da Orquestra Comunitária Mundo em Campanhã. E também não é preciso ser de Campanhã. É o caso de Manuel Nogueira, que todos os sábados pedala desde o lado mais ocidental da cidade, onde vive, até à ponta mais oriental, onde vem ensaiar. Frequentador, desde miúdo, do museu às portas de casa, foi no Serralves em Festa que deu com a orquestra.

O almoço vai entrando pela tarde daquele sábado, 11 de setembro, na Associação Movimento Terra Solta, recentemente instalada nos terrenos do Centro Juvenil de Campanhã. Depois de 10 anos na Quinta de Vila Meã, o projeto do futuro Terminal Intermodal de Campanhã obrigou o movimento que trabalha a proximidade à terra a deixar o espaço cedido pela Junta de Freguesia, casa de vários projetos da Terra Solta, como foi o caso do T(r)ocas e Transformas, concebido para incentivar a autonomia através da criação de meios de subsistência. O projeto incluiu uma oficina de construção de instrumentos musicais a partir da reutilização de materiais como madeira e plástico. Feitos os instrumentos, começaram a ensaiar-se os primeiros acordes e o grupo percebeu que a ideia não podia morrer. Há quem chegue à Terra Solta para trabalhar a terra e fique para a orquestra, há quem faça o inverso.

O ensaio está prestes a começar. Afinam-se guitarras, ensaiam-se agudos e graves e prepara-se o alinhamento da tarde. Há lugar para a Moda do Entrudo, os Bravos, mas também para Bella Ciao, ou não fosse esta orquestra do mundo. No repertório habitualmente ensaiado também há sons do Brasil e do Chile, mas a base é a música tradicional portuguesa. Ricardo Ferreira, orientador/facilitador da orquestra (recusa o epíteto de maestro e o compasso rigoroso que o termo acarreta), explica ser este o caminho mais direto para a inclusão: todos estão familiarizados. Depois, passa-se às duas dimensões musicais que, segundo Ricardo Ferreira, são mais naturais em toda a gente – cantar e tocar percussão.

Durante o ensaio há espaço para improvisar e para decidir registos coletivamente. O objetivo não é formar músicos mas ter momentos de partilha musical, em que cada um assume compromissos com o grupo mediante a sua vontade, ainda que haja um núcleo de oito a nove pessoas com presença mais regular, capaz de assegurar compromissos como o de Serralves ou outros momentos musicais em que o grupo vem participando, surgidos por vezes do passa-palavra e de convites informais. Nos concertos, o mundo da orquestra volta a alargar-se e, sempre que possível, distribuem-se letras e instrumentos pela assistência.

Ensaio da Orquestra Comunitária Mundo em Campanhã ©Cátia Vilaça

Até ao final do ano, o trabalho vai intensificar-se. O grupo participa numa residência artística criada pelo coletivo Ondamarela para o encerramento do Cultura em Expansão. A 18 de dezembro, a orquestra divide o palco com participantes da Bouça, de Miragaia e da Pasteleira. A-JUN-TA-MEN-TO é o nome da proposta. Interação e partilha, os caminhos até lá chegar.

Da comunidade à vizinhança

Para lá dos terrenos do Centro Juvenil de Campanhã, pouco Porto parece sobrar. Mas é já depois da Circunvalação, e na fronteira com Gondomar, que fica Azevedo. Com exceção dos blocos do Lagarteiro, poucos prédios se veem neste extremo oriental da freguesia. Ainda se toma tempo para conversar na rua. Ainda há silêncio. Ainda se ouve o galo, o trator. Ainda se planta e colhe o que a terra dá. Ainda há árvores (muitas). Ainda faltam condições de habitabilidade e sobra pobreza (muita). Ainda é Porto.

