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Cancro: nova era da medicina, novas esperanças

Há cerca de 2700 anos, Imhotep, sacerdote do Egito Antigo, apontava no seu papiro todas as doenças que proliferavam pela região. Entre os vários problemas, para quem entende hierático, é possível ler o seguinte: “massas salientes no peito, que se espalham”. Este seria o primeiro caso de cancro registado. A doença, porém, é mais velha que isso: há marcas de tumores malignos em ossos de parentes próximos do ser humano com mais de 1.5 milhões de anos. Como é que uma doença que nos prejudica desde os primórdios da humanidade ainda não tem uma cura?

Fonte: USC Viterbi

O corpo humano é composto por células, que nascem e morrem constantemente para assim o manter saudável. Eventualmente, este processo não corre como planeado e algumas células sofrem mutações, que prejudicam o crescimento, divisão e morte celular. Quando há um conjunto de células que cresce descontroladamente e adia a sua morte, surge um tumor, por vezes maligno, mais conhecido como cancro. Se considerarmos os vasos sanguíneos que se formam à sua volta, o seu aspeto assemelha-se a um caranguejo. Aliás, é daí que vem a palavra do grego Karkinos, ou, em português, caranguejo. Assim como estes crustáceos, não existe apenas uma “espécie” de cancro. São mais de 200 tipos.

Tratamentos atuais e artimanhas do Cancro

Atualmente, quando um paciente é diagnosticado com cancro, é comum haver uma primeira cirurgia de retirada do tumor e um pós-tratamento de radiação e quimioterapia para combater possíveis células cancerosas que ainda vivam no corpo. Isto se estivermos a falar do cancro num estágio inicial. Existem outras terapêuticas que costumam ser igualmente efetivas, mas todas se cruzam num ponto: não há nenhuma que seja 100% eficaz, 100% das vezes.

O cancro é um ecossistema dinâmico interconectado, complexo demais para ser entendido na perfeição em pequenas amostras, fora do seu ambiente natural. É comum que descobertas e vitórias dentro das placas de Petri se traduzam num falhanço quando testadas dentro do corpo humano.

As células cancerosas têm algumas peculiaridades: comunicam constantemente umas com as outras e com células saudáveis que estejam por perto; podem levar células normais a serem “hospedeiras de sangue” que alimenta o tumor; interagem com o sistema imunitário para que ele suprima as suas funções, fazendo com que este não as identifique e impossibilitando a sua destruição.

Avanços medicinais em casos específicos

A dificuldade de “curar “ o cancro aumenta quando há formação de metástases, ou seja, quando algumas das células cancerígenas se deslocam do tumor para outra parte do corpo.

Em maio deste ano, a investigadora Ana Sofia Ribeiro, líder de um projeto do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto, cujo foco era encontrar marcadores biológicos do cancro da mama que prevenissem o aparecimento de metástases, descobriu uma proteína que pode prever a proliferação do cancro da mama para o cérebro: a VGF (Nerve Growth Factor Inducible Gene – Gene do factor de crescimento nervoso). Esta seria uma “molécula de comunicação” entre o tumor e o cérebro, e serviria como sinalizadora das metástases do cancro da mama para esse órgão. Isto ajudaria a controlar melhor a progressão da doença noutros órgãos suscetíveis à criação de metástases.

Num estágio mais avançado, no caso de as metástases do cancro da mama  já se encontrarem alojadas noutras partes do corpo, parece já haver uma solução. Cientistas da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, conseguiram eliminar estas células em ratos de laboratório, usando uma nova técnica que se resume a fragilizar e atacar o tumor, quase como uma tática bélica. A ideia consiste em bloquear a molécula p38MAPK, reduzindo o tamanho do tumor e tornando-o visível e vulnerável. Em segundo lugar, ativar-se-iam os linfócitos T, células do sistema imunitário com capacidade de descobrir e destruir células cancerosas. No fundo, a premissa é acordar o sistema imunitário do seu sono profundo, anestesiado temporariamente, e fazer com que seja ele próprio a combater o cancro. Durante o estudo, concluiu-se ainda que o sistema imunitário aprende e “recorda-se” do tratamento, ou seja, se um novo tumor surgir, ele voltará a atacá-lo.