Apesar de ter sede no Bonfim, foi este o lugar que a PELE escolheu para segunda casa, mais concretamente uma antiga adega que o coletivo está a transformar num centro cultural de base comunitária. Desde 2007 a desenvolver projetos de criação artística enquanto espaços de reflexão e participação cívica, foi logo em 2008 que a relação com a zona mais oriental da cidade começou a consolidar-se. Fernando Almeida, da direção artística, explica esta opção ao Gerador a partir de uma vontade de procurar lugares onde haja “outro tipo de experiência física com o território” e um desgaste perante a velocidade imposta pela cidade. Um espaço onde se pudesse respirar e criar relações de vizinhança mais sólidas e capazes de potenciar trocas de saberes, até porque na prática da PELE não cabem apenas as artes performativas, plásticas ou visuais, mas um conjunto de saberes que passa também pela gastronomia ou pela botânica, e que se interrelaciona. Por isso, esta vizinhança não é apenas destinatário de um processo de criação, mas parte integrante. Do processo de diálogo e escuta da população nasceu o programa de criação artística regenerativa azevedo, cujo arranque, pensado para 2020, foi sendo empurrado para este ano por conta da pandemia, e que assenta em quatro eixos. Um deles é o Lugar-Comum, ou seja, a transformação da adega em centro cultural: “Éum processo que vai ser de continuidade e que se vai estabelecendo cada vez de uma forma mais intrínseca na relação de diálogo com os vizinhos no sentido de eles próprios pensarem o que querem, como querem, quem querem”, explica Fernando. Rodrigo Malvar, que partilha com Fernando a direção artística, salienta a dimensão alargada deste cunho cultural, onde cabe a arte da cozinha, da partilha de tempo e de conversas, onde se faz um lanche, onde se mostram álbuns de fotografias ou onde se descansa à sombra. “A ideia é realmente irmos criando relações com o tempo que elas merecem. Conhecer as pessoas, não obrigá-las a participar. Não é essa a nossa função nem é isso que as pessoas esperam”, contextualiza Fernando. Por isso, quando se organiza um concerto e um dos vizinhos sai ao cabo de duas músicas para retomar a novela, isso não é um problema nem quebra qualquer convenção: “Ele veio cá, abdicou do seu tempo para vir cá”, sublinha Rodrigo.

Outro eixo é o Satélite, assente em três estruturas móveis: uma cozinha, uma oficina e um espaço expositivo, que extravasam as fronteiras da adega e até do lugar de Azevedo para criar oficinas e espaços de programação e de fruição, num movimento pendular de informação.

Noutro domínio de mobilidade, e numa parceria com a STCP, o Centro Cultural Móvel apropria-se da linha de autocarro 400, que liga Azevedo ao centro do Porto, para a transformar num espaço de performance e prática musical. Foi criado um grupo de estudos com a colaboração de três jovens criadores que idealizaramum ciclo performativo a partir das especificidades do autocarro e das pessoas que o habitam, e uma parceria com a Lovers&Lollypops, que dinamiza um ciclo musical. Esses momentos performativos vão sendo divulgados, ainda que a prioridade não passe por atrair públicos externos mas trabalhar com quem habita aquele espaço e perceber o retorno das ações.

O último eixo será o Parlamento Expandido, com início adiado para o próximo ano, em favor do amadurecimento de relações. Vai passar pela criação de um espaço assembleário num território atualmente abandonado de Azevedo, onde as pessoas podem juntar-se e discutir as potencialidades do espaço que habitam. Haverá uma horta urbana e espaços de convívio e reunião.

Para Fernando e Rodrigo, o trabalho em comunidade não se rege por fórmulas. Antes de mais, impõe-se a necessidade de reconhecer a existência de várias comunidades dentro de uma comunidade – sejam humanas ou de outras espécies, sejam habitantes do território ou forasteiras. A aproximação e a procura de porosidades entre todas essas comunidades tem resultado, para a PELE, numa paulatina substituição desse conceito pelo de vizinhança. E entre vizinhos tanto se troca dois dedos de conversa, como se troca livros, como se procuram as melhores plantas aromáticas para incluir num espetáculo / instalação. “Para mim, sentar-me com uma pessoa a falar também é trabalho”, exemplifica Rodrigo. Estás a produzir troca de conhecimento, se calhar não de valor monetário mas estás a produzir.”