AOH1996 – O medicamento revolucionário

Em agosto de 2023, pesquisadores do instituto City of Hope, nos Estado Unidos, desenvolveram um medicamento que pode mudar o rumo dos avanços medicinais do cancro. Quando estamos doentes, é comum que o médico nos receite um comprimido e nos dirijamos à farmácia mais próxima para o comprar e tomar. Até há um mês, o cancro era uma das doenças que não encaixavam na frase acima. Agora, esse cenário já não parece ser exclusivo de um livro de ficção científica futurístico.

O medicamento AOH1996 leva o nome de Anna Olivia Healey e traz uma nova esperança ao futuro da medicina moderna. Em memória da sua filha, os pais de Anna ofereceram o dinheiro que lhes foi doado para os tratamentos da filha à instituição em causa, para ajudar na pesquisa de uma cura. O AOH1996 consegue matar células cancerígenas sem danificar células saudáveis, algo impossível até então. Ele também bloqueia a proteína que permite que o cancro cresça e se autorrepare, a PCNA. Esta proteína está presente em todas as células, mas o medicamento parece distinguir a CaPCNA (variação da proteína quando pertence a células cancerígenas) da PCNA. Até agora só foi testada em ratos e cães, e mostrou resultados positivos para mais de 70 tipos de cancro. Resta esperar pelos resultados da fase 1: os testes em seres humanos.

A verdadeira cura para o cancro

O cancro está em constante evolução e adapta-se facilmente a um novo ambiente, então não basta apenas encontrar uma cura milagrosa, mas sim tratamentos experimentais que se adequem igualmente à sua complexidade e se ajustem às mudanças. Até lá, cientistas da Tzar Labs, em Singapura, decidiram ir por outro caminho e acabaram por descobrir aquilo que parece ser “a verdadeira cura.”

Todas as formas de cancro têm um tipo de células em comum: as células estaminais cancerígenas. Costumam ser resistentes à quimioterapia e à radiação e são capazes de fazer crescer um tumor, mesmo que ele já pareça apagado, à luz dos tratamentos. Até então, as abordagens científicas centravam-se apenas e só em células tumorais, e não nas estaminais. Este virar de foco permitiu com que os cientistas, através de análises sanguíneas, previssem com um ano de antecedência a formação de tumores.

Células estaminais | Fundação Calouste Gulbenkian

Num ensaio com 1000 pessoas, 500 delas pacientes sem cancro, foi possível detetar com precisão quais os tipos de cancro e onde se formariam no corpo humano. Segundo a equipa não houve falsos negativos nem positivos, e foi descoberto que alguns dos pacientes do grupo saudável tinham de facto uma predisposição para o cancro. Conseguiram antecipar com precisão mais de 25 tipos de cancro, entre os quais os mais mortais e comuns: cancro da mama, pâncreas, pulmonar e colorretal. O tratamento está agora a ser testado em hospitais de Londres para obter uma amostra maior.

Assim como os caranguejos, o cancro aparenta ser resistente, não por ter uma carapaça, como o seu “amigo etimológico”, mas por ser persistente e incontrolável. Ataca o ser humano com as suas “pinças” em forma de vasos sanguíneos e desloca-se silenciosamente, de maneira diferente dos outros, conquistando o território do corpo humano. Complexo e ardiloso. Apanhá-lo não é uma tarefa simples, e há que antecipar os seus passos. Esta parece ser a verdadeira cura para o cancro: prevenção e antecipação.

*Esta reportagem foi escrita por Bruno Filipe Silva, no âmbito da parceria com a ESCS Magazine.

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