Esta troca demorada não é isenta de desafios, já que os modelos de financiamento e parceria a que as atividades estão sujeitas delimitam tempos de trabalho – os recursos são finitos e escassos – e, por arrasto, expectativas.

Por outro lado, e ainda que paradoxalmente, há “uma quase obrigatoriedade invisível de se desenvolver projetos participativos, comunitários e relacionais”, descreve Fernando, ou seja, as entidades financiadoras privilegiam projetos com essa dimensão, o que leva as estruturas a correr atrás dessa abordagem, ainda que não necessariamente alinhadas com tais práticas – uma opção que Fernando compreende, à luz da necessidade de sobreviver. Essa necessidade, aliada aos imperativos do calendário e a um território com as características de Campanhã, resulta em vários projetos a funcionar em simultâneo. “Isto faz com que as pessoas comecem a transparecer algum cansaço”, nota Fernando, em relação a quem vai aparecendo para pedir coisas, enquanto nas suas vidas tudo continua na mesma: continua a chover em casa ou a faltar dinheiro para a renda ou para o passe.

O caminho para alterar este equilíbrio de relações não é linear, mas para o artista plástico é “urgente articular projetos no sentido de eles poderem ser diversificados relativamente à resposta”.

Apesar destes constrangimentos, Fernando encontra acolhimento aos projetos, desde que as pessoas não sejam pressionadas. “Não somos nós que temos de definir quais são os tempos das pessoas na resposta ao nosso programa, porque senão levanta-se a questão de quem serve quem, quem é que trabalha com quem”, sublinha.

E quando esse tempo é concedido, o resultado é bom para todos, como resume Rodrigo: “Quando tu ouves uma pessoa a dizer ‘Ah, já fazíamos outra vez aqui um lanchinho...’, isso quer dizer que independentemente da ação, houve um tempo em que as pessoas estiveram juntas e soube-lhes bem ter esse encontro, e quando isso acontece querem repetir. Então aí estamos a começar a pensar numa agenda.”

O futuro de Campanhã escreve-se com vários pontos de interrogação. Para já, e pelas contas preliminares dos Censos, sabe-se que Campanhã perdeu 9,1 por cento de população entre 2011 e 2021. Fixar pessoas depende, para José António Pinto, da tríade habitação – emprego – transportes, e das opções que o Governo central assumir para a fomentar.

Ainda é cedo para antecipar o impacto que a requalificação do matadouro industrial irá provocar. Na área a explorar pelo município, deverão nascer valências culturais e de dinamização social, paredes meias com o espaço empresarial explorado pela Mota-Engil, responsável pela obra. Ali ao lado, o novo Terminal Intermodal de Campanhã promete revolucionar a mobilidade e trazer uma nova centralidade à zona oriental da cidade, que a partir de 2025 será servida por mais uma ponte. Quem vier poderá ainda desfrutar de uma requalificada Praça da Corujeira. Parece certo que, dentro em breve, não se virá a Campanhã apenas para apanhar o comboio. Já a articulação entre novos e atuais projetos, escalas de intervenção nacionais, metropolitanas, municipais ou de vizinhança é, por ora, uma incógnita, tal como o impacto que tudo isto trará à vida dos campanhenses.

Trinta e um de outubro. A chuva não largou o Porto, mas o desejo de Carlos Marques cumpriu-se. Desta vez, poucas cadeiras sobraram no Pavilhão de Nossa Senhora do Calvário. A rigidez também começa a cair: ainda não é uma roda, mas as cadeiras dispõem-se em semicírculo e os contadores abandonam a altivez do palco para descerem ao nível da plateia. Talvez por isso, o gelo começa a quebrar-se logo aos primeiros minutos. Para a sessão de inverno, marcada para 28 de novembro, Carlos quer uma roda a sério, a aconchegar as agruras da estação fria. Mas isso, para já, ainda é um ponto de interrogação.

Texto de Cátia Vilaça
Fotografia de destaque de Renato Cruz Santos / Cultura em Expansão
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